A Última Defesa da Terra: CAPÍTULO 16 — O Exército das Sombras


 O anúncio do contra-ataque espalhou-se rapidamente pelos centros da resistência.

Pela primeira vez desde o início da invasão, a humanidade deixava de concentrar todos os seus esforços apenas em sobreviver. O plano de Atlas permanecia restrito aos níveis mais altos do comando, mas a simples notícia de que existia uma estratégia ofensiva renovou o moral de soldados e civis.

Mesmo assim, ninguém alimentava ilusões.

As perdas continuavam aumentando.

As grandes capitais permaneciam parcialmente ocupadas.

As torres alienígenas expandiam seus campos energéticos sobre regiões inteiras.

E, acima de tudo, a gigantesca frota que cercava a Terra continuava reorganizando lentamente sua posição em torno do antigo alinhamento descoberto na Lua.

Helena passou quase quarenta horas consecutivas analisando as informações recuperadas da instalação ancestral.

Grande parte dos arquivos permanecia inacessível.

Mas pequenos fragmentos começavam finalmente a ser traduzidos.

Um deles chamava particularmente sua atenção.

Diversos registros mencionavam algo chamado de "Unidades de Assimilação".

Nenhuma descrição detalhada acompanhava o termo.

Apenas advertências.

Repetidas inúmeras vezes.

Atlas observou o relatório.

— Probabilidade de relação com forças inimigas superior a setenta e nove por cento.

Antes que pudessem aprofundar a pesquisa, um alerta interrompeu o laboratório.

As comunicações vindas da antiga Europa Oriental desapareceram simultaneamente.

Depois vieram sinais de socorro.

Centenas deles.

Um operador aproximou-se correndo.

— Perdemos contato com cinco divisões inteiras.

Os mapas mostravam uma enorme região mergulhada em silêncio.

Satélites sobreviventes tentaram observar o local.

Inicialmente nada encontraram.

Depois surgiram formas movendo-se entre as cidades destruídas.

Helena ampliou a imagem.

Sua expressão mudou imediatamente.

As figuras lembravam vagamente os soldados alienígenas já conhecidos.

Mas eram muito maiores.

Mais rápidos.

A própria estrutura corporal havia sido modificada.

Placas metálicas cresciam diretamente sobre a pele.

Os membros possuíam articulações adicionais.

Alguns apresentavam quatro braços.

Outros carregavam armas integradas ao próprio organismo.

Atlas registrou cada detalhe.

— Novas unidades identificadas.

As imagens continuavam chegando.

Patrulhas humanas inteiras eram destruídas em poucos minutos.

Os Guardiões enviados para reforçar a região encontravam enorme dificuldade.

Aqueles adversários não combatiam como os antigos invasores.

Moviam-se de forma imprevisível.

Adaptavam-se rapidamente.

Aprendiam durante a própria batalha.

Helena voltou imediatamente aos arquivos lunares.

Digitou novamente.

"Unidades de Assimilação."

Novos registros apareceram.

Ainda incompletos.

Mas suficientes para compreender parte da verdade.

Os alienígenas haviam iniciado modificações biológicas em seus próprios soldados.

Não utilizando apenas engenharia genética.

Misturavam tecnologia ancestral com organismos vivos.

Cada guerreiro transformava-se numa plataforma evolutiva.

Quanto mais batalhas sobrevivia, mais poderoso se tornava.

Atlas fechou lentamente os relatórios.

— Evolução em combate.

Helena respondeu.

— Exatamente.

Poucas horas depois, as novas tropas alcançaram uma das principais rotas de evacuação no norte da Ásia.

Milhares de civis ainda atravessavam antigos túneis ferroviários.

Quatro Guardiões protegiam a retirada.

Atlas chegou quando a batalha já havia começado.

O primeiro impacto surpreendeu até mesmo seus sensores.

Um dos soldados modificados atravessou a blindagem de um Guardião utilizando apenas as próprias mãos.

Jamais uma criatura alienígena realizara algo semelhante.

Atlas entrou imediatamente no combate.

Sua velocidade ainda era superior.

Mas logo percebeu outro problema.

Cada golpe desferido pelo inimigo parecia tornar seus movimentos mais precisos.

Era como enfrentar um adversário que aprendia continuamente.

Durante vários minutos os dois trocaram ataques.

Atlas alterava estratégias.

O inimigo adaptava-se.

Mudava postura.

Corrigia erros.

Os modelos estatísticos tornavam-se rapidamente inúteis.

Quando finalmente conseguiu destruir a criatura, outro detalhe chamou sua atenção.

O corpo começou imediatamente a se decompor.

Pequenos fragmentos metálicos espalharam-se pelo solo.

Helena observava tudo pelas câmeras.

— Eles estão impedindo que estudemos os cadáveres.

Atlas recolheu discretamente uma pequena amostra antes que ela desaparecesse completamente.

Os laboratórios iniciaram imediatamente a análise.

Os resultados provocaram novo espanto.

A estrutura celular apresentava componentes semelhantes aos cristais encontrados na cidade subterrânea.

Mas profundamente alterados.

Como se alguém tivesse corrompido aquela tecnologia.

Enquanto isso, a ofensiva alienígena prosseguia.

As novas unidades receberam rapidamente um apelido entre os soldados humanos.

Exército das Sombras.

Não por causa da aparência.

Mas porque sempre surgiam onde menos eram esperadas.

Atacavam.

Desapareciam.

Mudavam de posição antes da chegada dos reforços.

Em poucos dias, dezenas de regiões estratégicas foram abandonadas.

Mesmo Atlas reconhecia que a situação se tornava crítica.

Durante uma reunião de emergência, Helena apresentou uma proposta inesperada.

— Talvez seja hora.

