A Guerra de Éterion: CAPÍTULO 7 - O Portador Azul
A guerra em Éterion já não parecia uma disputa entre impérios.
O planeta transformara tudo em algo diferente.
As bases militares estavam tomadas por medo, paranoia e fascínio. Cientistas enlouqueciam diante das descobertas sobre o Nóvium. Soldados começavam a desenvolver habilidades impossíveis. Outros morriam de formas grotescas após exposição mínima ao minério.
E acima de tudo isso, o próprio planeta continuava reagindo.
As tempestades aumentavam diariamente.
Os sussurros atravessavam comunicadores desligados.
As estruturas subterrâneas despertavam lentamente.
Na região sul de Éterion, longe das principais zonas de combate entre Solaris e Nox, enormes operações de mineração haviam sido instaladas às pressas nos últimos dias.
Os impérios precisavam de Nóvium.
Mais do que armas.
Mais do que território.
Precisavam entender o poder do minério antes que o inimigo conseguisse primeiro.
Gigantescas plataformas mecânicas perfuravam montanhas inteiras enquanto trabalhadores civis eram forçados a operar em condições absurdas. A maioria não era soldado. Eram mineradores, técnicos, condenados e colonos recrutados sob promessas falsas de fortuna.
Poucos sobreviveriam muito tempo.
O céu naquela região permanecia permanentemente coberto por nuvens esverdeadas. Chuva tóxica caía em intervalos constantes. O solo rachado brilhava com pequenos veios dourados de Nóvium espalhados sob a areia escura.
Orion Veyn trabalhava havia trinta horas sem descanso quando ouviu o primeiro sussurro.
Ele parou imediatamente.
A perfuradora gigantesca atrás dele continuava rugindo enquanto dezenas de mineradores moviam contêineres brilhantes pela plataforma principal.
Mas Orion escutara claramente.
"Olhe abaixo."
O jovem virou-se lentamente.
Não havia ninguém próximo.
Apenas fumaça tóxica atravessando as estruturas metálicas da mina.
— Ei! — gritou um supervisor. — Vai ficar parado até morrer?
Orion voltou ao trabalho imediatamente.
Ele tinha vinte anos, rosto magro e olhos cinzentos constantemente cansados. Antes de Éterion, trabalhava em cinturões de asteroides da Orla Exterior. Conhecia mineração desde criança.
Mas aquele planeta...
aquele lugar estava errado.
Todos sentiam.
Alguns homens ouviam vozes durante o sono.
Outros juravam ver sombras caminhando entre as tempestades tóxicas.
E havia os desaparecimentos.
Trabalhadores sumiam dentro dos túneis subterrâneos sem deixar rastros.
Os oficiais militares simplesmente apagavam seus nomes dos registros.
Orion tentava ignorar tudo isso.
Queria sobreviver.
Nada mais.
Mas naquela noite, enquanto operava scanners próximos de uma fissura recém-aberta, os sensores enlouqueceram.
— Pico energético! — gritou alguém.
O chão tremeu violentamente.
Os mineradores recuaram quando uma parte inteira da parede rochosa desabou revelando um enorme depósito azul-prateado.
Nóvium puro.
O brilho iluminou toda a mina.
Até os soldados ficaram imóveis.
O supervisor sorriu imediatamente.
— Finalmente...
Equipes científicas correram para o local.
Orion observava à distância.
Sentia algo estranho vindo do depósito.
Como calor atravessando o peito.
Então ouviu novamente.
"Mais perto."
Ele apertou os dentes.
Não queria ir.
Mas seus pés começaram a mover-se quase involuntariamente.
Outros trabalhadores também pareciam hipnotizados pela luz do minério.
Um cientista aproximou scanner do depósito.
Os números dispararam instantaneamente.
— Isso é impossível...
O Nóvium começou a vibrar.
Pequenos fragmentos ergueram-se lentamente no ar.
Os soldados recuaram.
— Todos para trás! — gritou um oficial.
Tarde demais.
Uma onda azul explodiu da fissura.
O impacto lançou homens contra paredes metálicas. Equipamentos destruíram-se instantaneamente. As luzes da mina apagaram.
Orion foi arremessado ao chão.
A dor atravessou seu corpo inteiro.
Ele tentou respirar.
Não conseguiu.
