A Última Defesa da Terra: CAPÍTULO 18 — A Última Cidade Livre
As semanas seguintes transformaram completamente o mapa da Terra.
Depois da decifração parcial do código alienígena e da descoberta de que os invasores também temiam uma ameaça desconhecida, a resistência acelerou seus preparativos para a maior ofensiva de sua história. Entretanto, antes que qualquer operação pudesse ser iniciada, a situação no planeta deteriorou-se de forma dramática.
As antigas linhas de defesa ruíram uma após outra.
Colônias subterrâneas perderam contato com o comando.
Centenas de pequenos abrigos desapareceram dos sistemas de comunicação.
Mesmo utilizando toda a capacidade logística restante, tornou-se impossível proteger todas as comunidades espalhadas pelos continentes.
Os sobreviventes começaram então a abandonar posições isoladas.
Longas caravanas atravessavam desertos.
Comboios cruzavam montanhas.
Velhos cargueiros navegavam pelos oceanos levando famílias inteiras.
Todos seguiam para um único destino.
Uma cidade construída durante os primeiros meses da invasão, sobre as ruínas de um antigo complexo industrial cercado por cadeias de montanhas e protegido por rios profundos. O local havia sido ampliado ao longo dos últimos anos da guerra utilizando tecnologia humana e componentes alienígenas recuperados em combate.
Inicialmente fora apenas uma base logística.
Agora transformava-se na maior concentração humana ainda existente.
Quando Atlas observou as imagens aéreas pela primeira vez, percebeu imediatamente que aquela cidade possuía importância muito maior do que seus próprios habitantes imaginavam.
Centenas de quilômetros de muralhas metálicas cercavam a região.
Torres defensivas erguiam-se acima dos vales.
Geradores de escudos energéticos protegiam bairros inteiros.
Fazendas hidropônicas ocupavam antigos túneis subterrâneos.
Hospitais funcionavam vinte e quatro horas por dia.
Oficinas produziam peças para os Guardiões.
Ali viviam milhões de pessoas.
Não apenas soldados.
Famílias.
Crianças.
Idosos.
Professores.
Médicos.
Engenheiros.
Artistas.
Toda a diversidade da humanidade sobrevivente concentrava-se naquele único lugar.
Helena caminhou lentamente por uma das avenidas principais.
Apesar da guerra, havia vida.
Crianças brincavam entre antigos veículos militares transformados em jardins.
Escolas improvisadas funcionavam dentro de hangares.
Pequenos mercados distribuíam alimentos produzidos nas fazendas subterrâneas.
Os moradores sorriam discretamente ao ver os Guardiões patrulhando as ruas.
A convivência entre humanos e androides tornara-se algo natural.
Atlas observava tudo em silêncio.
Durante muito tempo acreditara que sua função limitava-se ao combate.
Agora compreendia que proteger aquela cidade significava preservar a própria civilização humana.
Entretanto, os observatórios orbitais começaram a registrar movimentações preocupantes.
As enormes naves alienígenas abandonavam lentamente diversas regiões ocupadas do planeta.
Não estavam recuando.
Convergiam.
Todas avançavam na direção da cidade.
Helena recebeu o relatório ainda durante uma reunião científica.
Seu rosto perdeu imediatamente a expressão tranquila.
Correu até a sala de comando.
Os mapas holográficos confirmavam o pior cenário possível.
Centenas de colunas inimigas aproximavam-se simultaneamente.
Pela primeira vez desde o início da invasão, praticamente toda a força terrestre alienígena concentrava-se sobre um único objetivo.
Atlas executou milhões de simulações.
Nenhuma indicava vitória fácil.
O Conselho reuniu-se imediatamente.
Um general sugeriu evacuação.
Outro propôs dispersar novamente a população.
Helena permaneceu em silêncio até Atlas concluir seus cálculos.
Depois perguntou:
— Existe alguma alternativa?
O androide respondeu calmamente.
— Se abandonarmos a cidade, perderemos capacidade industrial, científica e logística.
Nova pausa.
— A probabilidade de recuperação torna-se inferior a dois por cento.
