A Guerra de Éterion: CAPÍTULO 24 — O Portal
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A fotografia de Orion protegendo os refugiados percorreu sistemas inteiros em poucas horas.
Em mundos que jamais haviam ouvido falar de Éterion, pessoas passaram a acompanhar diariamente as notícias da guerra.
Governos tentavam controlar a informação.
Fracassavam.
Cada transmissão trazia imagens mais estranhas que a anterior.
Guardiões cristalinos.
Uma lua escondida.
Uma nave-colmeia maior que continentes.
Um jovem envolto em energia azul.
E, acima de tudo, uma pergunta que ninguém conseguia responder.
Por que tudo aquilo estava acontecendo exatamente em Éterion?
Enquanto a população da galáxia buscava explicações, os acontecimentos no planeta aceleravam.
O coração de Éterion já não mantinha um ritmo constante.
Cada pulsação parecia responder a alguma força distante.
Tum.
Uma onda azul atravessava o subsolo.
Tum.
As montanhas vibravam.
Tum.
A Lua Negra reagia imediatamente.
Os anéis gigantescos construídos pelos antigos Guardiões giravam cada vez mais depressa.
Os cientistas que permaneciam em suas instalações mal conseguiam acompanhar os dados.
A pesquisadora Selene Voss examinava uma sequência interminável de símbolos alienígenas projetados diante dela.
Ao seu lado, um tradutor quântico tentava converter inscrições que nunca haviam sido vistas.
Uma frase repetia-se inúmeras vezes.
Ela aproximou o rosto da projeção.
— Isso não pode estar certo...
Outro pesquisador olhou para a tradução.
Seu semblante perdeu completamente a cor.
— Leia novamente.
Selene respirou fundo.
— "Quando o coração despertar antes do Julgamento, o Caminho voltará a abrir-se."
Silêncio.
O termo "Caminho" aparecia em centenas de registros espalhados pela Lua Negra.
Mas nenhuma tradução anterior conseguira explicar seu significado.
Até aquele momento.
Novos fragmentos foram decifrados.
"O Caminho liga aquilo que jamais deveria encontrar-se."
Outro.
"Os Guardiões fecharam o Caminho com o sacrifício de mundos."
Outro.
"Se o selo ruir, nem mesmo as estrelas permanecerão intactas."
Selene ativou imediatamente uma transmissão para Lyra.
— Encontramos algo importante.
Na câmara do coração, Lyra ouviu atentamente enquanto as traduções eram apresentadas.
Kael também acompanhava a conversa.
Maelis fechou os olhos antes mesmo que o relatório terminasse.
Ela já conhecia aquelas palavras.
— O Caminho...
Sua voz saiu quase como um sussurro.
— Nossos ancestrais o chamavam de Primeira Ferida.
Orion aproximou-se.
— O que era?
A mulher demorou a responder.
— Não era uma porta.
Era uma cicatriz.
No espaço acima de Éterion, as antigas máquinas da Lua Negra mudaram novamente de posição.
As torres cristalinas deixaram de apontar para a nave-colmeia.
Agora direcionavam sua energia para um ponto vazio entre o satélite e o planeta.
Os operadores Solaris notaram imediatamente.
— Nova concentração energética!
Cassian levantou-se.
— Origem?
— Lua Negra.
— Alvo?
O operador ampliou o holograma.
Não havia nada.
Apenas espaço.
Mesmo assim, a energia aumentava continuamente.
Kael observava a mesma leitura.
Algo começou a incomodá-lo.
Aquela região do espaço era exatamente onde, semanas antes, várias naves haviam desaparecido sem deixar vestígios.
A lembrança voltou imediatamente.
A tempestade.
Os sensores cegos.
As vozes.
Os desaparecimentos.
Tudo estava ligado.
Subitamente, a escuridão naquele ponto começou a ondular.
Como água sendo perturbada por uma pedra invisível.
Os pilotos mais próximos afastaram suas naves instintivamente.
Os sensores enlouqueceram.
Gravidade.
Tempo.
Radiação.
Nada obedecia mais às leis conhecidas.
Então surgiu uma linha.
