A Guerra de Éterion: CAPÍTULO 3 - Tempestade Cósmica

A tempestade começou sem aviso.

Num instante, o espaço ao redor de Éterion permanecia tomado pelo brilho de explosões, destroços e linhas de combate entre Solaris e Nox. No seguinte, a própria nebulosa pareceu despertar.

Ondas gigantescas de energia atravessaram o vazio.

Relâmpagos azul-escuros cortaram o espaço entre as frotas, rasgando escudos de proteção como se fossem papel. Sistemas gravitacionais começaram a falhar. Sensores enlouqueceram novamente.

E então as estrelas desapareceram.

O vazio além da nebulosa tornou-se negro absoluto.

Na ponte do encouraçado Solaris Invictus, o almirante Cassian Holt observou o fenômeno com incredulidade crescente.

— Relatório agora!

Operadores falavam ao mesmo tempo.

— Interferência extrema!

— Perda de comunicação com os setores três e quatro!

— Leituras gravitacionais impossíveis!

A nave inteira tremeu violentamente.

Uma explosão surgiu à distância quando um destróier Solaris foi atingido por um raio de energia vindo diretamente da nebulosa. O casco da embarcação abriu-se ao meio antes mesmo que os escudos reagissem.

Cassian apertou os dentes.

— Recuem a linha frontal!

— Senhor, não conseguimos estabilizar as coordenadas!

Os hologramas da ponte começaram a falhar.

Por um segundo, imagens estranhas surgiram entre os dados táticos.

Estruturas gigantescas.

Símbolos desconhecidos.

Rostos distorcidos.

Então desapareceram.

— O que foi isso? — perguntou uma oficial.

Ninguém respondeu.

Do outro lado do campo de batalha, as forças Noxianas enfrentavam o mesmo caos.

Dentro do Arauto da Ruína, Kaelor observava o espaço transformar-se numa tempestade viva.

As nuvens da nebulosa giravam em espirais colossais ao redor de Éterion. Descargas elétricas atravessavam quilômetros de vazio. Fragmentos de destroços eram puxados por correntes gravitacionais invisíveis.

— General Kael reportando do setor orbital! — anunciou uma analista.

O holograma do general surgiu imediatamente.

Atrás dele, alarmes ecoavam.

— Perdemos contato com duas divisões inteiras.

Kaelor manteve expressão fria.

— Continue avançando.

Kael olhou diretamente para ele.

— A tempestade está destruindo nossas formações.

— Solaris também está sofrendo perdas.

Outra explosão iluminou o fundo da transmissão.

Kael desviou o olhar rapidamente.

— Isso não é uma tempestade natural.

Kaelor aproximou-se do holograma de Éterion.

— Eu sei.

A transmissão falhou por alguns segundos antes de retornar cheia de estática.

E então todos ouviram.

Uma voz.

Baixa.

Profunda.

Sussurrando algo incompreensível através dos comunicadores.

As luzes da ponte diminuíram imediatamente.

Operadores começaram a se entreolhar nervosamente.

— O que foi isso? — murmurou alguém.

Kael permaneceu imóvel.

Mas seus olhos se estreitaram.

Ele também ouvira.

Dentro dos corredores apertados do cruzador Noxiano Vhar-Tor, um soldado chamado Ren Iskar segurava o rifle com força enquanto observava as luzes piscarem no teto.

A nave sacudia violentamente a cada onda da tempestade.

Outros soldados permaneciam sentados ao redor, em silêncio desconfortável.

Então Ren ouviu alguém chamar seu nome.

Ele virou-se rapidamente.

Não havia ninguém.

— Ren...

A voz veio novamente.

Mais próxima.

O soldado levantou-se abruptamente.

— Quem falou isso?

Os outros o encararam sem entender.

— Falou o quê? — perguntou um deles.

Ren respirava rápido.

A voz parecia vir de dentro das paredes.

— Ren...

Agora acompanhada de dezenas de outras vozes.

Sussurros.

Gemidos.

Palavras impossíveis de entender.

Ele começou a tremer.

— Vocês não estão ouvindo?!

Outro impacto sacudiu a nave.

As luzes apagaram por um segundo.

Quando voltaram, Ren começou a gritar.

Ele disparou contra a parede do corredor.

Depois contra o teto.

Os soldados correram para segurá-lo.

— Me soltem! Eles estão aqui! Eles estão dentro da nave!

Seus olhos estavam completamente dilatados.

Sangue escorria de seu nariz.

— Eles estão chamando! Eles estão—

A frase terminou num grito horrível.

O corpo de Ren ergueu-se do chão violentamente.

Como se alguma força invisível o puxasse.

Os ossos quebraram ao mesmo tempo.

Os soldados recuaram aterrorizados enquanto o corpo foi lançado contra a parede metálica com força brutal.

Silêncio.

Apenas o som distante da tempestade permanecia.

Um dos soldados caiu de joelhos.

Outro começou a rezar baixinho.

E então todos ouviram as vozes.

