Os Malditos da Terra: Parte: 01

 


Em uma noite sem lua, as nuvens pesadas cobriam o céu, deixando a estrada praticamente invisível. Jorge dirigia seu carro, os faróis cortando a escuridão enquanto se aproximava do restaurante onde havia planejado jantar. Ele estava cansado após um longo dia de trabalho, e a ideia de uma refeição quente era a única coisa que mantinha seus olhos abertos.

O restaurante, uma pequena construção de tijolos vermelhos com uma placa de néon apagada, parecia deserto quando ele chegou. Havia apenas um carro velho estacionado na entrada. Jorge estacionou o carro, deu uma última olhada no céu escuro, e entrou.

Lá dentro, o lugar estava tão vazio quanto parecia do lado de fora. As mesas estavam limpas, mas vazias, e o único som era o zumbido suave de um rádio tocando uma música antiga. Uma garçonete de aparência cansada se aproximou e entregou-lhe o cardápio com um sorriso forçado.

"Boa noite. O que posso trazer para você?" ela perguntou, a voz abafada como se estivesse falando debaixo d'água.

Jorge pediu um prato de carne assada e legumes, com uma taça de vinho. A comida chegou rápido, e ele comeu em silêncio, sentindo uma estranha sensação de desconforto crescer dentro dele. O sabor era bom, mas algo na textura estava errado, como se a carne fosse... mais densa do que deveria ser. Ele empurrou esse pensamento para longe e terminou sua refeição rapidamente.

De volta ao carro, Jorge deu partida e começou a dirigir para casa. A estrada parecia mais escura do que antes, e as árvores ao redor se fechavam sobre ele como uma muralha viva. Ele dirigiu por cerca de vinte minutos quando, de repente, o GPS perdeu o sinal. A tela ficou branca, mostrando apenas um ponto piscando no centro.

"Que ótimo..." murmurou ele, tentando mexer no aparelho, mas sem sucesso. Olhou para a estrada e percebeu que estava indo em direção a uma cidade que não estava no mapa, algo que ele nunca tinha visto antes.

As luzes da cidade eram estranhamente amareladas, quase como se iluminassem as ruas com velas em vez de lâmpadas. As construções tinham um aspecto antigo, com fachadas de madeira desgastadas e janelas escuras que pareciam observar cada movimento seu. Ele não se lembrava de ter visto essa cidade no caminho para o restaurante, e ela definitivamente não deveria estar ali.

Enquanto ele se aproximava do centro da cidade, o pneu do carro fez um barulho de estalo alto e começou a soltar fumaça. O carro sacudiu e, antes que ele pudesse reagir, o veículo parou com um solavanco. "Pneu furado... só pode ser brincadeira," disse Jorge, batendo no volante em frustração.

Ele pegou o celular para pedir ajuda, mas não havia nenhum sinal. A barra de sinal estava completamente vazia, como se ele estivesse no meio de um deserto. Tentou ligar o GPS novamente, mas continuava morto.

Jorge saiu do carro, sentindo o ar frio da noite tocar sua pele. Olhou ao redor e percebeu que não havia uma única alma nas ruas. As luzes das casas e das lojas piscavam de forma irregular, como se estivessem sendo alimentadas por algo antigo e falho. Ele gritou, "Alguém aí? Preciso de ajuda!" Mas sua voz ecoou pelas ruas vazias, sem resposta.

O som do vento soprando entre as construções aumentava a sensação de isolamento. Ele olhou para o pneu furado e percebeu que não tinha o equipamento necessário para trocá-lo. Decidiu caminhar em direção à construção mais próxima, que parecia ser uma loja ou um bar, com uma placa enferrujada pendurada na entrada.

Ao se aproximar da porta, ele notou algo perturbador: a placa não tinha palavras, apenas um símbolo gravado que parecia um olho, mas não exatamente humano. Era maior, distorcido, e parecia segui-lo com um olhar acusador. Ele hesitou por um momento, mas então, um som vindo de dentro chamou sua atenção — uma risada baixa e sussurrante, quase um murmúrio.

