A Guerra de Éterion: CAPÍTULO 19 — A Lua Negra
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A destruição de Aurion alterou completamente o equilíbrio da guerra.
A notícia espalhou-se pelas frotas de Solaris e Nox como uma onda de choque. Pela primeira vez desde o início do conflito, ambos os impérios admitiam internamente que talvez nenhuma vitória militar fosse possível.
Os soldados do Exército Escarlate continuavam ocupando as ruínas da cidade destruída.
Mas eles já não se comportavam como tropas comuns.
Patrulhavam em silêncio.
Permaneciam imóveis durante horas olhando para o céu rasgado de Éterion.
Às vezes levantavam as mãos ao mesmo tempo, como se obedecessem a uma ordem que ninguém mais conseguia ouvir.
Nem mesmo Kael.
Isso o preocupava profundamente.
Na câmara do coração do planeta, cientistas dos dois impérios trabalhavam lado a lado, algo impensável poucos dias antes.
Os estudos sobre o núcleo avançavam lentamente.
O Nóvium parecia formar uma gigantesca rede biológica distribuída por toda a crosta de Éterion.
Cada depósito do minério era semelhante a uma célula.
Cada caverna brilhante funcionava como um nervo.
Cada pulso do coração enviava energia para todos os continentes.
Um pesquisador Solaris ampliou um holograma tridimensional.
— Observem isso.
Linhas luminosas espalharam-se pelo mapa do planeta.
Todas convergiam para um único ponto.
Mas não terminavam ali.
Continuavam além da atmosfera.
O cientista franziu a testa.
— Isso não faz sentido.
Outro pesquisador Noxiano aproximou-se.
— O sinal continua... fora de Éterion.
A sala mergulhou em silêncio.
Lyra cruzou os braços.
— Existe outra fonte?
O pesquisador aumentou a projeção.
As linhas luminosas subiam até a órbita.
Depois desapareciam em uma região completamente escura.
— Os sensores sempre interpretaram esse setor como vazio.
Kael observava atentamente.
Então algo lhe chamou a atenção.
A distorção gravitacional.
Pequena.
Quase imperceptível.
Mas constante.
— Não está vazio.
Todos olharam para ele.
O general ampliou novamente o mapa.
— Existe massa escondida ali.
Cassian Holt apareceu em transmissão holográfica.
— Enviamos sondas diversas vezes.
— Elas voltaram? — perguntou Kael.
Cassian hesitou.
— Nunca.
O silêncio tornou-se pesado.
Orion permanecia próximo ao coração de Éterion.
O núcleo brilhava suavemente diante dele.
As vozes estavam diferentes.
Não gritavam.
Sussurravam.
Como se esperassem alguma descoberta.
Ele fechou os olhos.
Sentiu novamente aquela ligação invisível.
Não apenas com o planeta.
Com algo muito distante.
Muito frio.
Muito antigo.
Os olhos abriram-se imediatamente.
— Existe uma lua.
Todos voltaram-se para ele.
Lyra aproximou-se.
— Como sabe?
Orion apontou para o teto da gigantesca câmara.
— Ela está escondida.
Um cientista respondeu imediatamente:
— Não existe nenhuma lua registrada.
Orion balançou a cabeça.
— Existe.
Nira, que permanecia sentada junto às raízes luminosas do coração, falou sem levantar o rosto.
— Ela nunca quis ser encontrada.
Os cientistas trocaram olhares desconfortáveis.
As frases da menina pareciam cada vez menos infantis.
E cada vez mais verdadeiras.
Na órbita, três cruzadores Solaris receberam ordens para investigar a região indicada.
A formação avançou lentamente através das distorções gravitacionais.
Os sensores permaneciam praticamente cegos.
O comandante da missão observava os monitores.
— Continuem avançando.
Um operador respondeu:
— Ainda não detectamos nada.
Então as estrelas desapareceram.
Não porque houvesse escuridão.
Mas porque algo gigantesco começou a bloquear sua luz.
A tripulação inteira ergueu os olhos para o visor principal.
Uma sombra colossal surgiu lentamente diante deles.
Primeiro parecia apenas um vazio.
Depois começaram a aparecer contornos.
