A Forme do Escritor: parte: 03
E, mais uma vez, no fundo de sua mente, ele sentiu aquela
presença. A criatura na floresta. Estava perto. Mais perto do que nunca.
Mas ele não sabia mais o que ela queria.
E nem o que ele estava disposto a dar.
Ricardo sabia que havia uma única saída. Nos últimos dias,
enquanto se afogava no álcool e na frustração, uma ideia lhe ocorrera, se
insinuando em sua mente como um sussurro incessante. Ele não queria admitir no
início, mas agora, no silêncio absoluto da manhã, depois de dias de destruição
e caos interno, ele sabia que precisava fazer aquilo.
A cabana na floresta.
Ele a descobrira meses antes, durante uma de suas
caminhadas. A estrutura velha e esquecida estava bem no coração da mata,
cercada por árvores tão altas que seus galhos bloqueavam quase toda a luz. Na
época, a cabana lhe parecia inofensiva, uma curiosidade da floresta, mas agora
ela tomava uma nova forma em sua mente, quase como um refúgio. E, talvez, uma
resposta.
Era uma decisão que ele sabia que não poderia voltar atrás.
Deixar a casa, abandonar o mundo civilizado e se isolar naquela cabana era sua
última tentativa desesperada de recobrar algo — sua criatividade, seu
propósito, qualquer coisa que fizesse sentido de novo. Ele não se importava
mais com a casa grande, os prêmios, o sucesso. Tudo isso agora parecia vazio.
No fim daquela tarde, ele começou a arrumar algumas coisas
em uma mochila. Apenas o essencial: roupas, comida para alguns dias, e, claro,
sua velha máquina de escrever. O gesto de colocar aquele objeto na mochila
pareceu quase ritualístico. A máquina havia se tornado uma extensão dele, mesmo
que estivesse quebrada e, de certo modo, inútil. Se ele fosse fazer aquilo, se
fosse até a cabana, precisava levá-la.
O caminho até a cabana era longo e tortuoso. A floresta se
fechava ao seu redor como uma teia de sombras, o ar estava frio e úmido, e a
luz do sol desaparecia rapidamente por trás das árvores. Cada passo que dava
parecia reverberar pela floresta silenciosa, e a sensação de estar sendo
observado era inegável. Ricardo sentia como se as próprias árvores estivessem
sussurrando, acompanhando sua jornada com olhos invisíveis.
Finalmente, depois de horas de caminhada, ele avistou a
cabana. Ela parecia ainda mais velha e deteriorada do que ele lembrava, como se
o tempo tivesse acelerado sobre ela. As tábuas estavam apodrecidas, e o telhado
pendia perigosamente para um lado. No entanto, aquilo não o deteve. Ele entrou,
empurrando a porta com esforço, o som rangente ecoando pela estrutura
decrépita.
A cabana era pequena, composta de apenas um cômodo, com uma
lareira de pedra e uma janela minúscula, por onde a luz da lua, já alta no céu,
se insinuava de maneira pálida e fraca. Ele largou a mochila no chão e sentiu
um cansaço esmagador cair sobre ele. Não havia energia elétrica, mas ele
acendeu uma pequena lanterna que trouxera. O ambiente era claustrofóbico, e o
cheiro de madeira velha e mofo enchia o ar.
Naquela noite, o silêncio era diferente. Ricardo sabia que a
floresta estava viva de uma maneira que ele ainda não compreendia totalmente.
Sentado à beira da janela, ele observava o exterior com atenção. Lá fora, as
árvores se moviam suavemente ao vento, mas havia algo mais. Sombras. Elas se
arrastavam pela vegetação, aparecendo e desaparecendo, como se estivessem
esperando por algo.
Ele tentou falar. Em um momento de loucura ou desespero, ele
gritou para a floresta, tentando se comunicar com aquelas sombras. "O que
vocês querem de mim?!" Sua voz ecoou pelo vazio, mas não houve resposta.
Nada além do farfalhar distante das folhas.
Ricardo ficou ali, parado, seus olhos fixos na escuridão,
esperando algum sinal, algum movimento que quebrasse o silêncio sufocante. Mas
as sombras simplesmente se moveram lentamente ao redor da cabana, como se o
observassem de longe, sem jamais se aproximar completamente.
