A Guerra de Éterion: CAPÍTULO 27 — O Julgamento de Kael

 A fuga de Lyra espalhou-se pela galáxia quase tão rapidamente quanto a declaração de lei marcial.

Para Solaris, ela era oficialmente uma desertora.

Para milhões de colonos, transformara-se no rosto da resistência contra uma guerra que parecia ter perdido qualquer propósito.

Em Nox, entretanto, sua fuga produziu um efeito diferente.

Os membros do Alto Conselho enxergaram nela uma oportunidade.

Se Solaris estava dividido, bastava pressionar um pouco mais para que o império rival desmoronasse completamente.

Mas havia um obstáculo.

Kael.

O general continuava suspendendo ataques contra civis.

Recusava-se a utilizar armas proibidas.

E insistia em manter parte da frota concentrada ao redor de Éterion para combater as criaturas que atravessavam o Caminho.

Para muitos oficiais noxianos, aquilo era imperdoável.

Na capital de Nox, o Palácio Obsidiana permanecia mergulhado em sombras permanentes.

As paredes negras refletiam apenas a luz vermelha das estrelas artificiais que alimentavam a cidade.

O imperador encontrava-se diante do enorme mapa holográfico da galáxia.

Mais setores apareciam em amarelo.

Áreas fora do controle militar.

Colônias recusavam enviar recursos.

Frotas demoravam a obedecer.

E vários comandantes começavam a seguir as decisões de Kael em vez das ordens enviadas pelo Conselho.

O silêncio foi interrompido pela entrada do almirante Draven.

Veterano de inúmeras campanhas, era conhecido por sua absoluta lealdade ao trono.

Ele ajoelhou-se.

— Majestade.

— Levante-se.

Draven obedeceu.

O imperador aproximou-se lentamente.

— O general Kael tornou-se um problema.

O almirante permaneceu imóvel.

— Ele hesita.

— Questiona ordens.

— Coopera com Solaris.

Cada frase tornava a voz do imperador mais fria.

— E, pior...

Ele ativou um holograma mostrando Kael protegendo transportes civis durante o ataque às colônias.

— Os soldados começam a respeitá-lo mais do que a mim.

Draven compreendeu imediatamente.

— O senhor deseja substituí-lo.

O imperador balançou a cabeça.

— Não.

Uma breve pausa.

— Desejo julgá-lo.

Horas depois, transmissões de prioridade máxima alcançaram todas as frotas noxianas.

O General Supremo Kael deveria comparecer imediatamente ao Palácio Obsidiana para responder às acusações de insubordinação.

Na órbita de Éterion, Kael recebeu a convocação enquanto observava o crescimento contínuo do portal.

Ao seu lado, vários comandantes aguardavam sua decisão.

Um deles aproximou-se.

— É uma armadilha.

Kael respondeu calmamente.

— Eu sei.

— Então não vá.

O general voltou o olhar para o planeta.

As criaturas continuavam sendo repelidas pelos Guardiões e pelas frotas reunidas.

Asterion permanecia como uma muralha viva diante da ruptura dimensional.

Se Kael abandonasse aquela posição, milhares morreriam.

Mas, se recusasse a convocação...

a guerra civil em Nox começaria imediatamente.

Ele respirou fundo.

— Preparar nave de transporte.

O comandante baixou a cabeça.

Sabia que seria impossível convencê-lo.

Dias depois, o enorme salão do julgamento estava completamente lotado.

Generais.

Almirantes.

Conselheiros.

Representantes das casas militares.

Todos observavam Kael caminhar sozinho pelo corredor central.

Nenhum soldado o acompanhava.

Ele entregou espontaneamente suas armas na entrada.

Alguns oficiais sorriram discretamente.

Acreditavam que aquilo facilitaria o plano.

No centro do salão havia um círculo metálico cercado por dezenas de pilares escuros.

Kael posicionou-se exatamente onde lhe indicaram.

O imperador surgiu na parte superior da sala.

Sua voz ecoou por todos os níveis.

— General Kael.

— Presente.

— Você é acusado de desobedecer ordens imperiais.

— Sim.

Murmúrios espalharam-se entre os presentes.

Ninguém esperava uma resposta tão direta.

— É acusado de poupar colônias inimigas.

— Sim.

Mais murmúrios.

— É acusado de cooperar com oficiais Solaris.

