A Guerra de Éterion: CAPÍTULO 32 — O Segredo do Nóvium
O Arquivo dos Últimos Dias permaneceu em silêncio durante vários minutos.
Depois que Lyra partira para salvar os civis de Solaris, apenas Asterion, alguns Guardiões e a antiga inteligência continuavam percorrendo os registros mais profundos da civilização perdida.
As projeções deixadas pelos antigos já não mostravam cidades.
Nem exércitos.
Nem monumentos.
Agora exibiam apenas laboratórios.
Instalações subterrâneas escondidas sob montanhas cristalinas.
Centenas de pesquisadores trabalhavam diante de enormes recipientes preenchidos por uma substância azul extremamente brilhante.
Asterion permaneceu imóvel.
Durante muito tempo evitara revisitar aquelas lembranças.
Sabia exatamente o que significavam.
A inteligência ancestral rompeu o silêncio.
— Registro autorizado.
— Categoria máxima.
— Origem do Nóvium.
As palavras ecoaram lentamente pela enorme câmara.
Mesmo os Guardiões abaixaram a cabeça.
Orion aproximou-se da projeção.
Sentia o coração acelerar.
Desde que despertara seus poderes, imaginava que o minério fosse uma dádiva da natureza.
Uma energia primordial surgida no nascimento das estrelas.
Algo inevitável.
Algo belo.
Mas a expressão de Asterion dizia exatamente o contrário.
A gravação começou.
Milhões de anos antes.
Muito antes do nascimento dos impérios humanos.
Muito antes de Éterion tornar-se um mundo proibido.
A antiga civilização dominava praticamente toda a galáxia.
Suas naves cruzavam distâncias impossíveis.
Planetas eram terraformados em poucos dias.
Doenças haviam sido erradicadas.
Fome.
Escassez.
Guerras.
Tudo parecia pertencer ao passado.
Uma pesquisadora caminhava por um enorme laboratório.
Atrás dela surgiam centenas de cápsulas contendo organismos microscópicos.
A gravação identificava seu nome.
Dra. Serah.
Ela dirigia-se diretamente ao Conselho Científico.
— Encontramos uma solução definitiva.
Os conselheiros observavam atentamente.
— A matéria obtida da estrela colapsada apresentou comportamento inesperado.
Ela ativou um holograma.
Uma pequena partícula azul apareceu.
Era incrivelmente semelhante ao Nóvium conhecido pelos humanos.
Mas ainda instável.
— Descobrimos que ela aprende.
Os cientistas presentes trocaram olhares.
Serah continuou.
— Não reage apenas às leis físicas.
— Responde ao ambiente.
Uma demonstração começou.
Um pequeno cristal foi colocado próximo a tecidos vivos.
Em poucos segundos adaptou sua estrutura.
Mudou de forma.
Passou a produzir energia.
Depois começou a reparar células danificadas.
Ferimentos cicatrizaram diante dos observadores.
Um dos conselheiros levantou-se imediatamente.
— Isso pode curar qualquer doença.
Serah sorriu.
— Sim.
Outro perguntou:
— Pode restaurar órgãos?
— Sim.
— Reverter envelhecimento?
Ela hesitou.
— Em teoria...
— Sim.
Durante alguns segundos o laboratório permaneceu completamente silencioso.
Ninguém compreendia a dimensão daquela descoberta.
A gravação acelerou.
Décadas passaram em poucos instantes.
O pequeno cristal transformara-se em enormes reatores.
Hospitais utilizavam a substância.
Naves tornavam-se praticamente inesgotáveis.
Colônias prosperavam.
A expectativa de vida multiplicava-se.
Os antigos chamavam a descoberta de "Projeto Nóvium".
Mas então...
as imagens começaram a mudar.
Militares apareceram.
Novos laboratórios surgiram.
Agora protegidos por soldados.
Pesquisadores vestiam uniformes.
As portas eram reforçadas.
A pesquisadora Serah voltou a aparecer.
Seu rosto estava muito mais velho.
Muito mais cansado.
Ela discutia com oficiais.
— Não foi para isso que criamos o Nóvium.
Um general respondeu friamente.
— Não criaram.
— Descobriram.
Ele ativou outra projeção.
Mostrava soldados atravessando campos de batalha.
Ferimentos fechavam-se instantaneamente.
Alguns levantavam veículos inteiros.
Outros atravessavam paredes.
A pesquisadora desligou a gravação.
— Isso vai destruir tudo.
O general respondeu calmamente.
— Vai garantir nossa vitória.
A gravação foi interrompida.
Orion olhou para Asterion.
