A Guerra de Éterion: CAPÍTULO 5 - O Sangue do Planeta
A luz azul que emergia do interior da estrutura antiga espalhou-se pelo vale como uma onda silenciosa.
Soldados Solaris e Noxianos permaneceram imóveis por alguns segundos, encarando a abertura colossal que acabara de surgir no coração das montanhas negras de Éterion.
Ninguém disparou.
Ninguém respirava direito.
O som metálico vindo das profundezas continuava ecoando lentamente, como o pulsar de alguma máquina gigantesca enterrada havia eras.
Pequenos fragmentos de Nóvium flutuavam pelo ar ao redor da estrutura.
Lyra sentiu os pelos dos braços arrepiarem.
As vozes em sua mente estavam mais fortes.
"Entrem..."
Ela fechou o punho imediatamente.
Não podia demonstrar hesitação diante dos soldados.
Ao longe, Kael também observava a abertura recém-revelada. Seu rosto permanecia frio, mas seus olhos analisavam cada detalhe.
Aquilo não parecia ruína.
Parecia mecanismo.
Como se a estrutura estivesse viva.
Um oficial Noxiano aproximou-se cautelosamente.
— General... recebemos novas ordens do comandante Kaelor.
Kael não desviou o olhar da construção.
— Fale.
— O Império exige resultados imediatos sobre o Nóvium.
Outro tremor atravessou o vale.
A luz azul intensificou-se.
— Então terão resultados — respondeu Kael.
Acima do planeta, a guerra espacial diminuía temporariamente.
Não por paz.
Mas porque as duas frotas precisavam reorganizar perdas.
Destroços gigantescos continuavam caindo na atmosfera de Éterion enquanto meteoros cruzavam os céus escuros. Partes inteiras de cruzadores destruídos queimavam como estrelas morrendo.
Dentro da Argo-7, equipes científicas trabalhavam freneticamente.
A ala médica transformara-se num centro improvisado de pesquisa.
Amostras de Nóvium brilhavam dentro de recipientes magnéticos enquanto cientistas tentavam compreender a substância.
Nenhum resultado fazia sentido.
— A estrutura molecular continua mudando — disse uma pesquisadora.
— Isso é impossível — respondeu outro cientista. — Minerais não reorganizam composição espontaneamente.
Elias Renn observava tudo em silêncio.
Ele parecia cada vez pior.
As veias azuladas agora atravessavam parte de seu pescoço. Seus olhos brilhavam discretamente quando olhava para as amostras do minério.
— O Nóvium não é apenas um elemento — murmurou ele.
Darius aproximou-se.
— Então explique o que é.
Elias encarou os fragmentos brilhantes.
— Parece... vivo.
A sala silenciou.
Uma pesquisadora soltou uma risada nervosa.
— Você está dizendo que o minério pensa?
— Não exatamente.
Elias aproximou-se lentamente do recipiente principal.
Assim que ficou perto, os fragmentos começaram a vibrar.
Os cientistas recuaram imediatamente.
— Ele reage à presença humana — continuou Elias. — Mas não da mesma forma para todos.
— Baseado em quê? — perguntou Darius.
O pesquisador hesitou.
Porque não sabia.
Mas sentia.
Algo dentro dele compreendia partes do planeta sem necessidade de explicação.
— Emoções. Estrutura neural. Talvez genética. Não sei.
Uma cientista cruzou os braços.
— Então por que alguns ganham habilidades e outros simplesmente morrem?
Elias fechou os olhos por um instante.
As vozes aumentaram novamente.
E junto delas vieram imagens.
Corpos deformados.
Criaturas monstruosas.
Uma civilização inteira realizando experimentos com o minério.
— Porque o Nóvium está tentando adaptar o corpo humano — respondeu ele lentamente. — E nem todos sobrevivem ao processo.
Na superfície de Éterion, Solaris estabelecia sua primeira base avançada próxima às ruínas antigas.
Torres defensivas eram erguidas rapidamente enquanto equipes científicas iniciavam escavações perto dos depósitos superficiais do minério.
Lyra observava tudo de uma plataforma elevada.
O vento quente do planeta carregava partículas brilhantes pelo ar.
A capitã não conseguia parar de pensar no que vira durante a batalha.
Soldados usando poderes impossíveis.
Homens enlouquecendo.
O planeta reagindo.
Uma oficial aproximou-se dela.
— Primeira equipe de extração pronta.
Lyra assentiu.
— Quero segurança máxima. Nenhum contato direto sem proteção completa.
A mulher hesitou.
— Os cientistas dizem que os trajes talvez não sejam suficientes.
Lyra desviou o olhar para os depósitos de Nóvium espalhados pelas montanhas.
— Então rezem para que sejam.
Grandes máquinas de perfuração começaram a trabalhar minutos depois.
O som metálico ecoou pelo vale enquanto braços mecânicos penetravam as formações cristalinas.
