A Guerra de Éterion: CAPÍTULO 17 - O Traidor
A guerra em Éterion deixara de ser apenas uma disputa territorial.
Agora era sobrevivência.
As criaturas energéticas multiplicavam-se ao redor do planeta. Tempestades azuis atravessavam continentes inteiros enquanto estruturas ancestrais despertavam sob a superfície.
E em meio ao caos crescente...
a traição surgiu.
Na órbita de Éterion, a base Solaris Helios Prime explodiu sem qualquer aviso.
O gigantesco complexo militar orbitava o hemisfério norte do planeta havia meses. Servia como centro logístico principal das operações Solaris.
Milhares de soldados estavam a bordo.
Centenas de cientistas.
Armazéns inteiros de Nóvium refinado.
Tudo desapareceu em segundos.
As imagens captadas por satélites mostravam algo impossível.
Os escudos da estação foram desligados manualmente antes do ataque.
Depois, uma sequência perfeita de explosões internas destruiu o reator central.
A estação rasgou-se ao meio como papel queimando no vazio espacial.
Dentro da base subterrânea Solaris, Lyra observava os hologramas da destruição em absoluto silêncio.
Cassian Holt surgia através de transmissão instável.
O rosto do almirante parecia devastado.
— Não houve invasão externa.
Lyra estreitou os olhos.
— Então foi sabotagem.
Cassian assentiu lentamente.
— Alguém dentro do comando entregou os códigos da estação.
Silêncio pesado tomou a sala.
Outro oficial surgiu ao lado do holograma.
— Também perdemos duas bases avançadas na superfície.
As imagens mudaram.
Instalações Solaris reduzidas a crateras fumegantes.
Ataques precisos.
Coordenados.
Informações internas haviam sido vendidas.
Lyra cruzou os braços lentamente.
— Quem sabia das localizações secretas?
Cassian hesitou.
— Apenas oficiais superiores.
O medo espalhava-se novamente pela frota Solaris.
Não bastavam criaturas cósmicas e um planeta vivo.
Agora existia um traidor.
Nos corredores subterrâneos próximos ao núcleo, Kael observava equipes Noxianas reforçando posições defensivas enquanto soldados carregavam feridos.
A aliança temporária com Solaris permanecia instável.
Ninguém confiava realmente em ninguém.
Mesmo assim, a cooperação reduzira perdas.
Por enquanto.
Um oficial aproximou-se rapidamente.
— General, interceptamos transmissões Solaris criptografadas.
Kael virou-se lentamente.
— Conteúdo?
— Bases destruídas. Possível espião interno.
O general permaneceu em silêncio por alguns segundos.
Depois perguntou:
— Origem dos ataques?
O oficial ativou holograma.
As rotas utilizadas pelos sabotadores apareceram imediatamente.
Kael observou atentamente.
Então algo chamou sua atenção.
Uma sequência específica de movimentações.
Precisas demais.
Militares demais.
Ele já vira aquele padrão antes.
— Isso não foi trabalho mercenário.
O oficial franziu a testa.
— Como sabe?
Kael aproximou-se do mapa holográfico.
— Porque alguém treinado por Solaris planejou isso.
Muito abaixo deles, o núcleo continuava pulsando.
Tum.
Tum.
Tum.
Cada batida parecia mais forte agora.
Mais viva.
As estruturas orgânicas espalhadas pela câmara cresciam lentamente sobre paredes e corredores.
Como raízes conscientes.
E as vozes...
as vozes tornavam-se impossíveis de ignorar.
Orion permanecia isolado numa área protegida pelos sobreviventes de Maelis enquanto cientistas Solaris e Noxianos discutiam freneticamente os últimos acontecimentos.
O jovem estava mudando rápido demais.
As linhas azuis sob sua pele já alcançavam o pescoço.
E às vezes objetos moviam-se perto dele sem qualquer controle consciente.
