A Guerra de Éterion: CAPÍTULO 12 - Sombras de Nox

 A frota Noxiana orbitava Éterion como um enxame de predadores feridos.

Grandes encouraçados negros permaneciam parcialmente destruídos após semanas de guerra contínua. Muitos ainda queimavam lentamente no vazio espacial enquanto equipes tentavam conter falhas estruturais provocadas pelas tempestades gravitacionais da nebulosa.

Mas os danos físicos já não eram o maior problema.

O medo espalhava-se pela frota.

Soldados desapareciam dentro das próprias naves.

Tripulações inteiras relatavam ouvir vozes durante o sono.

Alguns oficiais começavam a desenvolver alterações físicas mesmo sem contato direto conhecido com o Nóvium.

E pior que tudo isso:

os rumores sobre Kael estavam crescendo.

Dentro do gigantesco encouraçado Arauto da Ruína, corredores metálicos ecoavam em silêncio desconfortável enquanto oficiais caminhavam rapidamente evitando contato visual.

As execuções recentes haviam deixado marcas profundas na moral da frota.

Kael eliminara três comandantes nos últimos dias.

Dois por insubordinação.

Um por esconder relatórios sobre surtos mentais causados pelo minério.

Os corpos ainda permaneciam expostos nos hangares centrais como aviso.

O general acreditava em disciplina absoluta.

Especialmente agora.

Dentro da sala estratégica principal, hologramas mostravam movimentações Solaris próximas às regiões subterrâneas de Éterion.

Kael observava tudo em silêncio.

Pequenas linhas azuladas surgiam ocasionalmente sob sua pele agora.

Muito discretas.

Mas presentes.

O Nóvium também o estava mudando.

Ele sabia.

Mesmo sem admitir para ninguém.

Um oficial entrou rapidamente na sala.

— General... temos problemas na frota oeste.

Kael não desviou os olhos dos hologramas.

— Fale.

— O almirante Varkos ordenou retirada parcial sem autorização.

Silêncio imediato.

Os poucos oficiais presentes trocaram olhares tensos.

Kael finalmente virou-se lentamente.

— Ele fez o quê?

— Varkos afirma que a campanha está perdida.

Outro oficial completou nervosamente:

— E existem relatos de que alguns capitães o apoiam.

O ambiente tornou-se pesado.

Traição.

Naquele momento crítico.

Kael aproximou-se da mesa holográfica.

— Chamem o almirante imediatamente.

Minutos depois, a imagem de Varkos surgiu no centro da sala.

O homem parecia cansado.

Velho.

Os olhos carregavam medo verdadeiro.

— General — disse ele friamente.

Kael permaneceu imóvel.

— Você ordenou retirada.

— Sim.

Os oficiais presentes ficaram tensos imediatamente.

Ninguém falava daquela forma com Kael.

Varkos continuou:

— Estamos perdendo homens, naves e sanidade por causa daquele planeta.

Kael observava sem expressão.

— A campanha continua.

— Não.

A palavra ecoou pela sala.

Varkos aproximou-se da transmissão.

— Você viu o que aquelas ruínas fazem com as pessoas.

Silêncio.

— Soldados enlouquecem. Oficiais começam a ouvir vozes. Até mesmo os modificados estão se tornando instáveis.

Kael estreitou os olhos.

— Então é medo.

— É realidade!

O almirante bateu na mesa da própria ponte.

— Estamos brincando com algo que não compreendemos!

As palavras lembraram imediatamente Lyra.

Kael odiou perceber isso.

Varkos respirou fundo antes de continuar:

— O alto comando de Nox me autorizou a assumir controle temporário da campanha se você continuar comprometendo a frota.

O silêncio tornou-se absoluto.

Todos os oficiais presentes prenderam a respiração.

Kael permaneceu imóvel por alguns segundos.

Depois perguntou calmamente:

— Você terminou?

Varkos hesitou apenas por um instante.

— Retire as tropas de Éterion. Ainda existe tempo.

Kael desligou a transmissão sem responder.

O ambiente inteiro parecia congelado.

Um oficial aproximou-se cautelosamente.

— General...

Kael virou-se lentamente.

— Preparem execução pública.

Horas depois, milhares de soldados Noxianos reuniam-se no gigantesco hangar principal do Arauto da Ruína.

O espaço colossal estava silencioso.

Fileiras de militares observavam nervosamente enquanto oficiais armados cercavam uma plataforma metálica central.

No meio dela ajoelhava-se o almirante Varkos.