No fundo, ele sabia que não havia como se comunicar com
elas. Não diretamente. O que quer que fossem, estavam além de sua compreensão
ou alcance. Elas pertenciam à floresta, assim como a criatura com cabeça de
cervo que o havia visitado antes. E, de algum modo, Ricardo estava ciente de
que sua presença na cabana era uma invasão nesse reino desconhecido.
Os dias seguintes seguiram um padrão similar. Durante a
tarde, ele tentava escrever, mas nada surgia. Sentava-se à frente da máquina de
escrever, os dedos prontos para bater nas teclas, mas suas mãos permaneciam
imóveis. Era como se cada palavra tivesse sido sugada de sua mente, deixando
apenas o silêncio e o som do vento lá fora. À noite, ele voltava à janela e
observava as sombras na floresta, tentando decifrar o que significavam, mas
nunca recebendo respostas.
Sua sanidade parecia estar à beira de colapso. A cabana, que
ele pensava ser um refúgio, estava se tornando uma prisão. O isolamento, antes
desejado, agora se tornava insuportável. Ele não sabia mais o que era real. As
sombras na floresta começaram a parecer mais tangíveis, mais próximas, e, ao
mesmo tempo, mais ameaçadoras.
Ricardo tentava lembrar por que tinha se isolado na
floresta. A busca pela criatividade, pelo próximo grande livro, parecia uma
memória distante. Agora, tudo o que ele queria era respostas. O que eram
aquelas sombras? E por que ele sentia que sua mente estava lentamente sendo
devorada por algo invisível?
Na quinta noite, algo diferente aconteceu. As sombras na
floresta começaram a se mover de maneira mais rápida e errática, como se
estivessem em conflito entre si. Ricardo, assistindo pela janela com os olhos
fixos, sentiu um calafrio descer por sua espinha. Havia algo mais lá fora, algo
novo.
De repente, ele ouviu um som que fez seu coração disparar:
passos. Não eram leves como antes. Eram pesados, arrastados, como se algo
enorme estivesse caminhando em direção à cabana. Ele ficou paralisado, com a
respiração presa. O som se aproximava, cada vez mais alto, até que ele pôde
ouvir claramente o farfalhar das folhas e o estalo de galhos secos sob os pés
daquela coisa.
Ele se levantou, tentando se afastar da janela, mas seus pés
pareciam presos ao chão. E então, ele a viu.
A criatura com cabeça de cervo, grande e imponente, surgiu
das sombras. Seus olhos eram esferas negras, sem vida, e os chifres se erguiam
como galhos secos contra o céu noturno. O ser se aproximou lentamente, até
parar diante da cabana. Ricardo podia sentir a presença dela através da janela,
como uma pressão invisível que fazia seu coração disparar.
A criatura inclinou a cabeça, como se estivesse estudando-o.
Não disse nada dessa vez. Apenas ficou ali, parada, observando-o com seus olhos
vazios.
Dois dias se arrastaram lentamente, e a tensão dentro de
Ricardo aumentava a cada minuto. O silêncio que antes parecia acolhedor agora
se tornava sufocante, e ele passava os dias olhando para a máquina de escrever,
as teclas imóveis, tão vazias quanto sua mente. Ele tentava escrever, mas cada
frase, cada palavra que ele arriscava pareciam mortas, desprovidas de vida e
significado. A pressão estava voltando, a mesma que o havia levado à floresta
meses atrás, a mesma que agora ameaçava sufocá-lo mais uma vez.
Naquela noite, o ar estava particularmente pesado, carregado
com a umidade e a escuridão da floresta ao redor. Ricardo olhou pela janela da
cabana, como sempre fazia. As sombras lá fora pareciam mais densas, como se a
própria floresta estivesse se aproximando, comprimindo-se ao redor da cabana.
Ele acendeu uma pequena vela, a única fonte de luz dentro do pequeno espaço,
mas o calor da chama não o confortou. Na verdade, fez com que ele se sentisse
mais exposto, como se a luz da vela pudesse atrair algo que ele não queria ver.
Por volta da meia-noite, Ricardo ouviu o som.
Era familiar. Lento, deliberado, como passos pesados na
vegetação densa da floresta. Ele sabia o que estava por vir antes mesmo de ver.
A criatura com cabeça de cervo, com seus chifres enormes e corpo sombrio,
estava de volta.
