A Guerra de Éterion: CAPÍTULO 8 - Guerra nas Areias

 Os desertos de Éterion tornaram-se um campo de guerra absoluto.

Durante dias, tempestades elétricas atravessaram as dunas tóxicas sem parar, iluminando o horizonte com explosões azuladas que pareciam rasgar o próprio céu. Veículos destruídos queimavam sob a areia negra. Destroços de naves orbitais caíam constantemente como chuva metálica.

E no meio disso tudo, Solaris e Nox transformavam o deserto em um matadouro.

Gigantescos tanques de combate atravessavam as planícies tóxicas levantando nuvens de poeira radioativa enquanto canhões energéticos destruíam montanhas inteiras. Colunas blindadas avançavam sem descanso em busca de depósitos de Nóvium, ruínas antigas e qualquer sinal do jovem conhecido agora apenas por um nome transmitido entre soldados:

O Portador Azul.

Orion Veyn.

Na linha frontal Solaris, o rugido das máquinas era constante.

Tanques da classe Leviathan atravessavam dunas com suas enormes esteiras metálicas, acompanhados por drones armados e transportes blindados. Os céus estavam tomados por aeronaves de reconhecimento tentando sobreviver às tempestades elétricas.

Lyra observava o avanço militar de dentro do veículo de comando Astra-Prime.

Hologramas mostravam perdas em tempo real.

— Três comboios destruídos no setor oeste.

— Tempestade magnética interferindo nos radares novamente.

— Detectamos movimentação Noxiana próxima das ruínas cristalinas.

Lyra permanecia imóvel.

Seu foco estava em outro ponto do mapa.

Os rastros energéticos deixados por Orion.

Eles apareciam em regiões diferentes do deserto como explosões breves de energia azul pura. Toda vez que as forças militares se aproximavam, o garoto desaparecia novamente.

Como se o próprio planeta o escondesse.

Uma oficial aproximou-se cautelosamente.

— Capitã... talvez devêssemos abandonar a perseguição.

Lyra desviou os olhos do mapa.

— Explique.

— Toda operação atrás dele termina em desastre. Perdemos homens para as tempestades, para mutações... e para coisas que nem conseguimos identificar.

Silêncio.

A oficial continuou:

— Talvez ele seja perigoso demais.

Lyra observou o horizonte pela janela blindada.

Relâmpagos cortavam o céu verde-escuro.

— Justamente por isso precisamos encontrá-lo primeiro.

Muito longe dali, as forças Noxianas avançavam brutalmente pelas mesmas regiões.

Os tanques de guerra Noxianos eram diferentes.

Mais rápidos.

Mais agressivos.

Máquinas negras cobertas por canhões pesados e placas reforçadas atravessavam as dunas esmagando tudo pelo caminho.

Kael liderava a ofensiva pessoalmente.

O general permanecia dentro do gigantesco blindado Vorath-X enquanto analisava relatórios holográficos.

— Solaris continua procurando o garoto — informou um oficial.

Kael assentiu lentamente.

— E nós também continuaremos.

Outro soldado hesitou antes de falar.

— General... os homens começaram a espalhar rumores.

— Que rumores?

O oficial evitou olhar diretamente para ele.

— Dizem que o garoto não é mais humano.

Kael ficou em silêncio por alguns segundos.

Depois perguntou:

— Você acredita nisso?

O homem demorou a responder.

— Depois do que vimos neste planeta... não sei mais no que acreditar.

Kael observou as tempestades além da janela blindada.

Nem ele tinha certeza.

Porque os relatórios sobre Orion não faziam sentido.

O garoto não apenas sobrevivera ao Nóvium.

Parecia conectado ao planeta de uma maneira diferente de todos os outros.

E isso o tornava extremamente valioso.

Ou extremamente perigoso.

O comboio Noxiano continuou avançando pelas dunas.

Então os radares enlouqueceram.

— Pico elétrico detectado!

Kael ergueu os olhos imediatamente.

O céu abriu-se.

Uma tempestade azul colossal desceu sobre o deserto sem aviso.

Relâmpagos atingiram os tanques da linha frontal instantaneamente.

Explosões iluminaram as dunas.

Soldados começaram a gritar pelos comunicadores.

— Perdemos energia!

— Motores falhando!

— A tempestade está nos seguindo!

Kael segurou firme a estrutura interna do blindado enquanto o veículo inteiro tremia.