Todos compreenderam.
Não havia escolha.
A cidade precisava resistir.
As próximas semanas foram dedicadas exclusivamente aos preparativos.
Engenheiros reforçaram muralhas.
Novos canhões energéticos foram instalados.
Túneis de evacuação receberam suprimentos.
As antigas oficinas passaram a fabricar munições continuamente.
Os novos Guardiões organizavam patrulhas permanentes.
Pela primeira vez, milhares de civis ofereceram-se espontaneamente para trabalhar ao lado das unidades mecânicas.
Ferreiros reparavam armaduras.
Programadores auxiliavam na manutenção dos sistemas.
Médicos treinavam protocolos conjuntos de atendimento.
Até músicos percorriam os abrigos tentando manter a esperança da população.
Enquanto isso, muito além das muralhas, o exército inimigo continuava crescendo.
Drones de reconhecimento retornavam diariamente trazendo imagens impressionantes.
Filas intermináveis de veículos alienígenas atravessavam antigos desertos.
As gigantescas máquinas gravitacionais voltavam a aparecer.
Novas unidades do Exército das Sombras marchavam entre elas.
E, acima de tudo, enormes estruturas voadoras posicionavam-se lentamente sobre as montanhas.
Helena observava aquelas imagens sem conseguir esconder a preocupação.
Atlas aproximou-se.
— Estado emocional alterado.
Ela sorriu discretamente.
— Você já percebe isso sozinho.
O androide permaneceu alguns segundos em silêncio.
— Aprendizado contínuo.
Antes que a conversa prosseguisse, um alerta ecoou por toda a cidade.
As primeiras unidades inimigas haviam alcançado o perímetro externo.
O cerco começara.
As comunicações de longa distância desapareceram quase imediatamente.
Interferências energéticas envolveram toda a região.
Satélites perderam contato.
A cidade encontrava-se isolada.
Nas muralhas, milhares de soldados humanos posicionavam-se ao lado dos Guardiões.
Ninguém falava.
Todos observavam o horizonte.
Pouco antes do amanhecer, uma gigantesca névoa começou a cobrir os vales.
Sensores identificaram milhões de pequenas partículas metálicas suspensas no ar.
Atlas reconheceu imediatamente o fenômeno.
— Camuflagem tática.
Segundos depois, enormes silhuetas surgiram dentro da névoa.
O ataque começou.
Centenas de disparos energéticos atingiram simultaneamente os escudos da cidade.
As barreiras luminosas estremeceram.
Mas permaneceram ativas.
Os canhões humanos responderam imediatamente.
Explosões iluminaram toda a cadeia de montanhas.
As primeiras máquinas alienígenas foram destruídas antes de alcançar as muralhas.
Entretanto, novas ondas continuavam avançando.
Sem parar.
Os Guardiões distribuíam-se rapidamente pelos setores mais ameaçados.
Atlas deslocava-se continuamente.
Sempre que uma linha defensiva começava a ceder, ele surgia para reorganizar os combatentes.
Durante horas, a batalha permaneceu equilibrada.
Então o Exército das Sombras entrou em ação.
Os soldados modificados atravessaram os campos de batalha utilizando velocidade muito superior à das tropas convencionais.
Em poucos minutos alcançaram as muralhas.
Combates corpo a corpo espalharam-se por toda a extensão das fortificações.
Humanos e androides lutavam lado a lado.
Não existiam mais divisões.
Um jovem soldado teve sua arma destruída durante um confronto.
Antes que fosse atingido, um Guardião colocou-se diante dele.
Recebeu o impacto destinado ao humano.
Logo depois ambos voltaram ao combate juntos.
Cenas semelhantes repetiam-se continuamente.
Equipes médicas atendiam soldados humanos e androides utilizando os mesmos protocolos de emergência.
Mecânicos reparavam membros metálicos enquanto enfermeiros cuidavam dos feridos.
A cidade inteira transformara-se numa única linha de defesa.
Helena coordenava os hospitais subterrâneos.
Os corredores permaneciam lotados.
Mesmo assim, ninguém abandonava sua posição.
