A Guerra de Éterion: CAPÍTULO 29 — Aliança Impossível
- Gerar link
- X
- Outros aplicativos
Lyra permaneceu imóvel por alguns instantes.
O clarão azul que envolvia Orion continuava crescendo, fazendo os corredores do Arquivo dos Últimos Dias estremecerem como se fossem feitos de vidro. As antigas paredes cristalinas, que haviam resistido por milhões de anos, começavam a apresentar pequenas rachaduras luminosas.
Cada nova descarga atravessava quilômetros de rocha.
Muito acima, montanhas inteiras brilhavam em resposta.
A inteligência ancestral do arquivo repetia a mesma advertência.
— Sobrecarga do Portador.
— Fluxo energético ultrapassando limites biológicos.
— Colapso provável.
Lyra tentou aproximar-se novamente.
A pressão invisível aumentava a cada passo.
Parecia caminhar contra um oceano.
Ela chamou o nome de Orion.
Nenhuma resposta.
Os olhos do jovem permaneciam completamente azuis.
Não havia pupilas.
Nem expressão.
Apenas milhares de vozes falando simultaneamente através dele.
— Eles estão chegando...
— O selo enfraqueceu...
— O Fim desperta...
— Corrijam o erro...
As frases misturavam-se até se tornarem incompreensíveis.
Foi então que um brilho dourado atravessou a câmara.
Asterion surgiu entre as colunas cristalinas.
Nem mesmo ele parecia totalmente tranquilo.
Observou Orion durante alguns segundos.
Depois fechou os olhos.
— Nunca imaginei que aconteceria tão cedo.
Lyra voltou-se para ele.
— Você consegue ajudá-lo?
Asterion não respondeu imediatamente.
Em vez disso, aproximou-se lentamente do jovem.
Quando ficou a poucos metros, ergueu uma das mãos.
Uma corrente dourada saiu de sua palma e envolveu parte da energia azul.
Durante alguns instantes...
pareceu funcionar.
As vozes diminuíram.
O brilho enfraqueceu.
Mas apenas por alguns segundos.
Uma explosão muito maior lançou Asterion para trás.
O antigo Guardião deslizou vários metros sobre o piso cristalino.
Levantou-se imediatamente.
Havia surpresa em seu rosto.
— Nem eu consigo conter isso...
O silêncio que se seguiu foi interrompido apenas pelos alarmes do arquivo.
A inteligência ancestral voltou a falar.
— Prioridade máxima.
— O Portador precisa ser estabilizado.
— Iniciar protocolo da Segunda Chave.
As palavras ecoaram pelos corredores.
Lyra aproximou-se do painel principal.
— O que é a Segunda Chave?
A resposta veio quase imediatamente.
— Informação restrita.
— Requer autorização conjunta.
— Guardião Primordial.
— Portador.
— Comandante Humano.
Asterion ergueu discretamente a cabeça.
— Três herdeiros.
Lyra olhou para ele.
— Isso significa...
— Que este lugar esperava nossa chegada.
Antes que pudessem prosseguir, um holograma surgiu diante deles.
Cassian.
Sua imagem tremia devido às interferências energéticas.
— Lyra!
Ela respondeu rapidamente.
— Cassian!
— Encontramos vocês.
A transmissão falhava constantemente.
— Escute...
— A situação piorou.
Atrás dele apareciam dezenas de telas mostrando incêndios, tempestades vermelhas e cidades destruídas.
— A revolta em Solaris aumentou.
— Nox também enfrenta conflitos internos.
— Mas isso já não importa.
Ele respirou profundamente.
— O portal voltou a crescer.
Lyra fechou os olhos.
— Quanto?
Cassian respondeu em voz baixa.
— Muito.
Enquanto isso, na capital de Nox...
Kael reorganizava completamente a estrutura militar.
A primeira ordem foi cumprida quase imediatamente.
Todos os ataques deliberados contra colônias civis haviam sido suspensos.
A segunda também.