Na Argo-7, Elias Renn despertou em meio à escuridão.

Algo estava errado.

Muito errado.

O corredor fora da ala médica permanecia vazio, mas ele conseguia sentir vibrações atravessando toda a nave.

As paredes pareciam respirar.

E as vozes retornaram.

Desta vez não eram visões.

Eram reais.

Centenas de sussurros ecoavam em sua mente ao mesmo tempo.

Elias segurou a cabeça com força.

— Parem...

Mas as vozes aumentaram.

Imagens surgiam junto delas.

Cidades enterradas.

Criaturas enormes movendo-se abaixo da superfície de Éterion.

Uma guerra tão antiga que nenhum registro humano sobrevivera para contá-la.

A porta da sala abriu-se violentamente.

Darius entrou acompanhado de duas guardas.

— Elias!

O pesquisador ergueu os olhos desesperados.

— Eles conseguem ouvir agora.

Darius franziu a testa.

— Quem?

Antes que Elias respondesse, um estrondo atravessou a nave inteira.

A Argo-7 inclinou perigosamente.

Alarmes dispararam.

— Capitão! — gritou uma voz pelo comunicador. — Corrente gravitacional puxando a nave!

Darius correu imediatamente para a ponte.

Elias veio atrás.

Quando chegaram, todos ficaram imóveis diante da visão nas janelas.

A tempestade espacial envolvia completamente o sistema.

Gigantescas espirais luminosas giravam entre as naves em guerra. Fragmentos de destróieres destruídos eram sugados para dentro de regiões escuras da nebulosa e desapareciam sem deixar rastros.

E no centro da tempestade...

havia formas.

Sombras enormes movendo-se dentro das nuvens.

— Não é possível... — murmurou uma operadora.

Darius aproximou-se do painel principal.

— Quantas perdas?

— Solaris perdeu dezenove embarcações nos últimos minutos. Os Noxianos perderam ainda mais.

A ponte silenciou quando outra transmissão de emergência surgiu.

Era do general Kael.

A imagem aparecia cheia de interferência. Atrás dele, fogo e fumaça dominavam a ponte de comando.

— Perdemos metade da esquadra frontal — disse ele, frio como sempre. — A tempestade destruiu nossos motores de dobra.

Mesmo através da transmissão, era possível ouvir gritos ao fundo.

Kael continuou:

— Soldados estão enlouquecendo. Alguns começaram a atacar as próprias equipes.

A transmissão falhou.

Depois voltou.

Por apenas um segundo, uma figura apareceu atrás do general.

Alta demais.

Escura demais.

Observando silenciosamente.

Então desapareceu.

Kael não pareceu perceber.

— Estamos reorganizando formação — concluiu ele. — Mas se isso continuar—

A transmissão morreu completamente.

Na ponte da Argo-7, ninguém falou nada.

Elias estava pálido.

— Eles estão chegando perto demais — murmurou.

Darius virou-se rapidamente.

— Quem está chegando?

O pesquisador olhou para Éterion.

— Eu não sei.

Muito abaixo da batalha orbital, uma pequena nave civil permanecia presa entre destroços próximos à atmosfera superior do planeta.

A embarcação chamava-se Helios Dawn.

Originalmente transportava técnicos de mineração independentes, mercadores e famílias tentando escapar das zonas de guerra da Orla Exterior.

Agora estava morrendo.

Uma explosão destruíra parte dos motores durante o início da batalha entre Solaris e Nox. Desde então, a nave vagava sem controle perto das tempestades energéticas de Éterion.

No interior do corredor principal, dezenas de civis se amontoavam em desespero.

Crianças choravam.

Luzes piscavam constantemente.

O ar estava ficando escasso.

Uma mulher segurava o comunicador com mãos trêmulas.

— Aqui é a Helios Dawn... qualquer nave... respondam...

Nada.

Outro impacto atingiu o casco.

Os gritos aumentaram.

Então um novo sinal apareceu no radar.

Uma nave militar Solaris.

Dentro do transporte de comando Astra-VII, Lyra Seraphis observava os dados surgirem.

— Nave civil sem propulsão — informou a copiloto. — Está sendo puxada para a tempestade gravitacional.

Lyra manteve os olhos no painel.

Mais explosões brilhavam ao longe enquanto Solaris e Nox continuavam se destruindo.

— Distância dos Noxianos?

— Oito minutos.

A copiloto hesitou.

— Se tentarmos resgate agora, perderemos vantagem de desembarque.

Lyra ficou em silêncio.

Outra transmissão desesperada da Helios Dawn ecoou pelos alto-falantes.

Uma criança chorava ao fundo.

A capitã tomou decisão imediatamente.

— Alterem rota.

— Senhora?

— Vamos buscá-los.

A copiloto arregalou os olhos.

— Capitã, nossa missão é alcançar Éterion antes do general Kael.

Lyra levantou-se.

— E faremos isso depois de salvar aquela nave.

Sem esperar resposta, ela começou a vestir o traje de operação espacial.

