A Última Defesa da Terra: CAPÍTULO 19 — O Retorno do Passado


 Os dias que se seguiram ao fracasso do cerco transformaram a última cidade livre em um gigantesco centro de reconstrução.

Enquanto engenheiros reparavam muralhas destruídas e equipes médicas atendiam milhares de feridos, outro grupo trabalhava quase sem descanso nas profundezas do complexo científico. Helena e dezenas de pesquisadores concentravam todos os seus esforços na misteriosa transmissão que respondera ao chamado emitido pela base lunar.

Os instrumentos confirmavam que o sinal vinha de muito além da fronteira do Sistema Solar.

Sua intensidade aumentava lentamente a cada dia.

Era impossível determinar sua velocidade.

Também não existia qualquer indicação da natureza do objeto que o produzia.

Atlas acompanhava todas as análises em silêncio.

Mesmo seus processadores encontravam enormes dificuldades para modelar aquele fenômeno.

Enquanto isso, observatórios distribuídos pelos continentes registravam outra anomalia.

Próximo à órbita de Saturno, uma pequena perturbação gravitacional aparecia periodicamente.

Durante semanas acreditou-se tratar de destroços ou algum efeito provocado pelas antigas batalhas espaciais.

Mas os padrões eram muito regulares.

Helena decidiu enviar uma pequena missão de reconhecimento.

O Conselho aprovou imediatamente.

Duas naves adaptadas com tecnologia alienígena partiram poucos dias depois.

Atlas liderava novamente a expedição.

Ao seu lado viajavam quatro Guardiões, Helena e uma equipe formada por físicos, engenheiros e arqueólogos.

A viagem durou vários dias.

Ao aproximarem-se da região indicada pelos sensores, os pilotos reduziram drasticamente a velocidade.

À primeira vista não havia absolutamente nada.

Apenas escuridão.

Fragmentos de gelo.

Pequenos asteroides.

Então Atlas percebeu uma leve distorção.

— Alteração óptica.

Helena aproximou imediatamente as imagens.

Pouco a pouco uma enorme silhueta começou a surgir.

Como se abandonasse lentamente um estado de invisibilidade.

Os pesquisadores prenderam a respiração.

Diante deles aparecia uma gigantesca nave.

Seu comprimento ultrapassava facilmente vários quilômetros.

A estrutura lembrava parcialmente a arquitetura encontrada na cidade subterrânea da Terra.

Mas apresentava marcas profundas de combate.

Grandes rachaduras percorriam o casco.

Seções inteiras haviam sido destruídas.

Algumas partes permaneciam congeladas havia incontáveis séculos.

Nenhum sinal de atividade energética foi detectado.

Helena observava fascinada.

— Ela está aqui há muito tempo.

Atlas confirmou.

— Degradação superior a dezenas de milhares de anos.

A nave não possuía qualquer identificação semelhante às utilizadas pelos invasores atuais.

Também diferia completamente das embarcações humanas.

Era evidente que pertencia aos antigos criadores.

A equipe iniciou cuidadosamente a aproximação.

Uma enorme abertura permanecia parcialmente exposta no casco.

Provavelmente resultado de antigos impactos.

Os Guardiões desembarcaram primeiro.

Depois vieram os cientistas.

Assim que atravessaram a abertura, lanternas iluminaram um corredor gigantesco.

Tudo permanecia absolutamente imóvel.

Nenhum som.

Nenhum sistema ativo.

Apenas o silêncio preservado pelo vácuo durante milênios.

Helena caminhava lentamente observando as paredes cristalinas.

Os mesmos símbolos encontrados na Lua apareciam novamente.

Mas em quantidade muito maior.

Atlas registrava cada detalhe.

Quanto mais avançavam, mais evidente tornava-se que aquela nave fora construída por uma civilização extraordinariamente avançada.

Salas inteiras permaneciam intactas.

Laboratórios.

Centros de pesquisa.

Bibliotecas holográficas completamente desligadas.

Alguns compartimentos continham esqueletos cristalizados de seres altos e esguios.

