A Forme do Escritor: parte: 04/ Final
Paulo estacionou o carro no final da estrada estreita e
coberta de folhas mortas. Ele olhou para o caminho que serpenteava floresta
adentro e, com um suspiro de frustração, puxou o casaco mais apertado contra o
frio cortante. Não havia sinal de vida. Apenas a quietude opressiva da
natureza.
Quando ele finalmente chegou à cabana, uma sensação
desconfortável tomou conta dele. A porta estava entreaberta, o que só aumentou
seu pressentimento de que algo estava terrivelmente errado.
— Ricardo? — chamou Paulo, entrando lentamente.
A cabana estava um caos. Garrafas vazias espalhadas por toda
parte, papéis amassados jogados pelos cantos, e o cheiro de mofo e podridão no
ar. Paulo passou os olhos pela sala, vendo restos de comida que pareciam ter
sido abandonados há dias. Havia um silêncio macabro no local, como se o tempo
tivesse parado ali.
A primeira coisa que chamou sua atenção foi a escrivaninha
de Ricardo. Sobre ela estavam empilhados cinco manuscritos grossos, todos
escritos à mão, com uma precisão obsessiva. Paulo reconheceu imediatamente a
caligrafia do autor.
— Ele finalmente conseguiu... — sussurrou Paulo para si
mesmo, aproximando-se dos livros.
Ele pegou o primeiro manuscrito e folheou as páginas. A
escrita era magnífica, mas havia algo perturbador nos temas sombrios, quase
doentios, que Ricardo explorava. Cada livro parecia estar repleto de imagens
perturbadoras de morte, desespero, criaturas grotescas e florestas assombradas.
Ao folhear os manuscritos, Paulo sentiu um calafrio percorrer sua espinha.
Mas o que realmente chamou sua atenção foi o último
manuscrito. Ao contrário dos outros, que estavam cuidadosamente encadernados,
este era uma pilha desorganizada de folhas soltas, manchadas de algo que
parecia ser sangue seco. A primeira página continha apenas uma única frase,
escrita em letras grandes e distorcidas:
"O ciclo está completo. Eu me tornei a fome."
Paulo arregalou os olhos, sentindo o coração acelerar.
Aquilo não fazia sentido. Ele tinha visto Ricardo lutando para escrever,
incapaz de criar qualquer coisa nos últimos dois anos. Agora, cinco livros
completos, e a sensação de que algo horrível havia se apoderado dele.
De repente, um som ecoou pela cabana, como um farfalhar
vindo da floresta lá fora. Paulo foi até a janela, mas não viu nada além de
sombras entre as árvores.
Ele sentiu uma pontada de medo ao perceber que, ao contrário
do que esperava, Ricardo não estava lá. A cabana estava vazia... ou quase
vazia. O ar ao seu redor parecia pesado, como se algo invisível estivesse
presente. Ele podia sentir a tensão, como se a própria floresta estivesse
observando seus movimentos.
Decidido a terminar sua tarefa, Paulo colocou os manuscritos
na mochila. Ele sabia que Ricardo sempre desejou publicar essas histórias, e se
Ricardo tivesse desaparecido para sempre, ele garantiria que o legado do
escritor fosse mantido. Mesmo que aquelas histórias tivessem algo de
perturbador, talvez fosse exatamente o que o mercado literário desejava.
Enquanto Paulo saía da cabana e se dirigia de volta à
trilha, ele não conseguia se livrar da sensação de estar sendo observado. Seus
passos na neve faziam pouco barulho, mas ele ouvia algo atrás de si, o som
abafado de galhos quebrando e folhas sendo pisoteadas. Ele parou por um
momento, olhando por cima do ombro. Foi quando ele o viu.
No limite da floresta, à beira da escuridão entre as
árvores, uma figura surgiu. Alta, sombria, com chifres imponentes e retorcidos
se destacando na cabeça. O corpo era magro e alongado, coberto de sombras que
pareciam dançar em torno dele como fumaça. A presença monstruosa, com a cabeça
de cervo e olhos brilhantes, observava Paulo em silêncio.