As primeiras amostras maiores de Nóvium foram extraídas lentamente do solo.
O brilho azul-prateado iluminou toda a área.
Os sensores enlouqueceram imediatamente.
— Energia subindo! — gritou um técnico.
Um dos cientistas aproximou-se cautelosamente do fragmento principal.
Mesmo através do traje reforçado, era possível sentir o calor estranho vindo do minério.
— Extração confirmada — disse ele pelo comunicador.
Então as montanhas tremeram.
Todos congelaram.
As linhas douradas espalhadas pelas rochas pulsaram ao mesmo tempo.
Como veias reagindo à dor.
Lyra sentiu o estômago revirar.
O planeta acabara de responder à extração.
Do outro lado do vale, Kael observava movimentações Solaris através de drones de reconhecimento.
Um holograma mostrava as equipes científicas trabalhando.
— Eles começaram a remover o minério — informou um oficial.
Kael permaneceu em silêncio.
Depois perguntou:
— Quantos prisioneiros temos?
— Dezessete Solaris capturados vivos.
— Levem cinco para o laboratório improvisado.
O oficial hesitou.
— Senhor?
Kael finalmente olhou para ele.
— Quero testes imediatos com exposição direta ao Nóvium.
Silêncio desconfortável.
Mesmo para padrões Noxianos, aquilo era extremo.
Mas ninguém ousou discutir.
Dentro da base militar Noxiana, construída entre formações rochosas escuras, cientistas começaram preparativos frenéticos.
Mesas cirúrgicas improvisadas.
Contêineres blindados.
Fragmentos do minério recém-coletados.
Os prisioneiros Solaris foram trazidos algemados.
Alguns estavam feridos.
Outros simplesmente aterrorizados.
Um deles começou a gritar assim que viu o Nóvium.
— Não! Vocês não sabem o que isso faz!
Kael entrou lentamente na sala.
Todos ficaram em silêncio imediatamente.
Ele observou os prisioneiros como se analisasse ferramentas.
— Quero descobrir por que alguns sobrevivem.
Uma cientista respirou fundo.
— General... ainda não compreendemos os efeitos biológicos.
— Então descubram.
Ele apontou para um dos prisioneiros.
— Comecem.
O homem tentou resistir.
Dois soldados o seguraram violentamente enquanto os cientistas aproximavam um pequeno fragmento de Nóvium de seu braço.
No instante do contato, o prisioneiro começou a gritar.
Seu corpo inteiro arqueou-se.
As luzes da sala piscaram.
Veias azuladas surgiram sob sua pele.
Os sensores dispararam alertas imediatamente.
— Frequência cardíaca aumentando!
— Temperatura corporal extrema!
O homem gritava tão forte que alguns soldados desviaram o olhar.
Então, subitamente, o corpo dele relaxou.
Silêncio.
A cientista aproximou-se cautelosamente.
— Ele estabilizou...
Os olhos do prisioneiro abriram-se lentamente.
Azul intenso.
O homem respirou fundo.
Depois puxou as correntes metálicas que prendiam seus braços.
As algemas partiram instantaneamente.
Os soldados recuaram.
O prisioneiro olhou para as próprias mãos sem acreditar.
— Eu...
Um dos guardas tentou contê-lo.
O homem o acertou no peito.
O soldado foi lançado vários metros para trás, atravessando uma parede metálica.
Todos congelaram.
Kael observava em silêncio absoluto.
O prisioneiro Solaris respirava pesadamente.
Os músculos do corpo pareciam mais densos. As veias brilhavam sob a pele.
Superforça.
Real.
O homem começou a rir nervosamente.
— Eu consigo sentir tudo...
Então a dor veio.
Ele caiu de joelhos imediatamente.
As veias azuladas começaram a pulsar violentamente.
— Não... não...
O corpo começou a emitir luz.
Os cientistas correram para trás.
Kael nem se moveu.
O homem ergueu os olhos desesperados.
E explodiu.
Uma onda de energia destruiu metade do laboratório.
Sangue, metal e fogo espalharam-se pelas paredes.
Alarmes dispararam imediatamente.
Kael saiu da fumaça lentamente.
Partes de sua armadura ainda brilhavam pelo impacto.
O general observou os corpos destruídos ao redor.
Depois falou calmamente:
— Continuem os testes.
Na base Solaris, os cientistas também enfrentavam problemas.
Uma equipe transportava um grande fragmento de Nóvium para análise quando sensores biológicos começaram a enlouquecer.
— O minério está irradiando algo novo — disse uma pesquisadora.
— Tipo de radiação?
— Não sabemos.
Subitamente, os animais ao redor começaram a surgir.
Criaturas de Éterion.
Antes raramente vistas.
Agora apareciam em dezenas.
Saindo das florestas cristalinas.
Observando os humanos.
Os soldados ergueram armas imediatamente.
