A Guerra de Éterion: CAPÍTULO 20 - A Batalha da Órbita
O despertar das máquinas da Lua Negra espalhou um sinal impossível de ignorar.
As antigas estruturas alienígenas emitiram um pulso que atravessou Éterion, cruzou a nebulosa e continuou viajando pelo vazio entre as estrelas.
Nenhum cientista conseguiu determinar sua velocidade.
Nenhum equipamento conseguiu medir sua potência.
Era como se o próprio espaço tivesse levado a mensagem.
No instante seguinte, todas as frotas em órbita receberam o mesmo alerta.
Alarmes começaram a soar simultaneamente em centenas de naves.
Sensores gravitacionais enlouqueceram.
Motores de dobra desligaram automaticamente.
Os sistemas de comunicação passaram a transmitir apenas estática misturada com sussurros quase imperceptíveis.
Na ponte da nau capitânia Solaris, o almirante Cassian Holt observava os operadores lutando para manter qualquer controle.
— Relatório.
Uma oficial respirou fundo.
— Estamos recebendo interferência em todas as frequências.
Outro operador levantou a cabeça.
— A origem é a Lua Negra.
Cassian olhou para o enorme visor frontal.
A superfície escura do satélite agora estava coberta por milhares de linhas luminosas.
Parecia um organismo despertando depois de um sono de milhões de anos.
Então novos sinais apareceram.
Primeiro cinco.
Depois vinte.
Depois centenas.
O operador ampliou o mapa tático.
— Assinaturas de salto espacial.
Cassian estreitou os olhos.
— Quantas?
O silêncio na ponte tornou-se absoluto.
A resposta demorou vários segundos.
— Mais de trezentas.
Na frota Noxiana, Kael observava exatamente os mesmos dados.
As formações Solaris e Nox já ocupavam praticamente toda a órbita de Éterion.
Centenas de cruzadores.
Fragatas.
Porta-naves.
Destróieres.
Plataformas de artilharia.
Tudo preparado para uma guerra definitiva.
Os oficiais aguardavam apenas uma ordem.
Um comandante aproximou-se.
— General...
Kael não desviou os olhos do mapa.
— Eu sei.
As duas armadas estavam próximas demais.
Os antigos acordos de trégua haviam sido rompidos depois da destruição de Aurion.
Mesmo com o perigo crescente, muitos líderes imperiais acreditavam que aquele era o momento ideal para eliminar o inimigo.
As armas começaram a carregar.
No espaço entre as duas frotas, milhares de canhões energéticos apontaram simultaneamente.
Silêncio.
Tensão.
Depois...
o primeiro disparo.
Um feixe dourado atravessou o vazio.
Atingiu um cruzador Noxiano próximo à proa.
Os escudos absorveram parte da energia.
O restante atravessou o casco.
A nave explodiu em uma esfera de fogo azul.
Não houve tempo para reações.
Centenas de armas abriram fogo ao mesmo tempo.
O espaço transformou-se em um oceano de luz.
Feixes dourados cruzavam com rajadas vermelhas.
Mísseis gravitacionais explodiam entre esquadrões inteiros.
Caças espaciais mergulhavam através dos destroços procurando alvos vulneráveis.
A órbita de Éterion tornou-se um inferno luminoso.
As explosões iluminavam a Lua Negra.
Iluminavam a rachadura gigantesca acima do planeta.
Iluminavam até mesmo a nebulosa distante.
Cassian caminhava pela ponte enquanto ordens eram transmitidas sem parar.
— Esquadrão Delta, protejam os transportes!
— Porta-naves oito, avancem pelo flanco direito!
— Não deixem os cruzadores Noxianos cercarem nossa linha!
Na ponte Noxiana, Kael mantinha uma calma quase assustadora.
— Recuem as fragatas.
Os oficiais estranharam.
— Senhor?
— Eles querem atrair nossa ala principal.
As formações alteraram suas posições exatamente como ele previra.
