O mundo havia acabado há três anos, sete meses e doze dias. Rafael sabia disso porque ainda carregava no pulso um relógio digital que havia parado de funcionar no dia em que as primeiras criaturas apareceram. A tela permanecia rachada, congelada às 14h37, mas ele continuava olhando para ela todas as manhãs, como se aquele pequeno objeto fosse capaz de lembrá-lo de que existira uma época em que o tempo tinha importância. Naquela época, as pessoas se preocupavam com contas, empregos, trânsito e outras coisas que agora pareciam absurdas. Havia supermercados cheios, hospitais funcionando, escolas barulhentas e crianças brincando nas calçadas. Os aviões cruzavam os céus, os celulares tocavam sem parar e ninguém precisava olh...