Prisão 666: Capítulo: 01
O portão de ferro rangiu ao se fechar atrás de Lucas,
ecoando como um trovão no corredor úmido e mal iluminado. Ele olhou para trás,
apenas por um instante, e viu o mundo exterior desaparecer atrás das grades. A
cela que agora era sua casa cheirava a mofo e desespero. Uma cama de metal
encostada na parede, um vaso sanitário enferrujado e uma pequena janela com
barras grossas completavam o cenário. Lucas respirou fundo, tentando se
acostumar com o peso daquela nova realidade.
Ele não era um homem violento. Pelo menos, não até aquela
noite. A memória do que aconteceu ainda o assombrava, como um pesadelo que não
acabava. Tudo começou com uma discussão boba em um bar, palavras duras trocadas
entre ele e um desconhecido. Lucas não conseguia nem lembrar o rosto do homem
direito, apenas os olhos cheios de ódio e o brilho da faca que apareceu do
nada. Ele agiu por instinto, lutando para se defender. Quando a poeira baixou,
o homem estava morto, e Lucas estava coberto de sangue.
O julgamento foi rápido. A defesa tentou argumentar legítima
defesa, mas as testemunhas disseram que Lucas tinha sido o agressor. Ele foi
condenado a dez anos de prisão. Dez anos. Parecia uma eternidade. Mas, nos
primeiros dias, ele se surpreendeu ao perceber que a vida na prisão não era tão
diferente da vida lá fora. Havia uma rotina, regras a seguir, hierarquias a
respeitar. Lucas aprendeu a abaixar a cabeça, a não chamar atenção. Ele não era
um criminoso experiente, mas era inteligente o suficiente para entender que,
naquele lugar, a sobrevivência dependia de saber se manter invisível.
No entanto, algo estranho começou a acontecer. Nas primeiras
semanas, Lucas notou que os outros presos o observavam de maneira diferente.
Não era o olhar de desprezo ou desafio que ele esperava, mas algo mais...
intrigante. Era como se eles soubessem algo que ele não sabia. Um dia, enquanto
estava no pátio, um homem alto e musculoso, com uma cicatriz que cortava seu
rosto de uma orelha à outra, se aproximou dele.
"Você é novo aqui, né?" o homem perguntou, com uma
voz rouca que parecia carregar anos de histórias sombrias.
Lucas assentiu, cauteloso. "Sim. Estou aqui há algumas
semanas."
O homem sorriu, revelando dentes amarelados. "Cuidado
com as sombras, rapaz. Elas têm olhos."
Antes que Lucas pudesse perguntar o que ele queria dizer, o
homem se afastou, desaparecendo entre os outros presos. A frase ecoou na mente
de Lucas por dias. Cuidado com as sombras. Elas têm olhos. O
que isso significava? Era apenas uma tentativa de assustá-lo, ou havia algo
mais por trás daquelas palavras?
À noite, enquanto tentava dormir, Lucas começou a notar
coisas estranhas. Sons abafados vindo do corredor, como sussurros que não
deveriam estar lá. Às vezes, ele tinha a sensação de estar sendo observado,
mesmo quando a cela estava vazia. Uma vez, ele acordou no meio da noite com a
certeza de que alguém estava parado ao lado de sua cama, mas quando abriu os
olhos, não havia ninguém.
Aos poucos, Lucas começou a se questionar se estava ficando
louco. A pressão da prisão, o peso da culpa, a solidão — tudo isso poderia
estar afetando sua mente. Mas, ao mesmo tempo, ele não conseguia ignorar a
sensação de que algo estava errado. Algo que ia além das paredes da prisão,
além das grades e dos guardas.
Uma semana depois, ele recebeu uma visita inesperada. Era um
homem que ele nunca tinha visto antes, vestindo um terno caro e com um ar de
autoridade. O homem se identificou como Dr. Almeida, um psicólogo que
trabalhava com o sistema prisional.
"Lucas, eu gostaria de fazer algumas perguntas", o
Dr. Almeida disse, sentando-se à mesa de visitação. "Você tem notado algo
incomum desde que chegou aqui?"
Lucas hesitou. Ele não sabia se podia confiar naquele homem,
mas algo em sua expressão o fez sentir que talvez ele pudesse ajudar.
"Eu... tenho ouvido coisas. Visto coisas. Às vezes, sinto como se
estivesse sendo observado, mesmo quando estou sozinho."