O primeiro ataque Solaris atravessou um vazio cuidadosamente preparado.
Então a resposta veio.
Canhões orbitais ocultos abriram fogo ao mesmo tempo.
Três cruzadores Solaris desapareceram em explosões consecutivas.
Destroços começaram a chover sobre Éterion.
Na superfície, habitantes das poucas regiões ainda habitáveis erguiam os olhos para o céu.
Parecia uma chuva de estrelas.
Mas cada ponto brilhante era uma nave destruída.
Ou centenas de vidas terminando.
Lyra observava tudo da entrada da gigantesca câmara do coração.
As imagens chegavam continuamente.
Ela apertou os punhos.
— Eles enlouqueceram.
Cassian respondeu pela transmissão.
— Não conseguimos mais conter os almirantes.
Outro cruzador explodiu atrás dele.
A transmissão tremeu.
— Se isso continuar...
Ele não terminou.
Não precisava.
A batalha orbital já era a maior da história conhecida.
Orion permanecia diante do coração de Éterion.
As pulsações tornavam-se mais rápidas.
Tum.
Tum.
Tum.
As vozes enchiam sua mente.
Desta vez não eram apenas sussurros.
Milhares de consciências pareciam falar ao mesmo tempo.
"Olhe para o céu."
Ele ergueu lentamente o rosto.
Mesmo quilômetros abaixo da superfície, conseguia sentir cada explosão na órbita.
Cada nave destruída.
Cada morte.
O núcleo reagia a tudo.
Linhas luminosas espalhavam-se pelas paredes.
As raízes cristalinas cresciam rapidamente.
Nira aproximou-se.
— Ele está sofrendo.
Orion olhou para o coração.
Pela primeira vez, percebeu algo diferente.
O núcleo não pulsava apenas como uma máquina.
Pulsava como um ser vivo sentindo dor.
Na órbita, a batalha intensificava-se.
Esquadrões inteiros colidiam.
Canhões de partículas atravessavam formações completas.
Os destroços já formavam um gigantesco anel ao redor de Éterion.
Os sensores começaram a falhar novamente.
Mas desta vez não por interferência.
Algo estava aproximando-se.
Muito além da nebulosa.
Um operador Solaris arregalou os olhos.
— Contato desconhecido.
Cassian virou-se imediatamente.
— Identificação?
— Nenhuma.
Outro operador respondeu quase ao mesmo tempo.
— Massa gigantesca emergindo do espaço profundo.
Na ponte Noxiana, o mesmo alerta apareceu.
Kael aproximou-se do visor.
Uma distorção escura começou a formar-se entre as estrelas.
Não parecia um salto espacial comum.
Era como se o próprio vazio estivesse se abrindo.
Os combates continuavam.
Ninguém interrompeu os disparos.
Ainda.
Na Lua Negra, as antigas máquinas aumentaram sua atividade.
Grandes anéis começaram a girar.
Torres energéticas apontaram lentamente para o espaço.
As inscrições alienígenas brilhavam como rios de luz.
Os cientistas que permaneciam na superfície tentavam desesperadamente desligar os sistemas.
Nenhum comando funcionava.
Uma pesquisadora olhou para os monitores.
— Elas não estão acordando...
Outro cientista completou.
— Estão respondendo.
— A quê?
Ninguém respondeu.
Porque todos já sabiam.
Ao chamado.
No coração de Éterion, Orion cambaleou.
As linhas azuis cobriam quase todo seu corpo.
As vozes tornaram-se ensurdecedoras.
"Proteja."
"Erga-se."
"Herdeiro."
Lyra segurou seus ombros.
— Orion!
Os olhos dele abriram-se.
Não havia mais pupilas.
Apenas luz azul.
O chão inteiro vibrou.
O coração pulsou violentamente.
Uma onda de energia atravessou toda a estrutura subterrânea.
Depois atravessou o planeta.
Na órbita, todos os sensores registraram o fenômeno.
Uma coluna azul gigantesca saiu da superfície de Éterion.