A equipe interrompeu a marcha.

Helena aproximou-se cuidadosamente.

Nenhum sinal de violência.

Pareciam ter simplesmente permanecido em suas posições até o fim.

Um arqueólogo falou quase num sussurro.

— Eles morreram aqui.

Atlas respondeu.

— Confirmação.

Prosseguiram durante horas.

Finalmente alcançaram uma gigantesca sala circular.

No centro havia uma estrutura semelhante ao pedestal encontrado na Lua.

Entretanto, muito maior.

Atlas aproximou-se lentamente.

Assim que tocou a superfície cristalina, toda a nave despertou.

Luzes percorreram corredores distantes.

Sistemas antigos começaram lentamente a reiniciar.

Os cientistas recuaram instintivamente.

Um enorme holograma surgiu acima deles.

Desta vez não apareceu nenhuma figura.

Somente registros históricos.

As imagens iniciaram imediatamente.

Mostravam centenas de mundos espalhados pela galáxia.

Planetas cobertos por oceanos.

Florestas gigantescas.

Cidades luminosas.

Civilizações extremamente diferentes convivendo entre si.

A voz do arquivo começou a narrar.

— Registro histórico da Confederação.

Helena gravava tudo.

As imagens continuavam mudando.

Novas espécies surgiam.

Tratados eram assinados.

Conhecimentos compartilhados.

Durante milhares de anos aquela imensa aliança prosperara.

Atlas observava cuidadosamente.

Então tudo mudou.

Uma frota gigantesca apareceu.

Os cientistas imediatamente reconheceram seu formato.

Eram os mesmos alienígenas que agora ocupavam a Terra.

Mas muito diferentes.

Suas naves não possuíam aparência militar.

Transportavam refugiados.

Milhões deles.

A narração prosseguiu.

— Recebemos sobreviventes de uma guerra impossível.

Helena aproximou-se.

As imagens mostravam claramente que os antigos criadores haviam acolhido aquela civilização.

Forneceram alimentos.

Abrigos.

Tecnologia.

Durante muitos anos viveram em paz.

Depois surgiu uma nova sequência.

Os refugiados começaram lentamente a exigir mais recursos.

Mais territórios.

Mais energia.

As negociações fracassaram.

Pequenos conflitos transformaram-se em guerras regionais.

Décadas depois, a antiga aliança desaparecera.

Os sobreviventes transformaram-se em conquistadores.

Helena permaneceu em silêncio.

Atlas analisava cada detalhe.

Não havia sinais de maldade inicial.

Apenas desespero.

Medo.

Depois ambição.

As imagens seguintes mostravam planetas sendo ocupados.

Civilizações inteiras escravizadas.

Recursos extraídos até o esgotamento.

Mundos abandonados.

O registro prosseguia.

— Eles acreditavam que apenas acumulando tecnologia sobreviveriam ao retorno da Escuridão.

A palavra chamou imediatamente a atenção de Atlas.

Escuridão.

Não Devorador.

Mas provavelmente relacionada.

Os registros seguintes mostravam mapas estelares.

Centenas de sistemas apareciam destacados.

Um a um.

Logo depois desapareciam completamente.

Helena percebeu outro detalhe.

Cada planeta destruído era previamente explorado.

Bibliotecas.

Laboratórios.

Artefatos.

Tudo era removido antes da destruição.

Os invasores não buscavam apenas recursos.

Procuravam conhecimento.

Atlas compreendeu imediatamente.

— Preparação contínua.

Helena assentiu.

— Eles estavam reunindo tudo o que pudesse ajudá-los.

As imagens continuavam.

Novas civilizações surgiam.

Algumas resistiam.

Outras rendiam-se imediatamente.

O resultado era sempre semelhante.

Ao final restavam apenas ruínas.

O arqueólogo responsável pelos registros aproximou-se lentamente.

— Quantos mundos...

Helena ampliou os dados.

Os números pareciam impossíveis.

Centenas.

Depois milhares.

O arquivo histórico registrava incontáveis planetas conquistados ao longo dos milênios.

