A Guerra de Éterion: CAPÍTULO 6 - Ecos da Nebulosa

 A tempestade sobre Éterion não diminuía.

Ela crescia.

As nuvens vermelhas que cobriam o céu do planeta giravam cada vez mais rápido enquanto relâmpagos azuis atravessavam a atmosfera em intervalos constantes. Fragmentos de destroços orbitais queimavam ao cair nas regiões montanhosas, iluminando vales inteiros por poucos segundos antes de desaparecerem no horizonte escuro.

E no meio daquele caos, algo novo começou.

As mensagens surgiram primeiro nos sistemas de comunicação da frota Solaris.

Pequenas interferências.

Ruídos estranhos.

Palavras incompletas atravessando frequências militares criptografadas.

Na ponte do Invictus, operadores tentavam estabilizar canais quando uma voz ecoou subitamente pelos alto-falantes.

"...não... despertem..."

Todos congelaram.

Cassian Holt ergueu os olhos imediatamente.

— Origem da transmissão.

— Não encontramos fonte, senhor.

A voz surgiu novamente.

Mais clara.

Mais próxima.

"...o coração... ainda vive..."

Os painéis começaram a piscar.

Linhas de símbolos desconhecidos surgiram rapidamente nas telas antes de desaparecer.

Uma operadora levou a mão à cabeça.

— Está entrando direto nos sistemas.

Outro técnico virou-se lentamente.

O rosto dele estava pálido.

— Senhor... isso não parece linguagem humana.

No Arauto da Ruína, os Noxianos recebiam exatamente a mesma transmissão.

Kaelor permanecia imóvel diante das telas.

A voz alienígena ecoava pelos corredores da nave como um sussurro vindo das profundezas do espaço.

"...a fome retornará..."

Um oficial tentou desligar os canais.

Não funcionou.

A mensagem continuava atravessando todos os sistemas.

Até mesmo comunicações internas.

Então os símbolos apareceram novamente.

Os mesmos círculos e linhas curvas vistos anteriormente durante a tempestade.

Mas agora mudavam de forma constantemente.

Como escrita viva.

Kaelor observou aquilo sem piscar.

— Gravem tudo.

— Senhor... talvez devêssemos bloquear as transmissões.

— Não.

Ele aproximou-se da projeção.

— Quero entender o que está tentando falar conosco.

Na Argo-7, Elias Renn caiu de joelhos assim que a mensagem começou.

Os olhos dele brilharam intensamente.

As vozes em sua mente explodiram ao mesmo tempo.

Imagens atravessaram sua consciência numa velocidade impossível.

Planetas mortos.

Civilizações queimando.

Criaturas gigantescas surgindo de fendas cósmicas.

E uma guerra tão antiga que parecia anterior à própria humanidade.

Darius segurou o pesquisador antes que ele batesse a cabeça no chão metálico.

— Elias!

O homem respirava com dificuldade.

— Eles estão tentando avisar...

— Quem?

Elias ergueu os olhos lentamente.

Havia lágrimas escorrendo por seu rosto.

— Os mortos.

Silêncio.

Até Darius hesitou antes de responder.

— Isso não faz sentido.

— Nada aqui faz.

As luzes do corredor começaram a piscar.

Objetos metálicos vibraram levemente ao redor de Elias.

— O templo abriu.

Darius franziu a testa.

— Que templo?

Mas Elias já olhava fixamente para Éterion.

Como se pudesse enxergar algo abaixo da superfície.

Na base Solaris, os cientistas continuavam estudando os depósitos de Nóvium enquanto equipes militares reforçavam perímetros defensivos.

Os ataques da fauna local aumentavam.

Criaturas mutadas rondavam as montanhas constantemente.

Algumas já apresentavam capacidades absurdas.

Uma delas atravessara uma parede blindada durante a madrugada.

Outra parecera desaparecer e reaparecer metros adiante antes de ser abatida.

A situação piorava rapidamente.

Lyra caminhava pela sala estratégica quando recebeu o relatório.

— Detectamos cavidades subterrâneas abaixo da estrutura antiga.

Ela parou imediatamente.

— Mostre.

O holograma revelou enormes túneis abaixo das montanhas.

Não naturais.

Construídos.

Gigantescos.

— Os scanners atravessaram parte das paredes externas após a última atividade energética — explicou um cientista. — Existe algo enorme enterrado aqui.

Outro pesquisador aproximou-se nervosamente.

— Encontramos sinais de tecnologia.

Lyra observou os mapas subterrâneos.

O coração acelerou involuntariamente.

As vozes em sua mente estavam mais fortes perto daquela região.

"Desçam..."

Ela ignorou novamente.

