A Guerra de Éterion: CAPÍTULO 16 - Caçadores de Poder
O impacto da reação do núcleo atravessou Éterion inteiro.
As tempestades do planeta tornaram-se violentas ao ponto de rasgar montanhas. Oceanos subterrâneos começaram a emergir através de fissuras abertas na crosta. Na órbita, naves Solaris e Noxianas perdiam estabilidade enquanto ondas gravitacionais atingiam sistemas de navegação.
E no coração subterrâneo do planeta, todos haviam sentido a mesma coisa.
O núcleo reconhecera Orion.
As luzes azuis ainda pulsavam pela gigantesca câmara enquanto soldados dos dois impérios mantinham armas apontadas uns para os outros sem coragem de iniciar combate.
O medo superava o ódio naquele momento.
Kael observava Orion à distância.
As linhas luminosas sob a pele do garoto brilhavam na mesma frequência do núcleo.
Aquilo não parecia coincidência.
Lyra aproximou-se lentamente de Orion enquanto cientistas Solaris tentavam estabilizar equipamentos enlouquecidos pelas descargas energéticas.
— Você está bem?
Orion demorou alguns segundos para responder.
Os olhos permaneciam fixos no coração pulsante.
— Ele está acordando mais rápido agora.
Silêncio imediato.
Kael ouviu claramente.
— O que exatamente é "ele"?
Orion finalmente desviou o olhar do núcleo.
O rosto parecia exausto.
— A coisa presa abaixo disso tudo.
As estruturas metálicas da câmara vibraram novamente.
Como confirmação.
Nira segurou a mão dele com força.
A menina observava as profundezas abaixo do núcleo como se escutasse algo distante.
Então sussurrou:
— Ele sente fome.
Os soldados presentes trocaram olhares nervosos.
Mesmo os guerreiros alterados pelo Nóvium pareciam desconfortáveis agora.
Maelis aproximou-se lentamente do centro da câmara.
— Precisamos selar as passagens inferiores antes que—
Alarmes interromperam tudo.
Um operador Solaris correu até Lyra.
— Capitã, detectamos múltiplas assinaturas entrando na atmosfera!
Kael virou-se imediatamente.
— Reforços?
— Não reconhecemos os códigos.
O holograma tático surgiu acima do piso.
Dezenas de pequenas embarcações atravessavam a nebulosa em altíssima velocidade.
Nenhuma identificação imperial.
Lyra estreitou os olhos.
— Piratas?
Kael observou as formações irregulares.
— Não. Mercenários.
As naves desconhecidas começaram a bombardear posições Solaris e Noxianas simultaneamente assim que entraram na órbita baixa.
Explosões iluminaram os desertos de Éterion.
Transmissões caóticas invadiram os comunicadores militares.
— Base orbital atingida!
— Eles estão invadindo plataformas de mineração!
— Não são forças oficiais!
No espaço, as embarcações mercenárias moviam-se rápido demais para formações convencionais. Utilizavam tecnologia avançada de ocultação enquanto drones armados atacavam instalações dos dois impérios.
Mas o mais perturbador era o alvo escolhido.
As minas de Nóvium.
Sempre as minas.
Dentro da principal nave mercenária, um homem observava hologramas da guerra com expressão fria.
Rostro parcialmente queimado.
Olho esquerdo substituído por implante metálico.
Seu nome era Rhykos Vane.
Líder da maior organização mercenária dos setores externos.
E extremamente rico.
Porque entendia algo simples:
quando impérios enlouqueciam por poder, sempre existia dinheiro a ser feito.
Uma mulher aproximou-se dele na ponte.
— As forças Solaris e Noxianas estão confusas.
Rhykos sorriu levemente.
— Ótimo.
Ela observou os relatórios surgindo nos monitores.
— Tem certeza que vale o risco?
O homem voltou os olhos para a imagem do núcleo subterrâneo captada por satélites espiões.
— Aquele minério vale mais que sistemas inteiros.
Silêncio.
— E se os rumores forem verdadeiros?
Rhykos riu baixinho.
— Monstros alienígenas, vozes cósmicas, entidades devoradoras...
Ele recostou-se na cadeira.
— Soldados assustados sempre inventam histórias.
Naquele mesmo instante, uma sombra gigantesca moveu-se dentro da nebulosa atrás da nave.
Mas ninguém percebeu.
Na câmara subterrânea, Lyra já organizava defesa imediata.
— Eles vieram atrás do núcleo.
Kael concordou silenciosamente.