Jorge empurrou a porta e entrou. O interior estava repleto de sombras e uma camada de poeira cobria cada superfície. O ar estava pesado, como se não houvesse sido respirado em anos. Ele tentou chamar, "Olá? Tem alguém aqui?" e mais uma vez, sua voz parecia ser engolida pelo silêncio.

Do fundo do estabelecimento, uma figura emergiu. Era um homem de terno antigo, com a pele pálida e olhos que pareciam vazios, como se houvesse algo profundamente errado com ele. O homem sorriu, mas o sorriso não alcançou os olhos.

"Você parece perdido," disse o homem, a voz arranhando como um sussurro saído de uma caverna.

"Meu carro quebrou e... não tenho sinal no celular. Você pode me ajudar a conseguir uma borracharia ou chamar um reboque?" perguntou Jorge, tentando esconder o nervosismo crescente.

O homem apenas balançou a cabeça lentamente. "Nesta cidade, raramente temos visitantes. O melhor que posso fazer é sugerir que você espere até o amanhecer. Talvez as coisas sejam mais claras à luz do dia."

"Eu só preciso de um sinal para o meu telefone. Nada funciona por aqui?" insistiu Jorge.

"Não, senhor," respondeu o homem. "Os sinais não vêm aqui. E as coisas que vêm... são difíceis de deixar."

Uma risada baixa e gutural ecoou de algum lugar além da porta dos fundos, e Jorge sentiu um arrepio subir pela espinha. Olhou em direção ao som, mas não viu nada além de escuridão.

"Eu... acho que vou esperar no carro," disse Jorge, virando-se rapidamente para sair.

Enquanto voltava para o carro, sentiu que a cidade ao redor parecia mudar. As janelas das casas agora estavam cheias de rostos pálidos e distorcidos, observando-o em silêncio. Os postes de luz emitiam um brilho doentio, quase como se o estivessem iluminando de propósito, destacando-o na escuridão.

Quando alcançou o carro, percebeu que os pneus estavam todos furados agora, e marcas de mãos ensanguentadas cobriam as portas e janelas. O que quer que tivesse feito aquilo, o havia feito em total silêncio, sem que ele percebesse.

O desespero tomou conta, e ele pegou o celular novamente, tentando, desesperadamente, obter qualquer sinal. Mas, ao olhar para a tela, viu algo que fez seu coração parar: a imagem de si mesmo refletida na tela, mas com algo atrás dele, uma figura alta e encapuzada, com olhos brilhantes e dentes afiados em um sorriso perturbador.

Antes que pudesse virar para olhar, a luz dos faróis do carro piscou, e a figura desapareceu. Jorge estava sozinho, ou pelo menos era isso que ele queria acreditar.

Ele precisava sair dali, mas a cidade parecia crescer à sua volta, as ruas se estendendo e se torcendo de formas impossíveis, como um labirinto que não estava ali minuto atrás. As luzes amareladas das casas pareciam apagar uma a uma, deixando-o no escuro cada vez mais denso. O único som era o de sua própria respiração e os passos lentos e arrastados que ecoavam nas sombras atrás dele.

Jorge congelou quando viu a figura emergir das sombras, empunhando uma arma que brilhava sob a luz amarelada dos postes. Era uma espingarda velha, mas ainda assim mortal, apontada diretamente para o peito dele. O homem que segurava a arma tinha os olhos arregalados e uma expressão de desconfiança, como se estivesse vendo um fantasma.

"Quem é você? O que está fazendo aqui?" gritou o homem, sem baixar a arma.

"Eu... eu só estou perdido! Meu carro quebrou, e não sei como cheguei nessa cidade!" respondeu Jorge, levantando as mãos, tentando mostrar que não era uma ameaça. Ele estava assustado, mas também confuso pelas palavras do estranho.

"Mentira!" rosnou o homem, apertando os lábios. "Você é um deles, não é? Um daqueles que vêm da terra! Vocês não conseguem nos deixar em paz, não é?"

