Prisão 666: Capítulo: 03

 


 A Doutora Rita era uma mulher meticulosa, acostumada a lidar com os piores cenários dentro daquela prisão. Como médica responsável pela saúde dos presos, ela já havia visto de tudo: ferimentos de brigas, doenças contagiosas, tentativas de suicídio. Mas nada a preparou para o que encontrou na cela ao lado de Lucas.

O corpo do homem mais velho, de cabelos grisalhos e olhos cansados, estava estendido no chão frio de concreto. A princípio, parecia uma morte comum, talvez um ataque cardíaco ou uma overdose. Mas algo não batia. A Doutora Rita ajoelhou-se ao lado do corpo, seus olhos clínicos examinando cada detalhe. O primeiro sinal de que algo estava errado foi a ausência de sangue. Não havia ferimentos visíveis, nenhum sinal de violência, mas o corpo parecia... seco. Como se todo o sangue tivesse sido drenado.

Ela virou o corpo com cuidado, notando que o pescoço do homem apresentava duas pequenas perfurações, quase imperceptíveis. Elas eram precisas, como se feitas por uma agulha fina ou algo semelhante. Rita ficou intrigada. Aquilo não fazia sentido. Ela pegou uma lanterna e examinou o local mais de perto. As perfurações estavam alinhadas, como se algo tivesse penetrado a pele com uma precisão cirúrgica.

"O que diabos aconteceu aqui?", ela murmurou para si mesma, olhando ao redor da cela. O chão estava limpo, sem sinais de luta ou derramamento de sangue. Mas, ao examinar mais atentamente, ela notou algo estranho. Havia uma mancha escura no chão, quase imperceptível, como se algo tivesse sido derramado e depois limpo às pressas. Ela tocou a mancha com a ponta dos dedos e sentiu uma textura estranha, quase pegajosa. Era sangue, mas em uma quantidade muito menor do que seria esperado em uma cena de morte.

Rita levantou-se, olhando para a cela com um misto de curiosidade e preocupação. Ela sabia que algo estava muito errado. O corpo não apresentava sinais de decomposição avançada, o que significava que a morte havia ocorrido recentemente. Mas onde estava o sangue? E o que causou aquelas perfurações no pescoço?

Ela decidiu levar o caso a sério. Algo naquela morte não batia, e ela não ia descansar até descobrir o que era. Rita começou a investigar, questionando os guardas e outros presos sobre o que haviam visto ou ouvido naquela noite. A maioria das respostas foi evasiva, mas alguns presos pareciam genuinamente assustados.

"Foi as sombras", um dos presos sussurrou, olhando para os lados como se temesse ser ouvido. "Elas estão ficando mais fortes."

Rita franziu a testa. "Sombra? O que você quer dizer com isso?"

O preso balançou a cabeça, recuando. "Eu não quero falar sobre isso. É melhor você não se meter."

A resposta apenas aumentou a curiosidade de Rita. Ela decidiu investigar mais a fundo, começando pelos registros da prisão. Ela queria saber se havia outros casos semelhantes, mortes inexplicáveis que pudessem estar relacionadas. Para sua surpresa, descobriu que, nos últimos seis meses, três outros presos haviam morrido em circunstâncias semelhantes. Em todos os casos, os corpos apresentavam perfurações no pescoço e uma ausência quase total de sangue.

Rita começou a sentir um frio na espinha. Aquilo não era coincidência. Alguém — ou algo — estava agindo dentro da prisão, e ela precisava descobrir o que era antes que mais pessoas morressem.

Ela decidiu conversar com Lucas, o preso que estava na cela ao lado do homem morto. Ele parecia abalado, com olheiras profundas e uma expressão de medo constante. Quando ela entrou em sua cela, ele olhou para ela com desconfiança.

"O que você quer?", ele perguntou, sua voz rouca e cansada.

Rita sentou-se na cama, mantendo uma distância respeitosa. "Eu quero saber o que você viu naquela noite. Algo estranho aconteceu, e eu preciso entender o que foi."

Lucas hesitou, olhando para as paredes como se esperasse que algo aparecesse. "Eu... ouvi a cela abrindo. E depois um barulho. Quando olhei, não havia ninguém lá. Mas eu senti... algo."

"Algo como o quê?", Rita pressionou, mantendo a voz calma, mas firme.

Lucas fechou os olhos, como se tentasse bloquear a memória. "Era como se alguém estivesse lá, mas eu não conseguia ver. E havia uma voz... sussurrando."

Rita anotou tudo em seu bloco de notas, tentando manter a mente aberta. Ela sabia que Lucas podia estar delirando, mas algo na maneira como ele falava a fez acreditar que ele estava dizendo a verdade.

"Você já ouviu falar das sombras?", ela perguntou, observando sua reação.

Lucas abriu os olhos rapidamente, seu rosto pálido. "Elas estão aqui. Elas estão me observando."

Rita não sabia o que pensar. As sombras pareciam ser uma lenda entre os presos, mas havia algo mais por trás daquelas histórias. Ela decidiu investigar mais a fundo, começando pelo local da morte.