Por um breve momento, Paulo congelou. Seu instinto lhe dizia
para correr, mas seus pés pareciam enraizados no chão. Ele sentiu a garganta
secar e o coração disparar.
— Ricardo...? — sua voz era apenas um sussurro, quase
inaudível.
A criatura inclinou a cabeça, como se estivesse estudando-o,
e deu um passo à frente, seus chifres curvando-se para cima, como uma coroa de
sombras. Paulo sabia que aquilo não era mais o escritor que ele conhecia. Algo
havia tomado o controle de Ricardo. Algo muito antigo, muito faminto.
Com um movimento rápido, Paulo girou o corpo e começou a
correr de volta pela trilha, o som de seus passos reverberando na floresta.
Atrás dele, o farfalhar das folhas e galhos aumentava, como se a criatura o
estivesse perseguindo. Paulo corria o mais rápido que podia, o medo dando força
a suas pernas.
Finalmente, ele chegou ao carro, as mãos trêmulas enquanto
lutava para encontrar a chave no bolso. Assim que conseguiu destravar as
portas, ele entrou rapidamente, trancando-se dentro do veículo. Ofegante, olhou
pelo retrovisor. A criatura havia desaparecido.
Ainda tremendo, Paulo ligou o carro e arrancou dali o
coração batendo descompassado no peito. Ele sabia que não poderia esquecer o
que viu. Algo terrível havia acontecido com Ricardo, e ele tinha que contar
para alguém. Mas, enquanto dirigia de volta à cidade, a ideia de publicar
aqueles livros se infiltrou em sua mente.
Eles eram brilhantes, mesmo que macabros. E, de certa forma,
ele sentia que Ricardo ainda estaria vivo, de algum modo, através dessas
histórias.
Dias depois, Paulo levou os manuscritos para a editora, e,
como esperado, eles ficaram impressionados com a profundidade e a intensidade
do trabalho de Ricardo. O plano para publicar os livros foi colocado em ação
quase imediatamente.
Enquanto os dias passavam, Paulo tentava esquecer o que
havia visto na floresta, mas não conseguia. Ele se pegava pensando na criatura,
nas sombras entre as árvores, e, principalmente, nas últimas palavras de
Ricardo: "O ciclo está completo."
Os livros começaram a ser editados, e em breve, seriam
lançados para o público. Paulo sabia que estavam prestes a se tornar um sucesso
massivo, mas uma parte dele sentia um medo profundo do que poderia vir a
seguir.
Três anos haviam se passado desde o lançamento do primeiro
dos cinco manuscritos que Paulo encontrara na cabana. Cada um dos livros se
tornara um fenômeno literário, conquistando legiões de leitores que ficavam
fascinados com o tom sombrio e a profundidade perturbadora das histórias. Os
críticos falavam dos livros como se fossem obras-primas de terror psicológico,
com temas que ressoavam profundamente com o subconsciente humano, revelando os
medos mais profundos e inconfessáveis.
Para Paulo, os últimos anos foram um turbilhão de sucesso.
Ele não apenas tinha se tornado um dos agentes literários mais renomados do
mercado, como também havia se beneficiado financeiramente de maneira
inimaginável. Os royalties dos livros de Ricardo garantiam-lhe uma vida de
luxo, e sua agenda estava sempre cheia de festas, eventos literários e
entrevistas. Ele era convidado a todo tipo de evento, desde premiações até
palestras, como se fosse o próprio autor das obras. Mas, no fundo, uma
inquietação começava a crescer.
Toda vez que lançava um dos livros de Ricardo, ele se
lembrava do que havia acontecido na cabana, do terror que sentira ao encontrar
aquele ser de chifres, e do desaparecimento inexplicável do escritor. A cada
lançamento, ele sentia um peso maior, como se estivesse contribuindo para algo
muito mais sinistro do que simples literatura. Mesmo assim, o dinheiro falava
mais alto. A fama também.
O terceiro livro havia sido lançado recentemente, e, como os
dois anteriores, fora um sucesso estrondoso. O público clamava por mais, e
Paulo, ainda que hesitante, sabia que ainda tinha dois manuscritos para
publicar. Mas algo nele o alertava para os possíveis perigos de continuar. Ele
havia notado padrões bizarros entre os leitores mais fanáticos. Comentários em
fóruns de fãs falavam de pesadelos recorrentes, visões perturbadoras e uma
estranha sensação de estarem sendo observados depois de lerem as obras. Paulo
tentava afastar esses pensamentos, mas eles começavam a persegui-lo.