— Então...
— O Nóvium não surgiu naturalmente.
O Guardião respondeu em voz baixa.
— Não.
— Foi desenvolvido.
A inteligência completou:
— Resultado da manipulação de matéria estelar degenerada.
— Tecnologia biológica adaptativa.
Lyra, que havia retornado temporariamente ao Arquivo por um antigo canal cristalino para consultar os registros antes de regressar a Aurea, permaneceu em silêncio.
Seu olhar permaneceu fixo na projeção.
— Eles criaram isso...
— Como uma ferramenta.
Asterion fechou os olhos.
— No início.
As imagens prosseguiram.
Novos laboratórios.
Novos experimentos.
Animais.
Depois voluntários.
Depois soldados.
As capacidades aumentavam rapidamente.
Força.
Velocidade.
Telecinese.
Manipulação de energia.
Regeneração.
Cada geração tornava-se mais poderosa.
Mas outro gráfico aparecia constantemente.
Uma linha vermelha.
Sempre crescendo.
A inteligência ampliou os dados.
— Índice de degradação mental.
Orion aproximou-se.
Milhares de nomes apareciam.
Ao lado de cada um.
Um mesmo destino.
Colapso psicológico.
Violência extrema.
Perda completa da identidade.
A pesquisadora Serah voltou à gravação.
Ela parecia desesperada.
— O Nóvium está aprendendo com seus usuários.
Um cientista perguntou:
— Isso é bom?
Ela respondeu imediatamente.
— Não.
— Ele copia emoções.
Outro pesquisador franziu a testa.
— Medo?
— Sim.
— Raiva?
— Sim.
— Ódio?
Serah permaneceu em silêncio durante alguns segundos.
Depois respondeu:
— Principalmente o ódio.
Toda a sala ficou imóvel.
Ela respirou profundamente.
— Quanto maior o uso...
Sua voz falhou.
— Mais ele aprende a reproduzir aquilo que existe dentro de nós.
A gravação acelerou novamente.
Cidades inteiras apareciam dominadas por pessoas enlouquecidas.
Algumas brilhavam intensamente.
Outras transformavam-se em criaturas semelhantes às vistas durante a Tempestade Vermelha.
Exércitos passaram a combater os próprios aliados.
Planetas eram destruídos.
Os cientistas tentavam conter o desastre.
Já era tarde.
Uma frase apareceu em enormes caracteres sobre toda a gravação.
"Contaminação irreversível."
Orion deu um passo para trás.
As mãos tremiam.
Lembrou-se das vozes.
Da perda de controle.
Da explosão no Arquivo.
Tudo começava a fazer sentido.
Asterion colocou uma mão sobre seu ombro.
— Você compreende agora.
O jovem respondeu quase num sussurro.
— Eu também vou enlouquecer.
O antigo Guardião não respondeu imediatamente.
Porque, pela primeira vez desde que despertara, não tinha uma resposta capaz de confortá-lo.
A inteligência permaneceu alguns segundos em silêncio.
Depois revelou outro registro.
"Apenas uma fração mínima dos portadores manteve estabilidade completa."
Orion ergueu lentamente a cabeça.
— Quantos?
A resposta surgiu.
"Menos de um em cada dez milhões."
O silêncio voltou a dominar a enorme câmara.
Lyra fechou lentamente os punhos.
Se aqueles dados estivessem corretos...
cada novo cristal de Nóvium espalhado pela galáxia representava uma futura tragédia.
Ela voltou-se para Asterion.
— Quantas reservas ainda existem?
O Guardião respondeu sem hesitar.
— Milhares.
— Em Éterion.
— Nas colônias.
— Nas frotas.
— Em laboratórios humanos.
Lyra respirou profundamente.
Seu olhar endureceu.
Naquele instante tomou uma decisão que mudaria completamente o rumo da guerra.
— Então vamos destruí-las.
Orion voltou-se rapidamente para ela.
— Todas?
Ela assentiu lentamente.
— Se o Nóvium foi a arma que destruiu a primeira grande civilização...
Seu olhar permaneceu fixo nos antigos registros.
— Não permitirei que destrua a nossa também.
Naquele momento, porém, muito distante dali, escondidos nas profundezas de uma instalação militar abandonada de Solaris, cientistas rebeldes observavam um enorme depósito secreto contendo milhares de toneladas de Nóvium bruto.
E, sem saber da verdadeira origem do minério, iniciavam a ativação de um projeto esquecido havia séculos: o Protocolo Ascensão, criado para produzir o maior exército de portadores que a humanidade já tentara construir.

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