A Guerra de Éterion: CAPÍTULO 13 - O Ritual Antigo

 Os corredores inferiores da cidade enterrada pareciam cada vez menos artificiais.

As paredes pulsavam lentamente como tecido vivo. Correntes de energia azul atravessavam fendas orgânicas abertas entre estruturas metálicas ancestrais. O som profundo vindo das profundezas do planeta permanecia constante agora.

Como o bater de um coração colossal.

Orion avançava cuidadosamente ao lado de Nira enquanto observava os símbolos brilhando ao redor deles.

Já haviam passado dias escondidos nos níveis subterrâneos.

Ou talvez semanas.

O tempo tornara-se estranho dentro da cidade.

Às vezes as luzes desapareciam por horas inteiras.

Outras vezes corredores mudavam de posição enquanto dormiam.

E as vozes...

as vozes nunca mais silenciaram.

Nira caminhava descalça sobre o chão metálico sem demonstrar medo. Pequenos fragmentos flutuavam ao redor dela involuntariamente enquanto os olhos brilhavam em azul fraco.

Orion começava a perceber algo perturbador.

Ela estava mudando mais rápido que ele.

A menina parou abruptamente perto de uma gigantesca porta circular parcialmente coberta por areia negra.

— Eles estão aqui.

Orion imediatamente ficou alerta.

— Quem?

Nira apenas apontou para frente.

A porta começou a abrir sozinha.

O som ecoou profundamente pelos corredores subterrâneos.

Orion recuou instintivamente enquanto a abertura revelava uma enorme câmara iluminada por fogo azul.

E então viu as pessoas.

Humanos.

Ou algo próximo disso.

Cerca de vinte figuras observavam silenciosamente da escuridão.

Vestiam mantos escuros cobertos pelos mesmos símbolos alienígenas espalhados pela cidade. Alguns possuíam marcas azuis sob a pele. Outros tinham olhos completamente alterados pelo Nóvium.

Mas diferente dos soldados enlouquecidos da superfície...

aqueles pareciam controlados.

Calmos.

Uma mulher idosa aproximou-se lentamente.

Os cabelos eram completamente brancos. Linhas luminosas atravessavam-lhe o rosto como rachaduras de luz azul.

Ela observou Orion profundamente.

— Finalmente encontramos você.

O jovem permaneceu imóvel.

— Quem são vocês?

A mulher inclinou levemente a cabeça.

— Os últimos guardiões.

Silêncio.

Orion apertou os punhos.

— Guardiões de quê?

A resposta veio imediatamente.

— Da prisão.

O coração dele acelerou.

As vozes ficaram estranhamente silenciosas outra vez.

A mulher fez sinal para que entrassem.

— Não temos muito tempo.

A câmara escondida parecia diferente do restante da cidade.

Mais antiga.

Estruturas gigantescas cercavam um círculo central coberto por inscrições brilhantes. Pequenas chamas azuis flutuavam pelo ambiente sem consumir combustível algum.

Os sobreviventes observavam Orion em absoluto silêncio.

Como se esperassem algo dele.

Nira caminhou até o centro da sala naturalmente.

Nenhum medo.

A mulher idosa percebeu.

— A menina também foi escolhida.

Orion sentiu desconforto imediato.

— Escolhida para quê?

A mulher não respondeu diretamente.

— Meu nome é Maelis.

Ela aproximou-se lentamente do círculo central.

— Nós permanecemos escondidos desde antes da chegada dos impérios.

Orion franziu a testa.

— Existem humanos vivendo aqui esse tempo inteiro?

— Vivendo não.

Os olhos dela tornaram-se mais sombrios.

— Sobrevivendo.

Outro homem do grupo aproximou-se.

O lado esquerdo do rosto estava parcialmente cristalizado pelo Nóvium.

— Seus impérios despertaram algo que permaneceu adormecido durante eras.

Orion respirou fundo.

— Eu preciso entender o que está acontecendo.

Maelis observou-o em silêncio por alguns segundos.

Depois perguntou:

— Você já ouviu o planeta sonhar?

O jovem hesitou.

Porque entendia exatamente o que ela queria dizer.

As vozes.

As imagens.

Os chamados.

Ela percebeu.

— Então já começou.

Orion aproximou-se lentamente.

— O que é o Nóvium?

Silêncio absoluto tomou conta da câmara.

