Prisão 666: Capítulo: 02

 


 A cela ao lado de Lucas abriu com um rangido metálico que ecoou pelo corredor vazio. Ele estava deitado em sua cama, tentando ignorar os sussurros que pareciam vir das paredes, quando o som o fez sentar de repente. A prisão estava em silêncio, como sempre àquela hora da noite, mas algo naquele barulho parecia... errado. Ele se levantou devagar, aproximando-se da grade de sua cela, e olhou para o corredor escuro.

A cela ao lado estava aberta. Ele podia ver a porta entreaberta, balançando levemente, como se alguém tivesse acabado de sair. Mas não havia ninguém lá. Lucas olhou para os dois lados, esperando ver um guarda ou outro preso, mas o corredor estava vazio. O silêncio era opressivo, como se a própria prisão estivesse segurando a respiração.

Então, ele ouviu. Um barulho baixo, quase imperceptível, vindo de dentro da cela ao lado. Era um som estranho, como se algo estivesse se arrastando pelo chão de concreto. Lucas sentiu um frio percorrer sua espinha. Ele não queria investigar, mas algo o puxava para lá, como se uma força invisível estivesse o guiando.

Ele olhou para o corredor novamente, ainda vazio, e então, com um movimento rápido, empurrou a porta de sua cela. Para sua surpresa, ela cedeu. Ele não sabia como ou por quê, mas a cela estava destrancada. Ele hesitou por um momento, mas a curiosidade — ou talvez o medo — foi mais forte. Ele saiu silenciosamente, aproximando-se da cela ao lado.

A porta estava entreaberta, e ele a empurrou devagar, tentando não fazer barulho. A cela era idêntica à sua: uma cama de metal, um vaso sanitário, uma pequena janela com barras. Mas havia algo diferente. O ar estava mais frio, quase gelado, e havia uma sensação de... presença. Lucas olhou para o chão e viu algo que o fez parar de respirar.

Havia marcas no chão. Marcas que pareciam ter sido feitas por algo se arrastando, como se alguém — ou algo — tivesse sido puxado para fora da cela. As marcas levavam até a porta, mas não havia sinal de sangue ou luta. Apenas aqueles rastros estranhos, como se o corpo tivesse sido levado sem resistência.

Lucas sentiu um aperto no peito. Ele sabia que não deveria estar ali, que deveria voltar para sua cela e fingir que nada havia acontecido. Mas antes que ele pudesse se mover, ouviu um som atrás de si. Era baixo, quase como um sussurro, mas ele conseguiu distinguir as palavras.

"Você não deveria estar aqui."

Ele se virou rapidamente, mas não havia ninguém. O corredor estava vazio, as celas ao redor silenciosas. Ele olhou para trás, para a cela ao lado, e viu que a porta estava se fechando lentamente, como se movida por uma mão invisível. Ele correu para impedir, mas a porta se fechou com um clique audível, trancando-se sozinha.

Lucas ficou parado ali, olhando para a porta fechada, seu coração batendo forte. Ele não sabia o que havia acontecido, mas sabia que algo estava muito errado. Ele voltou para sua cela em silêncio, trancando a porta atrás de si, e se sentou na cama, tentando processar o que havia visto.

Na manhã seguinte, a prisão estava em polvorosa. Lucas ouviu os guardas correndo pelo corredor, vozes abafadas e sussurros preocupados. Ele não precisou esperar muito para descobrir o que havia acontecido. O homem na cela ao lado dele estava morto.

Lucas não sabia o nome do preso, mas ele o tinha visto algumas vezes no pátio. Era um homem mais velho, de cabelos grisalhos e olhos cansados, que sempre parecia estar sozinho. Agora, ele estava morto, e ninguém sabia como ou por quê.

Os boatos começaram a circular rapidamente. Diziam que não havia sinal de sangue no corpo, nenhuma marca de violência. O homem parecia ter simplesmente... parado de viver. Alguns presos falavam em ataque cardíaco, outros em suicídio, mas havia algo mais sinistro nas entrelinhas. Algo que ninguém queria dizer em voz alta.

Lucas ouviu os sussurros enquanto estava na fila do café da manhã. "As sombras pegaram ele", alguém disse. "Elas estão ficando mais fortes."

Ele não precisava perguntar o que isso significava. Ele já sabia. As sombras estavam lá, e elas estavam agindo.