Lá fora, dezenas de soldados eram atingidos diretamente pelos relâmpagos de Éterion.

Mas aquilo não era eletricidade comum.

Os corpos não queimavam.

Eles brilhavam.

Por alguns segundos.

Antes de explodirem em luz azul.

Centenas morreram em minutos.

No setor leste do deserto, um grupo de refugiados tentava sobreviver entre destroços de antigas plataformas de mineração.

Eram civis.

Famílias inteiras abandonadas após o início da guerra.

Crianças escondiam-se dentro de estruturas metálicas destruídas enquanto adultos tentavam coletar água tóxica filtrada das tempestades.

A comida acabara fazia dois dias.

Uma mulher segurava o filho pequeno perto do peito enquanto observava o horizonte.

— Eles estão vindo de novo.

Motores ecoavam ao longe.

Desta vez eram saqueadores.

Ex-mineradores armados que atacavam comboios refugiados para sobreviver no caos de Éterion.

O líder do grupo aproximou-se sorrindo.

— Abram as portas e talvez deixemos alguns vivos.

Ninguém respondeu.

As crianças começaram a chorar.

Os homens armados avançaram.

Então a tempestade mudou.

O vento tornou-se azul.

Pequenos fragmentos metálicos espalhados pela areia começaram a flutuar.

Os saqueadores pararam imediatamente.

— Que diabos—

Uma onda de energia atravessou as dunas.

As armas dos homens foram arrancadas de suas mãos violentamente.

Relâmpagos azuis surgiram no ar.

E Orion apareceu entre a tempestade.

Os refugiados ficaram imóveis.

O jovem parecia diferente agora.

As roupas estavam parcialmente queimadas pelas explosões energéticas recentes. Pequenas linhas azuladas brilhavam sob sua pele constantemente.

E os olhos...

os olhos brilhavam em azul intenso.

Os saqueadores recuaram.

— É ele...

— O Portador Azul...

Orion respirava pesadamente.

A energia girava ao redor de seu corpo como fumaça viva.

— Vão embora.

O líder dos saqueadores tentou manter firmeza.

— Você acha que pode nos assustar?

Orion olhou diretamente para ele.

A areia abaixo dos pés do homem explodiu instantaneamente.

O saqueador caiu gritando.

Os outros fugiram imediatamente.

Nenhum quis lutar.

Silêncio.

Os refugiados observavam Orion como se encarassem uma criatura impossível.

Uma menina pequena aproximou-se lentamente.

— Você é um fantasma?

Orion hesitou.

Depois quase sorriu.

— Não.

A criança observava as pequenas correntes de energia ao redor dele.

— Então por que você brilha?

Ele não sabia responder.

Porque nem ele compreendia mais o que estava se tornando.

Naquela noite, Orion permaneceu com os refugiados.

As tempestades rugiam do lado de fora das estruturas destruídas enquanto as famílias tentavam descansar.

O jovem permanecia sentado sozinho perto da entrada principal observando os relâmpagos.

As vozes ainda estavam presentes.

Constantes.

Mas agora pareciam diferentes.

Menos agressivas.

Como se o planeta estivesse... observando.

Uma mulher aproximou-se trazendo água.

— Obrigada pelo que fez.

Orion aceitou o recipiente lentamente.

— Eles voltariam.

— Mesmo assim nos salvou.

Silêncio breve.

A mulher observou a energia azul surgindo discretamente nas mãos dele.

— Você não parece um monstro.

Orion abaixou os olhos.

— Talvez eu esteja me tornando um.

Ela não respondeu.

Porque naquele planeta ninguém mais sabia onde terminava a humanidade.

No dia seguinte, as forças Solaris encontraram os rastros deixados pela batalha contra os saqueadores.

Lyra ajoelhou-se perto da areia vitrificada.

A energia residual ainda pulsava no chão.

— Ele esteve aqui recentemente.

Uma especialista analisava os dados do scanner.

— Os níveis energéticos estão aumentando.

Outro soldado aproximou-se correndo.

— Encontramos sobreviventes escondidos nas ruínas.

Lyra foi imediatamente até eles.

As famílias refugiadas observavam os militares com medo evidente.

Uma criança apontou diretamente para Lyra.

— O homem azul disse que vocês chegariam.

A capitã congelou.

— Ele falou isso?

A mulher que conversara com Orion assentiu lentamente.

— Ele salvou nossas vidas.

Lyra aproximou-se devagar.

— Para onde ele foi?

