A Última Defesa da Terra: CAPÍTULO 20 — A Frota Humana


 O encontro com a antiga nave dos criadores alterou definitivamente os rumos da resistência.

As informações recuperadas em sua biblioteca holográfica chegaram à última cidade livre poucos dias depois, protegidas por múltiplas camadas de criptografia desenvolvidas por Atlas e pelos cientistas da resistência. Cópias foram distribuídas para dezenas de laboratórios subterrâneos, garantindo que nenhuma descoberta fosse perdida caso uma nova ofensiva alienígena atingisse a cidade.

Helena passou dias praticamente sem dormir.

Cada novo arquivo revelava fragmentos de tecnologias que a humanidade jamais imaginara desenvolver.

Sistemas de propulsão.

Reatores alimentados por cristais energéticos.

Ligas metálicas capazes de regenerar pequenas rachaduras.

Escudos que distribuíam impactos ao longo de toda a estrutura da nave.

Grande parte daquelas informações permanecia bloqueada.

Mesmo assim, o suficiente fora liberado para provocar uma transformação sem precedentes.

O Conselho Mundial reuniu-se novamente.

Desta vez, Atlas apresentou uma proposta diferente de todas as anteriores.

No centro da mesa holográfica surgiu a projeção de uma nave.

Não era uma reprodução exata das embarcações dos criadores.

Nem uma cópia da tecnologia alienígena.

Tratava-se de um projeto híbrido.

Construído utilizando tudo o que a humanidade aprendera durante a guerra.

Helena observou atentamente.

— Você redesenhou completamente a estrutura.

Atlas confirmou.

— Maior eficiência.

Um engenheiro aproximou a projeção.

— Os motores...

Helena sorriu.

— São baseados nos estudos da Lua.

O Conselho compreendeu imediatamente.

A resistência deixaria de depender apenas de veículos adaptados.

Construiria sua primeira verdadeira frota militar.

O projeto recebeu prioridade absoluta.

As antigas fábricas da última cidade livre passaram a funcionar continuamente.

Linhas de montagem ocupavam quilômetros de antigos túneis industriais.

Milhares de operários trabalhavam ao lado dos Guardiões.

Braços robóticos erguiam enormes seções metálicas.

Impressoras industriais produziam componentes impossíveis poucos meses antes.

Cristais recuperados das torres alienígenas eram cuidadosamente incorporados aos novos reatores.

Durante semanas, praticamente toda a capacidade produtiva da humanidade concentrou-se naquele único objetivo.

As naves receberam um desenho simples e robusto.

Possuíam formato alongado.

Blindagem composta por múltiplas camadas.

Motores capazes de operar tanto na atmosfera quanto no espaço.

Canhões energéticos desenvolvidos a partir de armas alienígenas capturadas.

Mas seu maior diferencial estava na inteligência embarcada.

Cada unidade seria integrada diretamente aos Guardiões.

Atlas supervisionava pessoalmente o projeto.

Enquanto isso, Helena trabalhava em outra iniciativa.

Os novos arquivos recuperados da nave ancestral continham referências a atualizações originalmente destinadas às antigas unidades protetoras dos criadores.

Após semanas de adaptação, parte daquele conhecimento tornou-se compatível com os Guardiões modernos.

As modificações começaram imediatamente.

Os androides receberam novos processadores cristalinos.

Sensores ampliados.

Capacidade de comunicação praticamente instantânea.

Sistemas de previsão tática muito superiores aos anteriores.

Atlas foi o primeiro a receber a atualização.

Durante alguns minutos permaneceu completamente imóvel.

Milhões de novas conexões reorganizavam seus sistemas internos.

Quando finalmente voltou a mover-se, Helena percebeu imediatamente a diferença.

Seus movimentos tornaram-se mais naturais.

Mais precisos.

Atlas olhou ao redor da sala.

Pela primeira vez conseguia perceber pequenas oscilações energéticas invisíveis aos antigos sensores.