Subiu quilômetros.
Depois atravessou a atmosfera.
Chegou ao espaço.
As duas frotas interromperam disparos por um breve instante.
Todos observavam.
A coluna de energia expandiu-se lentamente.
Parecia ligar o planeta diretamente à Lua Negra.
Os antigos mecanismos responderam imediatamente.
Feixes luminosos começaram a percorrer sua superfície.
As máquinas alienígenas despertavam completamente.
Dentro da câmara subterrânea, Orion já não conseguia permanecer de pé.
A energia atravessava seu corpo sem controle.
Objetos começaram a flutuar.
Blocos inteiros de pedra desprenderam-se das paredes.
Armas foram arrancadas das mãos dos soldados.
Todos recuaram instintivamente.
Nem Solaris.
Nem Nox.
Ninguém jamais havia testemunhado algo semelhante.
Orion levantou lentamente as mãos.
Não por escolha.
Seu corpo movia-se sozinho.
O coração respondeu.
Uma onda invisível atravessou a câmara.
Depois atravessou o planeta.
Depois alcançou a órbita.
Naquele instante, centenas de destroços de naves destruídas começaram a mover-se.
Primeiro lentamente.
Depois cada vez mais rápido.
Os fragmentos metálicos espalhados pelo espaço giraram ao redor da coluna azul.
Como se obedecessem a uma força invisível.
Soldados nas duas frotas observavam incrédulos.
Os destroços formaram um gigantesco anel.
Depois afastaram-se.
Abrindo um enorme corredor entre as armadas.
Cassian sussurrou:
— Foi ele...
Na superfície, Lyra observava Orion envolvido por luz intensa.
O jovem tremia.
Sangue escorria pelo nariz.
Mas permanecia consciente.
Era a primeira vez que utilizava seus poderes diante de milhares de testemunhas.
Não havia mais segredo.
Toda a guerra acabara de ver o Portador Azul.
Então...
o espaço rasgou-se.
Não como antes.
Muito pior.
A fenda aberta entre as estrelas cresceu lentamente.
Nenhuma explosão aconteceu.
Nenhum som.
Apenas escuridão.
Depois surgiu a primeira estrutura.
Gigantesca.
Orgânica.
Coberta por placas negras que pareciam quitina.
Seu formato lembrava uma montanha viva.
Mas continuava crescendo.
Mais segmentos apareceram.
Mais torres.
Mais casulos.
Mais tentáculos metálicos.
Os sensores tentavam calcular seu tamanho.
Falharam.
A coisa era grande demais.
Um operador Noxiano respirou com dificuldade.
— Isso... isso é uma nave?
Ninguém respondeu.
Porque não parecia uma nave.
Parecia uma cidade viva.
Uma colmeia flutuando no vazio.
Sua superfície movimentava-se constantemente.
Milhares de pequenas formas caminhavam sobre ela.
Como insetos.
Ou células.
As máquinas da Lua Negra aumentaram imediatamente a potência.
As torres apontaram para aquela monstruosidade.
As inscrições brilharam ainda mais.
O coração de Éterion bateu com violência.
Tum.
As vozes dentro da mente de Orion tornaram-se um único grito.
"ELE CHEGOU."
Na ponte Solaris, Cassian baixou lentamente a mão que ordenava novos disparos.
Os canhões silenciaram.
Na frota Noxiana, Kael fez exatamente o mesmo.
— Suspendam o ataque.
Os oficiais olharam para ele, confusos.
— Senhor...
— Agora.
As ordens espalharam-se rapidamente.
Em poucos minutos, centenas de cruzadores dos dois impérios deixaram de disparar.
Pela primeira vez desde o início da batalha, o espaço mergulhou em silêncio.
Não porque a guerra tivesse acabado.
Mas porque todos observavam a mesma coisa.
A gigantesca nave-colmeia continuava emergindo da fenda.
E atrás dela...
novas sombras começavam a aparecer.

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