— Prepare equipe de resgate.

O Astra-VII mergulhou diretamente na tempestade.

Relâmpagos energéticos atingiam os escudos enquanto correntes gravitacionais puxavam a nave em direções diferentes.

Dentro da Helios Dawn, os civis observaram pela janela quando o transporte Solaris surgiu entre as nuvens cósmicas.

A esperança voltou imediatamente.

Lyra liderou pessoalmente a equipe de resgate.

Assim que atravessou a câmara de acoplamento da nave civil, encontrou caos absoluto.

Corredores parcialmente destruídos.

Corpos presos sob estruturas metálicas.

Fumaça espalhando-se pelo ambiente.

— Equipe um, levem os feridos. Equipe dois, estabilizem oxigênio!

Sua voz permaneceu firme mesmo enquanto a nave inteira estremecia.

Um homem agarrou seu braço.

— Por favor... minha filha...

Lyra seguiu o homem até um compartimento parcialmente esmagado.

Uma menina pequena estava presa sob uma viga metálica caída.

Sangue escorria de sua testa.

Lyra ajoelhou-se imediatamente.

— Vou tirar você daí.

A garota chorava silenciosamente.

A capitã segurou a estrutura metálica com ambas as mãos e começou a puxar.

A viga moveu-se lentamente.

Soldados ajudaram imediatamente.

Quando finalmente libertaram a criança, um ruído profundo ecoou pela nave inteira.

Todos congelaram.

As luzes apagaram.

E as vozes começaram.

Sussurros vindos dos corredores.

Centenas deles.

A menina começou a chorar desesperadamente.

Um soldado levou a mão ao capacete.

— Estão falando comigo...

Outro caiu de joelhos.

— Não... não... saiam da minha cabeça...

Lyra ergueu a arma imediatamente.

— Olhem para mim!

Os soldados tentaram focar nela.

A capitã aproximou-se devagar.

— São interferências da tempestade. Ignorem.

Mas até ela ouvira.

Algo murmurava palavras incompreensíveis bem próximo de seu ouvido.

Então um símbolo surgiu no visor do capacete dela.

Lyra parou imediatamente.

Não reconhecia aquilo.

Parecia formado por círculos entrelaçados e linhas curvas que mudavam lentamente de posição, como se estivessem vivos.

— Capitã? — chamou um soldado.

Ela piscou.

O símbolo desapareceu.

Na ponte do Astra-VII, os radares começaram a emitir alertas contínuos.

— Detectamos sinal desconhecido!

A copiloto ampliou os dados.

Todos os sensores mostravam o mesmo símbolo estranho.

Girando lentamente no centro dos radares.

— Isso é algum tipo de código? — perguntou uma oficial.

Ninguém sabia responder.

Então outros radares da frota Solaris começaram a registrar a mesma imagem.

E logo depois...

os Noxianos também.

No Arauto da Ruína, Kaelor observava o símbolo projetado em tamanho gigantesco diante da ponte.

Seu olho mecânico analisava padrões sem encontrar correspondência.

— Origem?

— Não sabemos, comandante.

— É uma transmissão?

— Negativo. Parece... aparecer sozinho nos sistemas.

Kaelor permaneceu imóvel.

Então perguntou:

— Onde mais foi detectado?

Uma analista engoliu seco.

— Em toda a tempestade.

Silêncio.

O símbolo continuava girando lentamente.

E enquanto todos observavam, as linhas começaram a mudar de forma.

Até se transformarem em algo parecido com um olho gigantesco.

A ponte inteira mergulhou em silêncio absoluto.

Então um operador começou a sangrar pelos olhos.

Outro arrancou o próprio comunicador gritando.

Kaelor sacou a pistola e matou o homem instantaneamente antes que o pânico se espalhasse.

— Desliguem todos os radares externos.

— Senhor—

— Agora.

Os painéis apagaram imediatamente.

Mas por alguns segundos, o símbolo continuou visível mesmo nas telas desligadas.

Como se estivesse gravado na própria luz.

Muito longe dali, escondida entre destroços próximos à nebulosa externa, Selene Vark observava tudo da ponte da Vantor.

A pirata havia visto guerras antes.

Mas nada parecido com aquilo.

Sua tripulação estava aterrorizada.

Alguns afirmavam ouvir vozes nos corredores.

Outros diziam ver figuras movendo-se fora da nave durante os relâmpagos da tempestade.

E agora aquele símbolo surgira nos sistemas.

Selene encarava a projeção em silêncio.

— Capitã... devemos sair do sistema.

Ela não respondeu imediatamente.

Porque naquele instante percebeu algo estranho.

O símbolo nos radares parecia apontar.

Não para Éterion.

Mas para a região escura da nebulosa onde a nave desaparecera antes.

O vazio absoluto.

Selene aproximou-se devagar da projeção.

E sentiu um frio atravessar sua espinha.

Porque agora conseguia ver movimento dentro da escuridão.

Algo gigantesco.

Observando de volta.


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