A Guerra de Éterion: CAPÍTULO 15 - O Coração de Éterion

 

A rachadura aberta no céu de Éterion não desapareceu.

Ela continuava lá.

Gigantesca.

Cortando as nuvens tóxicas como uma ferida azul brilhante acima do planeta. Relâmpagos atravessavam a abertura constantemente enquanto correntes energéticas desciam da atmosfera em direção à superfície.

Ninguém compreendia o que aquilo significava.

Mas todos sentiam.

Éterion estava mudando.

Na órbita, destroços de naves desaparecidas flutuavam lentamente entre tempestades gravitacionais. As criaturas energéticas ainda moviam-se pela nebulosa, surgindo e desaparecendo como predadores invisíveis.

A retirada parcial ordenada por Kael impedira destruição imediata da frota Noxiana.

Mas o preço psicológico fora devastador.

Os soldados estavam aterrorizados.

Muitos se recusavam a dormir.

Outros começavam a ouvir vozes mesmo longe do planeta.

E alguns...

alguns simplesmente olhavam para a rachadura no céu sem responder a mais nada.

Na superfície de Éterion, Lyra observava a abertura colossal acima das tempestades enquanto ventos tóxicos atravessavam as ruínas da base Solaris.

Ela sentia o planeta vibrando sob os pés agora.

Como se existisse movimento gigantesco nas profundezas.

Cassian Holt surgia através de holograma parcialmente instável.

A transmissão falhava constantemente.

— Perdemos mais vinte e três embarcações — disse o almirante.

Lyra fechou os olhos brevemente.

— As criaturas continuam atacando?

— Sim.

Ele hesitou.

— E agora aparecem até longe da nebulosa.

Silêncio.

Isso significava expansão.

A coisa presa em Éterion estava alcançando espaço profundo.

Cassian continuou:

— Detectamos atividade energética massiva abaixo do deserto tóxico outra vez.

Lyra imediatamente abriu os olhos.

— Cidade enterrada?

— Mais fundo.

O holograma mudou mostrando leituras subterrâneas absurdas.

Ondas energéticas surgiam quilômetros abaixo das estruturas conhecidas.

Como pulsações.

Regulares.

Rítmicas.

O coração dela acelerou.

— Existe outra estrutura.

Cassian assentiu lentamente.

— E parece enorme.

Lyra tomou decisão instantânea.

— Estou indo para lá.

Dentro da cidade enterrada, Orion ainda tentava processar as visões do ritual.

As imagens de galáxias destruídas permaneciam queimando na mente dele. Toda vez que fechava os olhos via a entidade colossal observando sistemas inteiros desaparecerem.

Nira permanecia próxima dele constantemente agora.

A menina parecia cada vez menos uma criança comum.

Às vezes falava coisas impossíveis.

Outras vezes parecia ouvir conversas antes que acontecessem.

E as linhas azuis sob sua pele aumentavam diariamente.

Maelis observava ambos com preocupação crescente.

— O vínculo está acelerando.

Orion encarou-a imediatamente.

— Que vínculo?

A mulher demorou alguns segundos para responder.

— O planeta escolhe certos indivíduos.

As palavras deixaram o ambiente silencioso.

— Escolhe para quê?

Maelis observou as chamas azuis da câmara.

— Para ouvir.

O jovem sentiu desconforto imediato.

Porque compreendia exatamente o que ela queria dizer.

As vozes.

Sempre as vozes.

Um sobrevivente entrou correndo naquele instante.

— As estruturas inferiores abriram!

Todos olharam imediatamente para ele.

— O quê?

— Corredores que estavam selados começaram a se mover sozinhos.

Orion sentiu as linhas sob sua pele pulsarem.

As vozes tornaram-se mais intensas.

"Mais fundo."

Maelis percebeu imediatamente.

— O núcleo chamou você.

Silêncio.

Orion deu um passo para trás.

— Núcleo?

A mulher finalmente revelou o medo escondido nos olhos.

— O coração de Éterion.

A expedição Solaris partiu poucas horas depois.

Lyra liderava pessoalmente uma equipe reduzida composta por soldados, cientistas e especialistas em exploração subterrânea.

As tempestades tornavam avanço extremamente difícil.

Ventos tóxicos atravessavam as dunas enquanto relâmpagos azuis atingiam a superfície constantemente.