As vozes invadiram sua mente ao mesmo tempo.
Centenas delas.
Milhares.
Imagens surgiam numa velocidade absurda.
Estrelas mortas.
Planetas rachando.
Criaturas gigantescas movendo-se entre nebulosas.
E no centro de tudo...
Éterion.
Algo queimava dentro dele.
O jovem gritou.
Então silêncio.
Quando abriu os olhos novamente, a mina estava destruída.
Corpos espalhados.
Fumaça.
Sangue.
As luzes piscavam fracamente.
Orion levantou-se lentamente.
Seu corpo inteiro brilhava em azul fraco.
Os sobreviventes observavam horrorizados.
Um soldado apontou a arma imediatamente.
— Não se mova!
Orion olhou para as próprias mãos.
Pequenas correntes de energia giravam ao redor de seus dedos.
O ar vibrava perto dele.
— O que aconteceu comigo...?
O soldado aproximou-se cautelosamente.
— De joelhos. Agora.
Orion tentou obedecer.
Mas algo respondeu dentro dele.
Instintivamente.
A energia explodiu.
Uma onda azul atravessou a mina inteira.
O soldado foi lançado dezenas de metros para trás. Equipamentos metálicos derreteram parcialmente. As luzes apagaram novamente.
Os sobreviventes começaram a correr.
— Ele foi alterado!
— Chamem os militares!
Orion respirava desesperadamente.
A energia continuava surgindo involuntariamente ao redor de seu corpo.
Pura.
Brilhante.
Viva.
Muito acima da mina, satélites militares detectaram imediatamente a explosão energética.
Na base Solaris, Lyra observou os relatórios chegarem.
— Outra mutação?
Uma oficial assentiu.
— Mas diferente das anteriores.
O holograma mostrou dados instáveis.
— O indivíduo produziu energia sem contato físico direto após a exposição inicial.
Lyra franziu a testa.
— Nível de ameaça?
A mulher hesitou.
— Não sabemos.
Outro operador aproximou-se rapidamente.
— Os Noxianos interceptaram os mesmos dados.
Silêncio.
Lyra observou novamente os relatórios.
A leitura energética produzida pelo jovem minerador era absurdamente superior aos casos anteriores.
— Quero equipes no local imediatamente.
No acampamento Noxiano, Kael também analisava as informações.
O holograma mostrava imagens instáveis da mina destruída.
Corpos carbonizados.
Paredes derretidas.
E um jovem cercado por energia azul.
Kael permaneceu em silêncio por alguns segundos.
Depois perguntou:
— Ele sobreviveu?
— Sim, general.
— Interessante.
Um cientista aproximou-se cautelosamente.
— Os níveis energéticos registrados superam todos os testes anteriores.
Kael cruzou os braços.
— Então encontrem o garoto antes de Solaris.
Orion corria pelo deserto tóxico sem direção.
A tempestade verde atravessava as dunas escuras enquanto relâmpagos distantes iluminavam formações rochosas gigantescas.
Ele não compreendia o que estava acontecendo.
Seu corpo queimava.
A energia surgia involuntariamente sempre que sentia medo.
Ou raiva.
Ou dor.
Fragmentos metálicos espalhados pela areia vibravam quando ele passava.
O jovem tropeçou numa rocha e caiu.
As mãos atingiram o chão.
A areia explodiu ao redor dele numa onda azul.
Orion arregalou os olhos.
— Não...
As vozes continuavam presentes.
Mais baixas agora.
Mas constantes.
"Você abriu."
Ele segurou a cabeça.
— Parem...
Subitamente, motores ecoaram ao longe.
Naves.
Orion levantou-se rapidamente.
Luzes surgiam através da tempestade tóxica.
Eles o encontraram.
As primeiras aeronaves Solaris pousaram entre as dunas poucos minutos depois.
Soldados Astra cercaram a área imediatamente.
Lyra saiu da nave principal observando os rastros energéticos espalhados pela areia.
— Ele passou por aqui.
Uma especialista analisou scanner portátil.
— A energia ainda está no ambiente. Nunca vimos algo assim.
Outro soldado apontou para frente.
— Movimento.
Orion surgiu lentamente entre a fumaça tóxica.
Cansado.
Coberto de poeira.
Mas ainda cercado por pequenas correntes azuladas.
Os soldados ergueram armas imediatamente.
