A Guerra de Éterion: CAPÍTULO 26 — Revolta em Solaris

 Os ecos das palavras de Asterion espalharam-se muito além de Éterion.

"Fim Azul."

Nenhum oficial compreendeu seu significado.

Nenhum cientista encontrou qualquer registro completo sobre aquele nome.

Mesmo assim, bastou que as primeiras transmissões vazassem para as redes civis para que o termo se espalhasse entre bilhões de habitantes.

Em poucos dias, surgiram interpretações de todos os tipos.

Alguns diziam tratar-se de uma profecia.

Outros acreditavam que era uma arma.

Havia quem afirmasse que o Fim Azul era o verdadeiro nome do coração de Éterion.

E muitos passaram a acreditar que a guerra inteira fora provocada pelos próprios governantes para esconder a verdade.

As dúvidas transformaram-se rapidamente em revolta.

Nos mundos periféricos do Império Solaris, as notícias chegavam acompanhadas de imagens impossíveis de ignorar.

Famílias refugiadas.

Colônias destruídas.

A cidade apagada pelo núcleo artificial.

O jovem conhecido como Portador Azul protegendo civis enquanto soldados continuavam lutando.

A cada transmissão, a confiança no governo diminuía.

Na colônia industrial de Vesper-9, milhares de trabalhadores abandonaram as fábricas.

As linhas de montagem pararam pela primeira vez em mais de cem anos.

Um veterano de guerra subiu sobre um veículo de carga e ergueu um comunicador.

— Quantos filhos ainda vamos enviar para morrer?

A multidão respondeu com gritos.

— Basta!

Outro trabalhador apontou para os enormes cartazes imperiais espalhados pelas avenidas.

— Diziam que lutávamos para salvar a humanidade!

Ele projetou no ar uma gravação de Éterion.

Guardiões protegendo crianças.

Soldados Solaris e Nox combatendo lado a lado.

Monstros atravessando o portal.

— Então por que continuamos lutando entre nós?

A multidão começou a arrancar os símbolos imperiais das paredes.

As forças de segurança chegaram minutos depois.

Mas eram poucas.

E estavam cansadas.

Alguns soldados simplesmente retiraram os capacetes.

Recusaram-se a atacar a própria população.

Em outro sistema, na colônia agrícola de Argen, agricultores bloquearam os trilhos magnéticos que transportavam armamentos para a frente de batalha.

Milhares de toneladas de equipamentos permaneceram paradas.

Ninguém aceitava mais produzir armas enquanto cidades inteiras desapareciam.

Na estação orbital de Helix Prime, técnicos desligaram os reatores responsáveis pelo abastecimento de cruzadores militares.

As docas ficaram às escuras.

Pilotos aguardavam ordens que nunca chegavam.

As manifestações espalharam-se como fogo.

Em menos de uma semana, dezenas de colônias declaravam greve geral.

As redes de comunicação transmitiam apenas uma frase.

"Chega de guerra."

No Palácio Imperial de Solaris, o ambiente era completamente diferente.

O imperador caminhava lentamente diante das enormes janelas voltadas para a capital.

As notícias chegavam sem parar.

Cada relatório era pior que o anterior.

Um conselheiro aproximou-se.

— Perdemos contato com quatro bases industriais.

Outro acrescentou:

— A população ocupou os arsenais de Kalis.

Mais um holograma surgiu.

— Tropas recusaram ordens em três setores.

O imperador permaneceu em silêncio.

Seu rosto não demonstrava medo.

Demonstrava irritação.

— Eles esqueceram quem mantém este império unido.

O marechal Varik respondeu cautelosamente.

— Senhor, a situação exige diálogo.

O imperador virou-se lentamente.

— Não.

Silêncio.

— Exige disciplina.

Ele aproximou-se do grande mapa holográfico da galáxia.

As regiões marcadas em vermelho aumentavam a cada minuto.

— Se perdermos o controle agora...

Sua voz tornou-se mais firme.

— Perderemos Solaris para sempre.

Ele ergueu a mão.

— Preparem o decreto.

Horas depois, todas as transmissões oficiais foram interrompidas.

O símbolo imperial apareceu em bilhões de telas.

O imperador surgiu diante da população.

Sua expressão era severa.

— Cidadãos de Solaris.

Ninguém falava.