Seu coração começou a martelar no peito, enquanto ele se
levantava devagar da cadeira, sentindo o corpo tremer de antecipação. Ele sabia
que deveria ficar longe da janela, que deveria se esconder, mas algo o puxava
para mais perto, como se uma força invisível o chamasse para encarar aquilo de
novo. Sua mente estava dividida entre o medo e a curiosidade, entre a vontade
de fugir e a atração irresistível daquela presença.
Quando ele finalmente olhou para fora, a criatura já estava
lá, parada no limite da clareira. Seus olhos negros, profundos como a noite,
fixos em Ricardo. Os chifres pareciam mais longos e retorcidos do que da última
vez, como se houvessem crescido em espirais deformadas. O corpo escuro e sem
forma movia-se levemente com o vento, como se fosse feito de fumaça densa, mas
havia algo sólido por trás daquela sombra, algo que exalava poder e autoridade.
Ricardo não conseguia se mexer. Ele estava preso sob o olhar
daquela coisa, o ar ao seu redor mais pesado do que nunca. O silêncio, que já o
deixava desconfortável, agora parecia um vácuo, um abismo onde sua voz e sua
vontade eram devoradas. Ele abriu a boca, tentando falar algo, mas antes que
pudesse, a presença quebrou o silêncio.
— Você está com fome, — disse a voz baixa, grave e
arrastada, cortando o ar como um murmúrio que ecoava em sua mente mais do que
no espaço físico. Era a mesma voz de antes, mas agora parecia mais próxima,
mais íntima. — Deixe-me alimentar você.
Ricardo estremeceu, sentindo um calafrio percorrer sua
espinha. Aquelas palavras soavam diferentes desta vez. Não eram apenas um
convite; eram uma exigência, uma necessidade que parecia pulsar da própria
criatura. E, embora ele soubesse que algo estava terrivelmente errado, ele não
pôde evitar responder.
— Sim, — murmurou, sua voz fraca e trêmula, quase como se
não estivesse no controle de suas próprias palavras. — Estou com fome.
O ser se aproximou um pouco mais, seus chifres recortados
contra a luz fraca da lua que penetrava pela janela. A sensação de ser
observado tornou-se mais intensa, como se as sombras ao redor da cabana
tivessem vida própria e estivessem conspirando com a criatura.
— Você precisa de mim, assim como eu preciso de você,
— disse a presença, a voz reverberando por toda a cabana, preenchendo o pequeno
espaço com uma energia quase palpável. — Deixe-me alimentar você, para que
você possa criar.
O medo de Ricardo misturou-se com uma estranha aceitação.
Havia algo na voz da criatura que lhe dava uma sensação de alívio, como se, de
alguma forma, aquela presença pudesse realmente libertá-lo da prisão mental em
que ele se encontrava. Ele queria resistir, queria lutar contra aquilo, mas, ao
mesmo tempo, ele sentia o vazio dentro de si crescendo, expandindo-se,
devorando-o por dentro.
Ele deu um passo em direção à janela, sem perceber o que
estava fazendo, como se seu corpo estivesse agindo por conta própria. A
criatura o observava atentamente, como um predador paciente, esperando o
momento certo para atacar. A mente de Ricardo estava em turbilhão, uma mistura
de confusão e submissão.
Então, sem aviso, a criatura moveu-se. Um braço longo e
sombrio, que se estendia como uma sombra líquida, passou pela janela e tocou
sua testa. O toque foi gelado, como o gelo da floresta nas noites mais escuras
do inverno. A sensação foi imediata — um calafrio que percorreu seu corpo
inteiro, mas, ao mesmo tempo, uma estranha sensação de paz o invadiu. Ele se
sentiu mais leve, como se o peso da criação, do fracasso e da pressão de
escrever finalmente o abandonasse.
— Agora você está pronto, — a voz murmurou, enquanto
a escuridão ao redor dele parecia se fechar, envolvendo-o. — Deixe-me
alimentar você.
E então, a escuridão o tomou.
Ele não lembrava de nada além disso. Quando acordou, na
manhã seguinte, estava deitado no chão da cabana, com a luz do sol entrando
pelos buracos no teto. A sensação de frio havia desaparecido, e, por um breve
momento, ele pensou que tudo aquilo tivesse sido um sonho estranho, fruto de
sua exaustão e do isolamento.
Mas algo dentro dele havia mudado.