Mercenários jamais arriscariam entrar numa zona de guerra daquela escala sem informação privilegiada.
Alguém vendera dados sobre o coração de Éterion.
Talvez dos dois impérios.
Explosões ecoaram pelos níveis superiores.
Os invasores já estavam descendo.
Soldados Solaris e Noxianos apontaram armas uns para os outros novamente.
Kael observou Lyra por alguns segundos.
— Se lutarmos entre nós agora, perderemos o núcleo.
Ela hesitou.
Confiar em Kael parecia absurdo.
Mas a situação piorava rápido demais.
Outra explosão sacudiu a estrutura.
Lyra respirou fundo.
— Trégua temporária.
Os oficiais Solaris ficaram chocados imediatamente.
— Capitã—
Ela ergueu a mão.
— Depois resolvemos nossa guerra.
Kael aproximou-se lentamente.
— Até os mercenários morrerem.
Os dois se encararam em silêncio.
Nenhum confiava realmente no outro.
Mas ambos entendiam:
algo muito pior que a guerra estava surgindo em Éterion.
Nos corredores superiores, os mercenários avançavam rapidamente usando armaduras leves e armas de pulso experimental.
Eram eficientes.
Brutais.
Treinados para saquear zonas de guerra impossíveis.
O líder da operação terrestre chamava-se Draegor.
Um homem gigantesco coberto por implantes mecânicos.
Ele observava mapas holográficos roubados dos impérios.
— O núcleo fica abaixo desses corredores.
Uma mercenária aproximou-se.
— Detectamos forças Solaris e Noxianas reunidas.
Draegor sorriu.
— Melhor ainda.
Ele ativou canal geral.
— Capturem cientistas vivos. Matem resistência militar.
Os invasores dividiram-se imediatamente pelos corredores ancestrais.
A cidade enterrada transformou-se em campo de batalha novamente.
Orion avançava sozinho pelos níveis externos enquanto explosões ecoavam à distância.
As vozes estavam agitadas.
"Proteja o coração."
As linhas azuis sob sua pele brilhavam constantemente agora.
Nira permanecera com Maelis e os sobreviventes nos níveis inferiores.
Lyra queria Orion protegido.
Kael queria observá-lo.
Mas o jovem recusara ambos.
Porque sentia algo aproximando-se.
E estava certo.
Três mercenários surgiram no corredor diante dele apontando armas imediatamente.
— Aí está o garoto.
Orion parou lentamente.
O líder do grupo analisou-o.
— O tal portador azul.
Outro mercenário riu.
— O chefe vai pagar muito por você.
Orion sentia energia atravessando o corpo inteiro.
As vozes ficaram mais altas.
"Liberte."
O líder avançou um passo.
— Vem tranquilo e ninguém precisa—
A parede atrás deles explodiu.
Fragmentos metálicos atravessaram o corredor violentamente.
Os mercenários giraram assustados.
Orion ergueu lentamente a mão.
Pela primeira vez, não tentou controlar.
A energia azul explodiu pelo corredor.
Os três homens foram arremessados contra as paredes simultaneamente.
O metal deformou-se ao redor dos corpos.
Um deles ainda tentou levantar a arma.
Orion olhou diretamente para ele.
A arma simplesmente desintegrou-se em partículas brilhantes.
O mercenário começou a recuar aterrorizado.
— O que diabos é você?
O jovem não respondeu.
Porque parte dele também não sabia mais.
Nos níveis centrais da cidade, mercenários capturavam cientistas Solaris e Noxianos enquanto batalhas espalhavam-se pelos corredores ancestrais.
Draegor observava prisioneiros ajoelhados.
— Qual deles entende o núcleo?
Um cientista Solaris respondeu tremendo:
— Vocês não compreendem o que estão fazendo.
O mercenário aproximou-se lentamente.
— Eu compreendo dinheiro.
O cientista balançou a cabeça desesperadamente.
— O planeta está vivo!
Draegor perdeu paciência.
Disparou imediatamente na perna do homem.
O grito ecoou pelo corredor.
— Onde fica o centro da estrutura?
Outro cientista, Noxiano, finalmente respondeu:
— Mais fundo... abaixo das câmaras orgânicas.
Draegor sorriu.
— Muito melhor.
Então as luzes apagaram.
Silêncio.
Todos congelaram.
As paredes começaram a pulsar em azul fraco.
Os símbolos ancestrais moveram-se lentamente.
E uma voz surgiu no corredor.
Não pelos comunicadores.