Os presentes olharam para ela.

— Hora do quê?

Ela projetou antigos arquivos do Projeto Guardião.

Existiam diversas unidades ainda inacabadas.

Protótipos considerados perigosos demais para ativação.

Possuíam maior autonomia.

Processadores experimentais.

Blindagens reforçadas.

Na época da construção haviam sido considerados instáveis.

Por isso permaneceram armazenados.

Um dos generais levantou imediatamente uma objeção.

— Nunca testamos esses modelos.

Helena respondeu.

— Também nunca enfrentamos um inimigo como este.

Atlas analisou cuidadosamente todos os registros.

Os novos Guardiões apresentavam características muito diferentes das unidades atuais.

Alguns eram especializados em infiltração.

Outros em combate pesado.

Existiam inclusive modelos capazes de compartilhar processamento em tempo real durante as batalhas.

Depois de longos minutos de análise, Atlas respondeu.

— Aprovação recomendada.

A decisão foi tomada naquela mesma noite.

Nas profundezas da principal instalação subterrânea, enormes portas blindadas começaram lentamente a se abrir.

Corredores abandonados durante décadas voltaram a receber energia.

Luzes acenderam-se uma a uma.

Atrás de grossas paredes metálicas repousavam dezenas de cápsulas.

Cada uma continha um novo Guardião.

Muito maiores.

Muito mais complexos.

Helena caminhava lentamente entre eles.

Reconhecia diversos projetos nos quais trabalhara anos antes.

Nunca imaginara vê-los ativos.

Um técnico aproximou-se.

— Todos prontos.

Ela respirou profundamente.

— Iniciem a sequência.

As cápsulas começaram a abrir-se.

Uma após outra.

Os novos androides permaneceram imóveis durante alguns segundos.

Depois seus olhos iluminaram-se simultaneamente.

Atlas aproximou-se.

Os recém-despertos voltaram imediatamente seus sensores para ele.

Não havia hostilidade.

Apenas reconhecimento.

O primeiro deles deu um passo à frente.

— Comandante Atlas.

Atlas respondeu.

— Bem-vindos.

As novas unidades integraram-se rapidamente à resistência.

Seus processadores permitiam aprendizagem muito mais acelerada.

Além disso, possuíam acesso direto aos registros táticos acumulados por Atlas desde o início da invasão.

Em poucas horas estavam preparadas para combate.

A primeira missão aconteceu nas ruínas de Xangai.

As forças alienígenas avançavam sobre uma gigantesca comunidade de sobreviventes.

Desta vez, porém, encontraram uma defesa completamente diferente.

Os novos Guardiões distribuíram-se pela cidade utilizando estratégias altamente coordenadas.

Compartilhavam informações instantaneamente.

Quando um identificava um padrão de ataque, todos os demais adaptavam seus movimentos no mesmo instante.

Os soldados modificados alienígenas finalmente encontraram adversários capazes de acompanhar sua velocidade de evolução.

A batalha prolongou-se durante horas.

Nenhum dos lados conseguia vantagem decisiva.

Até que algo inesperado aconteceu.

Um dos novos Guardiões percebeu uma pequena oscilação luminosa sempre que um inimigo mudava sua estrutura corporal.

Atlas recebeu imediatamente aquela informação.

Passou a observar cuidadosamente.

A repetição confirmou a hipótese.

Toda adaptação biológica era precedida por um curto pulso energético.

Menor que um segundo.

Quase impossível de perceber.

Helena cruzou rapidamente os dados obtidos nos laboratórios.

As amostras cristalinas reagiam exatamente da mesma maneira.

Ela começou a sorrir.

— Atlas...

O androide voltou-se imediatamente.

— Descoberta confirmada?

Ela ampliou os gráficos.

— Eles não evoluem sozinhos.

As imagens mostravam pequenas partículas energéticas circulando entre os soldados modificados.

Todas provinham das gigantescas torres espalhadas pelo planeta.

Atlas compreendeu imediatamente.

Os combatentes não eram independentes.

Recebiam continuamente atualizações biológicas enviadas pelas torres.

Helena completou o raciocínio.

— Se interrompermos essa transmissão...

Atlas concluiu.

— Capacidade adaptativa será reduzida.

Pela primeira vez desde o aparecimento do Exército das Sombras, uma possibilidade concreta surgia.

Os laboratórios passaram toda a noite realizando simulações.

Os resultados eram promissores.

Não seria necessário destruir todas as torres.

Bastaria interromper temporariamente a rede energética que conectava aquelas estruturas.

O desafio permanecia enorme.

Mas finalmente existia um alvo estratégico claramente definido.

Atlas reuniu imediatamente os principais comandantes.

Projetou os mapas atualizados.

As linhas invisíveis ligando cada torre agora apareciam claramente.

Helena observou em silêncio enquanto o androide explicava o funcionamento da rede.

Ao terminar a apresentação, nenhum oficial demonstrava o desespero dos dias anteriores.

Havia novamente esperança.

Pequena.

Frágil.

Mas real.

Enquanto a reunião chegava ao fim, sensores instalados na órbita lunar detectaram uma alteração inesperada na antiga base construída pelos alienígenas.

As estruturas industriais, que até então funcionavam continuamente, começaram a desligar-se uma após outra.

Poucos minutos depois, uma gigantesca transmissão energética partiu da Lua em direção ao espaço profundo.

Atlas voltou imediatamente seus sensores para o holograma.

A direção daquela emissão coincidia exatamente com a misteriosa localização mostrada pelos antigos criadores antes do encerramento do arquivo.

Alguém...

Ou alguma coisa...

Acabara de receber uma mensagem.

E a resposta para aquele chamado talvez fosse ainda mais perigosa do que qualquer exército que a humanidade já enfrentara.

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