Kael olhou diretamente para o imperador.

— Sim.

Silêncio absoluto.

O imperador estreitou os olhos.

— Você admite todas as acusações?

— Admito os fatos.

Não os crimes.

O salão inteiro voltou a murmurar.

O imperador inclinou-se ligeiramente para a frente.

— Explique.

Kael permaneceu imóvel.

— Quando recebi ordens para bombardear civis, desobedeci.

— Quando monstros atravessaram o Caminho, lutei ao lado de Solaris.

— Quando meus homens precisaram escolher entre orgulho e sobrevivência...

Ele ergueu lentamente a cabeça.

— Escolhi a sobrevivência.

Um dos generais levantou-se furioso.

— Traidor!

Outro apontou para Kael.

— Ele contaminou nossas tropas com fraqueza!

Mais vozes começaram a surgir.

— Covarde!

— Desertor!

— Amigo dos inimigos!

Kael permaneceu completamente imóvel.

O imperador levantou uma das mãos.

O silêncio retornou.

— Última oportunidade.

Sua voz tornou-se extremamente fria.

— Ajoelhe-se.

— Reconheça seus erros.

— Entregue o comando da frota.

Kael respirou lentamente.

Depois respondeu.

— Não.

A palavra ecoou como um disparo.

O imperador fechou os olhos.

— Então o julgamento termina.

Ele fez um pequeno gesto com os dedos.

Nada aconteceu durante um segundo.

Depois...

os pilares ao redor de Kael abriram-se.

Compartimentos ocultos revelaram soldados da Guarda Escarlate.

Não eram dez.

Nem vinte.

Mais de cem guerreiros surgiram simultaneamente.

Todos usando armaduras vivas alimentadas por Nóvium.

As portas do salão também foram bloqueadas.

Alguns oficiais recuaram assustados.

Outros sorriram.

A audiência jamais fora um julgamento.

Era uma execução.

O comandante da Guarda ergueu a espada.

— Pelo Império Nox...

As lâminas energéticas foram ativadas.

— Matem o traidor.

Os soldados avançaram ao mesmo tempo.

Kael permaneceu parado até o último instante.

Quando a primeira espada desceu...

ele girou o corpo.

A lâmina atingiu apenas o chão.

Kael desarmou o atacante com um único movimento.

A espada girou pelo ar.

Foi segurada pela mão esquerda do general.

Dois soldados aproximaram-se por trás.

Ele inclinou o corpo.

As próprias lanças dos atacantes colidiram entre si.

Kael avançou.

Nenhum golpe era desperdiçado.

Nenhum movimento parecia apressado.

Em poucos segundos, cinco soldados estavam desacordados.

Mas dezenas continuavam chegando.

As armaduras vivas reagiram imediatamente.

Espinhos cristalinos cresceram sobre seus ombros.

Correntes vermelhas envolveram suas pernas.

Um dos guerreiros lançou uma onda de energia.

Kael saltou.

A explosão destruiu parte do piso.

Outro tentou agarrá-lo usando tentáculos formados pela própria armadura.

O general cortou as extensões antes que o alcançassem.

Os oficiais observavam incrédulos.

Nunca o tinham visto lutar pessoalmente.

Agora compreendiam por que sua reputação atravessava gerações.

Ele não era apenas um estrategista.

Era uma arma viva.

Mesmo assim, os conspiradores possuíam vantagem numérica.

Mais soldados entravam continuamente no salão.

Os ataques tornavam-se cada vez mais intensos.

Um golpe finalmente atingiu Kael de raspão.

Sua armadura abriu-se no ombro.

Sangue escorreu lentamente.

Os conspiradores sorriram.

Foi um erro.

Kael fechou os olhos por um breve instante.

As vozes que o perseguiam desde Éterion voltaram.

Desta vez, porém, ele não lutou contra elas.

Apenas ouviu.

Quando abriu os olhos novamente...

eles brilhavam com um leve tom azul.

Não era o brilho instável do Nóvium corrompido.

Era algo muito mais discreto.

Muito mais profundo.

A energia ao redor dele mudou.

Os soldados hesitaram.

Sentiram imediatamente.

O comandante da Guarda gritou.

— Não deixem que ele...

Kael moveu-se.

Ninguém conseguiu acompanhar.

Os primeiros dez soldados caíram quase simultaneamente.