Sentindo-se estranhamente renovado, Ricardo se levantou e
foi direto para a máquina de escrever. Pela primeira vez em meses, talvez até
em anos, ele sentia suas ideias fluírem com uma facilidade assustadora. As
palavras vinham rápido, quase sem esforço, como se já estivessem formadas em
sua mente, prontas para serem colocadas no papel. Ele escreveu o dia inteiro,
parando apenas para beber água e comer algo rapidamente. A história que saía de
seus dedos era intensa, vívida, como se viesse de algum lugar profundo e
desconhecido dentro de si.
Nos dias que se seguiram, ele se manteve concentrado, quase
obcecado, escrevendo com uma intensidade que nunca havia experimentado antes. A
cabana parecia ser o lugar perfeito para ele, onde ninguém poderia distraí-lo
ou interrompê-lo. As sombras na floresta continuavam a aparecer à noite, mas
ele não se importava mais. Elas eram suas companheiras silenciosas, testemunhas
de seu processo criativo.
Quando Ricardo acordou, a luz fraca do entardecer penetrava
pelas cortinas escuras da cabana. A mente dele estava enevoada, o corpo pesado,
como se tivesse dormido por um longo tempo, mas algo parecia profundamente
errado. O ar ao seu redor era diferente, mais denso, carregado de um cheiro que
ele não conseguia identificar de imediato. Tentando se levantar, ele percebeu
que suas roupas estavam amassadas, como se ele as estivesse usando por dias.
Levou um momento até que ele registrasse o que estava
acontecendo. Ele olhou para o relógio na parede e percebeu, com um nó se
formando no estômago, que três dias haviam se passado. Ele não conseguia
lembrar de nada desde o momento em que tinha se deitado para dormir após
escrever o último capítulo. Sua mente estava vazia, um vazio perturbador que
ele não conseguia preencher com explicações.
Ricardo se levantou, sentindo um formigamento desconfortável
em seus membros. Enquanto se movia pela cabana, notou algo estranho. O cheiro.
Era um odor intenso e metálico que preenchia o ar, algo que ele não conseguia
ignorar. Inicialmente, pensou que fosse algum animal morto nas proximidades,
mas conforme caminhava pela casa, percebeu que o cheiro vinha da sala
principal.
Quando chegou à porta da sala, parou por um momento,
hesitando. O cheiro estava mais forte agora, nauseante e insuportável. Ele
abriu a porta devagar, o rangido das dobradiças ecoando na cabana silenciosa. O
que ele viu lá dentro fez seu estômago revirar e sua mente congelar.
Havia dois corpos no chão.
Dois homens, desconhecidos para ele, estavam estendidos no
centro da sala, suas roupas sujas de sangue. Seus rostos estavam pálidos, as
bocas entreabertas em uma expressão de horror congelada no momento da morte. O
sangue seco manchava o chão de madeira, formando uma poça escura ao redor dos
corpos.
Ricardo recuou, o choque o paralisando. Ele não conseguia
processar o que estava vendo. Como aquelas pessoas haviam chegado ali? Ele não
se lembrava de ter visto ou falado com ninguém nos últimos dias. O que havia
acontecido? Seu coração começou a acelerar, sua mente correndo para tentar
encontrar respostas, mas ele só conseguia pensar em uma coisa: ele havia
acordado três dias depois. Três dias que ele não conseguia lembrar.
Uma onda de pânico tomou conta dele. As mãos começaram a
tremer enquanto ele olhava para os corpos. Ele precisava se livrar deles. Ele
precisava esconder aquilo, afastar a cena de sua mente. Mas por quê? A pergunta
latejava em sua cabeça, mas a urgência em limpar aquela evidência o
sobrepujava.
Sem pensar muito, Ricardo pegou uma lona velha que estava
jogada no canto da cabana. Seus movimentos eram rápidos, desesperados, como se
sua própria vida dependesse daquilo. Ele enrolou os corpos com dificuldade,
sentindo o peso morto enquanto os arrastava para fora da sala. O cheiro ficava
mais forte à medida que ele mexia nos cadáveres, e o som do atrito deles contra
o chão o fazia suar frio.
Levou-os para os fundos da cabana, onde havia um buraco
improvisado, uma espécie de fosso que ele usava para enterrar restos de comida
e coisas indesejadas. Com mãos trêmulas, ele começou a cavar freneticamente, o
suor escorrendo pelo rosto. O tempo parecia ter desacelerado, cada segundo
estendendo-se como uma eternidade. Finalmente, depois de cavar um buraco
profundo o suficiente, ele empurrou os corpos para dentro e começou a cobri-los
com terra, sem nunca parar para olhar de novo para os rostos.