"O quê? Do que você está falando? Eu não sei do que você está falando! Eu não sou de lugar nenhum, só estou tentando voltar pra casa!" Jorge estava mais perdido do que nunca. As palavras do homem não faziam sentido, mas havia algo na sua voz, um pânico e desespero, que parecia real.

O homem hesitou, os olhos avaliando Jorge com mais cuidado, como se estivesse tentando decidir se ele estava falando a verdade. Finalmente, ele baixou a arma um pouco, mas não completamente. "Se você não é um deles, então vai ter que provar. Vamos, venha comigo." Ele fez um gesto brusco com a cabeça, indicando que Jorge deveria segui-lo.

Sem outra escolha, Jorge o seguiu, seus olhos sempre na espingarda ainda apontada na sua direção. Eles caminharam por ruas estreitas e tortuosas, passando por casas que pareciam cada vez mais decadentes e esquecidas, até chegarem a um prédio grande e velho, com janelas cobertas por tábuas e uma porta de madeira que rangia ao ser aberta.

Dentro do prédio, havia um grupo de pessoas, todas com olhares apreensivos. Alguns carregavam armas improvisadas, enquanto outros pareciam exaustos, sentados em bancos e cadeiras antigas. A sala era iluminada apenas por lanternas a óleo, lançando sombras dançantes nas paredes.

"Encontrei ele vagando pela rua," anunciou o homem que trouxe Jorge. "Diz que não é um deles, mas vou deixar o grupo decidir."

As pessoas se viraram para Jorge, algumas com expressões de desconfiança, outras de esperança misturada com medo. Uma mulher de meia-idade, com cabelo grisalho e olhos cansados, se aproximou e olhou diretamente nos olhos de Jorge. "Você não deveria estar aqui, estrangeiro," ela disse em um tom calmo mas firme. "Essa cidade... ela não está em qualquer mapa. E aqueles que chegam até aqui normalmente têm um motivo."

"Eu juro, eu só estava tentando voltar para casa," Jorge respondeu, sentindo a necessidade de explicar. "Estava no restaurante, fui para o carro, e de repente essa cidade apareceu do nada. Meu pneu furou, meu celular não tem sinal, e estou preso aqui. Eu não queria estar aqui!"

A mulher suspirou e trocou um olhar rápido com os outros no grupo. "Se o que você diz é verdade, então você é diferente. Porque as pessoas da terra... elas chegam aqui por escolha, não por acaso."

"Quem são essas 'pessoas da terra'?" perguntou Jorge, sua confusão só aumentando. "Do que vocês estão falando?"

"São os outros," respondeu um homem magro e nervoso, segurando uma faca enferrujada. "Eles vêm de debaixo da terra, espreitam nas sombras, tentam nos pegar quando não estamos olhando. Usam rostos como os nossos, mas não são humanos. E você... bem, você apareceu de repente, assim como eles."

"É por isso que estamos aqui," disse a mulher de cabelo grisalho. "Essa cidade é uma armadilha. Um lugar onde as leis do mundo lá fora não se aplicam. Aqueles que caem nela não saem mais. E os que vêm debaixo da terra... eles caçam."

"Você não parece um dos caçadores," disse o homem que havia apontado a arma para Jorge. "Mas se você está aqui, então algo o trouxe para este lugar. Algo quer você aqui."

"O que vocês querem dizer com 'não saem mais'?" perguntou Jorge, sentindo um frio se espalhar em seu peito.

"Você não percebeu?" perguntou a mulher, com uma expressão amarga. "Nenhuma tecnologia funciona aqui. Sem sinais, sem comunicação, sem saída. Estamos presos como peixes em uma rede, e quanto mais tentamos escapar, mais a cidade muda ao nosso redor para nos manter aqui."

"O que está mantendo vocês aqui?" Jorge perguntou, sentindo que algo estava errado, muito errado.

"A cidade está viva," disse a mulher, em voz baixa. "Ela muda e se adapta, como se estivesse nos observando. Cada rua, cada beco, cada casa... são partes de um organismo maior, que nos mantém aqui para seu próprio divertimento."

"E as pessoas da terra são parte disso," completou o homem da espingarda. "São como os seus soldados. Aqueles que espreitam e caçam os que tentam escapar."