As espadas escapavam de suas mãos antes mesmo que percebessem.

As armaduras vivas começavam a endurecer.

Depois rachavam.

Como se alguma força invisível interrompesse o fluxo de Nóvium dentro delas.

Um guerreiro tentou atacá-lo pelas costas.

Kael segurou seu braço.

A armadura simplesmente desligou.

Toda a energia desapareceu.

O soldado caiu inconsciente.

Os cientistas presentes arregalaram os olhos.

Aquilo era impossível.

Alguém gritava das arquibancadas.

— Ele está bloqueando o Nóvium!

Outro respondeu.

— Isso não pode existir!

Em menos de cinco minutos...

o enorme salão estava completamente silencioso.

Soldados derrotados cobriam o chão.

Nenhum morto.

Todos incapacitados.

Kael permanecia de pé no centro da arena.

Respirava pesadamente.

O imperador levantou-se lentamente.

Seu rosto revelava algo inédito.

Medo.

Pela primeira vez...

temia o próprio general.

Draven aproximou-se discretamente do trono.

— Devemos chamar reforços?

O imperador demorou a responder.

Mas já era tarde.

Nesse instante, dezenas de oficiais levantaram-se das cadeiras.

Primeiro um.

Depois cinco.

Depois cinquenta.

Todos caminharam em direção a Kael.

Os conspiradores sorriram.

Acreditavam que novos inimigos surgiam.

Mas os oficiais pararam diante do general.

E ajoelharam-se.

O primeiro falou.

— Lutamos ao seu lado durante vinte anos.

Outro continuou.

— O senhor nunca abandonou seus soldados.

Mais um ergueu a voz.

— Nós vimos Éterion.

Vimos o Caminho.

Vimos aquelas criaturas.

O salão inteiro permaneceu em silêncio.

Finalmente Draven caminhou lentamente até Kael.

Durante anos fora considerado o homem mais leal ao imperador.

Parou diante do general.

Retirou lentamente o símbolo preso ao peito.

Colocou-o sobre o chão.

Depois ajoelhou-se.

— O Império precisa de um comandante.

Não de um político.

Outros soldados fizeram o mesmo.

Depois pilotos.

Depois almirantes.

Em poucos minutos...

centenas de militares encontravam-se ajoelhados.

O imperador percebeu.

Seu poder acabava de ruir.

Kael olhou para todos eles.

Não havia triunfo em seu rosto.

Apenas cansaço.

Subiu lentamente os degraus até o trono.

Parou diante do imperador.

Os dois permaneceram em silêncio durante vários segundos.

Por fim, Kael falou.

— Não vou matá-lo.

O imperador arregalou discretamente os olhos.

— Porque Nox já perdeu pessoas demais.

Kael retirou a coroa negra das mãos do governante.

Não a colocou na própria cabeça.

Apenas a entregou a um oficial.

— Guardem-na.

Virou-se para todos os presentes.

Sua voz ecoou pelo salão.

— A partir deste momento...

Todos aguardavam.

— Toda a autoridade militar passa para o Alto Comando Unificado.

Ninguém protestou.

Sabiam quem realmente o lideraria.

Kael respirou profundamente.

Seu primeiro decreto foi imediato.

— Cessar todos os ataques contra civis.

O segundo veio logo depois.

— Reunir toda a frota disponível em Éterion.

O terceiro surpreendeu muitos oficiais.

— Encontrem a Capitã Lyra.

Draven perguntou:

— Para prendê-la?

Kael respondeu sem hesitar.

— Não.

Olhou para a imensa projeção do portal que continuava crescendo.

Depois lembrou-se das palavras de Asterion.

Do Fim Azul.

Do universo morto.

E da mão colossal aproximando-se lentamente da abertura.

— Digam a ela...

Sua voz tornou-se mais baixa.

— Que precisamos conversar antes que seja tarde demais.

Naquele mesmo instante, muito distante dali, em um vale cristalino oculto nas profundezas de Éterion, Lyra e Orion avançavam pelo antigo Arquivo dos Últimos Dias.

À medida que caminhavam pelos corredores silenciosos, milhares de pequenas luzes azuis começavam a acender nas paredes.

Como se o próprio lugar tivesse esperado milhões de anos pela chegada deles.

E, nas câmaras mais profundas do arquivo, uma antiga inteligência despertava lentamente para recebê-los.


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