A Guerra de Éterion: CAPÍTULO 18 - O Exército Escarlate

 As profundezas de Éterion já não conseguiam permanecer adormecidas.

Depois da morte do traidor Solaris, os tremores tornaram-se constantes. Corredores inteiros da cidade enterrada começaram a se reorganizar sozinhos enquanto estruturas orgânicas cresciam sobre metais ancestrais como raízes conscientes.

E o núcleo...

o coração de Éterion pulsava cada vez mais rápido.

Tum.

Tum.

Tum.

Cada batida parecia ecoar diretamente dentro das mentes de todos no planeta.

Soldados tinham sangramentos repentinos.

Cientistas enlouqueciam no meio de pesquisas.

Tripulações orbitais relatavam visões coletivas de estrelas mortas e galáxias em chamas.

Mas em meio ao caos crescente, o Império Noxiano tomou uma decisão desesperada.

Uma decisão que mudaria a guerra completamente.

Na principal base militar Noxiana da superfície, enormes laboratórios subterrâneos permaneciam ativos apesar dos alertas constantes sobre instabilidade do Nóvium.

Kael observava tudo através de vidros reforçados.

Corpos estavam presos em cápsulas metálicas gigantescas. Tubos atravessavam carne e armadura enquanto cientistas monitoravam mutações em tempo real.

Os experimentos haviam evoluído.

Agora o Nóvium não era apenas implantado.

Era cultivado.

Um cientista aproximou-se nervosamente.

— General... o processo atingiu estabilidade parcial.

Kael observou a cápsula central.

Dentro dela, um soldado respirava lentamente coberto por algo que parecia metal vivo.

A armadura pulsava.

Movia-se junto à carne.

Linhas vermelhas atravessavam toda estrutura como veias brilhantes.

— Ele ainda mantém consciência? — perguntou Kael.

O cientista hesitou.

— Parcialmente.

Silêncio.

— E a absorção energética?

Outro pesquisador ativou holograma imediatamente.

Imagens mostravam testes recentes.

Disparos de plasma atingindo os soldados modificados.

A energia simplesmente desaparecia ao tocar as armaduras.

Absorvida.

Fortalecendo ainda mais os corpos.

Kael estreitou os olhos.

— Quantos sobreviveram ao processo?

Os cientistas trocaram olhares desconfortáveis.

— Dos trezentos iniciais...

Silêncio breve.

— Quarenta e dois.

O general permaneceu imóvel.

Quarenta e dois monstros funcionais.

Para Nox, aquilo bastava.

As cápsulas começaram a abrir lentamente.

Os soldados emergiram um a um.

Gigantescos.

Cobertos pelas armaduras vivas vermelhas que se moviam sobre músculos como organismos conscientes.

Os olhos brilhavam intensamente.

Não havia medo neles.

Nem humanidade suficiente.

Apenas fome de combate.

Um dos soldados virou lentamente o rosto na direção de Kael.

A armadura pulsou.

Como se respirasse.

O cientista sussurrou:

— Chamamos de Exército Escarlate.

Na base Solaris de Aurion, dezenas de quilômetros ao norte do deserto tóxico, Lyra organizava evacuações emergenciais.

As criaturas energéticas continuavam surgindo perto da atmosfera enquanto tremores destruíam estruturas militares diariamente.

Os relatórios vindos da órbita pioravam.

Mais naves desaparecidas.

Mais surtos mentais.

E agora...

movimentações estranhas das forças Noxianas.

Cassian Holt surgiu em holograma.

— Detectamos grande deslocamento militar saindo das bases de Kael.

Lyra aproximou-se da mesa tática.

— Em direção a quê?

O holograma ampliou mapas da superfície.

A resposta veio imediatamente.

— Aurion.

O coração dela acelerou.

A cidade-base Solaris abrigava milhares de civis evacuados das zonas de guerra.

Famílias inteiras.

Pesquisadores.

Feridos.

E pouca defesa pesada restante.

Lyra ativou comunicação imediata.

— Todas as unidades defensivas em posição máxima.

Mas já era tarde.

No horizonte vermelho de Éterion, eles apareceram.

O Exército Escarlate avançava através das tempestades.

Quarenta e dois soldados apenas.

Mas pareciam um batalhão inteiro.