Jorge sentiu o chão desaparecer sob seus pés enquanto tentava processar tudo o que ouviu. A cidade não era apenas um lugar, era uma armadilha consciente, uma entidade que se alimentava das almas que prendia ali. E ele havia caído exatamente onde ela queria.

"Então, o que fazemos agora?" perguntou Jorge, olhando para o grupo, buscando alguma forma de esperança.

"Agora," respondeu a mulher de cabelo grisalho, "nós tentamos sobreviver. Mas você... você pode ser a nossa chance. Se você realmente não é um deles, talvez possamos usar isso para encontrar uma saída. Uma brecha que a cidade não previu."

Antes que Jorge pudesse responder, um som alto e metálico ecoou do lado de fora, como um sino sendo batido com violência. As luzes das lanternas tremularam, e todos os presentes se viraram para a porta com expressões de puro pavor.

"Eles estão aqui," sussurrou o homem magro, apertando a faca com mãos trêmulas.

"Preparem-se!" gritou o homem com a espingarda, apontando-a para a porta. "Se eles entrarem, não tenham piedade. Lembrem-se de que eles podem parecer conosco, mas não são humanos."

Jorge sentiu a tensão no ar se transformar em um terror palpável. As sombras ao redor pareceram se mover, como se formas estivessem espreitando logo além da luz, prontas para atacar. O prédio rangeu como se estivesse vivo, e os murmúrios de vozes inumanas vinham de todos os lados.

O olhar de Jorge encontrou o da mulher de cabelo grisalho. "Você disse que posso ser a chance de sair daqui. Como? O que eu preciso fazer?"

"Você precisa sobreviver," ela respondeu, com um sorriso sombrio. "Porque só os vivos podem negociar com a cidade."

A noite caiu sobre a cidade como um véu denso e sufocante, engolindo qualquer esperança de segurança. As poucas lanternas a óleo que restavam iluminavam fracamente o interior do prédio onde Jorge e os outros estavam reunidos, lançando sombras oscilantes pelas paredes. O silêncio lá fora era inquietante, quebrado apenas pelo vento que soprava pelas ruas desertas.

Então, Jorge ouviu. Primeiro, um som distante, como o arrastar de pés sobre o asfalto rachado. Um murmúrio baixo, quase como se vozes sussurrassem em uma língua esquecida, ecoou entre as casas decadentes. Ele apertou os olhos e olhou para as janelas, mas não havia nada além de escuridão e sombras dançantes.

"Fiquem longe das janelas," ordenou a mulher de cabelo grisalho em voz baixa, enquanto segurava um pedaço de madeira como uma arma improvisada. "Eles se escondem nas sombras. É assim que eles se movem."

Jorge deu um passo para trás, sentindo um frio gelado subir por sua espinha. Ele podia ver, ou pelo menos achava que podia, formas disformes se movendo na escuridão lá fora. Eram apenas vultos, mas seus movimentos eram erráticos e quase impossíveis de definir, como se não fossem completamente sólidos.

De repente, um som alto e violento ecoou pela sala — um golpe pesado contra a porta de madeira. Todos congelaram no lugar, virando-se para a origem do ruído. O barulho se repetiu, desta vez mais forte, fazendo a madeira tremer e rachar.

"Eles estão aqui!" gritou o homem com a espingarda, correndo para se posicionar em frente à porta. "Preparem-se para o pior!"

Jorge se encolheu, o coração batendo descontroladamente. Ele não tinha nenhuma arma, nada que pudesse usar para se defender. Tudo o que podia fazer era observar enquanto o homem da espingarda apertava os olhos e apontava o cano da arma para a porta, pronto para disparar ao menor sinal de movimento.

Outro golpe brutal contra a porta, e dessa vez as dobradiças rangeram, ameaçando ceder. Algo estava tentando entrar, e estava fazendo isso com uma força que parecia desumana. Lá fora, os murmúrios cresceram, uma cacofonia de vozes que pareciam vir de todas as direções, como se as próprias sombras estivessem sussurrando segredos antigos e perversos.

