A Guerra de Éterion: CAPÍTULO 9 - A Cidade Enterrada

 A estrutura emergia lentamente das dunas tóxicas como o cadáver de um deus esquecido.

Orion permaneceu imóvel observando a construção colossal surgir entre as tempestades verdes de Éterion. Metade dela ainda estava enterrada sob areia negra, mas aquilo já bastava para compreender sua escala absurda.

Torres curvadas erguiam-se centenas de metros acima do deserto.

Linhas azuis pulsavam sob a superfície escura das paredes.

Os mesmos símbolos alienígenas vistos no templo subterrâneo cobriam toda a estrutura.

Mas aquilo não era apenas um templo.

Era uma cidade.

Uma cidade inteira enterrada sob o deserto tóxico.

As vozes dentro da mente de Orion silenciaram completamente.

O jovem respirava com dificuldade enquanto observava as gigantescas portas parcialmente abertas diante dele.

Sentia algo vindo de lá.

Algo vivo.

Ou preso.

Então a areia abaixo de seus pés começou a vibrar.

Motores.

Os exércitos estavam chegando.

Orion virou-se rapidamente.

Luzes surgiam através das tempestades em direções opostas.

Solaris.

Nox.

Ambos haviam seguido seus rastros até aquele lugar.

O jovem recuou alguns passos observando novamente a entrada colossal.

Não tinha tempo.

Se os impérios encontrassem aquela cidade...

As vozes retornaram imediatamente.

"Entre."

Sem compreender por quê, Orion correu para dentro das ruínas.

Os portões gigantescos emitiram um som metálico profundo quando ele atravessou a entrada principal.

E assim que passou pelas sombras do interior, as luzes azuis espalhadas pelas paredes despertaram.

Como se reconhecessem sua presença.

Do lado de fora, os comboios militares surgiram poucos minutos depois.

Tanques Solaris apontaram canhões para as estruturas enterradas enquanto aeronaves circulavam acima da tempestade tóxica.

Do outro lado das dunas, as forças Noxianas também paravam diante da cidade ancestral.

Por alguns segundos, ninguém disparou.

Até os soldados mais experientes ficaram em silêncio diante da visão impossível.

A cidade parecia antiga demais para existir.

Gigantescas estátuas alinhavam-se ao redor da entrada principal.

Seres alienígenas.

Altos.

Alongados.

Com rostos parcialmente apagados pelo tempo.

Mas os olhos das esculturas brilhavam em azul fraco.

Como se observassem os invasores.

Lyra saiu do veículo de comando lentamente.

O vento tóxico atravessava sua capa militar enquanto ela encarava a cidade enterrada.

— Meu Deus...

Uma cientista Solaris aproximou-se nervosamente.

— Isso estava escondido sob o deserto o tempo inteiro.

Do outro lado da tempestade, Kael também observava as estruturas.

Seu rosto permanecia frio.

Mas os olhos demonstravam atenção absoluta.

— Encontramos o coração do planeta — murmurou um oficial Noxiano.

Kael não respondeu.

Porque sentia algo estranho naquele lugar.

Algo diferente das outras ruínas.

A cidade parecia... desperta.

Então uma das estátuas moveu levemente a cabeça.

O som de pedra arrastando ecoou pela tempestade.

Soldados de ambos os lados congelaram imediatamente.

— Vocês viram isso?! — gritou alguém.

Silêncio absoluto.

A estátua permaneceu imóvel novamente.

Mas vários soldados já recuavam lentamente.

Lyra apertou o rifle.

— Equipes de exploração comigo.

Kael deu exatamente a mesma ordem.

As forças avançaram ao mesmo tempo.

Dentro da cidade enterrada, Orion atravessava corredores gigantescos iluminados por luz azul pulsante.

Tudo parecia impossível.

As paredes eram cobertas por símbolos vivos que se moviam lentamente como correntes líquidas. Colunas enormes sustentavam tetos tão altos que desapareciam na escuridão.

E havia sons.

Baixos.

Profundos.

Como máquinas gigantescas funcionando em algum lugar abaixo da cidade.

O jovem respirava rapidamente enquanto avançava.

As vozes guiavam seus passos.

"Mais fundo."

Orion passou por uma enorme praça subterrânea.

Então parou.

As estátuas estavam ali também.

Centenas delas.

Gigantescas.

Alinhadas ao redor da praça como guardiões silenciosos.

Algumas seguravam armas desconhecidas.

