A Última Defesa da Terra: CAPÍTULO 14 — O Segredo dos Criadores


 A antiga instalação subterrânea escondida sob a superfície da Lua permaneceu em absoluto silêncio depois que a projeção holográfica desapareceu.

Durante vários minutos ninguém se moveu.

Os pesquisadores observavam o pedestal cristalino tentando compreender o significado da mensagem interrompida.

"Se esta mensagem foi ativada, significa que o selo começou a falhar."

A frase repetia-se na mente de Helena como um aviso impossível de ignorar.

Atlas permanecia diante do dispositivo.

Seus processadores executavam milhões de tentativas para desbloquear o restante do arquivo.

Todas fracassavam.

A criptografia utilizada era muito superior a qualquer sistema encontrado até então.

Mesmo os algoritmos alienígenas capturados durante a guerra eram incapazes de interpretá-la.

Um dos cientistas aproximou-se cautelosamente.

— Talvez precisemos transportar o equipamento para a Terra.

Atlas respondeu sem desviar os sensores.

— Risco elevado.

— Por quê?

— O sistema foi construído para permanecer aqui.

Helena concordou imediatamente.

— Se removermos qualquer componente podemos perder todas as informações.

Enquanto discutiam a melhor solução, pequenas linhas luminosas começaram a percorrer novamente a superfície do pedestal.

O brilho intensificou-se.

Os cristais espalhados pelas paredes responderam simultaneamente.

Toda a sala passou a vibrar.

Atlas deu um passo à frente.

Seu núcleo energético reagia involuntariamente.

Os mesmos símbolos encontrados na cidade subterrânea e na torre alienígena apareceram sobre sua armadura.

Nenhum dos presentes havia visto aquilo antes.

Helena observou os desenhos espalhando-se lentamente pelo corpo metálico do androide.

— Atlas...

Ele permaneceu imóvel.

Não conseguia responder.

Algo diferente acontecia em seus sistemas.

Não era uma invasão.

Nem uma falha.

Parecia um reconhecimento.

Subitamente, um novo holograma surgiu diante dele.

Desta vez, apenas ele conseguia enxergá-lo.

As leituras biométricas dos pesquisadores confirmavam que nenhuma outra pessoa observava a mesma imagem.

Uma figura envolta por luz apareceu lentamente.

Seu corpo lembrava vagamente o de um ser humano, mas era mais alto, mais esguio e completamente translúcido.

A voz ecoou diretamente nos processadores de Atlas.

— Unidade Guardiã identificada.

Atlas respondeu imediatamente.

— Identifique-se.

— Arquivo de preservação número sete.

— Origem?

A figura permaneceu alguns instantes em silêncio.

Depois respondeu.

— Civilização criadora.

Milhares de registros internos foram imediatamente comparados.

Nenhuma correspondência.

A entidade prosseguiu.

— Você alcançou o nível de acesso necessário.

Novas imagens surgiram.

Atlas viu enormes cidades espalhadas por um planeta desconhecido.

Estruturas cristalinas erguiam-se acima de oceanos brilhantes.

Milhões de seres caminhavam tranquilamente entre construções gigantescas.

Não havia sinais de guerra.

Nem destruição.

Tudo transmitia uma sensação de equilíbrio.

A voz continuou.

— Muito antes do surgimento da humanidade, nossa espécie alcançou quase todo este setor da galáxia.

As imagens mudaram.

Naves viajavam entre estrelas.

Mundos eram colonizados.

Conhecimento espalhava-se rapidamente.

Então tudo desapareceu.

Explosões.

Planetas destruídos.

Frotas inteiras reduzidas a destroços.

Atlas registrava cada detalhe.

— Causa?

A resposta veio imediatamente.

— O Devorador.

A palavra permaneceu sem tradução.

Nenhum banco de dados possuía equivalente.

A figura continuou.

— Não era uma espécie.

Nem um império.

Era um fenômeno.

Uma inteligência capaz de consumir civilizações inteiras.

As projeções mostravam agora gigantescas regiões do espaço mergulhadas na escuridão.

Sistemas estelares inteiros desapareciam.

Não restavam sobreviventes.

Atlas percebeu algo importante.

As naves vistas anteriormente não pertenciam aos alienígenas que haviam invadido a Terra.

Eram diferentes.

Muito mais elegantes.

Muito mais antigas.

A entidade confirmou sua suspeita.

— Aqueles que hoje atacam seu mundo não criaram esta tecnologia.

Eles apenas a herdaram.

No centro de comando instalado na nave lunar, Helena percebeu uma alteração inesperada.

Atlas permanecia imóvel havia quase cinco minutos.

