A Guerra de Éterion: CAPÍTULO 2 - A Primeira Corrida
O silêncio que tomou conta do sistema de Éterion durou apenas alguns segundos, mas pareceu uma eternidade.
As enormes frotas Solaris e Noxianas permaneciam suspensas sobre o planeta como criaturas petrificadas. Motores falhando. Sistemas mortos. Canhões inutilizados. As luzes internas das embarcações piscavam sem controle enquanto alarmes ecoavam por corredores intermináveis.
Na ponte da Argo-7, ninguém conseguia falar.
Elias ainda encarava o vazio.
A voz permanecia dentro de sua mente como um eco distante.
"Vocês chegaram tarde."
Então tudo voltou de uma vez.
Os sistemas reacenderam violentamente. Motores rugiram. Sensores explodiram em dados impossíveis. As telas foram inundadas por sinais de energia vindos do planeta.
E junto com o retorno da energia vieram os disparos.
A batalha recomeçou imediatamente.
Feixes de plasma cruzaram a nebulosa enquanto destróieres Noxianos mergulhavam contra a linha defensiva Solaris. Uma fragata dourada explodiu perto da Argo-7, espalhando destroços em chamas pelo espaço.
Darius segurou a cadeira de comando para não cair.
— Ativem motores agora! Retirada imediata!
A nave científica girou violentamente enquanto tentava escapar da zona de combate.
Elias mal conseguia respirar.
As pulsações de Éterion continuavam afetando sua mente. Era como se o planeta estivesse vivo, observando cada movimento acima dele.
Nos corredores da Argo-7, soldados corriam para posições defensivas. Equipes médicas atendiam feridos. Partes do casco ainda queimavam após o impacto anterior.
Na ponte principal da Sétima Frota Solaris, o almirante Cassian Holt observava a guerra se espalhar pelo sistema.
Cassian era conhecido como um dos estrategistas mais brutais do império. Alto, cabelos grisalhos curtos e rosto marcado por décadas de campanhas militares, ele raramente demonstrava emoção.
Mas naquele momento havia preocupação genuína em seus olhos.
— Relatório.
Uma oficial respondeu rapidamente:
— Perdemos três cruzadores no primeiro ataque. Interferência energética continua vindo da superfície do planeta. Nossos sensores não conseguem mapear Éterion corretamente.
Cassian apertou os punhos.
— E os Noxianos?
— Estão avançando para órbita baixa.
O almirante observou as telas.
As naves negras inimigas atravessavam os destroços em direção ao planeta.
— Eles querem desembarque rápido — murmurou.
Um operador aproximou-se.
— Senhor, transmissão prioritária de Solaris Prime.
A imagem do Alto Chanceler Lucien Veyron surgiu diante da ponte.
— Almirante.
— Excelência.
Lucien manteve expressão fria.
— O Conselho Imperial autorizou ocupação total de Éterion. Não importa o custo.
Cassian hesitou.
— Ainda não compreendemos o que existe naquele planeta.
— Justamente por isso não podemos permitir que os Noxianos cheguem primeiro.
Lucien deu alguns passos lentos.
— Uma capitã foi escolhida para liderar a operação terrestre.
A imagem mudou.
Uma mulher apareceu no holograma.
Cabelos negros presos para trás. Uniforme azul-escuro de comandante. Um olhar firme que parecia avaliar tudo ao redor constantemente.
Capitã Lyra Seraphis.
Cassian a reconheceu imediatamente.
— A comandante da Legião Astra?
— Sim — respondeu Lucien. — Ela assume o controle da conquista de Éterion.
Lyra falou pela primeira vez:
— Já estou a caminho da frota.
Sua voz era calma demais para alguém entrando numa guerra interplanetária.
Cassian cruzou os braços.
— Você sabe o que enfrentaremos lá embaixo?
— Não.
— Então por que parece tão tranquila?
Lyra sustentou o olhar do almirante.
— Porque os Noxianos também não sabem.
A transmissão terminou.
Cassian observou o espaço em silêncio.
Do outro lado do campo de batalha, o Império Noxiano também se preparava para invasão.
Dentro do encouraçado Arauto da Ruína, o Lorde-Comandante Kaelor assistia aos relatórios surgirem em enormes painéis vermelhos.
— Interferência energética continua instável — informou uma analista. — Mas conseguimos localizar possíveis zonas de pouso.
Kaelor virou-se lentamente.
— Chamem o general Kael.
As portas metálicas se abriram imediatamente.
O homem que entrou parecia uma arma viva.
General Kael Varros tinha mais de dois metros de altura, armadura negra reforçada e cicatrizes profundas atravessando o rosto. Diferente da maioria dos oficiais Noxianos, ele não possuía implantes visíveis.
Diziam que não precisava deles.
Durante vinte anos, Kael liderara campanhas que destruíram sistemas inteiros. Colônias rebeldes costumavam se render apenas ao ouvir seu nome.
Ele parou diante de Kaelor.
— Comandante.
Kaelor apontou para o holograma de Éterion.
