A Guerra de Éterion: CAPÍTULO 23 — Fogo nas Estrelas

 A notícia do desaparecimento da cidade espalhou-se pelos sistemas habitados muito mais rápido do que qualquer frota.

Nenhum governo conseguiu esconder a verdade.

As imagens captadas pelos satélites mostravam um enorme círculo vazio onde antes existiam milhões de toneladas de aço, concreto e vida.

Não havia escombros.

Não havia radiação.

Não havia sobreviventes suficientes para explicar o fenômeno.

Apenas um silêncio impossível.

Mesmo assim, a guerra continuava.

Os imperadores de Solaris e Nox recebiam relatórios incompletos, contraditórios e frequentemente absurdos.

Guardiões ancestrais.

Uma Lua Negra escondida.

Uma nave-colmeia maior que cidades.

Um jovem capaz de controlar a energia do coração de Éterion.

Para muitos líderes políticos, aquilo parecia delírio coletivo.

Eles ainda acreditavam que tudo poderia ser resolvido pela força militar.

Essa decisão custaria milhares de vidas.

No coração do Império Noxiano, o Conselho Supremo reuniu-se em uma sala cercada por projeções holográficas.

As perdas recentes eram enormes.

Aurion fora destruída.

Parte do Exército Escarlate já não obedecia completamente às ordens.

As criaturas ancestrais haviam tomado vastas regiões de Éterion.

Mesmo assim, um dos conselheiros levantou-se.

— Precisamos esmagar Solaris antes que eles compreendam como controlar o Portador Azul.

Outro respondeu imediatamente.

— Nossa vantagem diminui a cada dia.

O primeiro bateu na mesa.

— Então usem toda a frota!

O imperador permaneceu em silêncio durante vários minutos.

Depois olhou para Kael.

— General.

Kael levantou-se.

— Senhor.

— Quero um exemplo.

O general permaneceu imóvel.

— Destruiremos três colônias estratégicas de Solaris.

A sala ficou em silêncio.

Kael respirou lentamente.

— Há milhões de civis.

— Exatamente.

As palavras ecoaram frias.

— Eles precisam compreender que ainda somos capazes de vencer.

O general sustentou o olhar do imperador.

Pela primeira vez em muitos anos...

hesitou antes de responder.

Muito longe dali, três colônias Solaris orbitavam uma estrela azul conhecida como Helion.

Eram mundos agrícolas.

Centros industriais.

Lar de famílias que jamais haviam visto Éterion.

As pessoas viviam relativamente afastadas da guerra.

Até aquele dia.

Os primeiros sensores detectaram a frota Noxiana poucas horas antes do ataque.

As sirenes começaram a tocar.

Centenas de transportes civis lotaram os céus.

Pais carregavam crianças.

Hospitais iniciavam evacuações de emergência.

Velhos embarcavam em naves improvisadas.

Ninguém entendia por que estavam sendo atacados.

A guerra parecia distante.

Agora chegava às suas casas.

Na ponte da capitânia Noxiana, Kael observava as colônias pelo visor principal.

Pareciam pequenas joias brilhando ao redor da estrela.

O oficial de armas aproximou-se.

— Aguardando autorização.

Silêncio.

Kael olhava para milhares de sinais de vida.

Escolas.

Mercados.

Plataformas de mineração.

Parques.

Pessoas comuns.

Lembrou-se das palavras dos Guardiões.

"Invasores."

Depois lembrou-se de Aurion.

Dos experimentos.

Da cidade apagada.

Algo dentro dele começava a quebrar.

— General?

O oficial aguardava.

Kael finalmente respondeu.

— Ataquem apenas instalações militares.

O oficial hesitou.

— As ordens imperiais...

— Eu disse instalações militares.

O homem assentiu.

Mas outro comandante já transmitia ordens diretamente do Conselho Supremo.

A confusão espalhou-se pela frota.

Nem todos obedeceram Kael.

Os primeiros disparos cruzaram o espaço.

Canhões orbitais abriram fogo.

Uma plataforma defensiva Solaris explodiu imediatamente.

Depois um estaleiro.

Então...

um disparo atingiu um distrito residencial.

