A Última Defesa da Terra: CAPÍTULO 23 — A Verdade Sobre a Invasão
As sirenes da antiga biblioteca ecoaram por toda a cidade alienígena.
Os habitantes interromperam imediatamente suas atividades e voltaram os olhos para o céu. Não havia gritos nem correria desordenada. Havia apenas um silêncio pesado, alimentado por uma memória coletiva que atravessara milhares de anos.
Atlas ergueu os sensores para a abóbada transparente da biblioteca.
Diversos pontos luminosos apareciam na órbita do planeta.
As assinaturas energéticas eram inconfundíveis.
Pertenciam à frota dos Exilados.
Helena aproximou-se do ancião.
— Eles nunca voltaram antes?
O velho respondeu lentamente.
— Não desde a Grande Separação.
Outro habitante completou:
— Se regressaram agora... descobriram algo.
Atlas transmitiu imediatamente uma mensagem criptografada para a Terra.
Os novos corredores gravitacionais permitiam que pequenas rajadas de informação atravessassem enormes distâncias quase instantaneamente.
Poucos minutos depois, a última cidade livre recebeu os primeiros dados.
O Conselho Mundial iniciou uma reunião de emergência.
Enquanto isso, Atlas permanecia na biblioteca.
O enorme cristal ancestral ainda projetava imagens incompletas.
Os arquivos pareciam responder à presença dos Guardiões.
Talvez reconhecessem neles parte da tecnologia dos antigos Criadores.
Subitamente, novas inscrições surgiram na superfície cristalina.
Símbolos luminosos reorganizaram-se lentamente.
Helena aproximou os tradutores.
— Está desbloqueando outro nível.
Atlas colocou a mão sobre o cristal.
Uma descarga luminosa percorreu toda a estrutura.
As paredes da biblioteca desapareceram.
Não fisicamente.
Apenas como projeção.
No lugar delas surgiu um gigantesco mapa da galáxia.
Milhares de estrelas brilhavam ao redor do grupo.
Depois apareceram datas.
Milhões de anos condensados em poucos segundos.
A voz do arquivo começou a falar.
— Registro histórico autorizado.
Todos permaneceram imóveis.
As imagens mostravam o nascimento da Confederação dos Criadores.
Depois surgiam diversas espécies.
Entre elas, os ancestrais dos alienígenas conhecidos pelos humanos.
Naquela época não existiam impérios.
A cooperação científica permitia que diferentes civilizações compartilhassem conhecimento.
Rotas comerciais atravessavam regiões inteiras da galáxia.
Novas colónias eram fundadas.
Atlas observava cuidadosamente.
Nenhum sinal de guerra.
Nenhuma expansão militar.
A paz durara incontáveis gerações.
Então ocorreu a primeira ruptura.
Uma estação científica desapareceu.
Depois outra.
Em seguida um sistema inteiro deixou de emitir sinais.
Os arquivos mostravam expedições enviadas para investigar.
Nenhuma regressava.
Helena aproximou-se do mapa.
Pequenas regiões escuras começavam lentamente a espalhar-se.
As mesmas observadas anteriormente.
O arquivo prosseguiu.
— Fenómeno inicialmente classificado como Evento de Consumo.
Novas imagens apareceram.
Planetas inteiros eram encontrados vazios.
Não destruídos.
Não bombardeados.
Simplesmente sem vida.
Oceanos permaneciam intactos.
Florestas continuavam de pé.
Cidades inteiras encontravam-se preservadas.
Mas todos os seres vivos haviam desaparecido.
Helena sentiu um arrepio.
Atlas aumentou a velocidade da análise.
Depois surgiram imagens captadas por sondas antigas.
Durante alguns segundos, uma sombra atravessou o espaço.
Não possuía forma definida.
Mudava continuamente.
À sua passagem, estrelas pareciam perder o brilho.
O arquivo interrompeu a reprodução.
A imagem permaneceu congelada.
Nenhum dos presentes conseguiu identificar exatamente o que observava.
O ancião falou em voz baixa.
— Nunca conseguimos compreender aquilo.
A projeção prosseguiu.
A Confederação mobilizou enormes recursos científicos.
Diversas espécies tentaram estudar o fenómeno.
Foram construídas barreiras gravitacionais.
Arcas interestelares.
Observatórios.
Durante muito tempo acreditou-se que o avanço seria contido.
Mas os mapas mostravam outra realidade.
A cada século novas regiões desapareciam.
Os Criadores calculavam constantemente o tempo restante.
Cada previsão tornava-se pior que a anterior.
Foi então que surgiram os debates políticos.
Uma parte das civilizações defendia cooperação absoluta.
Outra exigia preparação militar.
Entre os ancestrais dos invasores, a divisão tornou-se particularmente intensa.
Helena observava atentamente.
A história coincidia com os relatos do ancião.
Mas agora apareciam detalhes muito mais completos.
Os líderes militares argumentavam que seria impossível salvar todas as espécies.
Propunham concentrar recursos numa única força capaz de sobreviver.
Os cientistas recusavam.
Defendiam que nenhuma civilização tinha o direito de condenar outra.
Os debates duraram décadas.
Depois séculos.
Até que ocorreu um novo desastre.
Quatro sistemas protegidos pelas barreiras desapareceram praticamente ao mesmo tempo.
A confiança desmoronou.
Foi naquele momento que nasceu o movimento dos Exilados.
Atlas analisava continuamente todos os registros.
As suas conclusões modificavam-se a cada minuto.
Os invasores não haviam iniciado uma guerra por ambição.
Tinham perdido completamente a esperança de salvar todos.