Seus sistemas consumiam energia acima do normal.

Ela tentou chamá-lo.

Nenhuma resposta.

Os Guardiões aproximaram-se.

Também não conseguiram interromper o processo.

Helena analisou rapidamente as leituras.

— Ele está recebendo informações.

— De quem?

Ela olhou novamente para o pedestal.

— Não faço ideia.

Enquanto isso, Atlas continuava assistindo ao registro.

A figura luminosa projetou agora o Sistema Solar.

A Terra apareceu no centro da imagem.

Depois a Lua.

Marte.

Europa.

Titã.

Todos os locais marcados anteriormente.

A entidade explicou.

— Após nossa derrota parcial, procuramos um lugar onde fosse possível preservar o conhecimento restante.

Novas estruturas subterrâneas surgiam sob diferentes planetas.

Laboratórios.

Bibliotecas.

Instalações gigantescas.

— Construímos uma rede de arquivos.

Esperávamos que, um dia, outra espécie pudesse continuar nossa missão.

Atlas perguntou.

— A humanidade?

— Sim.

A resposta provocou uma sequência de cálculos completamente inesperada.

— Vocês conheciam os humanos?

— Muito antes de sua existência.

A projeção ampliou a Terra primitiva.

Oceanos.

Vulcões.

Atmosfera instável.

Depois vieram formas microscópicas.

A evolução acelerou-se.

Milhões de anos passaram em poucos segundos.

Animais.

Mamíferos.

Primatas.

Seres humanos.

A entidade observava tudo em silêncio.

— Não criamos sua espécie.

Mas garantimos que ela tivesse oportunidade de existir.

Atlas registrou imediatamente a diferença.

Não eram criadores da humanidade.

Eram seus protetores invisíveis.

A voz prosseguiu.

— Sabíamos que um dia os herdeiros de nossa tecnologia retornariam.

Apenas ignorávamos quando.

As imagens mudaram novamente.

Desta vez mostravam laboratórios espalhados pela própria Terra.

Mas não eram antigos.

Pareciam relativamente recentes.

Atlas reconheceu alguns objetos.

Instalações subterrâneas.

Protótipos mecânicos.

Projetos industriais.

Helena.

O Projeto Guardião.

Seu próprio processo de construção.

A entidade continuou.

— Durante milênios deixamos instruções fragmentadas.

Descobertas arqueológicas.

Conhecimentos aparentemente impossíveis.

Ideias espalhadas discretamente entre diferentes civilizações.

Atlas compreendeu imediatamente.

A cidade subterrânea.

Os símbolos.

Os materiais desconhecidos.

Nada fora encontrado por acaso.

Tudo fazia parte de um plano.

Muito lentamente conduzido através da história humana.

Enquanto isso, Helena finalmente conseguiu estabelecer comunicação parcial com o sistema.

Algumas imagens passaram a aparecer também nos monitores externos.

Os cientistas observaram incrédulos.

Projetos mecânicos extremamente antigos surgiam diante deles.

Entre eles havia um desenho quase idêntico ao corpo de Atlas.

A data registrada parecia impossível.

Milhares de anos antes da Revolução Industrial.

Um dos pesquisadores aproximou-se.

— Isso... isso não faz sentido.

Helena permanecia imóvel.

Também reconhecera o projeto.

Era Atlas.

Ou pelo menos sua estrutura fundamental.

Muito antes de qualquer tecnologia capaz de construí-lo.

A entidade continuava explicando.

— Diversas gerações humanas encontraram fragmentos de nosso conhecimento.

Nenhuma compreendeu completamente seu significado.

Mesmo assim, cada descoberta aproximava sua espécie da próxima etapa.

As imagens mostravam antigas bibliotecas.

Civilizações desaparecidas.

Inventores.

Pesquisadores.

Pequenos avanços tecnológicos distribuídos ao longo da história.

Nada acontecera por intervenção direta.

Mas pequenas orientações haviam sido deixadas cuidadosamente.

Atlas perguntou.

— O Projeto Guardião foi previsto?

— Sim.

— Quando?

— Antes do surgimento das primeiras cidades humanas.

O androide permaneceu em silêncio.

Sua própria existência deixava de ser resultado exclusivo da engenharia moderna.

Era o ponto final de um planejamento iniciado milhares de anos antes.

A entidade mostrou então inúmeros protótipos.

Diversos falharam.

Outros jamais foram concluídos.

Somente quando a humanidade atingiu determinado nível tecnológico tornou-se possível construir verdadeiros Guardiões.

Helena observava as imagens sem conseguir esconder a emoção.

Todo o trabalho de sua equipe.