Kael virou-se bruscamente.

— Quem autorizou isso?

Ninguém respondeu.

Mais explosões surgiram.

Prédios desmoronavam.

Centenas de pequenas naves civis tentavam fugir entre destroços.

As transmissões encheram-se de gritos.

— Há crianças aqui!

— Estamos sem escudos!

— Socorro!

Kael fechou os punhos.

O oficial de comunicações aproximou-se.

— O Conselho assumiu controle parcial da frota.

O general permaneceu imóvel.

Pela primeira vez na carreira, suas ordens estavam sendo ignoradas pelos próprios aliados.

Nas colônias Solaris, o caos instalou-se completamente.

Milhares de pessoas corriam pelos terminais espaciais.

As filas eram intermináveis.

Alguns transportes decolavam superlotados.

Outros eram destruídos antes mesmo de deixar a atmosfera.

Uma menina segurava a mão da mãe enquanto observava o céu tomado por cruzadores inimigos.

— Mamãe...

A mulher tentava sorrir.

— Vai ficar tudo bem.

Mas sua voz tremia.

Ela mesma não acreditava.

Quando chegaram ao último transporte disponível, descobriram que já não havia espaço.

O piloto balançou a cabeça.

— Desculpem.

A escotilha fechou-se.

A nave partiu.

A menina começou a chorar.

A mãe apenas a abraçou.

Sem saber o que fazer.

Em Éterion, Lyra recebia as primeiras transmissões.

Seu rosto endureceu imediatamente.

— Eles atacaram colônias civis.

Cassian confirmou.

— Sim.

Ela olhou para Kael através do canal prioritário.

— Foi sua decisão?

O general demorou alguns segundos para responder.

— Não.

Lyra percebeu.

Ele dizia a verdade.

Kael continuou.

— Tentei impedir.

Silêncio.

Nenhum dos dois gostava daquela conclusão.

O controle sobre os próprios impérios começava a escapar.

Orion aproximou-se.

As imagens dos refugiados enchiam os hologramas.

Crianças.

Idosos.

Famílias inteiras tentando fugir.

As vozes dentro de sua mente tornaram-se inquietas.

"Proteja."

Ele fechou os olhos.

As linhas azuis espalharam-se pelos braços.

— Eu preciso ir.

Lyra virou-se.

— É longe demais.

— Não importa.

O coração de Éterion pulsou.

Tum.

A energia espalhou-se pelas raízes cristalinas.

Maelis observava em silêncio.

Depois falou:

— O planeta consegue abrir caminhos.

Todos olharam para ela.

A mulher aproximou-se das estruturas vivas.

— Antes da queda...

Ela passou a mão sobre um cristal.

— Os Guardiões viajavam entre mundos usando o próprio coração.

Orion compreendeu imediatamente.

— Portais.

Ela assentiu.

Os cientistas começaram a trabalhar freneticamente.

Se aquilo fosse possível...

poderiam alcançar as colônias antes que fosse tarde.

Na superfície, um antigo círculo cristalino foi ativado pela primeira vez em incontáveis eras.

As estruturas ergueram-se lentamente.

Anéis azuis começaram a girar.

O ar tornou-se líquido.

Orion caminhou até o centro.

Lyra segurou seu braço.

— Volte.

Ele sorriu discretamente.

— Vou tentar.

A luz envolveu completamente seu corpo.

No instante seguinte...

desapareceu.

Nas colônias atacadas, o céu continuava ardendo.

Destroços caíam constantemente.

Os poucos transportes restantes tentavam escapar.

A menina e sua mãe permaneciam escondidas entre ruínas quando o solo começou a brilhar.

Um círculo azul surgiu diante delas.

Os sobreviventes recuaram assustados.

Então Orion apareceu.

Alguns reconheceram imediatamente seu rosto pelas transmissões recentes.

Outros apenas viram um jovem cercado por luz.

Ele observou o céu.

Centenas de disparos continuavam descendo.

Respirou fundo.

As vozes enchiam sua mente.

O coração parecia bater junto ao dele.

Pela primeira vez, não resistiu.

Ergueu lentamente as mãos.

Uma gigantesca barreira azul expandiu-se sobre o distrito.