Outras apontavam para o céu.

Todas tinham os olhos brilhando em azul.

Orion sentiu um frio atravessar o corpo.

As esculturas pareciam vivas.

Então ouviu passos.

Os exércitos haviam entrado.

Lyra liderava a equipe Solaris pelos corredores principais enquanto drones tentavam mapear a cidade.

Mas os sistemas falhavam constantemente.

Os hologramas distorciam.

Os radares enlouqueciam.

— A interferência está aumentando — informou uma especialista.

Um soldado observava nervosamente as estátuas gigantescas espalhadas pelas praças subterrâneas.

— Elas parecem nos seguir com os olhos.

Outro respondeu imediatamente:

— Cala a boca.

Mas todos pensavam o mesmo.

As esculturas causavam desconforto irracional.

Como se julgassem os humanos que invadiam aquele lugar.

Lyra aproximou-se de um mural gigantesco numa das paredes.

As inscrições brilhavam intensamente.

Ela passou a mão próxima da superfície.

Instantaneamente, imagens surgiram diante dela.

Galáxias.

Planetas.

A mesma civilização alienígena aparecia novamente.

Mas agora havia algo diferente.

Guerra.

As figuras lutavam contra criaturas feitas de sombra viva.

Monstros enormes atravessando estrelas.

As inscrições mudaram.

Uma tradução automática parcial surgiu no visor do traje.

"A fome veio das profundezas negras."

Lyra sentiu o coração acelerar.

As imagens continuaram.

A civilização antiga construindo enormes estruturas subterrâneas.

Selos.

Prisões.

Máquinas.

Tudo ligado a Éterion.

Então veio a última imagem.

O planeta abrindo-se.

Como uma ferida.

A transmissão desapareceu abruptamente.

— Capitã? — chamou um soldado.

Lyra virou-se lentamente.

— Isso não é uma cidade comum.

Muito mais abaixo, Kael avançava pelos níveis inferiores da estrutura junto das forças Noxianas.

Diferente dos Solaris, os soldados Nox pareciam menos assustados.

Mas apenas na superfície.

O desconforto aumentava a cada corredor atravessado.

Os sons subterrâneos estavam mais fortes ali.

Batidas metálicas profundas.

Como um coração gigantesco pulsando abaixo da cidade.

Um cientista aproximou scanner de uma parede.

— Energia absurda. Existe Nóvium em toda estrutura.

Kael observou os símbolos brilhando lentamente.

Então um deles moveu-se.

O general estreitou os olhos.

A parede inteira começou a reorganizar inscrições diante deles.

Como linguagem viva.

Um oficial deu um passo para trás.

— General...

As inscrições formaram algo parecido com um rosto.

E então a parede falou.

"Vocês chegaram tarde."

Os soldados ergueram armas imediatamente.

A voz ecoava diretamente dentro das cabeças deles.

O cientista começou a tremer.

— Isso é impossível...

Kael permaneceu imóvel.

— Quem está falando?

Silêncio.

Depois:

"O selo está enfraquecendo."

As luzes da cidade piscaram violentamente.

Então tudo apagou.

Escuridão absoluta.

Gritos ecoaram pelos corredores.

As lanternas dos soldados ativaram-se imediatamente.

E foi então que perceberam.

Um dos homens havia desaparecido.

Nenhum som.

Nenhum sangue.

Apenas sumira.

— Onde ele está?! — gritou alguém.

Outro soldado apontou para frente tremendo.

As sombras no corredor pareciam mover-se.

Kael observava atentamente.

Então ouviu um grito distante ecoando pelos níveis inferiores.

O soldado desaparecido.

Ou o que restava dele.

O grito terminou abruptamente.

Silêncio.

Na ala oeste da cidade enterrada, Orion encontrara algo ainda pior.

Uma câmara gigantesca parcialmente aberta.

No centro dela existia um artefato suspenso no ar.

Uma esfera negra cercada por anéis azuis brilhantes.

O objeto pulsava lentamente.

Como se respirasse.

As vozes silenciaram no instante em que Orion entrou.

O jovem aproximou-se cautelosamente.

Sentia a energia dentro do próprio corpo reagir violentamente ao artefato.

As correntes azuis ao redor de seus braços giravam cada vez mais rápido.

Então a esfera moveu-se sozinha.

Os anéis começaram a girar.

Lentamente.

As paredes da câmara iluminaram-se.