— Quero o planeta tomado antes que Solaris organize defesa completa.
Kael observou os dados energéticos.
— O que exatamente estamos procurando?
Kaelor aproximou-se.
— Algo que pode transformar homens em deuses.
O general ficou em silêncio.
— Interessante.
— Você liderará o primeiro exército de invasão.
— Quantos soldados?
— Todos os necessários.
Kael sorriu discretamente.
— Então será uma guerra de verdade.
Enquanto os impérios se preparavam para ocupar Éterion, informações sobre o planeta começavam a escapar pelos cantos ilegais da galáxia.
Mercadores clandestinos ouviam rumores sobre um minério milagroso.
Hackers vendiam fragmentos de transmissões interceptadas.
Espiões desapareciam tentando obter coordenadas da nebulosa.
E nos limites esquecidos da Orla Exterior, um grupo de piratas espaciais recebeu uma oportunidade única.
A nave corsária Vantor atravessava um cinturão de destroços quando a capitã Selene Vark entrou na sala de comando.
Ela tinha cabelos prateados curtos, várias tatuagens luminosas no pescoço e um sorriso que raramente significava algo bom.
— Encontraram algo?
Um técnico girou a cadeira rapidamente.
— Talvez.
O holograma de Éterion surgiu.
Selene aproximou-se imediatamente.
— O que é isso?
— Dados roubados de canais militares Solaris. Um planeta escondido numa nebulosa.
— E por que isso importa?
O técnico hesitou.
— Porque duas superpotências acabaram de iniciar uma guerra por causa dele.
O sorriso da pirata desapareceu.
— Amplie os dados.
As leituras energéticas apareceram na tela.
Selene franziu a testa.
— Nóvium...
Ela conhecia o nome.
Todo criminoso da galáxia conhecia.
Durante décadas surgiram rumores sobre pequenas quantidades da substância sendo vendidas no mercado negro por valores absurdos. Diziam que o minério podia alimentar cidades inteiras durante anos.
Mas aquilo...
Aquilo era outra coisa.
— Quanto vale essa informação? — perguntou ela.
O técnico soltou uma risada nervosa.
— Mais do que qualquer coisa que já roubamos.
Selene permaneceu em silêncio por alguns segundos.
Então apontou para a projeção.
— Quero todas as coordenadas disponíveis. E preparem salto imediato.
— Vai vender os dados?
Ela sorriu novamente.
— Não. Vamos roubar o planeta inteiro.
Muito longe dali, em uma estação comercial abandonada perto da fronteira neutra, outro grupo também observava Éterion.
Diferente dos piratas comuns, eles não usavam bandeiras conhecidas.
Nem símbolos.
Nem registros.
A pequena nave escura permanecia escondida entre cargueiros antigos enquanto figuras encapuzadas analisavam transmissões roubadas.
Uma mulher observava tudo em silêncio.
Seu nome era Mara Veyl.
Poucos sabiam quem ela realmente servia.
— Então finalmente encontraram — disse um homem ao lado dela.
Mara não respondeu imediatamente.
Seus olhos permaneciam fixos no holograma do planeta.
— Achei que fosse mito.
— E agora?
Ela cruzou os braços.
— Agora começa a corrida.
O homem hesitou.
— Devemos informar os superiores?
Mara finalmente desviou o olhar.
— Ainda não.
Ela aproximou os dedos da projeção luminosa de Éterion.
— Primeiro quero entender por que o Nóvium acordou.
Na Argo-7, Elias Renn continuava isolado.
Desde o contato com o minério, os efeitos pioravam rapidamente.
Objetos próximos tremiam quando suas emoções mudavam. Equipamentos eletrônicos falhavam ao seu redor. Em certos momentos, ele conseguia ouvir ruídos estranhos vindos do próprio casco da nave.
Como se sentisse vibrações invisíveis atravessando o metal.
Darius entrou novamente na sala médica.
— Precisamos conversar.
Elias ergueu os olhos cansados.
— Isso nunca termina?
— Não enquanto você continuar assustando toda a tripulação.
O pesquisador respirou fundo.
— Eu não estou fazendo isso de propósito.
Darius observou os exames holográficos ao lado da cama.
— Seus níveis energéticos continuam aumentando.
— Eu sei.
— Você sabe?
Elias hesitou.
— Consigo sentir.
As luzes do quarto piscaram.
Darius aproximou-se devagar.
— Elias... o que exatamente aconteceu naquele planeta?
O pesquisador demorou a responder.
— Quando toquei o Nóvium... algo entrou na minha mente.
— Uma memória?
— Talvez.
Elias fechou os olhos.
As imagens voltaram imediatamente.
Estruturas gigantescas enterradas sob Éterion.
Sombras movendo-se no núcleo do planeta.
Uma guerra muito mais antiga do que qualquer império humano.
— Eu vi destruição — murmurou ele. — Vi civilizações inteiras desaparecendo.
— Por causa do Nóvium?
— Não.
Ele abriu os olhos lentamente.
— Por causa de algo que veio antes dele.