Diretamente dentro das mentes.
"Parasitas."
Os mercenários começaram a olhar ao redor nervosamente.
Um deles abriu fogo contra a escuridão.
Nada aconteceu.
Então algo atravessou a parede.
Uma criatura energética.
Menor que as vistas no espaço, mas igualmente horrível.
O corpo parecia feito de fumaça azul líquida.
Olhos brilhavam dentro da forma instável.
Os mercenários começaram a gritar.
A criatura atravessou um deles instantaneamente.
O homem caiu no chão convulsionando enquanto linhas azuis espalhavam-se sob sua pele.
Draegor disparou freneticamente.
As rajadas atravessavam a entidade sem causar dano.
Então a criatura olhou diretamente para ele.
E sorriu.
Nos corredores inferiores, Lyra e Kael lutavam lado a lado contra mercenários pela primeira vez.
A situação era surreal.
Soldados Solaris protegendo Noxianos.
Noxianos salvando inimigos.
Tudo porque o planeta parecia querer matar todos igualmente.
Kael derrubou dois invasores usando força aumentada pelo Nóvium enquanto Lyra cobria avanço pelos corredores laterais.
— Mais vindo pelo setor leste! — gritou um soldado Solaris.
Explosões iluminaram o corredor.
Mercenários avançaram usando drones blindados.
Kael destruiu um deles com golpe brutal.
Mas naquele instante percebeu tarde demais.
Outro invasor surgira atrás dele com rifle de plasma pesado.
Lyra viu primeiro.
— Kael!
Ela lançou-se imediatamente.
O disparo atingiu a parede no instante em que derrubou o general Noxiano no chão.
A explosão destruiu metade do corredor.
Fragmentos atravessaram armaduras.
Kael encarou Lyra surpreso.
Ela acabara de salvar sua vida.
Os dois ficaram imóveis por um segundo estranho.
Então novos disparos interromperam qualquer pensamento.
— Depois você agradece! — gritou Lyra levantando novamente.
Kael levantou-se logo atrás dela.
Algo mudara naquele instante.
Pequeno.
Quase imperceptível.
Mas real.
Nos níveis mais profundos, Orion continuava avançando sozinho enquanto energia azul percorria corredores inteiros ao redor dele.
As estruturas reagiam à sua presença constantemente.
Portas abriam-se.
Símbolos brilhavam.
E as vozes tornavam-se mais claras.
"Herdeiro."
O jovem sentiu medo imediato.
Porque aquela palavra parecia errada.
Muito errada.
Então encontrou os mercenários restantes.
Cinco homens armados cercando cientistas capturados perto de uma ponte ancestral.
O líder apontou arma diretamente para Orion.
— Não se mexe!
Os cientistas reconheceram o garoto imediatamente.
— Orion!
As linhas azuis sob a pele dele pulsaram forte.
O líder mercenário aproximou-se lentamente.
— O chefe quer você vivo.
Orion observou os cientistas assustados.
Depois olhou para as armas apontadas.
E finalmente compreendeu algo terrível.
O Nóvium estava deixando de ser apenas energia.
Estava se tornando instinto.
A ponte inteira começou a vibrar.
Os mercenários olharam ao redor assustados.
Fragmentos metálicos começaram a flutuar.
As armas estremeceram nas mãos deles.
— Atirem! — gritou alguém.
Mas Orion moveu a mão primeiro.
A explosão telecinética destruiu o corredor inteiro.
Os mercenários foram lançados no abismo abaixo da ponte enquanto energia azul atravessava as estruturas ancestrais.
Os cientistas ficaram imóveis observando o jovem.
Assustados.
Porque ele já não parecia completamente humano.
Na órbita de Éterion, a nave mercenária principal aproximava-se lentamente da atmosfera enquanto Rhykos Vane analisava relatórios confusos vindos da superfície.
— Perdemos contato com três equipes.
A mulher ao lado dele parecia nervosa agora.
— Existem coisas se movendo nas ruínas.
Rhykos irritou-se.
— Quero o núcleo.
Então os sensores enlouqueceram.
Alarmes dispararam imediatamente pela ponte.
— Assinatura energética enorme aproximando-se!
O holograma ampliou a nebulosa.
Uma criatura colossal emergia lentamente da escuridão.
Muito maior que qualquer nave.
Os olhos azuis abriram-se simultaneamente.
Rhykos finalmente perdeu o sorriso.
A entidade moveu-se na direção da frota mercenária.
E o espaço começou a rasgar ao redor dela.

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