A Guerra de Éterion: CAPÍTULO 21 - O Despertar Alienígena

 O silêncio que tomou conta da órbita de Éterion era mais assustador do que qualquer batalha.

Centenas de cruzadores Solaris e Noxianos permaneciam imóveis entre campos de destroços, enquanto a gigantesca nave-colmeia continuava atravessando a fenda aberta no espaço.

Ninguém disparava.

Ninguém respirava com tranquilidade.

A estrutura parecia crescer sem parar.

Cada novo segmento que surgia fazia os sensores recalcularem suas dimensões.

Fracassavam todas as vezes.

A nave não obedecia à geometria conhecida.

Partes dela pareciam existir em lugares diferentes ao mesmo tempo.

Em alguns monitores ela possuía quarenta quilômetros.

Em outros, centenas.

Em alguns instantes, simplesmente desaparecia.

Depois voltava a existir.

Os cientistas Solaris chamavam aquilo de impossibilidade física.

Os sobreviventes nativos apenas abaixavam a cabeça.

Eles já esperavam por aquilo.

Na gigantesca câmara subterrânea, o coração de Éterion batia com força crescente.

Tum.

Tum.

Tum.

Cada pulsação fazia as estruturas orgânicas espalhadas pelas paredes expandirem-se mais alguns centímetros.

Raízes cristalinas atravessavam metal.

Colunas inteiras começavam a respirar.

Era impossível negar.

O planeta inteiro estava despertando.

Orion permanecia ajoelhado diante do núcleo.

A energia azul ao redor de seu corpo diminuía lentamente.

Mesmo assim, seus olhos continuavam completamente luminosos.

Lyra aproximou-se cautelosamente.

— Você consegue me ouvir?

Ele demorou alguns segundos para responder.

Quando falou, sua voz parecia misturar-se com centenas de outras.

— Eles chegaram cedo.

Lyra sentiu um arrepio.

— Quem?

Orion olhou para o teto da câmara.

— Os antigos.

Naquele instante, o chão inteiro tremeu.

Mas não foi um tremor comum.

Parecia um movimento deliberado.

Como um animal gigantesco mudando de posição durante o sono.

Muito abaixo do coração...

alguma coisa começava a subir.

No deserto central de Éterion, quilômetros de areia negra foram lançados ao céu.

Montanhas racharam.

Fendas abriram-se em todas as direções.

As forças Solaris e Noxianas que ainda ocupavam posições próximas tentaram recuar.

Não conseguiram.

A terra simplesmente desapareceu sob seus pés.

Uma enorme estrutura começou a emergir lentamente.

Primeiro surgiu uma torre.

Depois outra.

Em seguida dezenas.

Pareciam edifícios.

Mas moviam-se.

As superfícies eram feitas de cristal azul e metal negro fundidos em um único material vivo.

Quando toda a estrutura emergiu, os soldados compreenderam.

Não era uma construção.

Era alguém.

Um ser colossal levantou-se das profundezas do planeta.

Media mais de duzentos metros de altura.

Seu corpo era humanoide apenas de forma distante.

Braços extremamente longos.

Quatro olhos brilhando em azul intenso.

A pele parecia formada por milhares de placas cristalinas móveis.

Atrás dele, outros começaram a surgir.

Dezenas.

Depois centenas.

Cada um diferente.

Alguns possuíam seis braços.

Outros caminhavam sobre quatro pernas.

Alguns eram altos como montanhas.

Outros menores, mas cercados por formas energéticas que pareciam vivas.

As tropas dos dois impérios permaneceram imóveis.

Os registros históricos de toda a humanidade jamais mencionaram algo parecido.

Na ponte da capitânia Solaris, Cassian observava as transmissões em completo silêncio.

Uma oficial aproximou-se.

— Senhor...

Ela não conseguiu terminar.

As imagens falavam por si.

Os antigos habitantes de Éterion estavam vivos.

Ou haviam voltado à vida.

Na principal formação Noxiana, Kael assistia à mesma cena.