Acorrentado.

Ferido.

Mas ainda vivo.

Kael surgiu lentamente diante das tropas.

O som das botas ecoava pelo hangar inteiro.

As luzes vermelhas da nave refletiam sobre sua armadura negra parcialmente marcada pelas guerras recentes.

Ele observou os soldados reunidos.

Todos pareciam assustados.

Cansados.

E cada vez mais instáveis.

Kael sabia.

O Nóvium estava afetando a todos.

Mesmo os que nunca haviam tocado o minério.

— O Império Noxiano existe porque nunca recuamos diante do medo.

A voz dele atravessou o hangar inteiro.

Varkos ergueu lentamente a cabeça.

— Isso não é coragem — respondeu o almirante. — É loucura.

Alguns soldados desviaram os olhos imediatamente.

Kael aproximou-se dele.

— Você questionou ordens em tempo de guerra.

— Porque você perdeu controle da situação!

Varkos tentou levantar-se.

Os guardas o seguraram brutalmente.

— Olhe ao redor! — gritou ele para as tropas. — Todos vocês sabem que esse planeta está destruindo nossas mentes!

Silêncio absoluto.

Porque ele estava dizendo a verdade.

Kael observou os soldados presentes.

Muitos realmente pareciam abalados.

Alguns possuíam pequenas alterações visíveis sob a pele.

Outros evitavam olhar diretamente para as luzes azuis espalhadas pelos painéis da nave.

O medo já contaminava toda frota.

E medo espalhava rebelião.

Kael ergueu lentamente a pistola militar.

— O Império não pertence aos fracos.

Varkos encarou-o diretamente.

— Nem aos cegos.

O disparo ecoou pelo hangar.

O corpo do almirante caiu imediatamente.

Silêncio.

Nenhum soldado se moveu.

Kael guardou a arma lentamente.

— Qualquer outro oficial que discutir retirada terá o mesmo destino.

As tropas permaneceram imóveis.

Mas naquele instante, enquanto observava milhares de rostos silenciosos, Kael percebeu algo perturbador.

Eles já não tinham apenas medo dele.

Tinham medo do planeta.

Naquela mesma noite, os relatórios pioraram novamente.

Dois soldados modificados enlouqueceram durante treinamento.

Um deles matou seis companheiros usando telecinese antes de arrancar os próprios olhos.

Outro começou a repetir frases em idioma desconhecido até explodir numa descarga energética que destruiu metade do setor médico.

Kael observava gravações dos incidentes sozinho na sala estratégica.

As imagens repetiam-se diante dele.

Corpos.

Gritos.

Sangue.

As linhas azuladas sob sua pele pulsaram discretamente.

O general fechou o arquivo.

Pela primeira vez desde o início da campanha, sentiu dúvida real.

Talvez Varkos estivesse certo.

Talvez ninguém pudesse controlar o Nóvium.

Então as luzes da sala piscaram.

Kael ergueu os olhos imediatamente.

Os painéis desligaram-se sozinhos.

Silêncio absoluto tomou conta da ponte estratégica.

E então a voz surgiu.

"Você sente."

Kael levantou-se lentamente.

A mão moveu-se instintivamente até a arma.

— Quem está aí?

Nenhuma resposta imediata.

As sombras da sala pareciam mais profundas agora.

As luzes vermelhas tornaram-se azuladas por alguns segundos.

Então:

"A mudança."

Kael permaneceu imóvel.

A voz não vinha dos alto-falantes.

Ecoava diretamente dentro da mente dele.

O general apertou os punhos.

— Mostre-se.

As sombras moveram-se levemente perto da parede principal.

Por apenas um instante, Kael viu algo impossível.

Uma figura gigantesca.

Alongada.

Não humana.

Então desapareceu.

As luzes voltaram ao normal.

Os sistemas reiniciaram automaticamente.

Oficiais entraram correndo segundos depois.

— General! Detectamos falha energética—

Kael levantou a mão interrompendo-os.

O rosto permanecia frio.

Mas internamente algo mudara.

Na superfície de Éterion, as tempestades continuavam piorando.

Grandes rachaduras luminosas atravessavam desertos inteiros enquanto criaturas mutadas tornavam-se cada vez mais agressivas.

Orion e a pequena Nira permaneciam escondidos nos níveis inferiores da cidade enterrada.

As vozes guiavam ambos agora.

Especialmente a menina.

Ela começava a mover objetos involuntariamente quando tinha medo.

E às vezes...

respondia perguntas antes que Orion falasse.