Montanhas.
Crateras.
Estruturas.
O comandante perdeu a fala.
Uma lua inteira permanecera escondida durante milhares de anos.
Sua superfície era completamente negra.
Não refletia luz alguma.
Parecia absorver toda claridade ao redor.
Somente pequenas linhas azuladas percorriam antigas construções espalhadas por sua superfície.
O operador respirou fundo.
— Como ninguém encontrou isso?
Outro respondeu em voz baixa:
— Talvez... ela não quisesse ser encontrada.
Os sensores enlouqueceram.
As leituras gravitacionais eram absurdas.
A lua parecia existir parcialmente fora do espaço convencional.
Como se ocupasse duas realidades ao mesmo tempo.
Cassian recebeu imediatamente as imagens.
Transmitiu-as para Lyra.
Toda a câmara subterrânea mergulhou em silêncio ao observar a projeção.
A lua negra permanecia imóvel acima de Éterion.
Oculta por tecnologia incompreensível.
Maelis aproximou-se lentamente.
Seu rosto perdeu toda cor.
— As histórias eram verdadeiras.
Lyra virou-se para ela.
— Você conhece esse lugar?
A mulher demorou vários segundos para responder.
— Nossos ancestrais chamavam aquilo de Vigília.
— O que significa?
Maelis olhou novamente para a projeção.
— O último posto dos Guardiões.
As palavras ecoaram pela sala.
Kael aproximou-se do holograma.
— Guardiões de quê?
A resposta veio quase num sussurro.
— Da prisão.
As vozes voltaram imediatamente à mente de Orion.
"Não despertem os observadores."
Ele levou a mão à cabeça.
Nira segurou-lhe o braço.
— Você ouviu também.
Orion assentiu lentamente.
No espaço, equipes de exploração pousavam sobre a superfície escura da lua.
As botas tocaram um solo extremamente liso.
Parecia pedra.
Mas vibrava como metal.
Nenhuma poeira levantava.
Nenhum vento existia.
Tudo era silencioso demais.
Os exploradores avançaram lentamente entre estruturas gigantescas.
Torres negras erguiam-se em direção ao vazio.
Cada uma coberta pelos mesmos símbolos vistos na cidade enterrada.
Mas muito maiores.
Muito mais antigos.
Um cientista iluminou uma parede.
As inscrições começaram a brilhar sozinhas.
— Elas estão reagindo.
Outro aproximou um scanner.
— Encontramos enormes concentrações de Nóvium.
O equipamento começou a apitar freneticamente.
Depois queimou.
A energia era intensa demais.
Mais adiante, uma gigantesca porta circular permanecia parcialmente enterrada.
Seus mecanismos ainda funcionavam.
Como se alguém os tivesse desligado apenas algumas horas antes.
Os exploradores ativaram drones.
As imagens internas começaram a chegar.
Corredores infinitos.
Salões monumentais.
E máquinas.
Centenas delas.
Algumas maiores que cruzadores espaciais.
Nenhum pesquisador conseguiu identificar suas funções.
Mas todos perceberam uma característica.
Eram armas.
Não havia outra explicação.
Canhões com quilômetros de extensão apontavam para o espaço profundo.
Anéis energéticos cercavam plataformas de disparo.
Esferas metálicas flutuavam acima de enormes pilares.
Tudo permanecia desligado.
Esperando.
Na superfície de Éterion, Kael observava cada imagem em absoluto silêncio.
Os cientistas discutiam possibilidades.
— Essa tecnologia supera qualquer coisa conhecida.
— Talvez tenha milhões de anos.
— Se conseguirmos ativá-la...
Kael ergueu lentamente o olhar.
— Nós venceremos.
Lyra respondeu imediatamente.
— Ou destruiremos tudo.
O general permaneceu calmo.
— Se aquelas armas foram construídas para conter a entidade...
— Não sabemos isso.
— Então precisamos descobrir.
Lyra aproximou-se.
— Você quer ligar máquinas alienígenas que ninguém compreende?
Kael sustentou o olhar dela.
— Quero impedir que o universo inteiro seja consumido.
Silêncio.
Os dois tinham argumentos fortes.