Muito fina.
Brilhando em azul intenso.
Ela aumentou lentamente.
Transformou-se numa rachadura.
Depois numa fenda.
O espaço abriu-se.
Não houve explosão.
Nenhum clarão.
A própria realidade parecia separar-se em duas partes.
Os cientistas prenderam a respiração.
A abertura crescia sem parar.
Atrás dela não havia estrelas.
Nem vazio.
Existia outro lugar.
Montanhas flutuavam em um céu vermelho.
Oceanos de luz moviam-se como nuvens.
Relâmpagos negros percorriam enormes estruturas cristalinas.
Parecia um universo diferente.
Selene observava sem conseguir falar.
— Isso...
Ninguém completou a frase.
Porque não havia palavras.
No coração de Éterion, Orion cambaleou.
As vozes voltaram com intensidade insuportável.
Mas desta vez não eram advertências.
Eram gritos.
"FECHE!"
"FECHE O CAMINHO!"
Ele caiu de joelhos.
Nira segurou sua mão.
— Está abrindo.
O chão inteiro começou a vibrar.
Muito abaixo das raízes cristalinas, enormes mecanismos despertavam.
Os Guardiões espalhados pela superfície ergueram simultaneamente os rostos.
Todos.
Sem exceção.
Até mesmo aqueles envolvidos em combate interromperam seus movimentos.
O líder cristalino olhou para o céu.
Pela primeira vez, sua expressão demonstrava medo.
Não dos humanos.
Do portal.
Ele ergueu ambos os braços.
Sua voz ecoou por todo o planeta.
— Todos os Guardiões!
As criaturas responderam em uníssono.
Milhares de pilares cristalinos emergiram do solo.
Linhas luminosas espalharam-se pelos continentes.
Eles preparavam alguma defesa.
Mas não tiveram tempo.
A fenda aumentou repentinamente.
Dez quilômetros.
Cinquenta.
Cem.
Depois ultrapassou qualquer medida razoável.
Sua borda brilhava em azul e negro ao mesmo tempo.
Então algo moveu-se do outro lado.
Primeiro surgiu uma sombra.
Depois outra.
Depois dezenas.
As formas aproximavam-se lentamente.
Nenhum sensor conseguia identificá-las.
Quando atravessaram completamente a abertura, até os veteranos mais experientes sentiram o sangue gelar.
A primeira criatura possuía um corpo semelhante ao de um enorme quadrúpede.
Mas sua pele era formada por placas translúcidas sob as quais correntes luminosas corriam continuamente.
Não possuía olhos.
Em seu lugar existiam fendas brilhantes que pareciam observar em todas as direções.
Cada passo fazia o próprio espaço distorcer-se.
Atrás dela surgiu outra.
Muito maior.
Seis patas.
Três caudas.
Mandíbulas cercadas por pequenas esferas de energia.
Depois dezenas.
Centenas.
Algumas voavam sem asas.
Outras rastejavam pelo vazio.
Algumas pareciam feitas apenas de fumaça cristalina.
Outras lembravam montanhas vivas.
Nenhuma se parecia com qualquer forma de vida conhecida.
As transmissões militares mergulharam em silêncio.
Nem Solaris.
Nem Nox.
Nem os Guardiões.
Ninguém sabia o que fazer.
A primeira criatura voltou lentamente o rosto para Éterion.
Depois emitiu um som.
Não era um rugido.
Era um conjunto de frequências impossíveis.
Mesmo assim, todas as pessoas o compreenderam.
Era fome.
Ela avançou.
Em segundos atravessou centenas de quilômetros.
Colidiu contra um cruzador Noxiano.
O casco simplesmente deixou de existir.
Não houve explosão.
A nave foi desfeita molécula por molécula.
Os sobreviventes desapareceram junto com ela.
Outro monstro mergulhou sobre uma fragata Solaris.
As garras atravessaram os escudos sem resistência.
A embarcação partiu-se em três.
Os combates humanos cessaram imediatamente.
Cassian ergueu a voz.
— Todas as unidades!
Os oficiais aguardavam.
— Esqueçam Solaris!
Silêncio.