Lyra levantou a mão.
— Abaixem.
Ela aproximou-se devagar.
— Qual seu nome?
O jovem hesitou.
— Orion.
— Eu sou Lyra Seraphis, capitã de Solaris.
Ele deu um passo para trás imediatamente.
— Não quero voltar.
— Não estamos aqui para machucá-lo.
A energia ao redor de Orion aumentou.
— Mentira.
Os soldados tensaram posição.
Lyra manteve voz calma.
— Escute. O que aconteceu com você é importante.
— Importante para quem?
Silêncio breve.
O jovem observava os uniformes militares.
— Vocês só querem usar isso.
As correntes de energia começaram a girar mais rápido ao redor dele.
Lyra percebeu imediatamente.
— Orion, tente se acalmar.
— Eu não consigo!
A areia começou a flutuar.
Pequenas pedras ergueram-se no ar.
Os soldados apontaram armas novamente.
Então motores surgiram do outro lado das dunas.
Naves Noxianas.
Kael chegara.
As aeronaves negras pousaram brutalmente na areia tóxica enquanto soldados armados desembarcavam em formação agressiva.
Kael saiu da nave central.
Seu olhar encontrou Orion imediatamente.
O jovem sentiu medo instantâneo.
Algo naquele homem parecia pior que o próprio planeta.
Kael aproximou-se lentamente.
— Então você é o sobrevivente.
Lyra posicionou-se à frente.
— Ele está sob proteção Solaris.
Kael nem olhou para ela.
Continuou observando Orion.
— Você sente a energia dentro do corpo, não sente?
O jovem não respondeu.
Kael continuou:
— Solaris vai transformá-lo em experimento de laboratório.
Lyra estreitou os olhos.
— E Nox faria o quê? Um soldado?
O general finalmente olhou para ela.
— Um rei.
Silêncio.
Kael aproximou-se mais alguns passos.
— Escute com atenção, garoto. O poder que você possui pode torná-lo mais rico do que planetas inteiros.
Orion sentiu as vozes aumentarem novamente.
"Mentiras..."
A energia ao redor dele tremia violentamente agora.
Lyra tentou outra abordagem.
— Orion, precisamos entender o que aconteceu com você antes que isso o mate.
Kael soltou uma pequena risada.
— Ou antes que ele se torne algo muito maior.
O jovem segurou a cabeça.
As vozes estavam gritando novamente.
Imagens atravessavam sua mente.
Templos subterrâneos.
Estrelas destruídas.
O símbolo alienígena brilhando na escuridão.
E algo colossal despertando abaixo do planeta.
— Parem... — murmurou ele.
As dunas começaram a vibrar.
Os soldados recuaram imediatamente.
A energia explodiu ao redor de Orion como tempestade viva.
Relâmpagos azuis atravessaram a areia.
As naves próximas tremeram.
Kael observava fascinado.
Lyra percebeu o perigo imediatamente.
— Orion!
Mas o jovem já perdera controle.
Com um grito, ele liberou uma onda gigantesca de energia pura.
A areia do deserto abriu-se em todas as direções.
Soldados foram arremessados para trás.
Uma nave Solaris explodiu parcialmente.
Equipamentos Noxianos derreteram instantaneamente.
Quando a luz desapareceu, Orion havia sumido.
Silêncio.
Apenas o vento tóxico permanecia.
Lyra olhou ao redor desesperadamente.
— Para onde ele foi?!
Um operador analisava os sensores freneticamente.
— Detectando rastros energéticos movendo-se para o oeste!
Kael observava as dunas destruídas em silêncio.
Depois sorriu levemente.
— Interessante.
Lyra virou-se imediatamente para ele.
— Isso não acabou.
Kael respondeu friamente:
— Não. Está começando.
Orion corria novamente.
Mas agora algo era diferente.
Ele não estava apenas fugindo.
Sentia o planeta guiando seus passos.
As vozes tornavam-se mais claras quanto mais avançava pelo deserto tóxico.
"Venha."
Relâmpagos azuis atravessavam as nuvens acima dele.
A energia em seu corpo pulsava junto com as tempestades.
E muito longe dali, nas profundezas subterrâneas abaixo de Éterion, antigas estruturas começaram a despertar uma após outra.
Como se algo tivesse reconhecido sua presença.

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