Grande parte da frota seguia rumo a Éterion.
Entretanto...
nem todos aceitavam o novo comando.
Nos corredores escuros do antigo Ministério da Guerra, oficiais reuniam-se secretamente.
O almirante Voren projetou um holograma.
Nele apareciam imagens de Kael lutando ao lado de soldados Solaris.
Depois surgia Lyra.
Em seguida, Orion.
Voren olhou para os demais.
— O que enxergam?
Um coronel respondeu.
— Traição.
Outro acrescentou.
— Fraqueza.
Um terceiro bateu na mesa.
— O general foi manipulado.
Voren desligou a projeção.
— Então espalhem a verdade.
O coronel franziu a testa.
— A verdade?
O almirante sorriu discretamente.
— Não.
— Uma verdade conveniente.
Naquele mesmo dia, milhares de mensagens começaram a circular entre militares e civis.
Diziam que Kael entregara segredos militares a Solaris.
Que Lyra era sua amante.
Que ambos planejavam fundar um novo império.
Que Orion controlava suas mentes.
Nenhuma história era igual.
Mas todas possuíam o mesmo objetivo.
Destruir a confiança.
As redes de comunicação transformaram-se em um caos.
Alguns acreditavam.
Outros riam.
Muitos já não sabiam distinguir fatos de mentiras.
Em Solaris a situação era semelhante.
A imprensa imperial divulgava imagens cuidadosamente editadas.
Lyra aparecia conversando com Kael.
Depois as cenas eram cortadas.
Parecia que conspiravam havia muito tempo.
Nenhuma menção era feita às criaturas do portal.
Nem ao Fim Azul.
Apenas repetiam uma única frase.
"A capitã traiu Solaris."
Mesmo entre antigos companheiros surgiam dúvidas.
Um jovem piloto perguntou a Cassian.
— Ela realmente nos abandonou?
Cassian permaneceu em silêncio durante alguns segundos.
Depois respondeu.
— Não.
— Ela foi abandonada primeiro.
No Arquivo, Orion finalmente voltou a respirar normalmente.
O brilho ao redor de seu corpo diminuíra.
Ainda era intenso.
Mas já não destruía tudo ao redor.
Ele abriu lentamente os olhos.
Desta vez eram humanos novamente.
Olhou para Lyra.
— Eu...
Sua voz falhou.
— Eu ouvi todos.
Ela aproximou-se.
— Quem?
Orion levou a mão à cabeça.
— Pessoas.
Milhões delas.
Vi cada medo.
Cada dor.
Cada morte.
Respirou profundamente.
— A tempestade conecta todos ao coração.
Asterion assentiu.
— Era exatamente isso que temíamos.
A inteligência voltou a manifestar-se.
— Nova transmissão recebida.
Um símbolo desconhecido apareceu diante deles.
Depois surgiu o rosto de Kael.
A comunicação parecia ter sido criada utilizando antigos canais cristalinos.
Nem Solaris.
Nem Nox.
Um sistema muito mais antigo.
Kael olhava diretamente para Lyra.
— Precisamos conversar.
Ela permaneceu alguns segundos em silêncio.
— Como encontrou este canal?
— Asterion deixou pistas.
O antigo Guardião sorriu discretamente.
— Achei que demoraria mais.
Kael respirou fundo.
— Não temos tempo.
Atrás dele, oficiais caminhavam apressados.
Explosões podiam ser ouvidas à distância.
— Minha posição está comprometida.
— Existem grupos tentando iniciar outra guerra.
Lyra respondeu.
— Em Solaris acontece o mesmo.
Os dois permaneceram olhando um para o outro.
Durante meses haviam sido inimigos.
Responsáveis por batalhas que custaram incontáveis vidas.
Agora...
a situação era completamente diferente.
Kael foi o primeiro a romper o silêncio.
— Se continuarmos separados...
Ele olhou rapidamente para a imagem do portal exibida ao fundo.
— Todos morreremos.
Lyra respondeu apenas uma palavra.