Nira aproximou-se silenciosamente.
— Você está assustado.
Orion não respondeu imediatamente.
Porque estava.
Ele sentia o coração de Éterion constantemente agora.
Como ligação direta dentro da própria mente.
Às vezes conseguia perceber movimentos no planeta inteiro.
Tempestades.
Criaturas.
As estruturas despertando.
E algo muito maior...
movendo-se abaixo de tudo.
— Não consigo mais parar de ouvir — murmurou ele.
Nira sentou-se ao lado dele.
— Ele fala comigo também.
Orion virou o rosto imediatamente.
— O que ele diz?
A menina hesitou.
Os olhos tornaram-se profundamente azuis por alguns segundos.
— Que a prisão está quebrando.
Silêncio.
Então alarmes ecoaram pelos corredores próximos.
Soldados começaram a correr.
Lyra entrou rapidamente na sala acompanhada por dois oficiais.
— Precisamos mover Orion agora.
O jovem levantou-se imediatamente.
— O que aconteceu?
— Existe um traidor dentro das forças Solaris.
Kael surgiu logo atrás dela.
— E talvez ele esteja aqui embaixo.
O ambiente ficou tenso imediatamente.
Soldados Solaris colocaram mãos perto das armas.
Noxianos fizeram o mesmo.
Lyra ignorou ambos.
— As informações sobre o núcleo vazaram.
Maelis aproximou-se lentamente.
— Então eles virão.
Kael respondeu friamente:
— Já vieram.
As criaturas energéticas continuavam atacando órbita e os mercenários ainda estavam espalhados pelos corredores superiores.
O caos favorecia infiltrações.
Lyra observou Orion diretamente.
— Você é prioridade agora.
O jovem percebeu imediatamente.
O traidor queria ele.
Na superfície de Éterion, tempestades elétricas engoliam ruínas militares enquanto pequenos grupos de sobreviventes tentavam escapar das zonas de combate.
Entre eles caminhava um homem usando uniforme Solaris parcialmente destruído.
Comandante Elias Varn.
Oficial respeitado.
Veterano de inúmeras guerras.
E o traidor.
Varn avançava sozinho entre estruturas abandonadas enquanto falava através de comunicador oculto.
— Confirmado. O garoto está perto do núcleo.
A voz do outro lado respondeu distorcida.
— Elimine-o antes que desperte completamente.
Varn observou a rachadura azul cortando o céu.
— E meu pagamento?
Silêncio breve.
— Você terá acesso ao Nóvium refinado prometido.
O homem desligou a transmissão lentamente.
Os olhos demonstravam algo além de ganância.
Medo.
Porque também ouvira as vozes.
E acreditava que Orion era o centro de tudo.
Se o garoto morresse...
talvez o planeta silenciasse.
Nos corredores inferiores, Lyra iniciava investigação imediata.
Os acessos ao núcleo haviam sido limitados aos oficiais mais confiáveis restantes. Transmissões internas eram analisadas uma a uma.
Mas algo não fazia sentido.
O traidor continuava sempre um passo à frente.
Kael observava-a trabalhar em silêncio por alguns minutos antes de falar:
— Você procura nos lugares errados.
Lyra ergueu os olhos irritada.
— Tem ideia melhor?
— Sim.
Ele aproximou-se do holograma tático.
— Pare de procurar quem ganha dinheiro.
Silêncio.
— Procure quem está com medo.
As palavras atingiram Lyra imediatamente.
Porque ele estava certo.
A guerra mudara todos.
O Nóvium destruía mentes.
Talvez a traição não fosse política.
Talvez fosse desespero.
Um oficial Solaris aproximou-se rapidamente.
— Capitã, encontramos registros alterados nas rotas internas.
Lyra abriu os arquivos imediatamente.
Os acessos pertenciam ao comandante Elias Varn.
Ela congelou por um segundo.
— Impossível...
Conhecia Varn havia anos.