"Não os deixe entrar!" gritou a mulher de cabelo grisalho, recuando para perto das outras pessoas no grupo. "Se eles entrarem, estamos perdidos!"

Jorge olhou para os rostos ao seu redor, vendo o terror nos olhos de cada um deles. Eles estavam todos presos ali, sem saída, e as sombras que os cercavam pareciam estar vivas, se alimentando de seu medo. Ele sabia que se aquela porta se abrisse, algo terrível iria acontecer.

Outro golpe, e a porta quase se abriu. O homem com a espingarda disparou um tiro que ecoou como um trovão na pequena sala. Um grito inumano veio de fora, seguido pelo som de algo se arrastando, fugindo para longe.

"Conseguimos afastá-los!" disse ele, respirando pesadamente, mas ninguém parecia relaxar. Todos sabiam que aquela era apenas uma pequena vitória, e que o verdadeiro horror ainda estava por vir.

Jorge se aproximou lentamente da janela, ignorando os avisos para ficar longe. Ele precisava ver, precisava entender o que estava os cercando. Ao olhar para fora, seus olhos se ajustaram à escuridão, e ele finalmente viu com mais clareza.

As sombras não eram apenas escuridão. Eram criaturas, humanoides, mas distorcidas, com formas que se contorciam e mudavam a cada segundo. Seus olhos brilhavam com um vermelho penetrante, e suas bocas se abriam em sorrisos largos demais para serem humanos, dentes afiados visíveis na penumbra.

"Eles estão nos observando," sussurrou Jorge, mais para si mesmo do que para os outros. "Estão esperando algo."

"Esperando que a luz se apague completamente," respondeu a mulher de cabelo grisalho, que agora estava ao lado dele. "Esses seres... eles são parte da cidade. São o que a mantém viva, o que a alimenta."

"Eles estão esperando por nós," completou o homem com a espingarda, a voz tremendo levemente. "Esperando o momento certo para nos pegar."

De repente, uma das lanternas a óleo piscou e apagou-se, mergulhando um canto da sala em escuridão completa. Uma risada baixa, distorcida, ecoou do lado de fora, como se a própria escuridão estivesse se divertindo com o desespero deles.

"Segurem as lanternas! Não deixem a luz apagar!" gritou a mulher, tentando reacender a chama com mãos trêmulas.

Jorge sentiu algo gelado tocar sua nuca e se virou abruptamente. Lá fora, as criaturas estavam mais próximas agora, quase coladas nas janelas, seus sorrisos alargados e olhos vermelhos fixos nele. Elas não pareciam preocupadas com a luz que restava — na verdade, pareciam estar se alimentando de cada momento de pânico.

O prédio tremeu como se a cidade inteira estivesse viva, como se cada parede, cada janela, fosse uma extensão da vontade da cidade, que agora estava se divertindo com a situação de Jorge e do grupo. E no fundo da mente de Jorge, uma voz sussurrou algo que ele não conseguia ignorar:

"Você nunca deveria ter saído do restaurante."

Aquelas palavras ecoaram em sua mente, deixando-o ainda mais perdido e sem respostas. Tudo parecia parte de um jogo maior, um jogo que ele não entendia e cujas regras ele não conhecia. Mas uma coisa era clara — a cidade e as criaturas nas sombras não iam parar até que tivessem o que queriam.

"Eles não são como nós," disse a mulher, com uma expressão de medo e resignação. "Eles podem parecer humanos, podem até imitar nossas vozes, mas são outra coisa... uma coisa antiga que esta cidade despertou."

A escuridão estava se fechando ao redor deles, lenta e inevitavelmente. E Jorge sabia que a única chance de sobrevivência era entender o que aqueles seres queriam e como a cidade os controlava. Porque se ele não encontrasse uma maneira de escapar, ele se tornaria apenas mais uma sombra nas ruas, uma parte da cidade que nunca deveria ter existido.