Enquanto isso, Atlas enfrentava novamente uma gigantesca máquina gravitacional.
Cada golpe fazia as muralhas vibrarem.
Os sensores indicavam danos crescentes.
Subitamente, uma das torres defensivas desabou.
Uma enorme abertura surgiu na linha de proteção.
As tropas alienígenas avançaram imediatamente.
Atlas preparava-se para interceptá-las quando algo inesperado aconteceu.
Centenas de civis apareceram trazendo veículos de construção.
Sem esperar ordens.
Sem treinamento militar.
Começaram imediatamente a erguer barricadas improvisadas.
Operários utilizavam antigas máquinas industriais para bloquear a passagem.
Soldados protegiam os trabalhadores.
Guardiões reforçavam a estrutura com placas metálicas retiradas de edifícios próximos.
Em menos de vinte minutos uma nova linha defensiva estava pronta.
Helena observava tudo pelas câmeras.
Percebia claramente que aquela cidade resistia não apenas por causa da tecnologia.
Mas porque seus habitantes haviam decidido lutar juntos.
A batalha prosseguiu durante todo o dia.
Depois atravessou a noite.
O céu permaneceu permanentemente iluminado pelas explosões.
Quando amanheceu novamente, os alienígenas lançaram seu maior ataque.
As gigantescas máquinas gravitacionais avançaram em formação.
Atrás delas vinha praticamente todo o Exército das Sombras.
Atlas reuniu rapidamente todos os Guardiões disponíveis.
Pela primeira vez desde o início da guerra, todas as unidades mecânicas combateriam lado a lado.
Os portões abriram-se.
Os androides correram em direção ao inimigo.
Milhares de soldados humanos acompanharam-nos.
A planície diante da cidade transformou-se em um imenso campo de batalha.
Os combates espalharam-se por quilômetros.
Explosões levantavam montanhas de terra.
Canhões energéticos atravessavam o céu.
As novas unidades Guardiãs compartilhavam informações em tempo real.
Sempre que um combatente descobria um padrão de ataque, toda a formação adaptava-se instantaneamente.
Helena percebeu então outro detalhe.
As torres alienígenas localizadas ao redor da cidade começavam novamente a transmitir energia para o Exército das Sombras.
Ela comunicou Atlas imediatamente.
O androide alterou o plano de combate.
Pequenas equipes destacaram-se silenciosamente da batalha principal.
Seguindo os cálculos desenvolvidos nos capítulos anteriores da guerra, infiltraram-se entre os vales e alcançaram as torres.
Minutos depois, explosões sucessivas interromperam temporariamente a rede energética.
O efeito foi imediato.
Os soldados modificados perderam parte de sua capacidade adaptativa.
Os Guardiões aproveitaram a oportunidade.
A linha inimiga começou finalmente a recuar.
Após quase quarenta horas ininterruptas de combate, o cerco foi suspenso.
As forças alienígenas afastaram-se lentamente das muralhas.
Não haviam sido derrotadas definitivamente.
Mas também não conseguiram conquistar a cidade.
Milhões de sobreviventes permaneceram vivos.
Quando o silêncio voltou a dominar os vales, moradores começaram lentamente a sair dos abrigos.
As muralhas estavam marcadas.
Bairros inteiros haviam sido destruídos.
Centenas de Guardiões encontravam-se seriamente danificados.
As perdas humanas eram enormes.
Mesmo assim, a cidade continuava de pé.
Ao observar o horizonte, Atlas percebeu que aquela vitória representava muito mais do que a defesa de um território.
Ela demonstrava aos invasores que a humanidade ainda possuía força para resistir.
Entretanto, enquanto engenheiros iniciavam os reparos e os sobreviventes homenageavam aqueles que haviam caído na batalha, sensores instalados nas antigas torres alienígenas captaram uma nova sequência de sinais vindos do espaço profundo.
Desta vez, porém, a transmissão não era um pedido de ajuda.
Era uma resposta.
E a intensidade da energia detectada indicava que algo colossal finalmente começara a mover-se em direção ao Sistema Solar.
.png)
Comentários
Postar um comentário