Os sensores identificavam milhares de assinaturas biológicas surgindo em diferentes regiões do planeta.

Não eram criaturas selvagens.

As formações moviam-se com disciplina.

Organizadas.

Como um exército.

No deserto, um comandante Solaris ergueu sua arma lentamente.

Suas mãos tremiam.

Nunca havia sentido tanto medo.

O gigante cristalino olhou diretamente para os soldados.

Depois ergueu um dos braços.

Nenhuma arma apareceu.

Nenhum ataque.

Apenas um gesto.

O ar começou a vibrar.

Todos os comunicadores militares desligaram simultaneamente.

Depois voltaram a funcionar.

Mas não transmitiam estática.

Transmitiam uma voz.

Profunda.

Antiga.

Calma.

Ela ecoava em todos os idiomas conhecidos.

— Habitantes das estrelas...

Silêncio absoluto.

— Vocês caminham sobre terras que não lhes pertencem.

Nenhum soldado ousou mover-se.

A voz continuou.

— Vocês romperam os selos.

Perturbaram o coração.

Abriram os caminhos.

A criatura observou lentamente cada formação militar.

Depois pronunciou palavras que atravessaram todos os exércitos.

— Vocês são invasores.

A transmissão alcançou a câmara subterrânea.

Lyra fechou lentamente os olhos.

Ela sabia.

Desde o início.

Talvez os humanos jamais tivessem sido os heróis daquela história.

Maelis ajoelhou-se imediatamente.

Os outros sobreviventes fizeram o mesmo.

Nira também.

Orion permaneceu em pé.

O gigante voltou o rosto exatamente para a posição dele, apesar de quilômetros de rocha separarem ambos.

Era impossível.

Mesmo assim, parecia enxergá-lo.

— Portador...

Orion deu um passo à frente.

As vozes dentro de sua mente silenciaram completamente.

O gigante continuou.

— Você ouviu o coração.

O jovem respondeu quase sem perceber.

— Quem são vocês?

Durante alguns segundos, ninguém falou.

Então outra criatura surgiu ao lado da primeira.

Era ainda maior.

Sua cabeça possuía uma espécie de coroa cristalina.

— Somos os Últimos Guardiões.

O silêncio tornou-se ainda mais pesado.

— Aqueles que permaneceram quando todos os outros caíram.

Na órbita, a nave-colmeia continuava aproximando-se.

As máquinas da Lua Negra direcionaram todas as suas armas para ela.

Mas não disparavam.

Esperavam.

Como se obedecessem a algum protocolo antigo.

Os cientistas que exploravam a Lua Negra começaram a receber novas informações.

Os corredores apagados iluminaram-se sozinhos.

As paredes projetaram inscrições tridimensionais.

Um tradutor quântico conseguiu converter parte do texto.

A pesquisadora responsável empalideceu.

— Enviem isso imediatamente para Éterion.

Poucos minutos depois, Lyra recebia a mensagem.

Ela leu lentamente.

Depois tornou a ler.

Não acreditava.

O texto dizia:

"Os Guardiões jamais deveriam despertar antes do Julgamento."

Ela olhou para Orion.

— Existe algo pior.

O jovem não respondeu.

Porque já sabia.

As vozes voltavam lentamente.

Mais fracas.

Mas carregadas de medo.

Pela primeira vez.

Medo.

No planalto oriental, centenas de soldados Solaris recuavam lentamente diante dos gigantes cristalinos.

O comandante da divisão ativou comunicação com Cassian.

— Estamos aguardando ordens.

Cassian respirou profundamente.

— Ninguém atira.

A resposta demorou.

— Entendido.

Na frota Noxiana aconteceu o mesmo.

Kael ativou transmissão para todas as forças terrestres.

— Armas abaixadas.

Os oficiais estranharam.

— Senhor...

— Façam isso.

Enquanto as ordens eram transmitidas, Kael preparava uma pequena nave de transporte.

Um capitão aproximou-se.

— Vai descer?

— Sim.

— Sozinho?

Kael olhou novamente para os gigantes cristalinos.