Darius ficou em silêncio.
Subitamente, alarmes ecoaram novamente.
A porta se abriu violentamente.
— Capitão! — gritou uma oficial. — Detectamos intrusos próximos à nebulosa!
Na ponte da Argo-7, hologramas mostravam uma pequena frota desconhecida tentando atravessar a região externa do sistema.
Naves rápidas. Pouco blindadas.
Piratas.
— Eles estão interceptando transmissões da batalha — informou uma operadora.
Darius xingou baixo.
— Como conseguiram chegar aqui tão rápido?
Elias observou as telas.
As embarcações piratas avançavam entre destroços enquanto evitavam as zonas principais de combate.
— Eles não vieram lutar — disse Elias.
— Vieram roubar informações — respondeu Darius.
Uma transmissão surgiu inesperadamente nos painéis.
O rosto de Selene apareceu sorrindo.
— Saudações, militares desesperados. Que bagunça maravilhosa vocês fizeram aqui.
Darius estreitou os olhos.
— Identifique-se.
— Capitã Selene Vark. E vocês acabaram de encontrar meu mau humor favorito: segredos imperiais.
Ela observou rapidamente os dados nos painéis da ponte.
— Então Éterion é real...
— Afaste-se do sistema imediatamente.
Selene riu.
— Claro. Depois que vocês me entregarem tudo sobre o Nóvium.
Darius desligou a transmissão imediatamente.
— Rastreiem a posição deles.
Uma operadora respondeu:
— Difícil. Estão usando sinais fantasmas.
No espaço próximo à nebulosa, a Vantor mergulhava entre fragmentos destruídos da batalha.
Selene permanecia sentada tranquilamente enquanto sua tripulação trabalhava freneticamente.
— Conseguimos parte dos arquivos Solaris — informou o técnico.
— E os Noxianos?
— Também.
Ela sorriu satisfeita.
— Perfeito.
Outro tripulante aproximou-se.
— Capitã... talvez devêssemos sair daqui.
— Por quê?
O homem engoliu seco.
— Sensores estão detectando anomalias estranhas perto da nebulosa externa.
Selene revirou os olhos.
— Estamos no meio de uma guerra espacial. Claro que existem anomalias.
— Não são explosões.
Ele ampliou os dados.
Uma região específica da nebulosa aparecia completamente escura.
Sem sinais.
Sem radiação.
Sem movimento.
Um vazio absoluto.
Selene franziu a testa.
— O que é isso?
— Não sabemos.
Antes que alguém pudesse responder, outra nave surgiu no radar.
Pequena.
Sozinha.
Movendo-se lentamente em direção à região escura.
— Identificação? — perguntou Selene.
— Cargueiro civil. Registro apagado.
Todos observaram em silêncio enquanto a embarcação avançava para dentro da escuridão da nebulosa.
Então desapareceu.
Simplesmente desapareceu.
Sem explosão.
Sem sinal de dobra.
Sem destroços.
Nada.
O técnico ficou pálido.
— Capitã...
Selene levantou-se devagar.
— Quero distância daquela região.
Na mesma hora, os sensores da Vantor enlouqueceram.
As luzes piscaram.
E por apenas um segundo, toda a tripulação ouviu um ruído estranho atravessar os comunicadores.
Parecia uma voz.
Ou muitas vozes juntas.
Então sumiu.
Ninguém falou nada.
Selene observava a região escura da nebulosa sem conseguir esconder o desconforto crescente.
— Marquem aquelas coordenadas.
— Para quê?
Ela continuou encarando o vazio.
— Porque alguma coisa está escondida ali.
Enquanto isso, a guerra ao redor de Éterion aumentava.
Frotas inteiras chegavam ao sistema.
Centenas de naves Solaris organizavam bloqueios orbitais enquanto destróieres Noxianos avançavam sem parar contra posições defensivas.
Corpos metálicos destruídos já flutuavam aos milhares no espaço.
E no centro de tudo, Éterion continuava brilhando.
Como um organismo despertando lentamente.
Dentro de um transporte militar Solaris, Lyra Seraphis observava o planeta pela primeira vez.
Ela permanecia sozinha na sala estratégica enquanto relatórios apareciam ao redor.
Perdas crescentes.
Falhas inexplicáveis.
Interferências constantes.
Uma oficial entrou rapidamente.
— Capitã, chegaremos em quinze minutos.
Lyra assentiu.
— Situação terrestre?
— Nenhum desembarque completo ainda. As tempestades energéticas continuam destruindo sistemas de navegação.
Lyra aproximou-se da janela.
Mesmo à distância, podia ver os veios luminosos atravessando continentes inteiros.
— Parece vivo — murmurou.
— Senhora?
Ela não respondeu.
Porque naquele momento sentiu algo estranho.
Uma sensação leve atravessou sua mente.
Como um sussurro distante.
Lyra franziu a testa imediatamente.
Então a sensação desapareceu.
Muito abaixo deles, enterrado nas profundezas de Éterion, algo colossal moveu-se lentamente na escuridão.

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