Certa noite, enquanto estava em uma festa luxuosa em sua
nova casa — uma mansão comprada com os lucros das vendas — Paulo observava as
pessoas rindo, conversando e discutindo a obra de Ricardo. O ambiente era
repleto de intelectuais, críticos literários, e até mesmo algumas celebridades,
todos fascinados pelos livros. As paredes da sala estavam decoradas com enormes
pinturas abstratas e sombrias, inspiradas nas descrições vívidas dos romances.
Paulo se serviu de mais uma taça de vinho e caminhou até a
varanda para tomar um ar. O sucesso o cercava de todos os lados, mas havia uma
inquietação crescente dentro dele. As lembranças da cabana, da figura com
cabeça de cervo e dos manuscritos manchados de sangue, começaram a voltar com
mais intensidade.
Ele sentiu um arrepio percorrer sua espinha.
Enquanto olhava para o horizonte, algo se mexeu nas sombras
do jardim abaixo. Era quase imperceptível, mas seus olhos captaram um movimento
furtivo entre as árvores que circundavam a casa. Ele franziu a testa,
esforçando-se para enxergar melhor.
Por um instante, Paulo pensou ter visto algo — uma forma
alta e magra, com chifres.
Ele piscou várias vezes, sentindo o pânico subir à garganta.
"Não pode ser", pensou. "Isso é impossível."
Voltou rapidamente para dentro, tentando afastar o medo
crescente que começava a dominar sua mente. Talvez fosse apenas o efeito do
álcool e da tensão acumulada. Mas uma parte dele sabia que aquilo não era
imaginação.
Naquela noite, depois que os convidados se foram e a casa
ficou silenciosa, Paulo permaneceu acordado, deitado em sua cama, incapaz de
dormir. Ele ouvia o silêncio opressor ao redor e se sentia cada vez mais
isolado, como se a escuridão estivesse se fechando sobre ele. Toda vez que
fechava os olhos, via a imagem daquele ser, a mesma criatura que o havia
aterrorizado anos atrás na cabana. E agora, parecia que ela o perseguia.
Nos dias seguintes, Paulo tentou seguir com a rotina normal.
Continuou participando de reuniões com editores, discutindo a publicação do
próximo livro e lidando com as pressões do mercado literário. Mas a sensação de
estar sendo observado persistia. Ele não conseguia se livrar da impressão de
que algo, ou alguém, estava sempre à espreita.
Ele parou de dormir direito. Passava noites em claro, andando
pela casa ou bebendo, na tentativa de afastar as visões que começavam a
assombrá-lo. E então, as coisas pioraram.
Certa noite, enquanto revisava um contrato, ele ouviu um som
vindo do andar de baixo. Um arrastar de pés. Inicialmente, pensou que fosse o
vento ou talvez o sistema de aquecimento, mas o som ficou mais claro — como se
algo estivesse se movendo pela casa. Paulo se levantou devagar, sentindo o
coração acelerar, e pegou uma faca de cozinha que estava sobre a mesa.
Ele desceu as escadas, cada passo cuidadosamente calculado.
O som havia parado. Quando chegou à sala, não viu nada. A casa estava
mergulhada em silêncio novamente.
Mas, ao virar-se para voltar ao escritório, ele parou.
Na enorme parede de vidro que dava para o jardim, ele viu. A
sombra com chifres, parada do lado de fora, apenas olhando para ele. A criatura
não se mexia, apenas observava, com os grandes chifres se erguendo em contraste
com a luz fraca da lua.
Paulo recuou, sentindo as pernas fraquejarem. O pânico tomou
conta dele. Ele sabia que aquilo não era uma alucinação. Estava de volta.
Ele correu para o quarto, trancando-se lá dentro. Ficou
sentado na cama, com a faca apertada nas mãos, sem conseguir respirar direito.
Passou a noite toda ali, sem dormir, apenas esperando.