Os sobreviventes trocaram olhares desconfortáveis.

Então Maelis respondeu:

— Não é um minério.

As chamas azuis ao redor da sala aumentaram levemente.

— É um fragmento.

— Fragmento de quê?

A mulher ergueu os olhos lentamente.

— De uma estrela morta.

O ambiente pareceu ficar mais frio.

Orion permaneceu imóvel.

Maelis continuou:

— Há milhares de ciclos galácticos, algo caiu sobre este mundo vindo do vazio profundo.

Ela apontou para os símbolos nas paredes.

— Nossos ancestrais acreditaram que fosse um presente divino.

Outro sobrevivente riu sem humor algum.

— Foi o começo do fim.

As inscrições começaram a brilhar mais intensamente enquanto Maelis falava.

Imagens surgiram lentamente sobre o círculo central.

Projeções antigas.

Uma estrela azul gigantesca colapsando no espaço profundo.

Mas havia algo errado nela.

A estrela parecia viva.

Correntes escuras moviam-se dentro do núcleo luminoso.

Orion observava hipnotizado.

— Quando ela morreu... espalhou fragmentos através das galáxias.

A imagem mudou.

Meteoros azuis atravessando sistemas inteiros.

Planetas queimando.

Civilizações desaparecendo.

— O Nóvium nasceu da morte daquela estrela.

Silêncio.

Orion sentiu as vozes agitarem-se novamente.

Maelis aproximou-se dele.

— O minério não concede poder.

Ela tocou levemente o peito do jovem.

— Ele abre portas.

As palavras atravessaram Orion como gelo.

— Portas para quê?

Ninguém respondeu imediatamente.

Porque todos pareciam temer a resposta.

Então Nira falou baixinho:

— Para ele.

Todos olharam para a menina imediatamente.

Os olhos dela brilhavam forte agora.

Azul intenso.

Maelis ajoelhou-se diante da criança.

— O que você ouviu?

Nira parecia distante.

Como se escutasse algo muito longe.

— Ele está acordando.

O chão tremeu levemente.

As chamas azuis oscilaram.

Orion sentiu o coração acelerar.

— Quem está acordando?

A menina virou lentamente o rosto para ele.

E por um segundo sua voz mudou.

Mais profunda.

Antiga.

— O devorador.

Silêncio absoluto.

Então as luzes da câmara piscaram violentamente.

Os sobreviventes começaram a murmurar nervosamente.

Maelis levantou-se rapidamente.

— Precisamos começar o ritual agora.

Orion recuou um passo.

— Que ritual?

— O que permitirá que você veja a verdade.

O jovem imediatamente desconfiou.

— Eu não—

— Não existe mais escolha.

A voz dela tornou-se dura pela primeira vez.

— Você já está conectado ao planeta.

As linhas azuis sob a pele de Orion pulsaram violentamente.

Como resposta.

Maelis apontou para o círculo central.

— Se não compreender o que realmente existe aqui... todos morrerão.

Muito acima da cidade enterrada, as guerras continuavam.

As forças Solaris e Nox lutavam sem descanso entre tempestades e ruínas enquanto mais soldados modificados surgiam nos campos de batalha.

Mas agora algo diferente acontecia.

Os guerreiros alterados começavam a ouvir as mesmas vozes.

Alguns abandonavam posições militares sem explicação.

Outros caminhavam voluntariamente para fissuras abertas no planeta.

Como se fossem chamados.

Lyra observava relatórios cada vez mais alarmantes dentro da base Solaris principal.

— Quantos desapareceram?

Um oficial respondeu nervosamente:

— Cento e dezessete apenas hoje.

Ela fechou os olhos por um instante.

A situação estava saindo completamente do controle.

Então novos alertas surgiram.

— Detectamos atividade energética massiva abaixo do deserto tóxico.

Lyra ergueu a cabeça imediatamente.

— Cidade enterrada?

— Sim.

Os sensores mostravam enormes pulsos azuis espalhando-se pelos subterrâneos.

Como ondas.

Lyra sentiu um arrepio imediato.

Orion estava lá.

Ela tinha certeza.

Na frota Noxiana, Kael observava os mesmos dados.

As linhas azuladas sob sua pele continuavam surgindo cada vez mais frequentemente agora. Os sonhos também pioravam.

Toda vez que dormia via o mesmo deserto negro.

A mesma criatura colossal.

