A Guerra de Éterion: CAPÍTULO 30 — O Mundo Vivo

 O primeiro sinal foi tão discreto que ninguém lhe deu importância.

Em uma planície próxima às antigas ruínas de Éterion, um grupo de soldados de Solaris escoltava pesquisadores encarregados de recuperar equipamentos científicos abandonados durante a Tempestade Vermelha. A chuva energética havia diminuído, mas pequenas partículas rubras ainda flutuavam no ar como brasas carregadas pelo vento.

O comandante da escolta observava constantemente os sensores.

Nada.

Nem criaturas do portal.

Nem soldados noxianos.

Nem monstros transformados pela tempestade.

Mesmo assim, um estranho desconforto tomava conta de todos.

Era como a sensação de estar sendo observado.

Um dos pesquisadores ajoelhou-se para recolher um pequeno cristal azul que brotava do solo.

Assim que seus dedos tocaram o cristal, uma vibração percorreu toda a planície.

Muito leve.

Quase imperceptível.

O cientista levantou a cabeça.

— Vocês sentiram?

Antes que alguém respondesse, as raízes de uma árvore próxima moveram-se lentamente.

Não como galhos balançando ao vento.

Mas como dedos despertando depois de um longo sono.

O comandante ergueu a arma.

— Movimento às duas horas!

Todos apontaram seus rifles.

As árvores permaneceram imóveis.

Durante alguns segundos, ninguém respirou.

Então um soldado deu um passo à frente.

As raízes atravessaram o chão numa velocidade impressionante.

Enrolaram-se em sua perna e o puxaram violentamente para trás.

Os demais abriram fogo imediatamente.

Centenas de disparos atingiram o tronco da árvore.

Fragmentos cristalinos espalharam-se pelo campo.

Mas o tronco regenerou-se diante de seus olhos.

Outra árvore despertou.

Depois outra.

Em menos de um minuto, toda a floresta estava viva.

Galhos estendiam-se como braços.

Raízes rasgavam o solo.

Folhas transformavam-se em lâminas translúcidas.

— Recuem!

Os soldados correram.

As árvores não perseguiam todos.

Escolhiam seus alvos.

Sempre aqueles que carregavam armas ou equipamentos de mineração.

Os cientistas, desarmados, atravessaram a floresta sem serem atacados.

O comandante percebeu isso tarde demais.

Quando ordenou que seus homens largassem os rifles, metade da unidade já havia sido capturada pelas raízes.

Estranhamente, nenhuma delas morreu.

As árvores apenas retiravam as armas.

Depois soltavam os soldados.

Como se apenas expulsassem invasores.


Fenômenos semelhantes começaram a ser registrados em todo o planeta.

No continente oriental, enormes campos de cristais moveram-se para bloquear comboios militares.

No hemisfério sul, montanhas abriram passagens secretas para aldeias de refugiados enquanto fechavam antigas rotas de invasão.

Até o deserto tóxico onde Orion vivera durante semanas sofreu mudanças.

As dunas passaram a deslocar-se sozinhas.

Veículos pesados afundavam em poucos minutos.

Já pequenos grupos de civis atravessavam a região sem dificuldade.

Selene recebia centenas de relatórios por minuto.

Nenhum fazia sentido.

Ela reuniu sua equipe na Lua Negra.

Os hologramas exibiam dezenas de mapas.

Áreas verdes piscavam continuamente.

— Todas essas regiões apresentaram comportamento anômalo nas últimas oito horas.

Um pesquisador ampliou uma imagem.

Mostrava uma floresta inteira cercando um antigo depósito de Nóvium.

Outro cientista abriu novas gravações.

Agora apareciam rochas fechando minas recém-abertas.

Pontes naturais formando-se diante de crianças refugiadas.

Cânions mudando de direção.

Selene permaneceu vários segundos em silêncio.

Depois murmurou:

— O planeta está reagindo.

Ninguém respondeu.

Porque todos pensavam exatamente a mesma coisa.


Enquanto isso, Lyra, Orion e Asterion permaneciam no Arquivo dos Últimos Dias.

A antiga inteligência projetava milhares de registros simultaneamente.

Imagens da superfície mostravam mudanças cada vez mais rápidas.

Florestas crescendo quilômetros em poucas horas.

Lagos tornando-se luminosos.

Montanhas alterando sua própria estrutura.

Lyra cruzou os braços.

— Nunca vi nada parecido.

Asterion aproximou-se de um enorme mapa holográfico.

Seu rosto demonstrava preocupação.

— Porque isso nunca aconteceu dessa forma.

Orion voltou-se para ele.

— Nem mesmo antes do Fim Azul?

O Guardião balançou a cabeça.

— Naquela época, Éterion ainda era jovem.

Agora...

Ele tocou o holograma.

— Está despertando completamente.

A inteligência do arquivo complementou:

— Consciência planetária atingindo novo estágio.

Lyra ergueu a cabeça.

— Consciência?

A voz respondeu imediatamente.

— Definição compatível.

— Éterion não é apenas um planeta.

— É uma entidade biológica de escala continental.

O silêncio tomou conta da sala.

Lyra tentou organizar os pensamentos.

— Você quer dizer...

— Que o planeta está vivo.

A resposta veio sem qualquer hesitação.

— Correto.


Muito acima da atmosfera, sensores da frota unificada registravam outra anomalia.

Os oceanos.

Até então, apenas refletiam a energia azul do coração.

Agora...

brilhavam por conta própria.

Enormes correntes luminosas atravessavam as águas como veias.

Cassian observava as imagens transmitidas pelos satélites.