— Equipe de exploração pronta em vinte minutos.

O cientista hesitou.

— Capitã... talvez seja perigoso.

Lyra olhou diretamente para ele.

— Estamos em um planeta que altera seres vivos, enlouquece soldados e fala através de transmissões fantasmas.

Ela pegou o capacete sobre a mesa.

— O perigoso já começou faz tempo.

A entrada para o complexo subterrâneo ficava parcialmente escondida atrás de formações cristalinas.

A enorme abertura recém-ativada parecia uma ferida azul brilhando na montanha negra.

O ar vindo lá de dentro era quente.

E estranho.

Como se carregasse eletricidade.

Lyra liderou pessoalmente a equipe.

Soldados Astra avançavam em silêncio com armas erguidas enquanto drones iluminavam os corredores gigantescos do subterrâneo.

As paredes não eram feitas de metal comum.

Nem pedra.

Pareciam um material escuro e liso que pulsava levemente sob a luz azul espalhada pelo lugar.

Símbolos cobriam tudo.

Milhares deles.

Linhas curvas.

Círculos.

Estruturas geométricas impossíveis.

O mesmo idioma surgido nos radares.

— Estão em toda parte — murmurou uma pesquisadora.

Outro cientista aproximou scanner das paredes.

— Não existe deterioração.

— Quanto tempo isso ficou enterrado? — perguntou um soldado.

Ninguém sabia responder.

Porque aquilo parecia antigo demais para existir.

O grupo avançou por uma enorme escadaria descendente.

O templo subterrâneo parecia não ter fim.

Salões gigantescos surgiam um após outro.

Alguns continham estruturas quebradas semelhantes a máquinas.

Outros exibiam colunas imensas cobertas de inscrições brilhantes.

Então chegaram ao primeiro mural.

Todos pararam.

A parede colossal mostrava estrelas.

Galáxias.

Frotas.

E destruição.

Lyra aproximou-se lentamente.

As figuras não eram humanas.

Seres altos e alongados apareciam desenhados ao redor de um planeta brilhante.

Éterion.

Depois vinham imagens de guerra.

Mundos queimando.

Naves sendo engolidas por algo escuro vindo do espaço profundo.

Uma cientista começou a traduzir padrões das inscrições próximas.

— Isso... parece um aviso.

— Sobre o quê? — perguntou Lyra.

A mulher respirou fundo.

— Não tenho certeza.

Ela analisou mais símbolos.

Então ficou pálida.

— "O sangue desperta a fome."

Silêncio.

Outro pesquisador aproximou-se rapidamente.

— Aqui também.

Ele apontou para uma sequência brilhante.

— "Quando o coração abrir, as estrelas cairão."

Lyra sentiu um frio atravessar o corpo.

As vozes em sua mente ficaram mais intensas.

"Mais fundo..."

O grupo continuou avançando.

Quanto mais desciam, mais o templo parecia mudar.

As paredes pulsavam discretamente.

As luzes azuis aumentavam de intensidade quando alguém se aproximava.

Em certos momentos, passos ecoavam atrás deles.

Mas nunca havia ninguém.

Então encontraram o salão central.

A câmara era colossal.

Tão grande que os drones não conseguiam iluminar completamente o teto.

No centro existia uma estrutura circular gigantesca cercada por pilares negros.

Parecia altar.

Ou prisão.

As inscrições ali eram diferentes.

Muito mais complexas.

Um cientista chamado Marek aproximou-se lentamente.

Ele era um dos especialistas em linguagens antigas do Império Solaris.

Suas mãos tremiam enquanto analisava os símbolos.

— Isso não é apenas idioma — murmurou. — Parece... memória.

Lyra aproximou-se.

— Consegue traduzir?

Marek observava fascinado.

— Talvez.

Ele tocou a superfície brilhante.

No mesmo instante, toda a câmara iluminou-se violentamente.

Os soldados ergueram armas.

As inscrições começaram a se mover pelas paredes.

Como rios de luz.

Marek arregalou os olhos.

— Meu Deus...

As vozes surgiram imediatamente.

Não apenas na mente de Lyra.

Todos ouviram.

Centenas delas.

Sussurrando ao mesmo tempo.

Alguns soldados caíram de joelhos.

Outros começaram a gritar.

Imagens surgiram no ar acima da estrutura central.

Uma projeção.

Galáxias inteiras queimando.

Planetas consumidos por sombras gigantescas.

Frotas desaparecendo.

E no centro de tudo...

Éterion.

Uma voz profunda ecoou pela câmara.

"Eles vieram das profundezas vazias."

Os soldados observavam horrorizados.

A projeção mudou novamente.

Mostrava seres alienígenas construindo algo dentro do planeta.