Quando terminou, caiu de joelhos, ofegante e coberto de suor
e sujeira. Suas mãos estavam machucadas e manchadas de sangue, sua cabeça
latejando com a confusão e o horror do que acabara de fazer. Ele se levantou
lentamente, tentando limpar as mãos na roupa. O cheiro de sangue parecia
impregnado nele, como se nunca fosse embora.
Ao voltar para dentro da cabana, ele se sentiu mais estranho
do que nunca. Havia uma pressão crescente em seus ouvidos, como se algo
estivesse prestes a estourar. Foi então que ele começou a ouvir os sons.
No início, eram apenas murmúrios baixos, como se o vento
estivesse sussurrando pelas árvores lá fora. Ele achou que era sua imaginação,
a tensão e o estresse o afetando. Mas os murmúrios ficaram mais altos, mais
nítidos. Ele conseguia ouvir palavras, fragmentos de vozes que pareciam estar
ao seu redor, embora não houvesse ninguém ali.
Ricardo colocou as mãos nos ouvidos, tentando abafar o som,
mas ele não parava. Pelo contrário, os sons começaram a intensificar-se. Ele
podia ouvir o vento passando pelas árvores, as folhas roçando umas nas outras,
os galhos estalando ao longe. Cada movimento da floresta parecia amplificado,
como se sua audição tivesse se tornado sobrenaturalmente aguçada. Ele conseguia
até ouvir os insetos movendo-se pelo chão da cabana.
Desesperado, ele tentou se concentrar, focar em outra coisa.
Foi até a cozinha e encheu um copo de água, mas o som do líquido caindo no copo
parecia uma cascata em seus ouvidos. O barulho do vidro batendo na mesa era
ensurdecedor. Ele sentia que sua cabeça ia explodir com a intensidade dos sons
ao redor.
E então veio o pior.
No meio dos murmúrios e dos ruídos da floresta, ele começou
a ouvir uma respiração pesada, profunda e constante. Era lenta, como se alguém
estivesse ao seu lado, apenas esperando. Ricardo se virou rapidamente, mas não
havia ninguém. Ainda assim, a sensação de estar sendo observado crescia cada
vez mais, como se as paredes da cabana estivessem se fechando ao redor dele. A
respiração não desaparecia, ecoando em seus ouvidos junto com o som de seus
próprios batimentos cardíacos.
Ele correu para o quarto, trancando a porta atrás de si,
embora soubesse que nada ali poderia protegê-lo do que estava acontecendo.
Sentou-se na cama, tremendo. Os sons continuavam, ininterruptos, enchendo sua
cabeça, até que, no meio daquele caos sonoro, ele ouviu uma única palavra,
clara e nítida, como se fosse falada diretamente ao seu ouvido:
— Fome.
Ricardo sentou-se à mesa de madeira envelhecida no centro da
cabana, o manuscrito completo à sua frente, ainda exalando o cheiro de tinta
fresca. Ele olhou para as páginas empilhadas, sentindo uma mistura estranha de
alívio e pavor. O livro estava finalmente terminado. Cada palavra havia sido
escrita com um fervor que ele não conseguia explicar, como se algo dentro dele
o estivesse obrigando a continuar dia após dia, noite após noite. E agora, tudo
estava ali.
Mas o alívio era passageiro, e o pavor crescia conforme ele
contemplava a próxima etapa. Ele sabia o que aconteceria se publicasse o livro.
Sabia que o sucesso viria como antes — leitores sedentos, críticos aclamando,
festas celebrando a genialidade de sua criação. E depois? Depois, viriam as
mesmas perguntas que já o atormentavam há anos.
"Quando sai o próximo?"
Essas palavras ecoavam em sua mente como uma sentença. Ele
sabia que, se publicasse aquele livro, logo estaria preso no mesmo ciclo. As
pessoas nunca estariam satisfeitas com apenas um. Elas sempre queriam mais, e mais,
até que ele não tivesse mais nada a oferecer. A pressão de escrever outro
sucesso, de continuar a alimentar a fome de seus leitores, seria insuportável.
O mesmo ciclo que o tinha levado à ruína antes começaria novamente.