No final do dia, Lucas foi chamado para uma reunião com o diretor da prisão. Ele não sabia o que esperar, mas sabia que não era algo bom. O diretor era um homem alto e severo, com um olhar que parecia ver através de você. Ele estava sentado atrás de uma mesa grande, com um arquivo aberto na frente dele.

"Lucas", o diretor começou, sua voz grave e autoritária. "Você estava na cela ao lado de onde o incidente ocorreu. Você viu ou ouviu algo na noite passada?"

Lucas hesitou. Ele não sabia o quanto podia — ou devia — dizer. "Eu... ouvi a cela abrindo", ele admitiu. "E depois um barulho. Mas quando olhei, não havia ninguém lá."

O diretor estudou seu rosto por um momento, como se tentando decidir se ele estava mentindo. "E você não viu nada mais? Nada de estranho?"

Lucas pensou nas marcas no chão, no frio que sentiu, na voz que ouvira. Mas ele sabia que, se contasse a verdade, eles o achariam louco. "Não", ele respondeu. "Nada."

O diretor suspirou, fechando o arquivo. "Muito bem. Você pode ir."

Lucas saiu da sala, mas não conseguiu se livrar da sensação de que estava sendo observado. Ele sabia que as sombras estavam lá, esperando, e que elas não tinham terminado com ele.

Nos dias que se seguiram, a prisão ficou mais tensa. Os presos pareciam mais nervosos, mais cautelosos. Até os guardas pareciam estar com medo, evitando certos corredores e celas. Lucas tentou manter a cabeça baixa, mas sabia que não podia escapar do que estava acontecendo.

Uma noite, ele foi acordado por um barulho vindo do corredor. Era o mesmo som que ele ouvira antes, como algo se arrastando. Ele se levantou devagar, aproximando-se da porta de sua cela, e olhou para fora. O corredor estava escuro, mas ele podia ver uma figura ao longe, parada no meio do caminho. Era alta, magra, com contornos indistintos, como se fosse feita de escuridão pura.

Lucas sentiu um frio percorrer seu corpo. Ele sabia que aquilo não era humano. A figura começou a se mover em sua direção, lentamente, sem fazer barulho. Ele recuou, fechando a porta de sua cela e trancando-a rapidamente. Ele se sentou na cama, cobrindo os ouvidos com as mãos, tentando bloquear o som que agora parecia vir de todos os lados.

"Você não pode escapar, Lucas", a voz sussurrou, vinda das sombras. "Nós somos parte de você agora."

Ele fechou os olhos, tentando se concentrar em algo, qualquer coisa, para manter a sanidade. Mas as sombras estavam lá, dentro de sua mente, sussurrando, rindo, ameaçando.

Na manhã seguinte, ele acordou exausto, como se não tivesse dormido nada. Ele sabia que não podia continuar assim. Ele precisava descobrir o que estava acontecendo, antes que fosse tarde demais.

Ele decidiu procurar o homem com a cicatriz novamente. Ele o encontrou no pátio, sentado em um banco, fumando um cigarro.

"Eu preciso saber mais", Lucas disse, sua voz firme, mas carregada de medo. "O que são essas sombras? Como eu posso me livrar delas?"

O homem olhou para ele por um momento, seus olhos escuros parecendo pesar as intenções de Lucas. Finalmente, ele falou: "Elas são mais antigas do que você pode imaginar. Elas estão aqui desde antes desta prisão existir. E elas escolheram você."

"Por quê?" Lucas perguntou, sua voz quase um sussurro.

"Porque você tem algo que elas querem. Algo que elas precisam."

"O quê?"

O homem sorriu novamente, mas desta vez não havia humor em sua expressão. "Sua alma, Lucas. Elas querem sua alma."

Lucas sentiu o chão ceder sob seus pés. Ele queria acreditar que tudo aquilo era uma piada cruel, uma tentativa de assustá-lo. Mas algo no olhar do homem o fez perceber que ele estava falando a verdade.

"O que eu faço?" Lucas perguntou, sua voz tremendo.

"Você precisa lutar", o homem respondeu. "Mas cuidado. Nem todos aqui são o que parecem. Alguns já foram corrompidos. Eles trabalham para as sombras."

Antes que Lucas pudesse fazer mais perguntas, o homem se afastou, deixando-o sozinho com seus pensamentos.