— Alguém precisa conversar antes que alguém faça uma estupidez.

A nave pousou poucos minutos depois.

Kael caminhou lentamente sobre o deserto rachado.

À sua frente, dezenas de Guardiões observavam em absoluto silêncio.

O maior deles deu um passo.

O chão inteiro tremeu.

Mesmo assim, Kael continuou andando.

Parou a poucos metros da criatura.

Ergueu lentamente as mãos vazias.

— Não viemos destruir seu mundo.

O Guardião observou-o durante vários segundos.

Depois respondeu:

— Todos dizem isso.

Kael manteve a calma.

— A guerra começou porque desconhecíamos a verdade.

Outro Guardião aproximou-se.

Sua voz parecia ecoar dentro da mente do general.

— Vocês extraíram o sangue do planeta.

Kael não encontrou resposta imediata.

Porque era verdade.

O terceiro Guardião falou.

— Transformaram-no em arma.

Silêncio.

Kael respirou fundo.

— Ainda podemos impedir algo pior.

Os quatro olhos luminosos do líder fixaram-se nele.

— Você compreende o que desperta abaixo do coração?

O general permaneceu imóvel.

— Ainda não completamente.

— Então sua ignorância condenará bilhões.

Naquele instante, uma transmissão invadiu todos os comunicadores Solaris.

O general Arcturus Vale.

Um dos mais radicais comandantes do império.

Ele jamais aceitara a trégua.

Nem confiava nos relatos sobre os Guardiões.

Sua frota aproximava-se rapidamente.

— Todas as unidades Solaris...

Lyra reconheceu imediatamente a voz.

— Não...

Arcturus continuou.

— Alvos alienígenas confirmados.

Kael ergueu imediatamente o comunicador.

— Não atire!

Mas era tarde.

A órbita iluminou-se.

Dezenas de projéteis cinéticos desceram em direção ao planeta.

Os Guardiões levantaram os olhos.

Kael virou-se.

— Parem!

Os primeiros impactos atingiram o deserto.

Explosões gigantescas cobriram quilômetros.

Cristais voaram pelos ares.

Um dos Guardiões menores foi atingido diretamente.

Seu corpo despedaçou-se.

Luz azul espalhou-se pelo céu como sangue.

Silêncio.

Absoluto.

O líder cristalino abaixou lentamente o olhar para Kael.

Não havia raiva.

Havia tristeza.

Depois todos os outros ergueram simultaneamente as mãos.

O planeta respondeu.

Montanhas abriram-se.

Milhares de pilares cristalinos emergiram da superfície.

As tempestades azuis tornaram-se negras.

Na órbita, cruzadores Solaris começaram a perder altitude sem qualquer explicação.

A gravidade alterava-se.

As antigas máquinas da Lua Negra finalmente dispararam.

Feixes gigantescos atravessaram o vazio.

Mas não atingiram a nave-colmeia.

Acertaram os projéteis humanos restantes.

Como se tentassem impedir novos ataques.

Era tarde demais.

Os Guardiões já haviam tomado sua decisão.

O líder pronunciou apenas uma frase.

— O julgamento começou.

Em toda a superfície de Éterion, criaturas ancestrais começaram a marchar.

Não contra Solaris.

Nem contra Nox.

Contra todos.

As tropas dos dois impérios reagiram em desespero.

Canhões abriram fogo.

Mísseis cruzaram os céus.

Os Guardiões responderam erguendo muralhas de cristal que brotavam diretamente do solo.

Cada disparo fazia novas estruturas surgirem.

Cada explosão parecia fortalecer o próprio planeta.

Kael correu de volta para sua nave enquanto olhava, impotente, para o desastre que tentara evitar.

Lyra assistia à transmissão em silêncio.

Ela compreendeu naquele instante que a guerra entre Solaris e Nox havia deixado de existir.

Agora havia apenas uma luta muito maior.

E, acima de todos eles, a gigantesca nave-colmeia finalmente começou a abrir sua estrutura central.

Como uma flor monstruosa desabrochando no vazio.

Dentro dela...

algo despertava.


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