Aquilo o assustava.

Os corredores da cidade mudavam constantemente.

Passagens surgiam.

Outras desapareciam.

Como se a própria estrutura estivesse viva.

Nira caminhava em silêncio ao lado dele quando parou abruptamente.

— Eles estão chegando.

Orion olhou imediatamente ao redor.

— Quem?

A menina ergueu os olhos lentamente.

Azuis.

Muito azuis.

— Os que dormem.

O chão tremeu naquele instante.

Ao longe, um som profundo ecoou pelas profundezas da cidade.

Como gigantescas portas metálicas se abrindo.

Orion sentiu um arrepio atravessar o corpo.

As vozes ficaram agitadas.

"Mais rápido."

Na órbita de Éterion, a Argo-7 continuava estudando as transmissões alienígenas.

Elias Renn parecia cada vez pior.

As veias azuladas já atravessavam parte do rosto dele. Os olhos brilhavam constantemente agora.

Os médicos queriam isolá-lo.

Darius recusara.

Porque Elias era o único que parecia compreender minimamente o que estava acontecendo.

Naquele momento, o pesquisador observava mapas holográficos da cidade enterrada.

As estruturas subterrâneas reorganizavam-se continuamente.

Como engrenagens.

— Não é apenas uma cidade — murmurou ele.

Darius aproximou-se.

— Então o que é?

Elias hesitou.

As vozes estavam mais fortes outra vez.

Mas agora começava a distinguir palavras específicas.

— Uma máquina.

Silêncio.

— Uma máquina feita para manter alguma coisa presa.

Darius passou a mão pelo rosto cansado.

— E se ela falhar?

Elias ergueu lentamente os olhos.

Cheios de medo verdadeiro.

— Acho que já está falhando.

Na capital de Nox, muito distante de Éterion, o Supremo Regente Kaelor observava relatórios secretos da campanha militar.

O governante do império raramente demonstrava emoções.

Mas até ele começava a sentir preocupação.

As perdas aumentavam.

Os surtos ligados ao Nóvium espalhavam-se.

E agora existiam rumores sobre vozes surgindo até mesmo longe do planeta.

Um assessor aproximou-se cautelosamente.

— Senhor... algumas colônias começaram a registrar interferências semelhantes às transmissões alienígenas.

Kaelor permaneceu em silêncio.

— Distância de Éterion?

— Vários setores.

Aquilo era impossível.

Ou deveria ser.

O regente observou novamente as imagens da cidade enterrada.

As estátuas.

Os símbolos.

As fissuras abertas pelo planeta.

Então outra informação surgiu nos relatórios.

Kael executara um almirante.

Kaelor estreitou os olhos.

O general estava se tornando instável.

Mas ainda era necessário.

Por enquanto.

Naquela noite, Kael finalmente dormiu.

Pela primeira vez em quase quarenta horas.

E imediatamente começou a sonhar.

Ou algo parecido.

Ele caminhava sozinho por um deserto negro infinito.

O céu não possuía estrelas.

Apenas uma nebulosa azul gigantesca movendo-se lentamente acima dele.

As dunas estavam cobertas por cadáveres.

Humanos.

Alienígenas.

Criaturas impossíveis.

Todos parcialmente cristalizados pelo Nóvium.

Kael continuou andando.

Sem saber por quê.

Então viu a figura.

Gigantesca.

Parada no horizonte.

Alta demais para ser humana.

Os olhos brilhavam como luas azuis.

A criatura observava-o em silêncio absoluto.

Kael sentiu algo que raramente sentia.

Medo.

A voz surgiu novamente.

"Você será útil."

O general tentou mover a mão até a arma.

Não conseguiu.

O corpo inteiro parecia preso.

A criatura aproximou-se lentamente.

Cada passo fazia o deserto tremer.

"Abra o caminho."

Kael finalmente conseguiu falar:

— O que você é?

Silêncio.

Depois:

"A fome."

O general despertou violentamente.

O quarto estava escuro.

Ele respirava pesadamente.

Suor escorria pelo rosto.

As linhas azuladas sob sua pele brilhavam intensamente.

Então percebeu algo pior.

Os símbolos alienígenas estavam desenhados nas paredes do quarto.

Como se alguém os tivesse gravado durante a noite.

Mas Kael sabia.

Ninguém entrara ali.

E no espaço profundo além de Éterion, a gigantesca forma escondida dentro da nebulosa abriu lentamente milhares de olhos azuis ao mesmo tempo.


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