Na manhã seguinte, ele sabia o que precisava fazer. Não
podia continuar ignorando o que havia acontecido com Ricardo, ou o que os
manuscritos realmente significavam. Ele tinha que voltar à cabana.
Dois dias depois, Paulo estava novamente na floresta,
seguindo o caminho sinuoso até a velha cabana de Ricardo. O ar estava pesado e
gelado, e a floresta parecia mais escura do que ele lembrava. Cada passo que
ele dava era seguido por uma sensação crescente de que algo estava muito
errado.
Quando ele finalmente chegou à cabana, o lugar estava
exatamente como ele lembrava. Abandonado, com a porta entreaberta e o silêncio
mortal que o cercava. A cabana parecia um túmulo esquecido no meio da floresta.
Paulo entrou com cautela, a faca ainda guardada em seu
casaco. O cheiro de podridão ainda permeava o ar, como se a presença do que
quer que habitasse aquele lugar nunca tivesse realmente partido.
Ele foi até o escritório onde encontrara os manuscritos pela
primeira vez. O lugar estava empoeirado, mas ainda havia vestígios da bagunça
que Ricardo havia abandonado. Papéis amassados, garrafas vazias... e uma coisa
que ele não havia visto antes.
No chão, atrás da cadeira de Ricardo, havia marcas de garras
profundas arranhadas no chão de madeira. Como se algo gigantesco e sombrio
tivesse estado ali, por muito tempo.
Na noite em que o último livro de Ricardo foi publicado,
Paulo se encontrava em sua nova mansão, um monumento ao sucesso que conquistara
nos últimos anos. O lançamento havia sido um sucesso absoluto. Críticos
chamavam o livro de uma obra-prima, leitores estavam obcecados, e as vendas
atingiam números astronômicos. Paulo havia se transformado no agente literário
mais bem-sucedido do país. Ele sabia que, com aquele último volume, seu nome
estava gravado para sempre no mundo editorial.
Sentado em sua sala luxuosa, com uma taça de vinho na mão,
ele observava os números subindo em sua conta bancária. Era quase irreal ver
tantos zeros ali. Um sorriso satisfeito se formava em seu rosto à medida que a
ideia de sua ascensão se consolidava. Paulo havia ganhado muito mais do que
dinheiro; ele havia conquistado prestígio, respeito, e uma posição inalcançável
no mundo da literatura.
Ele tomou mais um gole de vinho, fechando os olhos por um
momento, saboreando a sensação do líquido descendo por sua garganta, enquanto o
brilho suave do computador iluminava seu rosto.
Foi então que sentiu. Aquele mesmo arrepio na espinha, o
mesmo calafrio que o assombrava desde a primeira vez que se deparara com os
manuscritos de Ricardo. Era como se a escuridão ao seu redor se tornasse mais
densa, mais opressiva. Ele abriu os olhos de repente, sentindo uma presença no
ambiente. O ar ao seu redor parecia pesado, quase sufocante.
Então, ele ouviu.
"Você está com fome?"
A voz parecia sussurrada diretamente em seu ouvido, um som
que reverberava com uma vibração sobrenatural. Paulo congelou, sua taça de
vinho tremendo em sua mão. Ele não ousava se virar. Seu coração disparou, e ele
sentiu uma onda de terror varrer seu corpo.
"Deixe-me alimentá-lo."
Paulo finalmente olhou para trás, seu corpo rígido de medo.
E lá estava ela. A presença sombria, o mesmo ser que ele acreditava estar
apenas nas fantasias de Ricardo. A criatura tinha a cabeça de cervo, com
chifres longos e retorcidos, e seu corpo era composto de sombras, como se a
própria escuridão da sala estivesse moldada em sua forma.
O ar ao redor da criatura parecia distorcido, e seus olhos —
se é que aquilo podia ser chamado de olhos — brilhavam em um tom vermelho
profundo, como carvões em brasa. A figura não fazia som ao se mover, mas Paulo
sentia o peso esmagador de sua presença.
"Você está com fome?", repetiu a criatura, com a
mesma suavidade perturbadora.