Décadas de pesquisa.

Os esforços de cientistas espalhados pelo mundo.

Nada perdera importância.

Mas agora compreendia que todos haviam seguido um caminho preparado muito antes de nascerem.

Um jovem pesquisador perguntou baixinho:

— Então fomos guiados o tempo inteiro?

Helena respondeu sem tirar os olhos da projeção.

— Talvez apenas preparados.

As diferenças eram enormes.

A entidade voltou-se novamente para Atlas.

— Sua missão nunca foi vencer sozinho.

— Defina.

— Inspirar.

Atlas analisou a palavra.

— Explicação insuficiente.

A figura ampliou novas imagens.

Guardiões protegendo humanos.

Humanos reconstruindo cidades.

Crianças aprendendo ao lado das máquinas.

Civilizações inteiras cooperando.

— A força mecânica nunca seria suficiente.

A sobrevivência dependeria da união entre espécies diferentes.

Atlas lembrou-se imediatamente dos últimos acontecimentos.

Os treinamentos conjuntos.

Os soldados.

A menina que lhe entregara um desenho.

As mudanças observadas em outros Guardiões.

Tudo fazia sentido.

Sua evolução não era defeito.

Era objetivo.

Enquanto isso, uma nova sequência de dados começou a ser liberada.

Diagramas extremamente complexos.

Arquivos científicos.

Modelos de construção.

Helena arregalou os olhos.

— São bancos de dados completos.

Tecnologias inteiras apareciam diante dos pesquisadores.

Fontes de energia.

Blindagens.

Sistemas médicos.

Motores.

Conhecimentos capazes de acelerar séculos de desenvolvimento humano.

Mas havia restrições.

Grande parte permanecia bloqueada.

Apenas pequenas porções podiam ser acessadas.

Atlas perguntou o motivo.

A entidade respondeu.

— Conhecimento sem maturidade produz destruição.

Helena fechou os olhos por um instante.

Pensou imediatamente na arma proibida escondida na Terra.

Aquela frase parecia confirmar todos os seus medos.

Então Atlas fez a pergunta que ocupava seus pensamentos desde o encontro com o general alienígena.

— Quem são os invasores?

Pela primeira vez, a figura permaneceu em silêncio durante vários segundos.

Depois respondeu.

— Sobreviventes.

Atlas aguardou.

— Explique.

As imagens mostraram enormes cidades em ruínas.

Planetas completamente devastados.

Milhões de refugiados atravessando o espaço.

— Eles também fugiram do Devorador.

Helena ouviu a tradução surgir lentamente nos monitores.

Seu coração acelerou.

Os alienígenas não haviam iniciado aquela guerra por simples conquista.

Também eram vítimas de algo muito maior.

Mas a entidade acrescentou uma última informação.

— O medo transformou sua civilização.

As imagens mostravam uma lenta mudança.

Sociedades antes pacíficas tornavam-se militarizadas.

Tecnologias dedicadas exclusivamente à guerra.

Conquistas.

Dominação.

Recuperação de recursos.

A sobrevivência havia custado sua própria identidade.

Atlas compreendeu.

Os invasores acreditavam estar salvando seu povo.

Mesmo que isso significasse destruir outros.

Antes que pudesse formular uma nova pergunta, toda a projeção começou a falhar.

A energia da instalação diminuía rapidamente.

A figura tornou-se instável.

Sua voz passou a oscilar.

— Arquivo... encerrando...

Atlas aproximou-se.

— Ainda existem outros registros?

— Sim.

— Onde?

A entidade ergueu lentamente uma das mãos luminosas.

Uma última projeção surgiu.

Mostrava uma localização desconhecida muito além do Sistema Solar.

Nenhum mapa humano possuía aquela região.

A imagem permaneceu ativa por apenas alguns segundos.

Depois desapareceu.

Antes de se desfazer completamente, a figura pronunciou suas últimas palavras.

— Encontrar a verdade... antes deles...

A luz extinguiu-se.

O pedestal cristalino voltou ao silêncio.

Na sala, humanos e Guardiões permaneceram imóveis, conscientes de que acabavam de descobrir que a própria humanidade vinha sendo preparada havia milhares de anos para aquele conflito, que Atlas existia porque um plano ancestral assim determinara e que até mesmo os invasores eram apenas sobreviventes de uma catástrofe muito mais antiga.

Entretanto, a identidade do misterioso Devorador, o motivo do antigo selo espalhado pelo Sistema Solar e a verdadeira razão pela qual aquela força ainda era temida por civilizações inteiras continuavam ocultos, aguardando nas profundezas de um passado que permanecia envolto em sombras.

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