A Guerra de Éterion: CAPÍTULO 25 — O Guerreiro Dourado
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O céu de Éterion deixara de ser um céu.
As nuvens eram arrancadas em espirais gigantescas, subindo para a enorme ruptura dimensional que continuava crescendo acima do planeta. Fragmentos de gelo, poeira e até pequenas massas de água eram puxados para o espaço, formando um anel irregular ao redor da abertura.
As frotas combinadas de Solaris e Nox já não possuíam qualquer formação organizada.
A única prioridade era sobreviver.
Cruzadores disparavam continuamente contra as criaturas vindas do outro lado do Caminho.
Algumas caíam.
Outras simplesmente absorviam a energia dos disparos.
Outras ainda pareciam aprender durante o combate.
Cada minuto tornava os monstros mais perigosos.
Na Lua Negra, Selene Voss analisava desesperadamente os registros recém-despertos dos antigos sistemas.
Os computadores alienígenas finalmente haviam traduzido parte de um arquivo muito mais antigo do que qualquer outro encontrado até então.
As inscrições apareciam lentamente.
Como se a própria máquina decidisse quanto revelar.
Ela leu em voz baixa.
— "Quando o Caminho abrir-se novamente..."
Outra linha surgiu.
— "...o Primeiro Guerreiro despertará."
Selene aproximou-se da tela.
Uma nova frase apareceu.
— "...o último escudo da Primeira Civilização."
Ela ativou imediatamente o canal prioritário.
— Capitã Lyra, encontramos uma referência importante.
Na câmara do coração, Lyra ouviu atentamente.
Kael permaneceu ao seu lado.
Orion ainda respirava com dificuldade após sustentar a barreira que salvara milhares de refugiados.
Selene continuou.
— Existe alguém adormecido.
Maelis fechou os olhos.
Antes mesmo que o restante da tradução fosse lido.
Ela já sabia.
— O Sentinela.
Lyra voltou-se para ela.
— Você conhece essa história?
A mulher demorou alguns segundos.
— Pensei que fosse apenas uma lenda.
— Conte.
Maelis aproximou-se lentamente do coração.
As raízes cristalinas iluminavam seu rosto.
— Quando os antigos perceberam que não conseguiriam destruir aquilo que vinha do outro lado do Caminho...
Ela tocou uma das estruturas vivas.
— Escolheram criar um único guerreiro.
Orion levantou lentamente a cabeça.
— Um guerreiro?
— Não.
Ela balançou a cabeça.
— Um mestre.
Silêncio.
— Alguém que pudesse ouvir completamente o Nóvium sem ser consumido por ele.
Os cientistas trocaram olhares.
Aquilo contrariava tudo o que sabiam.
Até então, qualquer exposição prolongada ao minério inevitavelmente levava à loucura ou à morte.
Maelis continuou.
— Ele jamais pertenceu a nenhum império.
Nem mesmo aos Guardiões.
Servia apenas ao coração.
O coração de Éterion bateu novamente.
Tum.
Desta vez, o som espalhou-se por todo o planeta.
Muito abaixo da superfície...
em uma região jamais explorada...
algo respondeu.
Uma antiga câmara começou a iluminar-se.
Era muito maior que qualquer templo descoberto anteriormente.
As paredes eram completamente douradas.
Não feitas de ouro.
Mas de um cristal desconhecido que emitia uma luz quente e constante.
No centro repousava uma figura imóvel.
Sentada.
As pernas cruzadas.
As mãos apoiadas sobre os joelhos.
Parecia uma estátua.
Milhares de filamentos azuis conectavam seu corpo ao chão.
O novo batimento do coração percorreu aqueles filamentos.
Um.
Depois outro.
Os olhos da figura abriram-se lentamente.
Não eram azuis.
Nem vermelhos.
Brilhavam como estrelas douradas.
Na superfície de Éterion, todos os Guardiões interromperam seus combates ao mesmo tempo.
Cada um deles ajoelhou-se.
As criaturas monstruosas continuavam atacando.
Mesmo assim...
os antigos protetores do planeta baixaram a cabeça.
O líder cristalino falou apenas uma palavra.