Uma máquina colossal.

Ou selo.

"Selamos a fome dentro do coração."

Marek estava chorando sem perceber.

As inscrições atravessavam seu braço como luz líquida.

"Mas o sangue sempre retorna."

Subitamente, as projeções desapareceram.

As luzes apagaram.

Silêncio absoluto.

Então Marek começou a andar.

Devagar.

Em direção à escuridão no fundo da câmara.

— Doutor? — chamou Lyra.

Ele não respondeu.

Continuou andando.

Como alguém hipnotizado.

Dois soldados tentaram segurá-lo.

Marek empurrou ambos com força absurda.

Os homens foram lançados vários metros para trás.

Lyra arregalou os olhos.

O cientista virou-se lentamente.

Os olhos dele brilhavam em azul intenso.

— Eles estão chamando — murmurou.

A voz dele parecia misturada com outras vozes.

Múltiplas.

Sobrepostas.

— Marek, pare agora.

Mas o homem sorriu.

Um sorriso vazio.

Então entrou na escuridão além da câmara.

As luzes dos drones tentaram acompanhá-lo.

Não conseguiram.

Algo parecia engolir a iluminação.

— Atrás dele! — ordenou Lyra.

Os soldados avançaram imediatamente.

Mas não encontraram nada.

O corredor terminava numa parede lisa.

Sem saída.

Sem porta.

Marek simplesmente desaparecera.

O silêncio que tomou conta da equipe foi quebrado por alarmes nos comunicadores.

A voz desesperada de uma oficial surgiu cheia de estática.

— Capitã! Estamos sob ataque!

Lyra congelou.

— Relatório!

Explosões ecoaram ao fundo da transmissão.

— Noxianos invadiram a base!

Na superfície, o inferno havia começado.

Kael liderava o ataque pessoalmente.

As forças Noxianas atravessavam as linhas defensivas Solaris usando armamento pesado e soldados alterados pelo Nóvium.

Um homem Noxiano ergueu uma barricada metálica inteira antes de lançá-la contra torres defensivas.

Outro avançava ignorando disparos que deveriam destruí-lo.

Mas muitos também morriam.

De formas horríveis.

Alguns explodiam em ondas de energia azul no meio do combate.

Outros enlouqueciam subitamente e atacavam aliados.

Mesmo assim, Kael continuava avançando.

Frio.

Implacável.

Explosões destruíam estruturas da base Solaris enquanto soldados Astra tentavam reorganizar defesa.

— Eles romperam o setor norte!

— Recuem para as plataformas centrais!

— Temos mutações biológicas entre os feridos!

O caos espalhava-se rapidamente.

Kael caminhava entre fogo e cadáveres sem desacelerar.

Disparos atingiam sua armadura constantemente.

Então um soldado Solaris surgiu atrás de destroços.

Os olhos do homem brilhavam em azul.

Com um movimento brusco da mão, fragmentos metálicos ergueram-se do chão e voaram contra Kael.

O general desviou do primeiro.

O segundo atingiu parte de sua armadura.

O terceiro quase atravessou seu pescoço.

Kael finalmente reagiu.

Avançou numa velocidade brutal.

Agarrou o soldado pelo rosto.

E esmagou o capacete dele contra uma parede de concreto.

Silêncio breve.

O general observou o corpo cair.

Depois olhou para os próprios dedos.

Pequenas partículas azuladas brilhavam sobre a luva metálica.

Ele conseguia sentir algo mudando também.

Muito lentamente.

Na entrada do templo subterrâneo, Lyra e sua equipe retornavam rapidamente enquanto explosões faziam o chão tremer.

Assim que emergiram para a superfície, encontraram a base em chamas.

Naves destruídas.

Torres defensivas caídas.

Soldados mortos espalhados pelas plataformas.

E ao longe, Kael avançando entre os combates como um predador.

Lyra apertou o rifle imediatamente.

— Formem linha defensiva!

As tropas Solaris reorganizaram-se ao redor dela.

Mas havia algo pior.

Os depósitos de Nóvium próximos à base estavam brilhando intensamente agora.

Como se reagissem à batalha.

As montanhas começaram a tremer novamente.

E do interior do templo subterrâneo veio outro som profundo.

Mais forte desta vez.

Como engrenagens gigantescas despertando sob o planeta.

Kael ouviu também.

Todos ouviram.

O general ergueu os olhos lentamente para a estrutura antiga.

As linhas azuis espalhadas pelas paredes estavam pulsando.

O templo estava ativando alguma coisa.

E no espaço acima de Éterion, oculto pela tempestade e pelos destroços da guerra, algo gigantesco movia-se silenciosamente dentro da nebulosa escura.


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