Paulo tentou responder, mas sua voz falhou. Ele estava
paralisado pelo terror, a faca da realidade finalmente perfurando o véu de
negação que ele havia tecido ao redor de si. Todas as noites em que ele tentara
afastar a sensação de algo errado, todas as vezes em que ignorara os horrores
que os livros de Ricardo pareciam evocar, culminavam naquele momento. E agora,
a presença estava ali, diante dele.
"Você me alimentou por anos", a criatura disse,
inclinando-se lentamente para mais perto de Paulo, os chifres quase tocando o
teto. "Mas agora, eu estou com fome de algo mais."
Paulo, finalmente encontrando sua voz, gaguejou: "O-o
que você quer de mim?"
A criatura inclinou a cabeça, como se estivesse considerando
a pergunta. Um silêncio espesso se instalou entre eles, o som de Paulo
respirando com dificuldade era a única coisa que preenchia o ambiente.
"Você teve sucesso. Ganhou fama, fortuna, prestígio.
Mas há um preço para o que você colheu", a criatura disse, com uma calma
que era ainda mais aterrorizante.
Paulo tentou levantar-se da cadeira, mas seu corpo parecia
colado ao assento. A presença estendeu uma mão — uma mão que parecia composta
de sombras líquidas — e tocou levemente o ombro de Paulo. O toque queimou, mas
não de forma física. Era como se algo dentro dele estivesse sendo corroído
lentamente, uma sensação de pavor profundo que o consumia de dentro para fora.
"Eu preciso de algo mais. Algo que só você pode
dar", disse a criatura, sua voz ecoando pela mente de Paulo como um
sussurro eterno.
"Não… eu… já te dei tudo!" Paulo balbuciava,
tentando se afastar, mas seu corpo simplesmente não respondia. Ele estava
preso, imobilizado pelo terror.
A presença apenas observava, sua figura de chifres e sombras
permanecendo imóvel por alguns segundos antes de responder.
"Você me deu histórias. Alimentei-me de sua fome por
poder e sucesso. Mas agora, preciso de mais… preciso de sua essência."
Antes que Paulo pudesse reagir, a criatura inclinou-se ainda
mais, seus chifres roçando levemente o rosto dele, que já estava coberto de
suor frio. Ele sentiu uma pressão crescente na cabeça, como se algo estivesse
sendo arrancado de dentro dele, uma parte de sua alma sendo devorada pela
criatura.
A dor foi excruciante, mas não física. Era algo além da
compreensão, como se todas as suas memórias, seus desejos, suas ambições
estivessem sendo sugadas por aquele ser infernal. Ele queria gritar, mas sua
voz falhou, sua mente girava em um redemoinho de desespero e horror. E então,
como num estalar de dedos, tudo parou.
Paulo caiu para frente, ofegante, seu corpo tremendo. A
presença havia desaparecido. Ele estava sozinho novamente, mas a sensação de
vazio dentro de si permanecia. Algo tinha sido arrancado de sua alma, algo que
ele jamais conseguiria recuperar.
Na manhã seguinte, Paulo acordou na mesma posição em que
caíra na noite anterior, a cabeça latejando e o corpo dolorido. A sala estava
mergulhada em silêncio absoluto. Ainda desnorteado, ele se levantou, esfregando
os olhos e tentando se recompor. Mas algo estava errado. Ele sentia-se
estranho, como se estivesse em uma espécie de névoa.
Ele olhou em volta, tentando lembrar o que havia acontecido,
mas sua memória estava turva. As lembranças da criatura com chifres pareciam
distantes, como se fossem um pesadelo do qual ele não conseguia acordar.
Foi então que ele percebeu a mensagem no seu celular. Era do
editor de Ricardo, e dizia apenas: "O que você fez para o último livro
vender tão bem? As pessoas estão ficando obcecadas. Acho que algo não está
certo. Me ligue."
Paulo ignorou a mensagem e olhou para o espelho na sala. Ele
estava pálido, seus olhos fundos e opacos. Havia algo nele, algo que ele não
conseguia explicar. Como se a presença ainda estivesse ali, dentro dele,
alimentando-se lentamente.
E então, no reflexo do espelho, ele viu. Atrás de si, nas
sombras do corredor, a figura com chifres o observava novamente.
Fim.

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