As armaduras vivas pulsavam enquanto absorviam relâmpagos naturais do planeta. Energia azul atravessava as superfícies vermelhas formando padrões grotescos.

Tanques Solaris abriram fogo imediatamente.

Rajadas pesadas atingiram os soldados.

Nada aconteceu.

A energia simplesmente desapareceu nas armaduras.

Os guerreiros continuaram avançando.

Um deles saltou dezenas de metros sobre barricadas defensivas.

O impacto destruiu concreto e metal.

Soldados Solaris começaram a morrer segundos depois.

As armaduras vivas deformavam-se durante combate, criando lâminas orgânicas e escudos instantaneamente.

Outro guerreiro absorveu disparo direto de canhão energético.

A armadura brilhou intensamente.

Então devolveu o ataque multiplicado.

A explosão destruiu três veículos Solaris ao mesmo tempo.

Aurion mergulhou em caos absoluto.

Lyra observava tudo através do centro de comando enquanto transmissões desesperadas inundavam os sistemas.

— Eles atravessaram setor leste!

— Não conseguimos ferir essas coisas!

— Civis presos nos níveis inferiores!

Cassian gritou pelo comunicador:

— Retirem todos imediatamente!

Mas o Exército Escarlate movia-se rápido demais.

As ruas da cidade transformaram-se em massacre.

Soldados Solaris disparavam inutilmente enquanto as armaduras absorviam praticamente qualquer forma de energia.

E pior.

Quanto mais recebiam ataques...

mais fortes ficavam.

Kael observava a batalha à distância através de transmissão holográfica.

Os cientistas Noxianos pareciam fascinados.

— A adaptação superou previsões.

Outro pesquisador respondeu sorrindo:

— As armaduras estão evoluindo durante combate.

Kael permaneceu silencioso.

Porque via algo perturbador.

Os soldados Escarlates começavam a agir sem ordens diretas.

Como se compartilhassem uma única consciência.

Um dos guerreiros arrancou capacete de um soldado Solaris ferido.

Observou o homem aterrorizado.

E então inclinou a cabeça lentamente.

Como um animal estudando presa.

Depois esmagou-lhe o crânio.

As linhas azuis sob a pele de Kael pulsaram desconfortavelmente.

Aquilo estava errado.

Muito errado.

Na cidade enterrada, Orion sentiu imediatamente o que acontecia.

As vozes ficaram agitadas.

"Carne corrompida."

O jovem levantou-se abruptamente.

Nira percebeu primeiro.

— A guerra mudou.

Maelis aproximou-se rapidamente.

— O que você viu?

Orion fechou os olhos por um instante.

Imagens surgiram involuntariamente.

Soldados vermelhos.

Armaduras vivas.

Energia sendo consumida.

E algo dentro das armaduras...

algo conectado ao núcleo.

Ele abriu os olhos imediatamente.

— Kael criou monstros.

Lyra conseguiu escapar de Aurion por pouco.

A cidade inteira queimava atrás dela enquanto transportes evacuavam sobreviventes sob fogo constante.

Explosões iluminavam as tempestades de Éterion.

Milhares haviam morrido.

Talvez mais.

Os guerreiros Escarlates caminhavam entre ruínas destruindo qualquer resistência restante.

E nenhum armamento Solaris funcionava adequadamente.

Dentro do transporte militar, oficiais discutiam desesperadamente.

— Precisamos usar bombas gravitacionais!

— Não vai funcionar!

— Então o quê?!

Lyra permanecia em silêncio observando as imagens da destruição.

As armaduras absorviam energia.

Todas formas convencionais de ataque apenas fortaleciam os soldados.

Então lembrou-se de algo.

Orion.

As estruturas vivas de Éterion.

As visões.

Ela ativou comunicação imediata.

— Quero Orion agora.

Horas depois, nas profundezas do núcleo subterrâneo, Orion observava gravações do massacre de Aurion.

As imagens mostravam claramente os soldados Escarlates atravessando fogo pesado sem sofrer danos.

O jovem aproximou-se lentamente do holograma.

As linhas azuis sob sua pele começaram a pulsar.

— Pause aqui.

Lyra ampliou a gravação.

Um guerreiro Escarlate recebia disparo massivo de plasma.

A armadura absorvia energia instantaneamente.