Depois completou.
— Atirem nas criaturas!
Na capitânia Noxiana, Kael transmitiu exatamente a mesma ordem.
— Prioridade absoluta!
Em poucos segundos, centenas de cruzadores dos dois impérios disparavam lado a lado.
Pela primeira vez desde o início da guerra.
Feixes dourados cruzavam o espaço ao lado de rajadas vermelhas.
Esquadrões mistos protegiam uns aos outros.
Pilotos que tentavam matar-se horas antes agora salvavam vidas mutuamente.
As criaturas suportavam danos impressionantes.
Algumas eram destruídas.
Outras regeneravam-se quase imediatamente.
Uma delas atravessou uma linha inteira de destróieres.
Cinco naves desapareceram.
Outra mergulhou em direção ao planeta.
Os Guardiões responderam.
Gigantescas lanças cristalinas brotaram da superfície.
A criatura foi atravessada por dezenas delas.
Mesmo assim continuou avançando.
Até que o líder dos Guardiões ergueu ambas as mãos.
Um feixe azul saiu diretamente do coração de Éterion.
Atingiu o monstro.
Pela primeira vez, ele realmente morreu.
Orion assistia à batalha enquanto tentava permanecer consciente.
As vozes continuavam gritando.
"FECHE!"
"FECHE!"
Mas como?
Ele não sabia.
Nira olhava fixamente para o portal.
— Está respirando.
Os cientistas verificaram os sensores.
Ela tinha razão.
A abertura expandia-se.
Contraía-se.
Expandia-se novamente.
Como um organismo vivo.
Selene percebeu algo ainda pior.
— O diâmetro está aumentando.
Cassian respondeu imediatamente.
— Quanto?
Ela hesitou.
— Quatrocentos metros por minuto.
Silêncio.
Todos compreenderam.
Se continuasse naquele ritmo...
acabaria engolindo a órbita inteira.
Os Guardiões reuniram-se ao redor do líder.
Uma enorme rede cristalina começou a formar-se sobre Éterion.
Tentavam estabilizar a realidade.
Mas o portal crescia mais rápido.
Então veio o primeiro efeito planetário.
Os sensores atmosféricos dispararam alarmes.
Pesquisadores verificaram os dados repetidas vezes.
Não acreditavam.
A atmosfera superior começava a escapar.
As bordas do portal exerciam uma atração absurda.
Milhões de toneladas de ar eram sugadas continuamente.
Na superfície, os céus mudaram de cor.
Enormes redemoinhos apareceram sobre oceanos.
Nuvens inteiras começaram a subir em direção ao espaço.
O vento aumentou violentamente.
Florestas dobravam.
Edifícios desmoronavam.
Pessoas mal conseguiam permanecer de pé.
Em regiões montanhosas, o ar tornou-se tão rarefeito que milhares começaram a sufocar.
Hospitais entraram em colapso.
Refugiados tentavam alcançar abrigos subterrâneos.
Animais fugiam em todas as direções.
Os mares agitavam-se como se uma força invisível os puxasse para o céu.
Lyra observava os relatórios.
Cada minuto significava menos atmosfera.
Menos oxigênio.
Menos esperança.
Kael aproximou-se.
— Se perdermos mais vinte por cento...
Ela completou.
— O planeta morrerá.
No espaço, soldados Solaris e Nox lutavam ombro a ombro contra monstros vindos do outro lado do Caminho.
Um piloto Solaris ficou sem munição.
Antes que fosse destruído, um caça Noxiano colocou-se diante dele e interceptou o ataque.
O piloto apenas transmitiu:
— Continue voando.
Não disse mais nada.
Também não perguntou o nome do homem que acabara de salvar.
Já não importava.
A guerra mudara completamente.
Mas o portal continuava crescendo.
E, nas profundezas daquele universo desconhecido...
por trás das montanhas flutuantes...
uma silhueta colossal começou a mover-se lentamente.
Era tão grande que as criaturas monstruosas pareciam insetos diante dela.
Ela ainda estava distante.
Muito distante.
Mesmo assim...
cada passo que dava fazia o portal aumentar um pouco mais.
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