— Nosso império enfrenta a maior ameaça de sua história.

Imagens de monstros e da nave-colmeia surgiram atrás dele.

— Alguns acreditam que este é o momento de abandonar seus postos.

As imagens mudaram.

Agora mostravam protestos.

Fábricas paradas.

Bases ocupadas.

— Estão errados.

O imperador respirou profundamente.

— A partir deste momento...

Uma pausa.

— Declaro lei marcial em todos os sistemas Solaris.

As palavras espalharam-se imediatamente.

— Reuniões públicas estão proibidas.

— Toda paralisação industrial será considerada sabotagem.

— Bases militares poderão usar força letal para restabelecer a ordem.

As transmissões encerraram-se.

Durante alguns segundos, a galáxia permaneceu em silêncio.

Depois começaram os confrontos.

Na base militar de Orpheus, centenas de manifestantes cercaram os portões.

Não carregavam armas pesadas.

Apenas faixas.

Ferramentas.

Equipamentos de trabalho.

Do outro lado, soldados aguardavam.

O comandante recebeu a ordem diretamente da capital.

"Disperse a multidão."

Ele olhou para as pessoas.

Reconheceu vizinhos.

Parentes.

Antigos professores.

Baixou lentamente a arma.

Atrás dele, outro oficial assumiu o comando.

— Fogo de advertência.

Os disparos ecoaram.

O pânico instalou-se.

Alguns correram.

Outros avançaram.

Os portões foram derrubados.

Pela primeira vez na história de Solaris, civis invadiam uma grande instalação militar.

Cenas semelhantes repetiram-se em dezenas de mundos.

Arsenais eram ocupados.

Quartéis cercados.

Transportes militares bloqueados.

Em muitos lugares, soldados recusavam-se a combater.

Em outros, obedeciam às ordens.

A guerra civil aproximava-se rapidamente.

Em Éterion, Lyra acompanhava tudo por meio das transmissões.

Ela fechou lentamente os olhos.

— Era inevitável.

Cassian apareceu por holograma.

Parecia exausto.

— A situação piora a cada hora.

Kael observava em silêncio.

— Seus líderes estão destruindo o próprio império.

Cassian respondeu com amargura.

— Os seus fizeram o mesmo conosco.

Nenhum dos dois discutiu.

Já não fazia sentido.

Enquanto isso, Asterion permanecia diante do portal.

Imóvel.

Observando o outro universo.

Os Guardiões mantinham uma enorme rede cristalina tentando retardar o crescimento da ruptura.

Mesmo assim...

ela continuava aumentando.

Orion aproximou-se de Lyra.

— Você recebeu uma mensagem.

Ela abriu o arquivo.

Era um comunicado oficial.

Leu apenas as primeiras linhas.

Seu rosto endureceu.

Cassian percebeu imediatamente.

— O que foi?

Ela permaneceu alguns segundos em silêncio.

Depois entregou-lhe o holograma.

Cassian leu rapidamente.

Sentiu um peso no peito.

A ordem vinha diretamente do Palácio Imperial.

"Capitã Lyra Valen."

"Você está formalmente acusada de alta traição."

Os presentes permaneceram imóveis.

As acusações continuavam.

"Colaboração com forças inimigas."

"Desobediência ao comando imperial."

"Ocultação de tecnologias estratégicas."

"Cooperação com entidades alienígenas."

"Libertação do elemento conhecido como Portador Azul."

Ao final havia apenas uma determinação.

"Prisão imediata."

Cassian abaixou lentamente o holograma.

— Eles enlouqueceram.

Kael cruzou os braços.

— Ou estão procurando um culpado.

Lyra respirou profundamente.

Não demonstrava surpresa.

Talvez já esperasse por aquilo.

Antes que qualquer decisão fosse tomada, dezenas de sinais de dobra apareceram próximos à órbita.

Novos cruzadores Solaris chegavam ao sistema.

Mas não estavam ali para combater os monstros.

Suas armas apontavam para a superfície.

Uma transmissão abriu-se.

O marechal Varik surgiu.

— Capitã Lyra.

Ela respondeu calmamente.

— Marechal.

— Recebeu sua acusação?

— Sim.

Varik desviou os olhos por um instante.

Parecia desconfortável.

— Fui encarregado de executá-la.

Silêncio.