Escolheram sacrificar milhares de mundos para aumentar as probabilidades de sobrevivência da própria espécie.
A decisão continuava monstruosa.
Mas possuía uma origem diferente daquela imaginada pelos humanos.
Enquanto o grupo permanecia diante das projeções, sensores da cidade detectaram pequenas embarcações descendo da órbita.
Os Exilados não iniciaram bombardeamentos.
Também não atacaram imediatamente.
Uma única nave aproximou-se da praça central.
Atlas reconheceu imediatamente sua assinatura energética.
O general alienígena.
Helena olhou para o androide.
— É uma armadilha?
Atlas demorou alguns segundos.
— Probabilidade reduzida.
O general desembarcou sozinho.
Sua armadura permanecia danificada pela batalha ocorrida no cruzador.
Mesmo assim, mantinha a postura firme.
Os habitantes da cidade observavam-no à distância.
Nenhum deles demonstrava alegria.
Também não havia ódio.
Apenas tristeza.
O general caminhou lentamente até a biblioteca.
Quando entrou, olhou rapidamente para o ancião.
Os dois permaneceram vários segundos em silêncio.
Por fim, o velho falou.
— Ainda carregas esse peso.
O comandante respondeu.
— Ainda carregamos todos.
Helena aproximou-se.
— Porque invadiram a Terra?
O general voltou-se para ela.
Durante alguns instantes pareceu escolher cuidadosamente cada palavra.
— Porque o tempo terminou.
Atlas permaneceu atento.
— Explique.
O comandante ativou um pequeno dispositivo holográfico.
Um mapa semelhante ao projetado pela biblioteca surgiu entre eles.
Mas continha dados muito mais recentes.
Diversas regiões da galáxia apareciam completamente apagadas.
Muito mais do que nos registros antigos.
— A Escuridão não pode ser derrotada.
Ele ampliou a projeção.
— Apenas atrasada.
Novos cálculos surgiram.
As antigas barreiras estavam praticamente destruídas.
Restavam poucas.
Entre elas, a do Sistema Solar.
Helena compreendeu imediatamente.
— Vieram ativar a barreira.
O general assentiu.
— E reunir tudo o que pudesse fortalecê-la.
Ela respondeu imediatamente.
— Matando milhares de milhões de pessoas.
O comandante não desviou o olhar.
— Cada mundo conquistado aumentava nossas probabilidades.
O silêncio tornou-se pesado.
Nenhum dos presentes aceitava aquela lógica.
Mesmo assim, percebiam que o inimigo acreditava sinceramente ter escolhido o único caminho possível.
Atlas fez então a pergunta que ocupava seus processadores desde o início da guerra.
— Porque não pediram ajuda?
O general permaneceu imóvel.
Depois respondeu.
— Pedimos.
Helena franziu a testa.
Ele continuou.
— Durante séculos.
Projetou então novos registros.
Diversas transmissões haviam sido enviadas às civilizações sobreviventes.
Algumas responderam.
Outras recusaram colaborar.
Muitas já tinham desaparecido.
À medida que o medo crescia, alianças desfaziam-se.
A desconfiança substituíra a cooperação.
Por fim, os Exilados decidiram agir sozinhos.
Atlas analisou cuidadosamente os arquivos.
Grande parte parecia autêntica.
O ancião confirmou lentamente.
— Estávamos presentes quando essas mensagens foram enviadas.
Helena fechou os olhos por um instante.
A guerra que devastava a Terra era consequência de decisões tomadas milhares de anos antes.
Nenhum dos lados possuía toda a razão.
Nenhum estava completamente errado.
Os humanos lutavam para sobreviver.
Os Exilados também.
Mas um escolhera proteger a própria espécie através da destruição das outras.
A biblioteca permaneceu silenciosa.
Foi Atlas quem quebrou o silêncio.
— Existem alternativas?
O general respondeu sem hesitar.
— Não encontramos nenhuma.
O ancião ergueu lentamente a cabeça.
— Isso não significa que não existam.
Os dois alienígenas olharam um para o outro.
Representavam os dois caminhos escolhidos pela mesma civilização.
O da guerra.
E o da cooperação.
Helena voltou-se para Atlas.
Ela sabia o que aquela conversa significava.
Se as informações fossem confirmadas, a humanidade enfrentaria a decisão mais difícil de sua história.
Continuar uma guerra total contra os Exilados.
Ou procurar uma forma de cooperar com um inimigo responsável por incontáveis genocídios para enfrentar uma ameaça ainda maior.
Antes que qualquer resposta fosse encontrada, todos os sistemas da biblioteca sofreram uma violenta oscilação.
As luzes apagaram-se por alguns segundos.
Quando voltaram, o enorme mapa da galáxia apresentava uma alteração.
Uma nova região escura acabava de surgir.
Muito mais próxima do que qualquer previsão anterior indicava.
O general observou a projeção.
Pela primeira vez desde que Atlas o conhecera, sua expressão demonstrava algo que ultrapassava a disciplina militar.
Medo.
Um medo profundo.
Quase antigo.
Ele olhou lentamente para Atlas.
— Já não temos décadas.
Depois voltou os olhos para a mancha crescente que avançava sobre o mapa estelar.
— Talvez nem anos.
Enquanto humanos, Guardiões, os habitantes pacíficos daquele mundo e até o comandante dos Exilados permaneciam reunidos diante da mesma projeção, todos compreendiam que o conflito pela Terra deixara de ser apenas uma guerra entre espécies.
O verdadeiro inimigo aproximava-se silenciosamente da fronteira da galáxia, e cada instante perdido em combates internos podia aproximar ainda mais o momento em que nenhuma civilização teria forças suficientes para resistir.
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