Mas por apenas um segundo...

pequenas fissuras apareciam entre as placas vivas.

Orion estreitou os olhos.

As vozes sussurraram imediatamente.

"Interrupção."

Ele aproximou-se ainda mais.

— A armadura não absorve tudo.

Lyra cruzou os braços.

— Explique.

Orion apontou para as fissuras microscópicas.

— Ela converte energia em matéria viva.

Silêncio.

Os cientistas começaram a analisar novamente.

Os resultados apareceram rapidamente.

— Ele está certo...

Outro pesquisador arregalou os olhos.

— Durante sobrecarga existe microinstabilidade estrutural.

Lyra aproximou-se.

— Então existe uma fraqueza.

Orion assentiu lentamente.

— Não é a energia que destrói eles.

As linhas azuis nos braços dele brilharam mais forte.

— É frequência.

Silêncio absoluto.

Kael chegava naquele instante à câmara subterrânea acompanhado por guardas Noxianos.

O general ouviu a última frase.

— Frequência?

Orion virou-se lentamente para ele.

— As armaduras estão vivas.

Kael permaneceu imóvel.

Porque já suspeitava disso.

O jovem continuou:

— Tudo vivo possui ritmo.

Tum.

Tum.

Tum.

O núcleo pulsou ao fundo da câmara.

Como resposta.

Orion apontou para o coração de Éterion.

— As armaduras foram criadas usando Nóvium conectado ao núcleo.

Os cientistas Solaris começaram a compreender.

Lyra foi a primeira a concluir:

— Se quebrarmos a frequência...

— A ligação colapsa — terminou Orion.

Kael observava o garoto atentamente.

— Você consegue fazer isso?

Silêncio.

Orion hesitou.

Porque sabia a verdade.

Talvez conseguisse.

Mas toda vez que usava o poder, sentia-se menos humano.

As vozes tornavam-se mais fortes.

Mais próximas.

Nira aproximou-se dele devagar.

— Ele quer que você use.

O jovem fechou os olhos por um instante.

O coração de Éterion pulsava dentro da mente dele agora.

E abaixo disso...

algo gigantesco movia-se nas profundezas.

Esperando.

Lyra interrompeu o silêncio:

— Quantos soldados Escarlates existem?

Kael respondeu imediatamente.

— Quarenta e dois.

Ela olhou diretamente para ele.

— E quantos mais vocês conseguem criar?

O general não respondeu.

Porque ambos sabiam.

Se o processo estabilizasse...

Nox poderia construir um exército impossível de deter.

Lyra ativou imediatamente mapas holográficos.

— Então destruiremos eles agora.

Os oficiais Solaris ficaram tensos.

Um deles apontou para Kael.

— Vamos lutar ao lado deles?

Silêncio.

Kael observou os hologramas de Aurion em ruínas.

Depois os relatórios recentes sobre os soldados Escarlates.

Alguns já ignoravam ordens diretas.

Outros atacavam aliados próximos durante surtos de adaptação.

Os cientistas diziam ser controlável.

Kael não acreditava mais nisso.

— O Exército Escarlate não pertence mais a Nox.

As palavras chocaram todos.

Lyra encarou-o por alguns segundos.

Então assentiu lentamente.

— Então lutamos juntos.

A aliança temporária tornava-se algo maior.

Não amizade.

Jamais.

Mas necessidade.

No exterior da cidade enterrada, tempestades azuis atravessavam desertos enquanto os soldados Escarlates continuavam avançando entre ruínas Solaris.

E algo estranho começava a acontecer com eles.

As armaduras pulsavam mais rápido perto das fissuras do planeta.

Alguns guerreiros paravam de repente olhando para a rachadura gigantesca no céu.

Como se ouvissem um chamado distante.

As vozes.

As mesmas vozes.

No interior de uma armadura Escarlate, um soldado tentou remover o capacete.

Não conseguiu.

A armadura não permitiu.

As placas vermelhas moveram-se sobre a pele.

Aperfeiçoando integração.

Consumindo carne.

O homem começou a gritar.

Mas os outros soldados não reagiram.

Continuaram caminhando.

Sincronizados.

E muito abaixo de Éterion, o coração colossal batia cada vez mais rápido.

Tum.

Tum.

Tum.

Como se preparasse o nascimento de alguma coisa.


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