Ricardo olhou para o manuscrito com uma expressão vazia.
Havia algo errado com ele. Embora o conteúdo estivesse impecável, algo
profundamente errado emanava das páginas. Como se, de alguma forma, aquele
livro fosse um reflexo sombrio do que ele havia se tornado. Ele não sabia
explicar, mas, por algum motivo, aquilo parecia menos uma conquista e mais um
fardo. E, ainda assim, a ideia de abandonar o livro ou nunca o mostrar ao mundo
era igualmente perturbadora.
Ele pegou uma das páginas e começou a reler o início do
capítulo final. Conforme lia, as palavras fluíam com facilidade, mas havia algo
inquietante ali. As palavras, por mais bem construídas que fossem, pareciam não
pertencer a ele. Elas eram suas, escritas por sua própria mão, mas ele não
conseguia reconhecer a voz nelas. Era como se outra mente tivesse guiado seus
dedos, outra presença o tivesse ajudado a colocar aquelas frases no papel. E
essa presença, essa sombra que pairava sobre seu trabalho, parecia faminta,
impaciente.
O pensamento o perturbou, e ele afastou as páginas para o
lado, empurrando-as com uma mistura de nojo e exaustão. Ele olhou para o teto
da cabana, tentando silenciar os pensamentos intrusivos. Por que ele estava tão
inquieto? Por que algo que deveria ser uma vitória parecia tão macabro?
Ricardo sabia que uma parte de sua inquietação vinha do fato
de que aquele livro, por mais completo que estivesse, não parecia suficiente.
Não para ele. A sensação de que algo faltava o incomodava profundamente, e, por
mais que tentasse se convencer de que aquele era o fim, que o livro estava
perfeito, ele sabia que não conseguiria descansar.
Não. Ele precisava de mais.
Com os olhos fixos no teto, a decisão começou a tomar forma
em sua mente. Ele precisava escrever outro livro. Talvez, se ele conseguisse
escrever mais uma obra, a pressão diminuiria. Talvez, com dois sucessos, ele
finalmente pudesse sentir que havia feito o suficiente. Talvez, então, ele
pudesse descansar. Sem pensar demais, ele pegou o bloco de notas ao lado da
mesa e começou a rabiscar ideias.
Mas, por mais que tentasse, as ideias não vinham.
Ele olhou para a folha em branco, o lápis descansando em sua
mão, os nós dos dedos brancos pela pressão. Havia um vazio crescente em sua
mente, um silêncio opressor que o consumia. Ele estava novamente de volta ao
mesmo ponto de antes. O ciclo recomeçava. O bloqueio. O medo. A expectativa
esmagadora. Por que ele não conseguia mais criar?
Frustrado, Ricardo jogou o lápis na mesa com força e se
levantou, caminhando pela cabana com passos agitados. A sensação de impotência
o sufocava. Ele olhou para a janela, a floresta densa do lado de fora parecia
observá-lo em silêncio, suas sombras se estendendo sob a luz da lua crescente.
Ele parou, olhando para a escuridão lá fora. Era como se a floresta estivesse
esperando por ele. Ele sentia os olhos invisíveis sobre ele, a presença
familiar e perturbadora que o havia assombrado nas últimas semanas.
Algo estava lá, esperando.
A noite estava quieta demais, densa demais. Cada folha, cada
galho parecia se contorcer, encharcados pela escuridão sufocante que envolvia a
cabana. Ricardo se aproximou da porta da frente, abrindo-a devagar, sentindo o
ar gelado da floresta o tocar. Ele precisava sair, precisava pensar. Talvez uma
caminhada pela floresta clareasse sua mente, afastasse o bloqueio que o
atormentava.
Ele pegou uma lanterna e começou a caminhar para dentro da
escuridão da floresta, seus passos sendo abafados pelo solo úmido. O silêncio
ao seu redor era quase absoluto, exceto pelo ocasional farfalhar das folhas ao
vento. Mas, conforme ele avançava, algo começou a mudar.
Ele sentiu uma presença.
Era sutil no início, apenas uma leve sensação de ser
observado, mas conforme continuava a caminhar, a presença se tornava mais
intensa. Ele parou, virando a cabeça para todos os lados, tentando enxergar
além da luz limitada da lanterna. As árvores pareciam se fechar ao redor dele,
as sombras dançando nas bordas de sua visão.
De repente, a lanterna piscou e apagou.