— Não desejo fazer isso.

Lyra conhecia aquele homem havia décadas.

Sabia que ele falava sinceramente.

— Então não faça.

Varik fechou os olhos.

— Não tenho escolha.

— Sempre existe uma escolha.

As palavras permaneceram ecoando entre os dois.

Enquanto isso, soldados especiais desembarcavam discretamente próximos ao complexo subterrâneo.

Sua missão era simples.

Encontrar Lyra.

Prendê-la.

Se necessário...

eliminá-la.

Nira foi a primeira a perceber.

— Estão chegando.

Os Guardiões voltaram seus rostos para a entrada principal.

Mas Asterion ergueu apenas um dedo.

— Não interfiram.

Lyra compreendeu imediatamente.

— Não quero que humanos matem humanos por minha causa.

Ela retirou lentamente o distintivo de capitã.

Observou-o durante alguns segundos.

Depois entregou-o a Cassian.

— Cuide da frota.

Ele recusou.

— Ainda é sua.

Ela sorriu tristemente.

— Não para eles.

Orion deu um passo à frente.

— Eu fico com você.

Lyra olhou para o jovem.

— Tem certeza?

Ele apenas assentiu.

As vozes dentro de sua mente permaneciam inquietas.

Mas uma delas repetia continuamente.

"Caminhe."

Asterion aproximou-se.

— O coração já escolheu.

Kael observava tudo em silêncio.

Finalmente falou.

— Se permanecer aqui, será capturada.

Lyra respondeu:

— Eu sei.

O general respirou fundo.

— Então vá.

Cassian virou-se imediatamente.

— Você está ajudando uma inimiga.

Kael respondeu sem alterar a voz.

— Estou ajudando alguém que ainda tenta salvar este universo.

Os sons de passos ecoaram pelos corredores.

As tropas Solaris aproximavam-se rapidamente.

Lyra olhou uma última vez para o coração de Éterion.

Depois caminhou até um antigo portal cristalino.

Maelis ativou os mecanismos.

Os anéis começaram a girar.

Luz azul envolveu toda a estrutura.

Do lado de fora, os soldados já alcançavam a entrada principal.

O comandante gritou:

— Capitã Lyra!

Ela voltou-se apenas uma vez.

— Não obriguem seus homens a fazer isso.

Ninguém respondeu.

Os portões foram abertos.

As tropas avançaram.

Mas encontraram apenas o brilho intenso do portal.

Lyra e Orion desapareceram diante deles.

A luz extinguiu-se imediatamente.

O círculo cristalino rachou.

Depois desintegrou-se completamente.

Não havia qualquer sinal do destino dos dois.

Em toda a galáxia, a notícia espalhou-se em poucas horas.

"A heroína de Éterion tornou-se fugitiva."

Entre soldados leais ao império, ela era chamada de traidora.

Entre os refugiados, de protetora.

Entre os rebeldes, de símbolo.

Mas havia alguém observando tudo aquilo com muito mais interesse.

Nas profundezas da nave-colmeia, milhares de estruturas orgânicas abriram-se lentamente.

Uma consciência antiga analisava as transmissões humanas.

Aprendia seus idiomas.

Compreendia seus conflitos.

E chegava a uma conclusão.

Os humanos dividiam-se sozinhos.

Não seria necessário derrotá-los.

Bastaria esperar.

Enquanto isso, em um lugar desconhecido para todos os impérios, Lyra e Orion emergiram do portal diante de uma cadeia de montanhas cristalinas que não aparecia em nenhum mapa de Éterion.

O ar era silencioso.

As rochas brilhavam com uma luz azul suave.

Asterion não estava ali.

Nem Maelis.

Nem os Guardiões.

Apenas uma antiga construção parcialmente enterrada aguardava entre as montanhas.

Acima de sua entrada havia uma inscrição em uma língua esquecida.

Quando Orion se aproximou, as letras acenderam-se sozinhas.

E, pela primeira vez, ele conseguiu compreendê-las sem precisar de tradução.

Elas diziam apenas:

"Arquivo dos Últimos Dias."

Sem trocar uma palavra, Lyra e Orion cruzaram a entrada da construção, sem imaginar que aquele lugar guardava registros da primeira guerra contra o Fim Azul — e respostas que poderiam mudar tudo o que acreditavam saber.


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