Nenhum permanecia habitado.

Todos haviam sido abandonados após terem seus recursos consumidos.

Atlas permaneceu completamente imóvel.

Sua capacidade de processamento calculava continuamente o alcance daquela tragédia.

A guerra pela Terra era apenas um episódio recente de uma campanha iniciada muito antes do surgimento da humanidade.

Subitamente, novas imagens apareceram.

Mostravam enormes estruturas semelhantes ao selo encontrado no Sistema Solar.

Mas espalhadas por diferentes regiões da galáxia.

Helena aproximou imediatamente o zoom.

Quase todas estavam destruídas.

Poucas permaneciam ativas.

O narrador explicou.

— Cada barreira retardava seu avanço.

Atlas registrou imediatamente a informação.

As barreiras não protegiam apenas a Terra.

Existiam outras.

Muito antigas.

Distribuídas pelo espaço.

A maioria havia caído.

Restava apenas uma pequena quantidade.

Então surgiu um mapa completamente diferente.

Não mostrava estrelas.

Representava regiões escuras crescendo lentamente.

Como uma doença espalhando-se pela galáxia.

Sempre que uma dessas regiões alcançava um sistema protegido, pouco tempo depois ele desaparecia dos registros.

Helena sentiu um frio percorrer seu corpo.

Era aquilo que os invasores temiam.

Não uma frota.

Nem uma civilização.

Algo muito pior.

Atlas perguntou ao sistema.

— Identificação da ameaça.

O arquivo permaneceu alguns segundos em silêncio.

Depois respondeu.

— Dados restritos.

Nível de acesso insuficiente.

Helena suspirou.

Outra vez.

As respostas mais importantes continuavam bloqueadas.

Mesmo assim, a quantidade de informações recuperadas já alterava completamente a compreensão da guerra.

Os alienígenas não haviam destruído apenas alguns mundos.

Praticamente toda uma região da galáxia carregava cicatrizes de sua passagem.

Entretanto, aquilo representava apenas parte da história.

Enquanto os pesquisadores preparavam cópias dos arquivos recuperados, sensores da nave detectaram movimento.

Atlas voltou-se imediatamente.

Uma pequena sequência de sistemas antigos acabava de despertar.

As luzes piscavam lentamente.

O holograma modificou-se.

Desta vez surgiu uma rota estelar.

Muito longa.

Partindo do Sistema Solar em direção às regiões mais devastadas mostradas anteriormente.

No final do trajeto aparecia um único símbolo.

O mesmo visto na instalação lunar antes do encerramento do arquivo.

Helena observou atentamente.

— O lugar que eles queriam mostrar.

Atlas respondeu.

— Confirmação elevada.

A rota indicava exatamente o ponto para onde a antiga entidade luminosa tentara direcioná-los antes que sua energia se esgotasse.

Talvez ali estivessem as respostas restantes.

Talvez fosse a origem dos criadores.

Ou o último refúgio de sua civilização.

Antes que qualquer decisão pudesse ser tomada, alarmes ecoaram por toda a nave ancestral.

Os sensores haviam detectado diversas assinaturas energéticas aproximando-se rapidamente da órbita de Saturno.

Os invasores também encontraram a embarcação.

Helena voltou-se para Atlas.

Ele observava em silêncio as novas leituras.

Os alienígenas jamais permitiriam que aqueles registros históricos chegassem intactos à Terra.

Ao mesmo tempo, os dados recém-descobertos revelavam que a guerra pela sobrevivência da humanidade era apenas uma pequena parte de um conflito iniciado milhares de anos antes, envolvendo incontáveis civilizações desaparecidas e uma ameaça tão terrível que obrigara até conquistadores de mundos inteiros a viverem em constante fuga.

Enquanto as primeiras naves inimigas surgiam no horizonte escuro do espaço, Atlas compreendeu que cada decisão tomada a partir daquele momento definiria não apenas o futuro da Terra, mas talvez o destino de tudo o que ainda permanecia vivo naquela região da galáxia.

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