Símbolos surgiram por toda parte.

Orion recuou imediatamente.

— O que é isso...?

O artefato emitiu um som profundo.

E despertou completamente.

A cidade inteira respondeu.

Em todos os corredores subterrâneos, as luzes azuis explodiram simultaneamente.

As estátuas gigantes começaram a vibrar.

O chão tremeu.

Lyra quase caiu enquanto os corredores estremeciam violentamente.

— Relatório!

— Algo ativou a estrutura!

As paredes brilhavam intensamente agora.

Símbolos moviam-se por todas as direções.

Então uma das estátuas virou lentamente a cabeça.

Desta vez ninguém imaginou.

A pedra moveu-se claramente.

Os soldados começaram a recuar.

— Capitã...

A estátua abriu os olhos.

Luz azul atravessou o corredor inteiro.

E então ela se moveu.

O som foi aterrorizante.

Pedra colossal arrastando-se pela cidade antiga.

A criatura ergueu-se lentamente.

Gigantesca.

Viva.

Soldados abriram fogo imediatamente.

Os disparos atingiram o corpo de pedra sem causar dano.

A estátua avançou.

Um único golpe esmagou dois homens contra a parede.

Lyra gritou:

— Recuem!

O caos espalhou-se instantaneamente pelos corredores Solaris.

As estátuas estavam despertando.

Do outro lado da cidade, os Noxianos enfrentavam o mesmo terror.

As esculturas gigantescas moviam-se lentamente pelos salões subterrâneos enquanto soldados desapareciam na escuridão.

Alguns eram arrastados para corredores sem fim.

Outros simplesmente sumiam quando as luzes piscavam.

Kael avançava entre o caos sem hesitar.

Então viu uma das criaturas de pedra esmagar um soldado Noxiano contra o chão.

O general reagiu imediatamente.

Saltou sobre os destroços próximos e atingiu a cabeça da estátua com força brutal.

Parte da pedra rachou.

A criatura virou-se para ele lentamente.

Os olhos azuis brilharam.

Kael sentiu algo estranho atravessar o corpo naquele instante.

A energia do Nóvium presente nele respondeu.

Pequenas linhas azuladas surgiram sob sua pele.

A estátua hesitou.

Como se reconhecesse algo.

Então atacou novamente.

Kael desviou por centímetros.

Mesmo ele não conseguiria enfrentar aquilo sozinho.

No centro da cidade enterrada, o artefato continuava ativando-se diante de Orion.

Os anéis giravam cada vez mais rápido.

E agora imagens surgiam ao redor da esfera negra.

Estrelas.

Galáxias.

Sombras enormes movendo-se no vazio espacial.

Uma voz ecoou pela câmara.

Não pelas paredes.

Diretamente dentro da mente dele.

"O selo falhou."

Orion caiu de joelhos.

A dor em sua cabeça tornou-se absurda.

As imagens aumentaram.

Ele viu a civilização ancestral morrendo.

Viu Éterion sendo transformado numa prisão colossal.

Viu algo gigantesco sendo enterrado abaixo do planeta.

E viu outra coisa.

Algo vindo do espaço.

A nebulosa.

Ela não era natural.

Era viva.

Os olhos de Orion se arregalaram.

— Não...

A esfera brilhou intensamente.

"Eles retornaram."

Então o planeta inteiro tremeu.

Não apenas a cidade.

Éterion inteiro.

As montanhas racharam.

Tempestades explodiram na superfície.

No espaço orbital, as frotas Solaris e Nox observaram aterrorizadas quando gigantescas fissuras luminosas começaram a surgir através do planeta.

Como veias azuis abrindo-se pela crosta.

Cassian Holt levantou-se abruptamente na ponte do Invictus.

— O que está acontecendo?!

Os sensores enlouqueciam.

— O núcleo energético do planeta está aumentando!

Na Argo-7, Elias caiu de joelhos novamente.

As vozes gritavam tão forte que sangue começou a escorrer de seus ouvidos.

— Está despertando...

Darius segurou o pesquisador desesperadamente.

— O quê?!

Elias ergueu os olhos cheios de terror.

— A prisão.

Dentro da cidade enterrada, as paredes começaram a rachar.

As estátuas gigantes erguiam-se uma após outra.

Os corredores mudavam de forma.

E muito abaixo de tudo aquilo, nas profundezas impossíveis sob Éterion, algo colossal moveu-se pela primeira vez em milhares de anos.


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