Naquela noite, ela voltou à cela onde o homem havia morrido. A cela estava vazia, mas o ar ainda parecia pesado, como se algo estivesse pairando ali. Rita ligou sua lanterna e começou a examinar o chão, as paredes, o teto. Ela não sabia o que estava procurando, mas sabia que havia algo ali, algo que ela estava perdendo.

Foi então que ela notou. No canto mais escuro da cela, havia uma mancha na parede, quase imperceptível. Era uma marca escura, como se algo tivesse sido derramado e depois limpo. Rita aproximou-se, examinando a mancha mais de perto. Ela tocou a parede e sentiu uma textura estranha, quase como se a superfície estivesse levemente corroída.

Ela pegou uma amostra da substância, colocando-a em um pequeno frasco. Talvez uma análise química pudesse revelar o que era aquilo. Enquanto ela trabalhava, sentiu uma sensação estranha, como se estivesse sendo observada. Ela olhou para trás, mas a cela estava vazia.

"É só sua imaginação", ela murmurou para si mesma, tentando ignorar o frio que percorria sua espinha.

Mas, à medida que ela continuava a investigar, a sensação só aumentava. Era como se algo estivesse ali, invisível, observando cada movimento seu. Rita tentou se concentrar no trabalho, mas não conseguia ignorar a impressão de que não estava sozinha.

No dia seguinte, ela levou a amostra para o laboratório da prisão. O técnico, um homem jovem chamado Carlos, olhou para o frasco com curiosidade.

"O que é isso?", ele perguntou, virando o frasco na mão.

"Eu não sei", Rita respondeu. "Encontrei na cela onde o último preso morreu. Pode ser algo importante."

Carlos concordou em analisar a amostra, mas disse que levaria algum tempo. Enquanto isso, Rita decidiu continuar sua investigação. Ela queria saber mais sobre as sombras e o que elas significavam.

Ela começou a conversar com os presos mais antigos, aqueles que estavam na prisão há anos. A maioria se recusava a falar, mas um homem, conhecido como Velho João, concordou em conversar com ela.

"As sombras estão aqui desde que eu cheguei", ele disse, sua voz rouca e cheia de mistério. "Elas são antigas, mais antigas do que esta prisão. Elas se alimentam de medo, de dor... de sangue."

Rita ficou intrigada. "O que você quer dizer com 'se alimentam de sangue'?"

Velho João olhou para ela com olhos sombrios. "Elas precisam dele para sobreviver. Elas escolhem suas vítimas, drenam sua energia, seu sangue... e depois desaparecem."

Rita sentiu um calafrio percorrer seu corpo. Aquilo parecia absurdo, mas as mortes recentes pareciam confirmar a história. Ela precisava descobrir mais.

Enquanto isso, no laboratório, Carlos estava analisando a amostra que Rita havia coletado. Ele não conseguia acreditar no que estava vendo. A substância era uma mistura complexa de compostos orgânicos, mas havia algo nela que não fazia sentido. Era como se a substância estivesse... viva.

Ele decidiu fazer mais testes, mas, à medida que trabalhava, começou a sentir uma sensação estranha. Era como se algo estivesse observando ele, esperando. Ele tentou ignorar a sensação, mas ela só aumentava.

Finalmente, ele terminou a análise e ligou para Rita. "Você precisa vir aqui", ele disse, sua voz tensa. "Eu encontrei algo... estranho."

Rita correu para o laboratório, onde Carlos mostrou os resultados. "Esta substância... ela não é normal. Parece ter propriedades biológicas, mas não consigo identificar exatamente o que é. E há algo mais... ela parece reagir à luz."

Rita olhou para a amostra, intrigada. "O que você quer dizer com 'reagir à luz'?"

Carlos apontou para o microscópio. "Veja por si mesma."

Rita olhou através da lente e ficou chocada. A substância parecia se mover, como se estivesse viva. Ela recuou, olhando para Carlos. "O que diabos é isso?"

Carlos balançou a cabeça. "Eu não sei. Mas eu acho que você está lidando com algo muito maior do que imaginava."

Rita sabia que ele estava certo. Ela precisava descobrir o que era aquela substância e como ela estava relacionada às mortes na prisão. Mas, à medida que ela se aprofundava na investigação, começou a perceber que estava mexendo com algo perigoso.

Naquela noite, enquanto ela revisava os resultados no laboratório, ouviu um barulho vindo do corredor. Era baixo, quase imperceptível, mas ela sabia que não era sua imaginação. Ela se levantou, pegando uma lanterna, e saiu para investigar.

O corredor estava escuro, mas ela podia ver uma figura ao longe, parada no meio do caminho. Era alta, magra, com contornos indistintos, como se fosse feita de escuridão pura. Rita sentiu um frio percorrer seu corpo. Ela sabia que aquilo não era humano.

A figura começou a se mover em sua direção, lentamente, sem fazer barulho. Rita recuou, tentando manter a calma, mas o medo a dominava. Ela sabia que precisava fugir, mas suas pernas pareciam presas no chão.

 

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