O Dr. Almeida anotou algo em um bloco de notas, seu rosto
impassível. "Interessante. E os outros presos? Eles têm agido de maneira
estranha com você?"
Lucas pensou no homem com a cicatriz, nas palavras
enigmáticas. "Sim. Eles parecem saber algo que eu não sei. Algo sobre...
as sombras."
O Dr. Almeida parou de escrever e olhou diretamente nos
olhos de Lucas. "Lucas, o que eu vou te dizer agora é confidencial. Você
não pode repetir isso para ninguém. Entendeu?"
Lucas assentiu, seu coração batendo mais rápido.
"Esta prisão não é o que parece. Há algo aqui, algo
antigo e perigoso. As sombras das quais os presos falam... elas são reais. E
elas estão observando você."
Lucas sentiu um frio percorrer sua espinha. "O que você
quer dizer? O que são essas sombras?"
O Dr. Almeida olhou para os lados, como se temesse que
alguém pudesse estar ouvindo. "Elas são... entidades. Forças que existem
além da nossa compreensão. Elas se alimentam de medo, de culpa, de dor. E esta
prisão... é um lugar onde essas emoções estão em abundância."
Lucas engoliu seco. "Por que você está me dizendo
isso?"
"Porque você é diferente, Lucas. Você não pertence
aqui. E elas sabem disso. Elas vão tentar te usar, te corromper. Você precisa
resistir."
Antes que Lucas pudesse responder, o Dr. Almeida se levantou
e saiu, deixando-o sozinho com uma enxurrada de perguntas sem resposta.
Nos dias que se seguiram, Lucas tentou processar o que havia
ouvido. Ele começou a prestar mais atenção aos seus arredores, às sombras que
pareciam se mover nos cantos de sua visão, aos sussurros que agora pareciam
mais altos, mais insistentes. Ele notou que alguns presos evitavam olhar
diretamente para ele, como se temessem atrair a atenção das sombras.
Uma noite, enquanto estava deitado em sua cama, Lucas ouviu
um barulho vindo do corredor. Era um som baixo, quase imperceptível, mas que o
fez sentar na cama, alerta. Ele se aproximou da porta da cela, tentando ver o
que estava acontecendo. No corredor escuro, ele viu uma figura parada, imóvel.
Era alta, magra, com contornos indistintos, como se fosse feita de escuridão
pura. A figura virou a cabeça lentamente, e Lucas sentiu um terror primordial
tomar conta dele. Ele recuou, fechando os olhos e rezando para que aquilo fosse
apenas um pesadelo.
Quando ele abriu os olhos novamente, a figura havia
desaparecido. Mas Lucas sabia que ela ainda estava lá, em algum lugar,
observando, esperando.
Ele começou a questionar sua sanidade. Será que tudo aquilo
era real, ou apenas o produto de uma mente perturbada? Ele não tinha mais
certeza de nada. A única coisa que sabia era que precisava descobrir a verdade,
antes que fosse tarde demais.
No dia seguinte, Lucas decidiu confrontar o homem com a
cicatriz. Ele o encontrou no pátio, fumando um cigarro em um canto isolado.
"Eu preciso saber a verdade", Lucas disse, sua voz
firme, mas carregada de medo. "O que são essas sombras? O que elas querem
comigo?"
O homem olhou para ele por um momento, seus olhos escuros
parecendo pesar as intenções de Lucas. Finalmente, ele falou: "Elas são
mais antigas do que você pode imaginar. Elas estão aqui desde antes desta
prisão existir. E elas escolheram você."
"Por quê?" Lucas perguntou, sua voz quase um
sussurro.
"Porque você tem algo que elas querem. Algo que elas
precisam."
"O quê?"
O homem sorriu novamente, mas desta vez não havia humor em
sua expressão. "Sua alma, Lucas. Elas querem sua alma."
Lucas sentiu o chão ceder sob seus pés. Ele queria acreditar
que tudo aquilo era uma piada cruel, uma tentativa de assustá-lo. Mas algo no
olhar do homem o fez perceber que ele estava falando a verdade.
"O que eu faço?" Lucas perguntou, sua voz
tremendo.
"Você precisa lutar", o homem respondeu. "Mas
cuidado. Nem todos aqui são o que parecem. Alguns já foram corrompidos. Eles
trabalham para as sombras."
Antes que Lucas pudesse fazer mais perguntas, o homem se
afastou, deixando-o sozinho com seus pensamentos.