Mas ambos ignoravam a verdadeira natureza daquelas armas.
Orion interrompeu a discussão.
— Elas não foram feitas para matar.
Todos olharam para ele.
O jovem observava a lua através do holograma.
As linhas azuis brilhavam intensamente.
— Foram feitas para prender.
Maelis assentiu lentamente.
— Os Guardiões não eram conquistadores.
Eram carcereiros.
Um novo grupo desembarcou na lua poucas horas depois.
Desta vez levando especialistas em tecnologia ancestral.
As equipes penetraram mais profundamente nas instalações.
Os corredores pareciam intermináveis.
Nenhum sinal de decomposição.
Nenhum dano significativo.
Era como caminhar por uma cidade abandonada ontem.
Então encontraram o salão principal.
Todos pararam imediatamente.
No centro havia uma gigantesca esfera cristalina suspensa sobre dezenas de colunas negras.
Ela girava lentamente.
Apesar de ninguém tê-la ligado.
Um pesquisador aproximou-se cautelosamente.
As inscrições ao redor começaram a iluminar-se.
Linhas azuis espalharam-se pelo piso.
Depois subiram pelas paredes.
A esfera projetou centenas de pontos luminosos.
Era um mapa.
Mas não de Éterion.
Nem daquela galáxia.
Os cientistas observaram maravilhados.
Milhares de estrelas apareceram diante deles.
Cada uma ligada por finas linhas de energia.
Então alguns sistemas começaram a brilhar em azul.
Um pesquisador ampliou uma região.
Outro sistema.
Mais um planeta.
Depois outro.
E outro.
O silêncio transformou-se em espanto.
Não existia apenas Éterion.
Havia dezenas.
Talvez centenas.
Mundos marcados com a mesma assinatura energética do Nóvium.
O mapa continuou expandindo-se.
Linhas luminosas conectavam todos aqueles planetas.
Como uma imensa rede espalhada pelo universo.
Um cientista sussurrou:
— Meu Deus...
Outro respondeu quase sem voz:
— Isso não é uma mineração.
É uma civilização inteira.
A transmissão chegou imediatamente ao coração de Éterion.
Os hologramas preencheram a gigantesca câmara subterrânea.
Lyra observava o mapa estelar sem conseguir desviar os olhos.
Cassian também permanecia em silêncio.
Até Kael parecia abalado.
Maelis aproximou-se lentamente da projeção.
Lágrimas surgiram em seus olhos.
— Eles caíram todos...
Orion aproximou-se.
— Quem?
A mulher apontou para os mundos iluminados.
— Cada um desses planetas possuía um coração.
O jovem sentiu um frio percorrer todo o corpo.
— Igual a Éterion?
Ela assentiu.
— Todos ligados pela mesma rede.
Nira olhava fixamente para um dos pontos mais distantes do mapa.
— Alguns ainda batem.
As vozes voltaram.
Mais fortes.
Mais numerosas.
Como milhares de sussurros falando ao mesmo tempo.
Orion cambaleou.
Imagens invadiram sua mente.
Planetas mortos.
Outros completamente cobertos por cristais de Nóvium.
Frotas destruídas.
Sóis apagados.
E uma enorme sombra atravessando todos aqueles mundos.
Alimentando-se.
Consumindo.
Sempre avançando.
Ele caiu de joelhos.
Lyra correu até ele.
— Orion!
O jovem respirava com dificuldade.
Os olhos estavam completamente azuis.
— Não eram colônias...
Silêncio absoluto.
Ele ergueu lentamente o rosto.
— Eram cadeias.
O coração de Éterion bateu violentamente.
Tum.
Toda a câmara tremeu.
Tum.
As luzes tornaram-se mais intensas.
Tum.
Na lua negra, as antigas máquinas começaram a despertar sozinhas.
Sem que ninguém as tocasse.
Engrenagens gigantescas moveram-se pela primeira vez em incontáveis eras.
As torres apontadas para o espaço giraram lentamente.
As inscrições espalhadas pela superfície inteira acenderam-se ao mesmo tempo.
E muito além da órbita de Éterion...
nas profundezas escuras da nebulosa...
algo respondeu ao chamado.
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