A mulher hesitou.

Depois apontou para o oeste.

— Em direção ao deserto tóxico.

Um soldado soltou uma maldição baixa.

Aquela região era praticamente suicida.

As tempestades químicas eram tão violentas que até blindados militares evitavam atravessá-las.

Mas Lyra já tomava decisão.

— Preparem comboio imediato.

— Capitã, é perigoso demais—

— Eu sei.

Ela olhou novamente para o horizonte verde.

— Mas Kael também irá atrás dele.

E ela tinha razão.

Horas depois, os Noxianos chegaram às mesmas ruínas.

Kael observava os rastros energéticos deixados por Orion em silêncio absoluto.

Uma das paredes metálicas estava parcialmente derretida pela explosão azul.

— Ele está ficando mais forte — murmurou um cientista.

Kael observou as marcas profundamente.

— Não.

O general ergueu os olhos lentamente.

— Ele está aprendendo.

O cientista hesitou.

— General... se o garoto continuar evoluindo—

— Então precisamos controlá-lo antes que Solaris consiga.

Outro oficial aproximou-se rapidamente.

— Detectamos movimentação para o oeste. Direção do deserto tóxico.

Kael sorriu discretamente.

— Finalmente.

Os comboios partiram quase ao mesmo tempo.

Solaris.

Nox.

Ambos mergulhando rumo à região mais mortal de Éterion.

O deserto tóxico era diferente do restante do planeta.

Não existiam montanhas cristalinas ali.

Nem ruínas visíveis.

Apenas dunas negras infinitas cobertas por neblina verde radioativa.

Relâmpagos surgiam diretamente do chão.

E algo estranho acontecia com os sons.

As vozes carregadas pelo vento pareciam humanas às vezes.

Outras vezes não.

O comboio Solaris avançava lentamente enquanto sensores tentavam sobreviver às interferências.

Lyra observava os dados surgirem e desaparecerem nos painéis.

— Nenhum sinal do garoto?

— Apenas explosões energéticas ocasionais.

Então uma explosão surgiu ao longe.

Azul intensa.

Todos olharam imediatamente.

— Coordenadas fixadas! — gritou a piloto.

O comboio acelerou.

Mas as tempestades pioraram instantaneamente.

Relâmpagos começaram a atingir as dunas ao redor dos veículos. A areia erguia-se em espirais gigantescas.

E então vieram as criaturas.

Animais deformados pelo Nóvium emergiram das tempestades como sombras vivas.

Alguns possuíam placas cristalinas crescendo pelo corpo.

Outros brilhavam internamente.

Uma criatura colossal saltou diretamente sobre um tanque Solaris esmagando parte da blindagem com as patas.

Os soldados abriram fogo imediatamente.

— Contato em todas as direções!

Lyra correu para o compartimento superior do veículo.

Disparos energéticos iluminavam a tempestade.

Mas havia algo pior.

As criaturas pareciam atraídas pela energia residual deixada por Orion.

Como se o estivessem seguindo.

No outro lado do deserto, Kael enfrentava o mesmo inferno.

Tanques Noxianos atravessavam as dunas enquanto relâmpagos destruíam veículos da linha traseira.

As criaturas mutadas atacavam constantemente.

Mas Kael continuava avançando.

Implacável.

Então um oficial gritou:

— Detectamos o alvo!

Um enorme clarão azul surgiu entre as tempestades distantes.

Kael observou em silêncio.

— Mais rápido.

No centro daquele caos, Orion estava sozinho novamente.

As tempestades giravam ao redor dele como se respondessem à energia em seu corpo.

Ele sentia o planeta.

Sentia correntes subterrâneas atravessando quilômetros abaixo das dunas.

E sentia outra coisa.

Algo chamando.

Mais profundo no deserto.

As vozes estavam mais claras agora.

"Você precisa chegar antes deles."

Orion caiu de joelhos na areia.

A energia explodiu involuntariamente ao redor dele.

Relâmpagos desceram do céu ao mesmo tempo.

Então ele viu.

Uma estrutura gigantesca surgindo entre a tempestade tóxica.

Parcialmente enterrada.

Antiga.

Coberta pelos mesmos símbolos alienígenas do templo subterrâneo.

O coração acelerou.

As vozes ficaram silenciosas.

Como se esperassem.

E muito acima das nuvens tóxicas de Éterion, escondido dentro da nebulosa viva, algo colossal começou lentamente a se mover em direção ao planeta.


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