Mesmo assim continuaram.

Porque as leituras energéticas estavam aumentando.

E algo dizia a Lyra que, se esperassem demais, seria tarde.

Os veículos blindados avançavam lentamente entre ruínas parcialmente destruídas pela guerra quando os sensores começaram a enlouquecer novamente.

— Interferência massiva — informou uma técnica.

Lyra observava os monitores.

As pulsações subterrâneas estavam mais fortes.

Como batimentos cardíacos.

Então o chão tremeu.

Todos os veículos pararam imediatamente.

Ao longe, parte do deserto começou a afundar.

Areia negra desmoronava em direção a uma abertura gigantesca que surgia lentamente na superfície.

Uma cratera.

Não.

Uma entrada.

Estruturas metálicas ancestrais apareciam sob as dunas enquanto luz azul escapava das profundezas.

Um cientista sussurrou assustado:

— Meu Deus...

Lyra desceu do veículo imediatamente.

O ar parecia vibrar ao redor da abertura colossal.

As paredes internas estavam cobertas pelos mesmos símbolos alienígenas da cidade enterrada.

Mas aquilo era muito maior.

Muito mais antigo.

E mais profundo.

Na frota Noxiana, Kael observava os mesmos sinais energéticos.

Os sensores da nave mostravam pulsos subterrâneos gigantescos atravessando Éterion inteiro.

As vozes dentro da cabeça dele pioravam.

Agora surgiam mesmo acordado.

"Ele chamou."

Kael apertou as mãos contra a mesa holográfica.

Um oficial aproximou-se cautelosamente.

— General... Solaris está enviando equipes para as profundezas do deserto.

Silêncio.

Kael observou a rachadura no céu através das janelas da ponte.

As criaturas energéticas ainda moviam-se pela órbita distante.

Mas agora pareciam esperar.

Observando.

O general tomou decisão imediata.

— Preparem descida.

O oficial arregalou os olhos.

— Senhor... depois do que aconteceu no espaço—

— Agora entendo por que fomos trazidos aqui.

A voz dele estava estranhamente calma.

Quase fria demais.

Os oficiais trocaram olhares desconfortáveis.

Kael estava mudando.

Todos percebiam.

Na entrada colossal aberta no deserto, Lyra e sua equipe iniciavam descida pelas estruturas subterrâneas.

Gigantescas plataformas circulares desciam quilômetros abaixo da superfície enquanto luzes azuis iluminavam o abismo.

Os cientistas registravam tudo freneticamente.

— A composição das paredes é parcialmente orgânica.

Outro pesquisador respondeu imediatamente:

— Isso é impossível.

Mas era verdade.

As estruturas pareciam crescer junto ao metal ancestral.

Como ossos vivos misturados a máquinas.

Quanto mais desciam, mais forte ficava a vibração.

Tum.

Tum.

Tum.

O som atravessava todo complexo subterrâneo.

Um dos soldados começou a respirar rápido.

— Estão ouvindo isso?

Todos estavam.

Parecia um coração.

Depois de quase uma hora descendo, finalmente chegaram.

E ninguém conseguiu falar.

A câmara subterrânea era colossal além da compreensão humana.

Uma esfera gigantesca ocupava quase todo espaço.

Centenas de quilômetros de estruturas orgânicas e metálicas conectavam-se ao núcleo central brilhante suspenso no vazio.

Correntes azuis atravessavam toda câmara como veias vivas.

E no centro...

o coração.

O núcleo pulsava lentamente.

Tum.

Tum.

Tum.

Cada pulsação fazia a estrutura inteira vibrar.

Lyra observava aquilo sem conseguir respirar direito.

Parecia impossível.

O planeta possuía um coração literal.

Um cientista aproximou scanner tremendo.

As leituras enlouqueceram imediatamente.

— Energia infinita...

Outro caiu de joelhos observando os dados.

— Isso não é apenas um reator.

As superfícies do núcleo moviam-se lentamente.

Como tecido biológico.

E então veio a pior descoberta.

O cientista ergueu os olhos lentamente.

Cheios de terror.

— Ele está respondendo à nossa presença.

Silêncio absoluto.

O núcleo pulsou novamente.

Mais forte.

As luzes da câmara aumentaram instantaneamente.

Os símbolos nas paredes começaram a se mover.