Também registrava detalhes mínimos da respiração humana.

Batimentos cardíacos.

Temperatura corporal.

Expressões faciais.

Seu entendimento sobre emoções humanas ampliara-se significativamente.

Helena sorriu.

— Como se sente?

Atlas permaneceu alguns segundos analisando a pergunta.

Depois respondeu.

— Diferente.

Ela riu discretamente.

— Acho que isso já é um grande avanço.

Enquanto isso, os demais Guardiões passavam pelo mesmo processo.

As mudanças espalharam-se rapidamente.

As unidades compartilhavam continuamente suas novas experiências.

Alguns demonstravam curiosidade.

Outros faziam perguntas inesperadas.

Um deles permaneceu vários minutos observando um grupo de crianças desenhando.

Outro pediu autorização para acompanhar uma equipe médica durante algumas horas.

Helena registrava tudo.

O processo evolutivo previsto pelos antigos criadores parecia acelerar-se.

Entretanto, a guerra não concedia tempo para longas observações.

Novas transmissões captadas pelos observatórios indicavam intensa movimentação da frota inimiga.

Os alienígenas reforçavam continuamente suas posições próximas à órbita terrestre.

Atlas analisou os mapas.

Depois projetou uma enorme embarcação inimiga.

— Alvo prioritário.

Helena aproximou a imagem.

Tratava-se de um gigantesco cruzador responsável pela distribuição de energia para diversas torres instaladas no planeta.

Destruí-lo enfraqueceria significativamente a rede inimiga.

Mas jamais uma nave humana enfrentara um cruzador daquele porte.

O Conselho hesitou.

Atlas permaneceu firme.

— Probabilidade de sucesso aumenta com efeito surpresa.

Após longas discussões, a decisão foi tomada.

A frota recém-construída seria utilizada imediatamente.

Os hangares subterrâneos abriram-se lentamente.

Centenas de trabalhadores interromperam suas atividades para observar.

Uma após outra, enormes naves começaram a surgir.

O brilho de seus motores iluminava todo o complexo.

A humanidade contemplava pela primeira vez uma verdadeira força espacial construída com suas próprias mãos.

Os pilotos assumiram posição.

Ao lado deles viajariam Guardiões especializados em combate orbital.

Atlas comandaria diretamente a operação.

Helena acompanharia a missão a partir do centro de controle.

Antes da partida, ela aproximou-se do androide.

Permaneceu alguns segundos em silêncio.

Depois estendeu a mão.

Atlas observou o gesto.

Lembrava-se perfeitamente da primeira vez em que tentara compreender aquele costume humano.

Agora respondeu naturalmente.

Apertou sua mão.

— Retornarei.

Helena sorriu.

— Todos esperamos isso.

As portas principais abriram-se.

Uma sequência de luzes percorreu a pista subterrânea.

Os motores iniciaram potência máxima.

Uma após outra, as naves aceleraram.

Romperam a superfície.

Atravessaram rapidamente as nuvens.

Poucos minutos depois alcançavam a órbita.

Os pilotos permaneceram alguns instantes observando o planeta.

A Terra continuava marcada por enormes cicatrizes.

Mas daquela vez algo era diferente.

Não eram mais apenas sobreviventes escondidos.

Estavam finalmente levando a guerra ao inimigo.

A formação avançou utilizando rotas cuidadosamente calculadas por Atlas.

As novas tecnologias de ocultação impediram qualquer detecção imediata.

Durante várias horas navegaram silenciosamente entre antigos destroços de satélites e estações espaciais destruídas.

Então surgiu o alvo.

O gigantesco cruzador alienígena flutuava acima da face oculta da Lua.

Seu tamanho superava qualquer construção humana.

Centenas de pequenas embarcações movimentavam-se continuamente ao redor dele.

Atlas iniciou imediatamente a análise tática.

Os Guardiões compartilhavam informações em tempo real.