Ricardo ficou congelado no lugar, seu coração disparado, o
silêncio ao seu redor se tornando ensurdecedor. Ele tentou ligar a lanterna
novamente, mas ela não respondia. Respirando fundo, ele tentou manter a calma,
mas a sensação de estar sendo observado só crescia. Ele sabia que algo estava
ali, próximo.
E então, ele ouviu.
— Com fome...
A voz suave e áspera cortou o silêncio como uma lâmina.
Ricardo deu um passo para trás, seu corpo inteiro tremendo. Ele conhecia aquela
voz. A presença com a cabeça de cervo, os chifres grandes, o corpo sombrio...
Ela estava ali novamente. Mas desta vez, algo estava diferente. Ele não sentia
apenas medo, mas uma estranha sensação de aceitação, como se já esperasse por
aquilo.
— Você está pronto para alimentar-me? — a voz
sussurrou novamente.
Ricardo não respondeu. Ele não sabia o que dizer. Algo
dentro dele estava mudando, distorcendo, enquanto a escuridão ao seu redor
parecia se fechar como um manto sufocante.
Ricardo mergulhou de cabeça na escrita novamente, suas mãos
movendo-se freneticamente sobre o teclado. As palavras fluíam com uma
facilidade sobrenatural, como se já estivessem formadas em sua mente antes de
ele sequer pensar nelas. O segundo livro estava completo, tão rápido quanto o
primeiro, e com ele veio uma euforia momentânea, uma satisfação passageira que
desapareceu quase tão depressa quanto chegou.
Ele olhou para as páginas na tela, o cursor piscando no
final da última linha. Não era o suficiente. Nunca era o suficiente.
"Cinco livros", ele pensou. "Eu preciso de
cinco."
Ricardo sabia que aquela urgência não vinha apenas de sua
ambição ou do desejo de sucesso. Era algo mais profundo, algo que o corroía por
dentro. Ele queria acreditar que estava no controle, que a escrita era uma
expressão de sua própria vontade, mas, cada vez mais, ele sentia que era a
presença – a entidade com chifres e o corpo sombrio – que guiava seus
movimentos. Sempre estava lá, na borda de sua consciência, sussurrando,
influenciando suas decisões, preenchendo sua mente com imagens sombrias e ideias
que ele nunca teria concebido por si mesmo.
A cada novo dia que passava, a presença se tornava mais
intensa, mais faminta. Durante a noite, ele ouvia aquela voz em sua cabeça, tão
nítida quanto se a criatura estivesse ao lado dele.
"Você está com fome?" ela perguntava, a voz um
sussurro grave e perturbador.
E, sem hesitar, Ricardo sempre respondia: "Sim."
Era uma troca simples, direta. Ele escrevia, e a fome dentro
dele era temporariamente saciada. Mas o ciclo nunca terminava. A fome
retornava, mais intensa, mais exigente. E com ela, as lacunas em sua memória
começaram a se expandir. Havia dias inteiros que ele não conseguia lembrar.
Noites que desapareciam em um borrão de escuridão, e, quando ele acordava,
havia mais corpos.
No começo, ele se assustou ao ver as vítimas em sua casa,
mas com o tempo, aquela visão se tornou parte da sua nova realidade, como se
fosse inevitável. A primeira vez que encontrou um corpo, ele tentou se
convencer de que era uma coincidência, que alguém de fora o estava ameaçando,
tentando afastá-lo de sua rotina. Mas a verdade era muito mais sombria. Ele
sabia, no fundo, que de alguma forma ele estava envolvido. Ele apenas não
lembrava como.
Os corpos eram sempre de estranhos, pessoas que ele nunca
tinha visto antes. Alguns pareciam ser moradores da cidade mais próxima, outros
talvez caçadores ou andarilhos que se aventuraram pela floresta. Eles estavam
sempre em posições estranhas, contorcidos como se tivessem lutado contra algo,
mas suas expressões eram sempre de terror absoluto. Ricardo começou a esconder
os corpos, enterrando-os na parte mais densa da floresta, mas a cada dia que
passava, novos corpos apareciam, como se a cabana atraísse aquelas pessoas de
forma macabra.