Como linguagem viva reorganizando-se.

Lyra aproximou-se devagar.

As vozes surgiram imediatamente na mente dela.

Fracas.

Distantes.

Mas presentes.

"Filhos da superfície."

Ela congelou.

— Vocês ouviram isso?

Os outros cientistas começaram a olhar ao redor assustados.

Porque ouviram também.

O coração de Éterion estava falando.

Muito acima deles, Orion parou abruptamente no corredor subterrâneo.

As linhas azuis sob sua pele explodiram em brilho intenso.

Nira segurou a mão dele imediatamente.

— Ele encontrou você.

Maelis aproximou-se rápido.

— O núcleo despertou.

Orion sentia algo puxando-o violentamente agora.

Como conexão direta atravessando quilômetros de profundidade.

O coração.

Ele podia senti-lo.

Batendo.

Chamando.

"Venha."

O jovem quase caiu de joelhos.

As visões começaram outra vez.

Galáxias.

Estrelas mortas.

A entidade colossal.

E o coração brilhando no centro de tudo.

Maelis observava horrorizada.

— Nunca reagiu assim antes.

Orion ergueu os olhos.

Totalmente azuis agora.

— Ele quer que eu vá até lá.

Na gigantesca câmara subterrânea, os cientistas Solaris continuavam analisando o núcleo enquanto medo crescia rapidamente.

As leituras tornavam-se absurdas.

— O Nóvium está presente em toda estrutura molecular daqui.

Outro pesquisador aproximou-se da superfície brilhante usando drone.

— Parece uma rede neural.

Silêncio.

Lyra virou-se imediatamente.

— Explique.

O homem engoliu seco.

— Talvez... talvez o minério não seja apenas energético.

Ele observou os dados tremendo.

— Talvez seja consciente.

O núcleo pulsou violentamente naquele instante.

As luzes explodiram pela câmara inteira.

Vários cientistas caíram no chão segurando a cabeça.

As vozes tornaram-se ensurdecedoras.

"Ele retorna."

Lyra sentiu dor atravessar a mente.

Imagens surgiram involuntariamente.

Planetas queimando.

Civilizações desaparecendo.

A entidade azul movendo-se através das estrelas.

Então tudo parou.

Silêncio absoluto.

O núcleo diminuiu intensidade lentamente.

Os cientistas respiravam assustados.

Um deles começou a chorar.

— Ele mostrou coisas pra mim...

Outro tremia violentamente.

— O minério pensa.

A frase ecoou pela câmara.

E ninguém conseguiu negar.

Porque todos haviam sentido.

Não estavam diante de uma máquina.

Nem de um mineral.

Estavam diante de algo vivo.

Naquele momento, explosões ecoaram pelos níveis superiores.

Lyra ergueu a arma imediatamente.

— Contato!

Soldados correram para posições defensivas enquanto passos metálicos aproximavam-se pelos corredores.

Kael havia chegado.

As forças Noxianas surgiram nas entradas da câmara colossal poucos segundos depois.

Armas apontadas.

Soldados tensos.

Mas então todos viram o núcleo.

E o combate não começou.

Porque até mesmo os guerreiros mais violentos ficaram imóveis diante daquilo.

Kael avançou lentamente observando o coração pulsante de Éterion.

As linhas azuis sob sua pele reagiram instantaneamente.

O núcleo brilhou mais forte.

Como reconhecimento.

As vozes invadiram a mente dele imediatamente.

"Portador da guerra."

O general fechou os olhos brevemente.

Lyra percebeu.

— Você ouve também.

Kael abriu os olhos devagar.

Pela primeira vez desde que se conheceram, parecia verdadeiramente abalado.

— Isso está vivo.

O chão inteiro tremeu violentamente.

Muito mais forte que antes.

O núcleo começou a pulsar cada vez mais rápido.

Tum.

Tum.

Tum.

As paredes da câmara iluminaram-se completamente.

E então Orion chegou.

O jovem surgiu na entrada principal ao lado de Nira e dos sobreviventes ocultos.

No instante em que o núcleo viu Orion...

tudo mudou.

A esfera colossal explodiu em luz azul absoluta.

As estruturas da câmara inteira começaram a se mover.

As vozes tornaram-se um grito único dentro da mente de todos.

E o coração de Éterion bateu tão forte que o planeta inteiro respondeu.


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