Frações de segundo depois, toda a frota humana possuía exatamente o mesmo plano de ataque.

Nenhuma ordem verbal foi necessária.

As naves dividiram-se em pequenos grupos.

Cada formação aproximava-se por uma direção diferente.

Quando atingiram a distância ideal, Atlas transmitiu apenas uma palavra.

— Agora.

Os motores aumentaram instantaneamente a potência.

Os sistemas de ocultação foram desligados.

Alarmes ecoaram imediatamente por todo o cruzador alienígena.

Mas era tarde.

Os primeiros disparos humanos atingiram simultaneamente diversos setores da embarcação.

Explosões iluminaram o espaço.

Os alienígenas responderam quase imediatamente.

Dezenas de caças deixaram os hangares.

Canhões energéticos abriram fogo em todas as direções.

A primeira batalha espacial da história da humanidade começara.

Os pilotos humanos surpreenderam os inimigos.

Utilizando algoritmos desenvolvidos por Atlas, realizavam manobras impossíveis para qualquer treinamento convencional.

As novas naves demonstravam enorme agilidade.

Guardavam semelhanças com as embarcações dos criadores.

Mas possuíam características próprias.

Enquanto isso, Atlas conduzia o grupo principal diretamente contra o núcleo energético do cruzador.

Os alienígenas reorganizaram rapidamente suas defesas.

Novas unidades do Exército das Sombras surgiram também no espaço, utilizando armaduras adaptadas para combate orbital.

Pela primeira vez Guardiões enfrentavam aquelas criaturas fora da Terra.

A batalha espalhou-se rapidamente pela órbita lunar.

Feixes de energia cruzavam o vazio.

Destroços flutuavam lentamente.

Motores explodiam.

Escudos cintilavam sob impactos contínuos.

Helena acompanhava tudo através das transmissões.

Seus olhos percorriam dezenas de monitores ao mesmo tempo.

Cada pequena vitória provocava comemorações discretas no centro de comando.

Cada perda mergulhava a sala em silêncio.

Subitamente, Atlas identificou uma abertura.

Parte das defesas do cruzador deslocara-se para interceptar um grupo secundário.

Era a oportunidade esperada.

Ele conduziu imediatamente três naves diretamente contra a estrutura principal.

Os canhões concentraram fogo sobre um enorme conjunto cristalino responsável pela distribuição de energia.

A blindagem começou finalmente a ceder.

Explosões sucessivas atravessaram o casco.

Os sensores indicavam queda de potência.

Mas antes que pudessem concluir o ataque, algo inesperado aconteceu.

As enormes portas centrais do cruzador abriram-se lentamente.

Inicialmente os pilotos imaginaram tratar-se do lançamento de novos caças.

Em vez disso, uma gigantesca estrutura começou a emergir.

Seu formato não lembrava nenhuma nave conhecida.

Nem qualquer máquina registrada anteriormente.

Parecia construída utilizando a mesma tecnologia ancestral encontrada nas instalações dos criadores.

Mas profundamente modificada.

Corrompida.

Assim que apareceu completamente, todos os sensores da frota humana sofreram interferências simultâneas.

Os sistemas de comunicação oscilaram.

Os motores perderam estabilidade durante alguns segundos.

Atlas analisou rapidamente a nova assinatura energética.

Seus processadores encontraram uma correspondência imediata.

Ela era praticamente idêntica às leituras obtidas nas regiões distantes do Sistema Solar, onde estranhas deformações gravitacionais haviam começado a surgir.

Aquilo significava que os alienígenas não estavam apenas utilizando tecnologia antiga.

Estavam tentando reproduzir, controlar ou talvez enfrentar a mesma força desconhecida que se aproximava lentamente da fronteira do Sistema Solar.

E, enquanto a colossal estrutura girava silenciosamente diante da primeira frota humana, a batalha espacial entrava em uma fase muito mais perigosa, revelando que o verdadeiro poder dos invasores ainda estava longe de ser totalmente mostrado.

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