Naquela noite, Lucas não conseguiu dormir. Ele ficou acordado, olhando para as sombras em sua cela, imaginando o que mais poderia estar escondido nelas. Ele sabia que não podia continuar assim. Ele precisava de respostas, de uma maneira de se proteger. Mas como?

No dia seguinte, ele decidiu procurar o Dr. Almeida novamente. Talvez ele pudesse ajudá-lo a entender o que estava acontecendo. Mas quando ele perguntou aos guardas sobre o psicólogo, eles olharam para ele com confusão.

"Dr. Almeida? Nunca ouvimos falar dele", um dos guardas disse.

Lucas sentiu um frio percorrer seu corpo. "Ele esteve aqui na semana passada. Ele falou comigo."

Os guardas trocaram olhares preocupados. "Lucas, não há nenhum psicólogo com esse nome trabalhando aqui. Você tem certeza de que não imaginou isso?"

Lucas não respondeu. Ele se afastou, sua mente girando. Se o Dr. Almeida não era real, então quem — ou o quê — ele havia encontrado?

À medida que os dias passavam, Lucas começou a notar mudanças em si mesmo. Ele se sentia mais fraco, como se algo estivesse drenando sua energia. Suas noites eram atormentadas por pesadelos vívidos, nos quais ele era perseguido por sombras que riam e sussurravam seu nome. Ele começou a ver coisas durante o dia também — vultos que desapareciam quando ele olhava diretamente para eles, mãos que surgiam das paredes apenas para sumir em um piscar de olhos.

Ele sabia que não podia continuar assim. Ele precisava de ajuda, mas não sabia a quem recorrer. Os outros presos pareciam temer as sombras tanto quanto ele, e os guardas não acreditavam nele. Ele estava sozinho.

Uma noite, enquanto estava deitado em sua cama, Lucas ouviu um sussurro vindo da escuridão. Era baixo, quase imperceptível, mas ele conseguiu distinguir as palavras.

"Você não pode escapar, Lucas. Nós somos parte de você agora."

Ele fechou os olhos, tentando bloquear a voz, mas ela continuou, mais alta, mais insistente.

"Você nos pertence."

Lucas gritou, cobrindo os ouvidos com as mãos, mas a voz não parava. Ele sentiu algo frio tocando seu rosto, como se uma mão invisível estivesse acariciando sua pele. Ele se levantou da cama, desesperado, e começou a bater na porta da cela, gritando por ajuda.

Os guardas chegaram rapidamente, mas quando abriram a porta, não havia nada lá além de Lucas, tremendo e suando.

"O que está acontecendo aqui?" um dos guardas perguntou, olhando para ele com desconfiança.

Lucas não respondeu. Ele sabia que não adiantava. Eles não acreditariam nele. Ninguém acreditaria.

Nos dias que se seguiram, Lucas se tornou uma sombra de si mesmo. Ele mal comia, mal dormia. Ele passava a maior parte do tempo sentado em um canto de sua cela, olhando para as paredes, esperando que as sombras aparecessem novamente. Ele sabia que estava perdendo a sanidade, mas não havia nada que ele pudesse fazer para impedir.

Até que, uma noite, ele teve uma ideia. Se as sombras estavam realmente atrás de sua alma, então talvez houvesse uma maneira de enganá-las. Ele não sabia se funcionaria, mas era sua única esperança.

Ele começou a planejar. Ele sabia que precisava ser cuidadoso, que não podia deixar que ninguém soubesse o que ele estava fazendo. Ele passou dias observando os guardas, aprendendo seus horários, suas rotinas. Ele sabia que precisava de uma distração, algo grande o suficiente para desviar a atenção de todos.

Finalmente, ele decidiu que era hora de agir. Ele esperou até a noite, quando a prisão estava mais silenciosa, e então começou a colocar seu plano em prática. Ele sabia que não havia garantias de que funcionaria, mas ele não tinha outra escolha.

Enquanto ele se movia silenciosamente pelo corredor escuro, ele sentiu as sombras se aproximando, como se soubessem o que ele estava prestes a fazer. Ele ignorou o medo que crescia em seu peito e continuou, determinado.

Ele estava prestes a descobrir se seu plano daria certo. Mas, no fundo, ele sabia que, independentemente do resultado, sua vida nunca mais seria a mesma.

 

 

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