Jorge acordou na manhã seguinte com uma sensação de desconforto, como se a própria escuridão da noite passada tivesse deixado uma marca em sua mente. Ele se sentou na cama improvisada do abrigo, olhando ao redor. A luz do sol filtrava-se por uma pequena janela, mas parecia fraca e distante, como se a cidade se recusasse a permitir que o dia dissipasse completamente os horrores da noite.

Ele esfregou os olhos e se levantou, sentindo o corpo cansado e os músculos tensos. As poucas pessoas que estavam no abrigo se moviam em silêncio, seus rostos marcados pelo medo e pela exaustão. Ninguém parecia aliviado pelo amanhecer; havia uma sombra pairando sobre todos, um pressentimento de que a noite retornaria mais rápido do que gostariam.

Jorge encontrou a mulher de cabelo grisalho sentada perto de uma mesa, organizando alguns suprimentos. Ele se aproximou dela, sem saber exatamente como começar. Mas as palavras saíram antes que ele pudesse segurá-las.

"O que eram aquelas coisas? O que são esses seres que vimos na noite passada?" perguntou ele, a voz rouca e carregada de ansiedade.

A mulher olhou para ele com uma expressão de pesar, como se já tivesse respondido àquela pergunta muitas vezes antes, para muitas pessoas. Ela suspirou, passando uma mão cansada pelo cabelo.

"Não sabemos exatamente o que são," começou ela, mantendo os olhos fixos nos suprimentos à sua frente. "Tudo o que sabemos é que eles vêm de debaixo da terra. São seres antigos, muito mais antigos do que qualquer um de nós, e toda noite, eles emergem. Eles saem do solo como se estivessem retornando a um lugar que sempre foi deles."

"Debaixo da terra?" Jorge repetiu, tentando processar a informação. "Mas como isso é possível? Por que ninguém fora dessa cidade sabe sobre eles?"

"Porque essa cidade não existe para o resto do mundo," respondeu ela com um sorriso triste. "As pessoas que acabam aqui, como você, nunca planejaram estar aqui. Elas simplesmente... apareceram. E uma vez que estão aqui, é quase impossível sair."

Jorge sentiu um arrepio percorrer sua espinha. A ideia de que estava preso em uma cidade que não existia nos mapas, cercado por criaturas saídas de um pesadelo, era insuportável. Ele olhou pela janela, vendo as ruas desertas e os edifícios em ruínas, tentando entender como tudo isso era possível.

"O que esses seres querem?" perguntou ele, quase implorando por uma resposta que fizesse sentido. "Eles nos atacaram porque... por quê? O que estamos fazendo aqui?"

A mulher balançou a cabeça lentamente. "Não sabemos o que eles querem. Não sabemos se têm um propósito ou se agem por instinto. Mas uma coisa é certa — eles caçam à noite. E quando caçam, não mostram misericórdia."

"Então, somos apenas presas para eles?" Jorge murmurou, sentindo o pânico subir em sua garganta.

"Sim," respondeu ela com firmeza, olhando diretamente nos olhos de Jorge. "Para eles, somos como qualquer outra coisa que rasteja na superfície. Somos apenas mais um alimento, mais uma parte da cidade que eles devoram, pouco a pouco."

Um silêncio pesado caiu sobre eles, preenchido apenas pelo som distante do vento lá fora. Jorge sabia que precisava encontrar uma maneira de sair dali, mas cada resposta que recebia apenas aumentava sua sensação de desespero. Ele se virou para o grupo, que também parecia tão perdido quanto ele.

O homem com a espingarda se aproximou, interrompendo seus pensamentos. "Vamos precisar de mais suprimentos se quisermos sobreviver mais uma noite," disse ele, com a voz grave e um olhar determinado. "Estamos ficando sem comida e água. Jorge, você vai vir comigo. Precisamos vasculhar alguns dos prédios abandonados."

Jorge hesitou, mas sabia que não tinha muita escolha. Ficar no abrigo esperando pelo inevitável não era uma opção. Ele assentiu, aceitando a arma que o homem lhe ofereceu — uma pequena pistola, com apenas algumas balas. Não era muito, mas era melhor do que nada.