Naquela noite, Lucas não conseguiu dormir. Ele ficou
acordado, olhando para as sombras em sua cela, imaginando o que mais poderia
estar escondido nelas. Ele sabia que não podia continuar assim. Ele precisava
de respostas, de uma maneira de se proteger. Mas como?
No dia seguinte, ele decidiu procurar o Dr. Almeida
novamente. Talvez ele pudesse ajudá-lo a entender o que estava acontecendo. Mas
quando ele perguntou aos guardas sobre o psicólogo, eles olharam para ele com
confusão.
"Dr. Almeida? Nunca ouvimos falar dele", um dos
guardas disse.
Lucas sentiu um frio percorrer seu corpo. "Ele esteve
aqui na semana passada. Ele falou comigo."
Os guardas trocaram olhares preocupados. "Lucas, não há
nenhum psicólogo com esse nome trabalhando aqui. Você tem certeza de que não
imaginou isso?"
Lucas não respondeu. Ele se afastou, sua mente girando. Se o
Dr. Almeida não era real, então quem — ou o quê — ele havia encontrado?
À medida que os dias passavam, Lucas começou a notar
mudanças em si mesmo. Ele se sentia mais fraco, como se algo estivesse drenando
sua energia. Suas noites eram atormentadas por pesadelos vívidos, nos quais ele
era perseguido por sombras que riam e sussurravam seu nome. Ele começou a ver
coisas durante o dia também — vultos que desapareciam quando ele olhava
diretamente para eles, mãos que surgiam das paredes apenas para sumir em um
piscar de olhos.
Ele sabia que não podia continuar assim. Ele precisava de
ajuda, mas não sabia a quem recorrer. Os outros presos pareciam temer as
sombras tanto quanto ele, e os guardas não acreditavam nele. Ele estava
sozinho.
Uma noite, enquanto estava deitado em sua cama, Lucas ouviu
um sussurro vindo da escuridão. Era baixo, quase imperceptível, mas ele
conseguiu distinguir as palavras.
"Você não pode escapar, Lucas. Nós somos parte de você
agora."
Ele fechou os olhos, tentando bloquear a voz, mas ela
continuou, mais alta, mais insistente.
"Você nos pertence."
Lucas gritou, cobrindo os ouvidos com as mãos, mas a voz não
parava. Ele sentiu algo frio tocando seu rosto, como se uma mão invisível
estivesse acariciando sua pele. Ele se levantou da cama, desesperado, e começou
a bater na porta da cela, gritando por ajuda.
Os guardas chegaram rapidamente, mas quando abriram a porta,
não havia nada lá além de Lucas, tremendo e suando.
"O que está acontecendo aqui?" um dos guardas
perguntou, olhando para ele com desconfiança.
Lucas não respondeu. Ele sabia que não adiantava. Eles não
acreditariam nele. Ninguém acreditaria.
Nos dias que se seguiram, Lucas se tornou uma sombra de si
mesmo. Ele mal comia, mal dormia. Ele passava a maior parte do tempo sentado em
um canto de sua cela, olhando para as paredes, esperando que as sombras
aparecessem novamente. Ele sabia que estava perdendo a sanidade, mas não havia
nada que ele pudesse fazer para impedir.
Até que, uma noite, ele teve uma ideia. Se as sombras
estavam realmente atrás de sua alma, então talvez houvesse uma maneira de
enganá-las. Ele não sabia se funcionaria, mas era sua única esperança.
Ele começou a planejar. Ele sabia que precisava ser
cuidadoso, que não podia deixar que ninguém soubesse o que ele estava fazendo.
Ele passou dias observando os guardas, aprendendo seus horários, suas rotinas.
Ele sabia que precisava de uma distração, algo grande o suficiente para desviar
a atenção de todos.
Finalmente, ele decidiu que era hora de agir. Ele esperou
até a noite, quando a prisão estava mais silenciosa, e então começou a colocar
seu plano em prática. Ele sabia que não havia garantias de que funcionaria, mas
ele não tinha outra escolha.
Enquanto ele se movia silenciosamente pelo corredor escuro,
ele sentiu as sombras se aproximando, como se soubessem o que ele estava
prestes a fazer. Ele ignorou o medo que crescia em seu peito e continuou,
determinado.
Ele estava prestes a descobrir se seu plano daria certo.
Mas, no fundo, ele sabia que, independentemente do resultado, sua vida nunca
mais seria a mesma.
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