Ele salvara vidas em inúmeras campanhas.
Cassian confiava nele completamente.
Kael percebeu a reação dela.
— Você conhece o traidor.
Lyra fechou o arquivo lentamente.
— Sim.
Naquele mesmo instante, Orion sentiu algo.
As vozes ficaram agitadas.
"Perigo."
Ele levantou-se abruptamente.
Nira percebeu imediatamente.
— Ele está perto.
Os corredores próximos ficaram silenciosos demais.
Orion saiu da sala antes que os guardas pudessem impedir.
Algo puxava sua atenção.
Uma presença.
Conhecida.
Errada.
Mais longe, Elias Varn avançava cuidadosamente pelos corredores ancestrais usando códigos Solaris para evitar patrulhas.
A arma permanecia firme nas mãos.
Mas o coração acelerava violentamente.
As vozes pioravam quanto mais se aproximava do núcleo.
"Mate o herdeiro."
O oficial apertou os dentes.
— Cala a boca...
Então viu Orion.
Sozinho no corredor iluminado por símbolos azuis.
O garoto parecia diferente agora.
Quase brilhava na escuridão.
Varn ergueu a arma lentamente.
Orion parou.
Os dois se encararam em silêncio.
— Você não devia ter vindo aqui sozinho — disse o oficial.
Orion observou a arma apontada.
— Foi você.
Varn respirou pesadamente.
— Você não entende o que está acontecendo.
As linhas azuis sob a pele dele também eram visíveis agora.
Pequenas.
Mas presentes.
Orion percebeu imediatamente.
— O Nóvium está dentro de você.
O homem deu um passo à frente.
— Dentro de todos nós.
A voz começou a falhar.
Como se outra coisa falasse junto dele.
— Desde que chegamos nesse planeta.
Orion sentiu pena por um instante.
Porque via claramente o terror nos olhos do oficial.
— Você está ouvindo ele também.
Varn quase gritou:
— Ele não para!
A arma tremia.
— Toda noite... toda maldita noite...
As vozes ecoaram mais forte pelo corredor.
As luzes pulsaram.
Orion aproximou-se devagar.
— Não precisa fazer isso.
O oficial fechou os olhos por um segundo.
Lembrou-se das bases destruídas.
Dos soldados enlouquecendo.
Das criaturas no espaço.
Das vozes incessantes.
Então apertou o gatilho.
Mas o disparo nunca alcançou Orion.
Uma lâmina atravessou o peito de Varn pelas costas antes.
O homem arregalou os olhos.
Sangue escorreu lentamente pela armadura Solaris.
Kael puxou a arma branca para trás num movimento frio.
O corpo do oficial caiu de joelhos.
Orion ficou imóvel.
Kael observava o traidor morrendo sem emoção aparente.
Varn tentou respirar.
Os olhos procuraram Orion desesperadamente.
— Eu... só queria... que parasse...
Então morreu.
Silêncio absoluto tomou o corredor.
Lyra chegou segundos depois acompanhada por soldados.
Ela viu o corpo imediatamente.
Depois olhou para Kael.
— Você matou ele.
Kael limpou a lâmina lentamente.
— Ele ia atirar.
Lyra aproximou-se do cadáver em silêncio.
O rosto endureceu.
Porque apesar da traição...
Varn fora amigo dela.
Orion observava ambos sem dizer nada.
As vozes estavam estranhamente quietas agora.
Então o chão inteiro tremeu violentamente.
Muito mais forte que antes.
Os corredores começaram a rachar.
Luzes azuis explodiram pelas paredes.
E o núcleo pulsou tão forte que todos sentiram dor imediata na cabeça.
Tum.
Tum.
Tum.
Nira apareceu correndo pelo corredor.
Os olhos brilhavam intensamente.
— Ele está abrindo os olhos!
Muito abaixo da cidade enterrada...
algo colossal começou a subir.

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