Enquanto se preparavam para sair, Jorge lançou um último olhar para a mulher de cabelo grisalho. "E se não conseguirmos voltar antes do anoitecer?" perguntou ele, a voz trêmula.

Ela segurou seu olhar, séria e sombria. "Então vocês terão que encontrar um lugar para se esconder. Porque quando o sol se põe, a cidade pertence a eles. E se vocês estiverem fora na escuridão... não há como saber se vão sobreviver para ver a luz do dia novamente."

Com essas palavras ecoando em sua mente, Jorge e o homem com a espingarda saíram do abrigo, entrando nas ruas desertas e silenciosas da cidade. O dia parecia mais escuro do que o normal, como se o próprio sol estivesse com medo de iluminar aquele lugar.

Enquanto caminhavam pelas ruas decadentes, Jorge sentiu o peso de cada passo que dava. Ele olhou para o solo rachado e se perguntou quantos daqueles seres estavam lá embaixo, esperando o momento certo para emergir. Cada sombra parecia se mover com uma vida própria, como se a cidade estivesse sussurrando seus segredos de horror.

"Fique atento," disse o homem com a espingarda, interrompendo seus pensamentos. "Mesmo durante o dia, não podemos nos dar ao luxo de baixar a guarda."

Jorge assentiu, apertando a arma em suas mãos suadas, tentando ignorar o crescente sentimento de pavor que se apoderava dele. Ele sabia que precisava manter a calma e encontrar uma saída daquela cidade amaldiçoada, antes que as criaturas que habitavam suas entranhas voltassem para reclamar o que achavam que era delas.

Enquanto Jorge e o homem com a espingarda continuavam a caminhada pelas ruas desertas da cidade, seus olhos atentos em busca de suprimentos, ouviram um gemido fraco vindo de um beco próximo. Os dois pararam imediatamente, trocando olhares cautelosos. O som era de alguém ferido, um sussurro quase imperceptível no silêncio inquietante que envolvia a cidade.

"Você ouviu isso?" Jorge perguntou, a voz quase trêmula.

"Sim," respondeu o homem, apontando a espingarda para o beco enquanto se aproximava com passos cuidadosos. "Fique atrás de mim, pode ser uma armadilha."

Ao se aproximarem da origem do som, encontraram um homem caído no chão, ensanguentado e com ferimentos graves nas pernas e no abdômen. Seus olhos estavam arregalados de dor e medo, e ele se contorcia, tentando desesperadamente manter a consciência.

"Socorro..." murmurou o homem ferido, estendendo a mão trêmula para eles. "Por favor, me ajudem..."

Jorge sentiu um nó no estômago ao ver o estado do homem. Ele estava maltratado, como se tivesse sido atacado por algo selvagem e impiedoso. Havia cortes profundos e marcas que lembravam garras rasgando sua carne, e o sangue escorria livremente de seus ferimentos.

"O que aconteceu com você?" Jorge perguntou, enquanto o homem com a espingarda se ajoelhava ao lado do ferido, pressionando a mão contra o ferimento mais profundo para tentar conter o sangramento.

"Eu... eu estava tentando fugir," disse o homem, a voz falhando entre os espasmos de dor. "Eles... eles vieram do chão... eles não eram... humanos."

"Precisamos levar ele para o médico agora," o homem com a espingarda declarou, olhando para Jorge com um tom de urgência. "Se ele perder mais sangue, não vai sobreviver."

Sem hesitar, eles pegaram o homem ferido pelos braços e pernas, carregando-o para fora do beco em direção ao abrigo onde o médico local estava. Cada segundo parecia uma eternidade enquanto lutavam para manter a consciência do ferido, que continuava a gemer de dor, sussurrando palavras incoerentes sobre as criaturas que o haviam atacado.

Finalmente, chegaram ao abrigo e, aos tropeços, entraram na sala improvisada onde o médico, um homem de expressão severa e olhar cansado, estava preparando seus instrumentos. O médico olhou para o homem ferido e, sem dizer uma palavra, indicou para que o colocassem na mesa de cirurgia.

"Ele está muito mal," disse o médico, avaliando rapidamente o estado do paciente. "Preciso operar imediatamente, ou ele vai morrer."