As criaturas lembravam predadores quadrúpedes cobertos por placas negras semelhantes a obsidiana. Seus olhos brilhavam em azul fraco.
Mas havia algo errado.
As placas em seus corpos estavam mudando.
Linhas douradas surgiam sob a pele.
Como depósitos vivos de Nóvium.
Um cientista deu um passo para trás.
— Eles estão sendo afetados também.
As criaturas começaram a emitir sons estranhos.
Baixos.
Quase parecidos com vozes humanas distorcidas.
Lyra chegou rapidamente à área.
— Relatório.
— Fauna local apresentando mutações aceleradas.
Uma das criaturas aproximou-se lentamente da equipe científica.
Seu corpo tremia violentamente.
Então o chão abaixo dela rachou.
Pedras começaram a flutuar ao redor do animal.
Os soldados abriram fogo imediatamente.
Rajadas energéticas atravessaram a criatura.
Mas ela não morreu.
O animal avançou numa velocidade impossível.
Um soldado foi esmagado contra uma parede antes mesmo de reagir.
Outro foi lançado ao ar por uma força invisível.
— Recuem! — gritou Lyra.
Mais criaturas começaram a surgir entre as árvores cristalinas.
Algumas maiores.
Outras deformadas.
Todas brilhando.
A fauna inteira do planeta estava mudando.
No espaço orbital, Cassian Holt observava relatórios cada vez piores.
— Tropas terrestres relatam mutações biológicas locais.
— E os Noxianos?
— Continuam avançando apesar das perdas.
Cassian apertou os olhos cansados.
A guerra já saíra completamente do controle.
Então uma nova transmissão chegou.
Origem desconhecida.
Os painéis da ponte falharam por alguns segundos antes de uma imagem aparecer.
Não era humana.
Todos na ponte ficaram imóveis.
O holograma mostrava apenas escuridão.
E dois pontos azuis brilhando lentamente dentro dela.
Como olhos gigantescos.
Então veio a voz.
Profunda.
Distante.
"Parem..."
A transmissão desapareceu.
Silêncio absoluto.
Um operador começou a tremer.
— Senhor... aquilo veio do planeta.
Cassian permaneceu imóvel.
Pela primeira vez em décadas de guerra, sentiu medo verdadeiro.
Na Argo-7, Elias caiu de joelhos no corredor principal.
A dor em sua cabeça tornou-se insuportável.
As vozes estavam gritando agora.
Ele via flashes contínuos.
Cidades antigas sob Éterion.
Seres humanos modificados pelo Nóvium.
Exércitos monstruosos.
E algo enterrado abaixo de tudo.
Algo gigantesco.
Darius segurou o pesquisador antes que ele caísse.
— Elias!
O homem olhou para ele completamente desesperado.
— Eles fizeram isso antes.
— Quem?
Elias respirava com dificuldade.
— Existiu outra civilização aqui... muito antes dos impérios humanos.
As luzes da nave começaram a piscar violentamente.
— Eles tentaram usar o Nóvium.
Objetos metálicos próximos começaram a flutuar involuntariamente ao redor dele.
— E perderam o controle.
Darius sentiu um frio atravessar o corpo.
— O que aconteceu depois?
Elias ergueu lentamente os olhos.
Cheios de terror genuíno.
— O planeta matou todos eles.
Na superfície, Kael caminhava pelos laboratórios destruídos após os experimentos.
Corpos carbonizados ainda queimavam lentamente.
Mesmo assim, novos testes continuavam.
Mais prisioneiros.
Mais soldados voluntários.
Mais exposição ao minério.
O general observava resultados em silêncio absoluto.
Alguns morriam imediatamente.
Outros enlouqueciam.
Mas alguns...
mudavam.
Um soldado Noxiano recém-exposto esmagou acidentalmente uma mesa metálica apenas fechando a mão.
Outro sobreviveu após sofrer ferimentos que deveriam matá-lo.
Uma mulher conseguiu gerar descargas elétricas involuntárias através da pele antes de entrar em colapso.
Kael analisava tudo.
— A taxa de sobrevivência está aumentando — disse uma cientista nervosamente.
— Quanto?
— Talvez um em cada vinte.
Kael observou o fragmento de Nóvium brilhando na mesa central.
— Ainda é pouco.
A cientista hesitou.
— General... se continuarmos assim, perderemos centenas de soldados.
Kael virou-se lentamente.
— O Império Noxiano foi construído sobre sacrifício.
Ele aproximou-se dela.
— Se o Nóvium pode criar guerreiros superiores, então encontraremos uma forma de controlá-lo.
A mulher desviou o olhar.
Porque pela primeira vez percebeu algo assustador.
Kael não parecia temer o minério.
Parecia fascinado por ele.
Do lado de fora da base, o céu de Éterion brilhou novamente.
A tempestade aumentava.
E muito abaixo das montanhas, escondido nas profundezas do planeta, algo colossal abriu lentamente os olhos.

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