Os projéteis atingiram a proteção.

Não passaram.

Explosões iluminaram o escudo sem conseguir atravessá-lo.

Os refugiados olharam para cima incrédulos.

A menina segurou a mão da mãe.

— Quem é ele?

A mulher respondeu quase num sussurro.

— Não sei.

Outro bombardeio atingiu a barreira.

Ela permaneceu firme.

Orion sentia dor crescente.

Cada impacto atravessava seu corpo.

Mas continuava sustentando a proteção.

Na órbita, oficiais Noxianos observavam os sensores.

— General!

Kael aproximou-se.

— O que aconteceu?

O operador ampliou a imagem.

Um enorme domo azul cobria parte da colônia.

Todos os disparos eram bloqueados.

Kael reconheceu imediatamente.

— Orion...

Um oficial perguntou:

— Devemos concentrar fogo?

Silêncio.

Kael olhou para milhares de sinais civis protegidos pelo escudo.

Depois desligou o canal do Conselho Supremo.

— Não.

Virou-se para toda a ponte.

Sua voz ecoou firme.

— Suspendam o ataque naquele setor.

— Senhor, isso é desobediência direta...

— Eu assumo a responsabilidade.

Os oficiais hesitaram apenas alguns segundos.

Depois obedeceram.

Pela primeira vez, parte da frota Noxiana ignorava ordens imperiais.

O bombardeio diminuiu.

Transportes civis conseguiram escapar.

Milhares de pessoas atravessaram a barreira azul correndo em direção às naves de evacuação.

Orion continuava imóvel.

Suas pernas já tremiam.

Sangue escorria pelos olhos.

Mesmo assim, não abaixava os braços.

A menina aproximou-se lentamente.

Segurava uma pequena flor que encontrara entre os destroços.

— Obrigada.

Ela estendeu a flor.

Orion sorriu com dificuldade.

Aceitou o presente.

Naquele instante, fotógrafos de emergência registraram a cena.

Um jovem envolto em luz azul.

Coberto de sangue.

Protegendo milhares de pessoas.

Enquanto uma criança lhe oferecia uma flor.

A imagem espalhou-se pelas redes de comunicação quase instantaneamente.

Em poucas horas, alcançou dezenas de sistemas.

Depois centenas.

Refugiados começaram a contar histórias.

Soldados sobreviventes faziam relatos.

Pilotos descreviam a enorme barreira azul surgindo sobre a cidade.

Alguns exageravam.

Outros diminuíam.

Mas todos concordavam em uma coisa.

O Portador Azul escolhera salvar pessoas em vez de lutar.

Em campos de refugiados improvisados, crianças desenhavam um jovem cercado por luz.

Nas naves de evacuação, idosos repetiam seu nome em orações.

Mesmo quem nunca acreditara em profecias começou a falar sobre esperança.

Não esperança de vitória.

Mas de sobrevivência.

Em Éterion, Lyra observava as transmissões em silêncio.

Cassian aproximou-se.

— Você viu?

Ela assentiu.

As imagens continuavam chegando.

Pessoas comuns carregando pequenos símbolos azuis improvisados.

Médicos desenhando o emblema em tendas.

Refugiados chamando Orion de "o Guardião Humano".

Lyra sorriu discretamente.

— Ele não queria isso.

Cassian respondeu:

— Talvez ninguém escolha se tornar um símbolo.

Enquanto isso, na ponte da capitânia Noxiana, Kael permanecia sozinho.

Observava a fotografia da menina entregando a flor a Orion.

Depois olhou para a mensagem recém-chegada do imperador.

Apenas três palavras.

"Explique sua traição."

Kael desligou o comunicador sem responder.

Pela primeira vez em toda sua carreira...

não sabia se ainda servia ao mesmo império.

Muito além das frotas humanas, a gigantesca nave-colmeia continuava imóvel.

Mas, dentro de sua estrutura central...

milhares de pequenos pontos luminosos começaram a acender.

Como incontáveis olhos despertando ao mesmo tempo.

E, nas profundezas do vazio entre as estrelas, outras colmeias começaram a alterar suas rotas.

Todas seguiam para Éterion.

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