Jorge e o homem com a espingarda ficaram de lado, observando enquanto o médico trabalhava com precisão. Ele cortou a camisa ensanguentada do homem, expondo a extensão dos ferimentos. O sangue escorria em uma poça no chão, e a respiração do paciente estava ficando cada vez mais irregular.

O médico pegou seu bisturi e começou a trabalhar rapidamente, cortando e suturando, tentando estancar o sangramento. Jorge observou cada movimento, sentindo-se impotente e aterrorizado com a realidade daquele lugar. Tudo parecia irreal, como se estivesse em um pesadelo do qual não conseguia acordar.

Enquanto o médico trabalhava, o homem ferido abriu os olhos por um breve momento e segurou o braço de Jorge com uma força surpreendente. Seus olhos estavam dilatados, a expressão de terror estampada em seu rosto.

"Eles estão vindo," sussurrou ele, quase sem fôlego. "Vocês precisam sair... Eles nunca param de vir... nunca param..."

Antes que Jorge pudesse perguntar mais alguma coisa, os olhos do homem reviraram, e ele perdeu a consciência novamente. O médico continuou a cirurgia, seu rosto contraído em uma máscara de concentração, ignorando a advertência do paciente.

"Vai ser uma longa noite," disse o médico, sem tirar os olhos de seu trabalho. "Essas coisas não deixam ninguém em paz. Mas ele tem uma chance, se conseguirmos estabilizá-lo."

Jorge sentiu um calafrio percorrer seu corpo. Ele sabia que o homem ferido estava falando a verdade — aqueles seres saídos das profundezas da terra não parariam até que todos fossem devorados ou destruídos. Ele olhou para os outros sobreviventes no abrigo, suas faces pálidas e olhos arregalados, todos igualmente apavorados e conscientes de que a noite logo cairia novamente.

"Precisamos nos preparar," disse o homem com a espingarda, olhando para Jorge com um ar de determinação. "Essa cidade é um campo de caça para essas criaturas. Se não nos organizarmos, seremos apenas presas esperando pelo abate."

Jorge assentiu, ainda tentando processar tudo o que estava acontecendo. Ele sentia que algo muito maior estava acontecendo naquela cidade, algo que ele mal começava a entender. A ideia de que estavam lidando com criaturas que emergiam do chão, como se fossem fantasmas antigos ou demônios ancestrais, o aterrorizava. Mas uma coisa era clara: ele precisaria lutar, ou seria devorado pelo terror que rondava a cidade.

A noite chegou rápida e silenciosa, como uma onda de escuridão que se arrastava pelas ruas vazias da cidade. Jorge se acomodou em uma cama no abrigo, mas o sono era uma conquista difícil. As imagens das criaturas que emergiam do solo e o horror nos olhos do homem ferido que ele havia ajudado ainda estavam frescas em sua mente.

Tentando afastar o medo que sentia, Jorge fechou os olhos e se forçou a respirar fundo e devagar. Ele estava exausto, o peso do dia e da tensão esmagando suas forças, e, eventualmente, o cansaço o dominou, levando-o a um sono inquieto.

Horas depois, Jorge foi arrancado do sono por um som desesperador. Ele ouviu alguém gritando por socorro do lado de fora do abrigo, uma voz humana, cheia de pânico e agonia. O grito era claro e inconfundível: "Por favor! Alguém, me ajude! Eles estão me pegando! SOCORRO!"

Jorge se sentou de um salto, o coração disparado, ouvindo a voz repetir os pedidos de ajuda. Ele olhou ao redor da sala, vendo outros sobreviventes acordando, seus rostos tão pálidos e apavorados quanto o dele. O instinto de ajudar tomou conta de sua mente, e ele começou a se levantar, pronto para sair e socorrer quem quer que estivesse lá fora.

Mas antes que pudesse dar um passo, uma mão firme pousou em seu ombro. Era o homem com a espingarda, que olhou diretamente em seus olhos, sacudindo a cabeça em um movimento lento e sério.


                                                 Continuar...

Comentários