E sempre a mesma frase.

"Abra o caminho."

Um cientista aproximou-se rapidamente.

— General, os sensores detectaram explosão energética subterrânea.

Kael observou os hologramas.

— Origem?

— Cidade ancestral.

Silêncio.

As vozes surgiram novamente dentro da cabeça dele.

"Venha."

Kael apertou os olhos imediatamente.

Mas dessa vez não resistiu.

Porque parte dele queria entender.

Queria saber por que o planeta parecia chamá-lo.

Na câmara escondida dos guardiões, o ritual começava.

Orion permanecia no centro do círculo enquanto os sobreviventes posicionavam pequenas pedras de Nóvium ao redor das inscrições antigas.

As chamas azuis cresceram imediatamente.

Nira observava tudo em silêncio absoluto.

Maelis aproximou-se segurando um fragmento cristalino brilhante.

— Isso mostrará o passado.

Orion respirou fundo.

— E se eu não quiser ver?

A mulher pareceu triste.

— Você já começou a ver.

Ela colocou o fragmento sobre as mãos dele.

A reação foi instantânea.

A energia explodiu pela sala inteira.

Os símbolos nas paredes iluminaram-se violentamente.

As vozes tornaram-se ensurdecedoras.

Orion caiu de joelhos gritando.

E então viu.

O universo.

Não como conhecia.

Galáxias inteiras queimando em silêncio.

Planetas consumidos por tempestades azuis.

Civilizações alienígenas fugindo através das estrelas.

E algo perseguindo todas elas.

Algo colossal.

Uma presença viva feita de escuridão e luz azul.

O devorador.

Orion tentou respirar.

Não conseguiu.

As imagens continuavam.

A antiga civilização de Éterion descobrindo o Nóvium.

Usando-o para evoluir rapidamente.

Expandindo-se pelas galáxias.

Tornando-se poderosa.

Até ouvirem as vozes.

A mesma voz.

Então veio a fome.

O devorador atravessando sistemas inteiros.

Consumindo mundos.

Absorvendo consciências.

Transformando civilizações em cascas vazias.

Orion sentiu dor absurda atravessando o corpo.

As imagens pioraram.

Ele viu a guerra final.

Milhares de naves ancestrais cercando Éterion.

Os sobreviventes criando a cidade subterrânea.

Transformando o planeta inteiro numa prisão gigantesca.

Selando o devorador abaixo da crosta usando o próprio Nóvium.

E então...

sacrifício.

Bilhões morrendo para ativar o selo.

Orion gritou.

As visões tornaram-se ainda mais violentas.

Galáxias destruídas.

Sóis apagando-se.

Civilizações inteiras reduzidas a ruínas silenciosas.

O devorador sempre avançando.

Sempre faminto.

As vozes ecoavam agora em milhões de idiomas diferentes.

"Abra o caminho."

Orion tentou resistir.

Mas viu algo pior.

O futuro.

Éterion rachando completamente.

A nebulosa viva envolvendo sistemas estelares.

Humanos transformados em criaturas azuis sem consciência.

E a sombra colossal despertando sob o planeta.

Os olhos dela abriram-se.

Milhares deles.

Observando diretamente Orion.

A entidade percebeu sua presença dentro da visão.

E sorriu.

O jovem despertou violentamente.

A câmara inteira tremia.

As chamas azuis haviam se tornado enormes colunas de energia.

Os sobreviventes observavam-no aterrorizados.

Sangue escorria dos olhos dele.

Orion respirava descontroladamente.

— Ele é real...

Maelis aproximou-se rapidamente.

— O que viu?

O jovem ergueu lentamente os olhos.

Cheios de horror absoluto.

— Não é uma criatura.

Silêncio.

— É uma consciência.

O chão da cidade inteira tremeu brutalmente naquele instante.

Muito mais forte que antes.

Partes da câmara começaram a rachar.

Os símbolos nas paredes piscaram freneticamente.

Nira virou-se lentamente para as profundezas da cidade.

Como se escutasse algo distante.

Então começou a chorar.

— Ele sabe que acordamos vocês.

Um som gigantesco ecoou abaixo deles.

Não parecia mecânico.

Parecia vivo.

E muito abaixo da cidade enterrada, nas profundezas impossíveis de Éterion, algo colossal abriu lentamente uma parte do próprio corpo pela primeira vez em milênios.


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