Eram os chifres que sempre o assombravam, mesmo quando ele
estava desperto. Aqueles longos, afiados e intricados chifres, que pareciam se
fundir com a escuridão da floresta, continuavam a persegui-lo. Ele ouvia o
sussurro constante da presença enquanto escrevia, um murmúrio incessante que
parecia encher sua mente com palavras e ideias. Cada vez que ele cedia à fome
da entidade, ele conseguia escrever com mais facilidade, mais clareza, mas em
troca... algo dentro dele se desfazia, fragmentando-se.
Em algumas noites, quando a escuridão envolvia a cabana e
ele estava sozinho em seu escritório, ele se encontrava encarando o espelho. O
reflexo no vidro o assustava. Não era mais o Ricardo que ele conhecia, mas uma
versão distorcida, alguém exausto, com olheiras profundas, a pele pálida e os
olhos perdidos em um vazio que ele não conseguia explicar.
Cada vez que tentava ignorar a fome, a presença o
pressionava com mais força. O silêncio da noite era quebrado apenas pelo som
suave da voz sombria.
"Você está com fome?"
Ele sabia que a resposta era sempre sim.
As noites se tornaram pesadelos em que ele não conseguia
distinguir entre sonho e realidade. Ele se via andando pela floresta, os pés
descalços afundando na terra úmida, enquanto a figura de chifres o seguia de
perto, guiando seus passos. Mas quando acordava, ele não sabia se aquilo havia
sido real ou apenas fruto de sua mente perturbada.
Ele tentou escrever outro livro. O terceiro estava quase
completo, mas, mais uma vez, o sentimento de insatisfação o consumia. Ele
precisava de mais. Mais palavras, mais páginas, mais histórias. A fome dentro
dele estava crescendo, e ele sabia que apenas a presença poderia saciá-la. No
entanto, quanto mais ele escrevia, mais difícil se tornava manter a sanidade.
As palavras fluíam, mas cada linha parecia arrancar algo de sua alma, como se
ele estivesse trocando pedaços de si mesmo pela habilidade de criar.
A presença agora falava com ele não apenas durante a noite,
mas durante o dia também, suas palavras ecoando em sua mente, mesmo quando ele
tentava se concentrar. Ele começava a ouvir outros sons também — passos,
respirações, o som de risadas distantes que o faziam se sobressaltar. Sua mente
estava fragmentada, e ele sabia que não poderia continuar assim por muito
tempo.
E então, em uma manhã fria, ele acordou de um sono pesado e
perturbado. A sensação de que algo estava errado o dominou instantaneamente. O
cheiro metálico e nauseante do sangue invadiu suas narinas assim que ele abriu
os olhos. Ele se levantou lentamente, sentindo-se pesado, e caminhou até a
sala.
Dois corpos estavam lá, estirados no chão. As roupas
ensanguentadas, os rostos desfigurados, os olhos arregalados em terror. Ricardo
recuou, tropeçando em um móvel, o coração disparado. Ele tentou se lembrar da
noite anterior, mas havia um vazio completo em sua mente. Como aquelas pessoas
tinham chegado até ali? Quem eram elas? E o mais importante: o que ele havia
feito?
Ele cobriu a boca com as mãos, sentindo o pânico crescer
dentro de si. Precisava esconder os corpos antes que alguém os encontrasse.
Tremendo, ele pegou um lençol e começou a cobrir os cadáveres, tentando não
olhar diretamente para eles. Sua mente lutava para encontrar uma explicação,
mas no fundo ele sabia a verdade.
Ele estava se tornando algo que não compreendia, uma
extensão da presença que o assombrava. As noites em branco, os corpos, o vazio
em sua memória... tudo apontava para a mesma coisa. Ele estava perdendo o
controle. E ainda assim, ele continuava a escrever.
O vento frio uivava pela floresta densa enquanto a neve fina
começava a cair, cobrindo a trilha que levava até a cabana isolada de Ricardo.
Um lugar que, meses antes, era um refúgio para a mente criativa do escritor,
agora parecia abandonado e sombrio, como se o próprio local absorvesse a
escuridão que cercava seu morador.
Ricardo estava desaparecido há semanas. Nenhuma resposta aos
e-mails, chamadas ignoradas. Seu agente literário, Paulo, começara a ficar
preocupado, mas sabia que escritores, especialmente aqueles com a mente
atormentada pela pressão do sucesso, muitas vezes se afastavam do mundo. Paulo
tinha lidado com muitos autores excêntricos, mas algo no silêncio de Ricardo o
inquietava profundamente.
Continuar....

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