— Mestre.
Na órbita, Cassian observava os sensores.
Uma assinatura energética gigantesca surgia do interior do planeta.
Mas não era semelhante ao coração.
Nem ao portal.
Era diferente.
Estável.
Incrivelmente pura.
Kael também recebeu as leituras.
— O que está emergindo?
Ninguém soube responder.
O solo começou a abrir-se.
Não violentamente.
As rochas simplesmente afastavam-se umas das outras.
Como se obedecessem.
Uma coluna dourada elevou-se lentamente em direção ao céu.
Quando a luz diminuiu...
a figura apareceu.
Media pouco mais de dois metros.
Usava uma armadura lisa formada por placas cristalinas douradas.
Nenhuma arma.
Nenhum símbolo.
Seus cabelos longos pareciam feitos de fios luminosos.
Os olhos observavam silenciosamente a devastação ao redor.
Então ele respirou.
Foi o primeiro movimento depois de milhões de anos.
Os ventos de Éterion cessaram por alguns segundos.
As criaturas vindas do portal voltaram-se imediatamente para ele.
Como animais reconhecendo um antigo inimigo.
Uma delas avançou.
Era enorme.
Mais de cinquenta metros de comprimento.
Suas patas destruíam montanhas.
O guerreiro apenas levantou uma das mãos.
Nenhuma explosão aconteceu.
Nenhum feixe de energia.
A criatura simplesmente parou.
Ficou completamente imóvel.
Depois começou a desfazer-se.
Não em fogo.
Nem em poeira.
Seu corpo transformou-se lentamente em pequenas partículas azuis que retornaram ao solo.
Silêncio.
Centenas de soldados assistiam incrédulos.
Outra criatura atacou.
Depois outra.
Cinco.
Dez.
O guerreiro caminhava lentamente.
Cada passo parecia alterar o fluxo do Nóvium espalhado pelo planeta.
As raízes cristalinas erguiam-se ao redor dele.
As montanhas brilhavam.
Até o coração alterava o ritmo.
Ele movia apenas as mãos.
Às vezes um simples olhar.
As criaturas desapareciam uma após outra.
Não havia esforço.
Nem violência.
Parecia alguém corrigindo um desequilíbrio.
Cassian sussurrou:
— Ele nem está lutando.
Selene observava os dados energéticos.
— Não.
Ela engoliu em seco.
— Ele está comandando o Nóvium.
Os cientistas ampliaram as leituras.
Era impossível.
Nenhuma perda de energia.
Nenhuma instabilidade.
Nenhuma contaminação.
O guerreiro utilizava o minério de forma absolutamente perfeita.
Sem desperdiçar uma única unidade.
Como se cada cristal obedecesse naturalmente à sua vontade.
Mais monstros atravessavam o portal.
Centenas.
O guerreiro continuava avançando.
Uma criatura gigantesca lançou uma onda gravitacional capaz de destruir um cruzador.
Ele apenas ergueu o braço.
A onda mudou de direção.
Retornou.
A própria criatura foi esmagada pela força que criara.
Outra lançou milhares de espinhos cristalinos.
Eles pararam no ar.
Transformaram-se em pequenas flores luminosas.
Caíram lentamente sobre o chão.
Os soldados Solaris observavam em completo silêncio.
Um deles deixou a arma cair.
Nunca imaginara existir alguém tão poderoso.
Nem mesmo Orion demonstrara tamanho controle.
No coração de Éterion, Orion levantou-se.
As vozes haviam desaparecido novamente.
No lugar restava apenas uma presença.
Calma.
Antiga.
Familiar.
— Ele acordou.
Maelis assentiu.
— Sim.
O jovem caminhou em direção ao círculo de transporte.
Lyra segurou seu braço.
— Espere.
— Preciso falar com ele.
— Você nem sabe quem ele é.
Orion sorriu discretamente.
— Acho que ele sabe quem eu sou.
O portal conduziu-o até a superfície.
Quando chegou, encontrou centenas de Guardiões ainda ajoelhados.
Nenhum tentou impedi-lo.
Todos observavam o guerreiro dourado caminhando entre montanhas destruídas.
Ele finalmente parou.