Nunca vira nada tão belo.

Nem tão assustador.

As linhas azuis percorriam milhares de quilômetros.

Às vezes mudavam de direção.

Às vezes uniam continentes.

Pareciam transportar alguma forma de energia.

Kael chegou à sala de comando.

— Descobriram a origem?

Selene respondeu:

— Ainda não.

Ela ampliou a imagem.

Uma das correntes luminosas convergia diretamente para o coração subterrâneo.

Outra seguia em direção ao Arquivo.

Uma terceira desaparecia sob montanhas ainda inexploradas.

Kael franziu a testa.

— São como artérias.

Selene olhou para ele.

Depois para os demais cientistas.

Ninguém precisou dizer nada.

Todos haviam chegado à mesma conclusão.

Se o coração realmente bombeava energia...

aqueles oceanos funcionavam como um sistema circulatório.


No litoral ocidental de Éterion, dezenas de pescadores refugiados observavam um espetáculo impossível.

Durante a noite inteira, o mar brilhava.

Não apenas na superfície.

Toda a água emitia um intenso tom azul.

Peixes luminosos saltavam em enormes cardumes.

Criaturas jamais catalogadas aproximavam-se tranquilamente das praias.

Uma menina caminhou até a beira da água.

Sua mãe tentou impedi-la.

Mas uma onda avançou lentamente.

Em vez de derrubá-la...

envolveu delicadamente seus pés.

Pequenos pontos luminosos começaram a girar ao redor da criança.

Ela sorriu.

A água recuou.

Na areia permaneceu um pequeno cristal azul.

O objeto pulsava exatamente no ritmo do coração de Éterion.


Nem todos os encontros eram pacíficos.

Em outra região costeira, mercenários tentavam embarcar toneladas de Nóvium roubado.

Assim que o último contêiner foi colocado na nave, o oceano mudou.

As águas tornaram-se completamente imóveis.

Sem vento.

Sem ondas.

Sem qualquer som.

O capitão da embarcação estranhou.

— Levantem voo.

Os motores aceleraram.

Nada aconteceu.

As turbinas simplesmente desligaram.

Então o mar abriu-se.

Uma enorme criatura emergiu lentamente.

Parecia uma mistura de baleia e serpente.

Seu corpo era formado por placas cristalinas azuis.

Olhos enormes observavam silenciosamente os invasores.

Ninguém teve coragem de disparar.

A criatura soltou um canto grave.

As caixas contendo Nóvium começaram a vibrar.

Depois romperam-se sozinhas.

Todos os cristais foram arrancados da embarcação.

Flutuaram pelo ar.

E retornaram lentamente ao oceano.

Somente depois disso a criatura mergulhou novamente.

Os motores voltaram a funcionar.

O capitão ordenou retirada imediata.

Nenhum mercenário tentou recuperar a carga.


As notícias espalharam-se rapidamente.

Em poucas horas surgiram dezenas de vídeos mostrando animais desconhecidos protegendo florestas.

Montanhas impedindo explosões.

Lagos engolindo veículos de mineração.

Árvores afastando crianças do perigo.

A população começou a dar um nome às novas criaturas.

Chamavam-nas de Guardiões Verdes.

Os antigos Guardiões cristalinos não pareciam incomodados.

Pelo contrário.

Sempre que uma dessas novas formas de vida surgia, eles simplesmente observavam à distância.

Como soldados recebendo reforços.


No Arquivo, Orion continuava estudando as projeções deixadas pelos antigos.

Subitamente uma delas chamou sua atenção.

Mostrava um grupo de homens e mulheres cercando uma árvore gigantesca.

Cada pessoa tocava o tronco ao mesmo tempo.

Pequenas luzes azuis passavam da árvore para seus corpos.

Orion aproximou-se.

— Pare isso.

A inteligência ampliou a imagem.

Asterion observou em silêncio.

Depois respirou profundamente.

— Eu me lembrava desse ritual.

Lyra perguntou:

— O que eles estavam fazendo?

O antigo Guardião respondeu:

— Recebendo um chamado.

— Chamado?

Ele assentiu.

— Nem todos podiam utilizar o Nóvium.

— Era o planeta quem decidia.

As palavras permaneceram ecoando pela enorme sala.

Orion olhou novamente para a projeção.

— Então...

— Os portadores não eram escolhidos pelos governantes.

Asterion completou:

— Nem pelos cientistas.

Sua voz tornou-se quase um sussurro.

— Eram escolhidos por Éterion.

Nesse instante, todas as projeções do Arquivo desapareceram.

As luzes diminuíram.

A inteligência ancestral falou em um tom diferente.

Mais solene.

— Evento detectado.

— Processo de Seleção iniciado.

Lyra sentiu um arrepio.

— Seleção?

Antes que viesse qualquer resposta, dezenas de pontos azuis começaram a surgir sobre o mapa holográfico do planeta.

Primeiro dez.

Depois cem.

Depois milhares.

Cada ponto representava uma pessoa.

Alguns estavam em cidades.

Outros em florestas.

Alguns nas frotas orbitais.

Outros escondidos em cavernas.

A inteligência concluiu:

— Éterion começou a escolher novos portadores.

Orion observou o mapa em silêncio.

Sabia, sem conseguir explicar como, que aquela escolha mudaria completamente o destino da guerra.

E, em algum lugar das florestas vivas, raízes cristalinas envolviam lentamente um garoto desconhecido, enquanto uma suave luz azul começava a atravessar seu corpo, marcando o nascimento do primeiro entre os novos escolhidos do planeta.

Comentários