— Concordo.
Cassian, conectado por outro canal, arregalou discretamente os olhos.
Jamais imaginara ouvir aquilo.
Kael continuou.
— Então proponho um pacto.
Nenhum tratado oficial.
Nenhum documento.
Nenhum anúncio.
Apenas um acordo.
— Enquanto existir ameaça ao universo...
Solaris e Nox lutarão juntos.
Lyra respirou lentamente.
Sabia que, se aceitasse...
seria considerada traidora por milhões.
Mas também sabia que recusar significava condenar todos.
Ela estendeu a mão em direção ao holograma.
Kael fez o mesmo.
As duas projeções tocaram-se.
A inteligência do arquivo registrou imediatamente.
— Aliança confirmada.
— Primeiro Pacto Interimperial registrado após três milhões e cento e dezesseis mil anos.
Cassian sorriu discretamente.
— Finalmente.
Mas a notícia não permaneceu secreta por muito tempo.
Nas sombras do antigo Palácio Obsidiana...
Voren observava uma transmissão interceptada.
Embora incompleta, mostrava claramente Kael conversando com Lyra.
O almirante desligou a gravação.
— Então era verdade.
Um agente encapuzado aguardava ao lado.
— Deseja que espalhemos isso?
Voren balançou a cabeça.
— Não.
Aproximou-se lentamente.
— Quero algo muito mais definitivo.
Ele abriu um compartimento escondido na parede.
Lá dentro havia apenas uma pequena caixa negra.
Ao abri-la...
revelou uma lâmina feita de um cristal escuro que parecia absorver a luz.
O agente observou em silêncio.
Voren falou calmamente.
— Existe apenas uma pessoa capaz de terminar esse trabalho.
Muito além das fronteiras conhecidas de Nox...
uma estação espacial abandonada orbitava uma estrela moribunda.
Ninguém utilizava aquele lugar havia décadas.
Ou pelo menos era isso que todos acreditavam.
Uma cápsula metálica aproximou-se lentamente.
Acoplou-se à estação.
O agente encapuzado entrou sozinho.
Os corredores permaneciam completamente escuros.
No centro da instalação existia apenas uma porta circular.
Ele colocou a mão sobre um antigo painel.
A porta abriu-se lentamente.
No interior da sala...
alguém permanecia sentado.
Imóvel.
Vestindo uma armadura negra sem qualquer símbolo.
Sobre uma mesa repousavam dezenas de armas perfeitamente organizadas.
Espadas.
Facas.
Armas de energia.
Dispositivos desconhecidos.
O homem levantou lentamente a cabeça.
Seus olhos eram completamente cinzentos.
Sem emoção.
Sem curiosidade.
Apenas aguardavam.
O agente colocou a caixa negra sobre a mesa.
Dentro dela havia dois hologramas.
Lyra.
Kael.
O homem observou as imagens durante alguns segundos.
Depois perguntou apenas:
— Qual deles?
O agente respondeu.
— Ambos.
Silêncio.
O desconhecido fechou lentamente a caixa.
Levantou-se.
Era alto.
Os movimentos eram absolutamente precisos.
Como uma máquina.
Pegou apenas uma única espada.
Depois caminhou em direção à saída.
O agente perguntou:
— Quanto tempo?
O homem nem sequer olhou para trás.
Sua resposta foi quase um sussurro.
— Eles já estão mortos.
Muito distante dali, no Arquivo dos Últimos Dias, Lyra, Kael, Orion e Asterion começavam a planejar a primeira operação conjunta entre Solaris e Nox.
Nenhum deles imaginava que, naquele exato momento, o mais letal assassino já criado pelos antigos programas secretos de Nox havia iniciado sua caçada.
E, acima de Éterion, a colossal mão que atravessava lentamente o portal conseguiu mover mais um dedo, fazendo toda a Tempestade Vermelha tornar-se ainda mais intensa sobre o planeta.
- Gerar link
- X
- Outros aplicativos

Comentários
Postar um comentário