Virou-se lentamente.
Olhou diretamente para Orion.
Um leve sorriso surgiu.
— Demorou.
Orion ficou surpreso.
— Você me conhece?
— Antes mesmo do seu nascimento.
Silêncio.
Lyra e Kael chegaram pouco depois.
Os dois permaneceram a certa distância.
Nenhum desejava interromper aquele encontro.
O guerreiro aproximou-se lentamente.
Seu rosto parecia jovem.
Mas seus olhos carregavam o peso de eras inteiras.
— Como se chama?
Perguntou Orion.
Ele permaneceu em silêncio durante alguns segundos.
Depois respondeu.
— Os humanos esqueceram meu verdadeiro nome há milhões de anos.
Olhou para os Guardiões.
— Eles me chamavam de Asterion.
Orion repetiu lentamente.
— Asterion...
O guerreiro assentiu.
— Fui o primeiro a sobreviver completamente ao chamado do Nóvium.
Ele observou o horizonte devastado.
— E o último.
Kael aproximou-se.
— Você pode fechar o portal?
Asterion olhou para a gigantesca abertura no céu.
Seu semblante tornou-se sério.
— Ainda não.
— Por quê?
— Porque ele já percebeu que despertamos.
Um silêncio pesado instalou-se.
Lyra perguntou:
— Quem?
Asterion voltou o olhar para o outro lado da fenda.
Muito além das criaturas.
Muito além das montanhas flutuantes.
— Aquele que marcha.
Todos sentiram um arrepio.
Até os Guardiões baixaram novamente a cabeça.
Orion respirou fundo.
— O que existe do outro lado?
Asterion permaneceu imóvel.
— Um universo que morreu.
As palavras ecoaram lentamente.
— Não por guerra.
Nem por doença.
Nem pelo tempo.
Ele fechou os olhos.
— Foi consumido.
Ninguém falou.
O vento voltou a soprar.
Asterion abriu novamente os olhos.
— Aqueles monstros...
Apontou para as criaturas que continuavam atravessando o portal.
— Eram povos.
Lyra sentiu o coração acelerar.
— Povos?
— Civilizações inteiras.
Silêncio.
— Transformadas pelo mesmo inimigo.
Orion aproximou-se.
— Existe uma maneira de detê-lo?
Asterion observou o jovem durante vários segundos.
Depois colocou a mão sobre seu ombro.
No instante do contato, milhares de lembranças atravessaram a mente de Orion.
Sóis azuis.
Planetas vivos.
Guardiões lutando.
Cidades cristalinas.
Galáxias queimando.
Um oceano de energia azul cobrindo estrelas inteiras.
E algo colossal caminhando lentamente através daquele mar luminoso.
Orion caiu de joelhos.
Respirava com dificuldade.
Asterion retirou a mão.
— Agora você viu.
O jovem levantou lentamente a cabeça.
Lágrimas escorriam de seus olhos.
— Aquilo...
Sua voz falhou.
— Aquilo era infinito.
O guerreiro não respondeu imediatamente.
Observava o portal.
Depois falou com extrema serenidade.
— Não tenham medo da nave-colmeia.
Nem dos monstros.
Nem mesmo do Caminho.
Todos esperaram.
Sua voz tornou-se ainda mais baixa.
— Eles são apenas o anúncio.
Lyra perguntou quase num sussurro.
— Anúncio de quê?
Asterion olhou para o céu.
O azul da energia do portal refletia-se em seus olhos dourados.
Então pronunciou duas palavras que fizeram até os Guardiões estremecerem.
— Fim Azul.
O silêncio tornou-se absoluto.
Orion sentiu as vozes retornarem.
Muito baixas.
Muito distantes.
Mas agora todas repetiam exatamente o mesmo nome.
Como uma oração esquecida.
Ou um aviso.
Enquanto isso, além do portal, a silhueta colossal que caminhava entre montanhas suspensas aproximou-se um pouco mais.
Pela primeira vez, uma parte de seu corpo atravessou a névoa daquele universo morto.
Era apenas a ponta de uma das mãos.
Mesmo assim...
ela era maior que a própria Lua Negra.
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