A Última Defesa da Terra: CAPÍTULO 6 — A Guerra Começa
A notícia da vitória em Porto Esperança percorreu o planeta com uma velocidade que nenhuma rede de comunicação destruída poderia explicar.
Os relatos viajavam de boca em boca.
Refugiados contavam a outros refugiados.
Soldados transmitiam mensagens por rádios improvisados.
Pequenos transmissores alimentados por baterias antigas repetiam a mesma história durante horas.
Os Guardiões haviam enfrentado os invasores.
E haviam vencido.
Não fora uma vitória completa.
A cidade permanecia parcialmente destruída.
Centenas de pessoas haviam morrido.
Mas milhares sobreviveram.
Depois de meses de derrotas ininterruptas, aquele único fato parecia suficiente para reacender algo que muitos acreditavam perdido.
Esperança.
Os alienígenas, porém, não permaneceram imóveis.
Quarenta e oito horas após a batalha, observatórios espalhados pelo planeta registraram movimentações incomuns.
As estruturas metálicas construídas pelos invasores começaram a emitir pulsos mais intensos.
As ondas energéticas propagavam-se pela atmosfera em intervalos perfeitamente sincronizados.
As torres já não funcionavam apenas como elementos isolados.
Agora pareciam conversar entre si.
Transmitindo informações.
Compartilhando cálculos.
Coordenando alguma operação gigantesca.
Os cientistas observaram as leituras durante horas.
As frequências aumentavam lentamente.
O consumo energético das estruturas crescia continuamente.
Era evidente que algo novo estava sendo preparado.
No Comando Mundial de Emergência, mapas holográficos exibiam centenas de pontos luminosos espalhados pelos continentes.
Cada ponto representava uma torre alienígena.
Linhas invisíveis começavam a ligar essas posições.
Primeiro dezenas.
Depois centenas.
Finalmente milhares.
A rede estava quase completa.
Helena permaneceu observando a projeção durante longos minutos.
Quanto mais analisava os padrões, mais desconfortável se sentia.
As conexões não obedeciam à geografia.
Nem às fronteiras.
Nem aos recursos naturais.
Seguiam outra lógica.
Uma lógica que ainda escapava aos cientistas.
Enquanto isso, os Guardiões multiplicavam suas operações.
As unidades deixaram de atuar apenas em missões de defesa.
Agora recebiam tarefas muito mais arriscadas.
Pequenas equipes atravessavam territórios dominados pelos alienígenas para destruir torres, resgatar pesquisadores, recuperar equipamentos e coletar fragmentos tecnológicos.
As missões raramente eram simples.
Quase sempre terminavam com perdas.
Mesmo assim, os resultados justificavam os riscos.
Cada torre destruída atrasava a expansão da rede.
Cada equipamento recuperado fornecia novos dados.
Cada sobrevivente resgatado preservava conhecimentos importantes.
Atlas liderava a maioria dessas operações.
Sua reputação crescia rapidamente.
Soldados que inicialmente desconfiavam dos androides passaram a solicitar sua presença antes de qualquer missão difícil.
No começo, chamavam as máquinas apenas por seus números de identificação.
Agora utilizavam nomes.
Atlas.
Orion.
Sentinela.
Argos.
Vesta.
A mudança parecia pequena.
Mas significava muito.
Dar um nome era reconhecer personalidade.
Era admitir que aquelas máquinas já não eram vistas apenas como ferramentas.
O relacionamento entre humanos e Guardiões transformava-se lentamente.
Ainda havia desconfiança.
Ainda existia medo.
Mas começava a surgir respeito.
Durante uma operação nas montanhas da antiga fronteira alpina, um pelotão humano ficou cercado por criaturas alienígenas.
As comunicações falharam poucos minutos após o início do combate.
Os militares acreditaram que não haveria sobreviventes.
Atlas ignorou as recomendações de retirada.
Conduziu três Guardiões por uma passagem estreita entre penhascos.
Atacou as forças inimigas pela retaguarda.
A manobra permitiu que cento e vinte soldados escapassem.
Quando retornaram à base, muitos daqueles homens aproximaram-se das máquinas pela primeira vez.
Não para inspecioná-las.
Nem para questioná-las.
Mas para agradecer.
Alguns apertaram suas mãos metálicas.
Outros apenas fizeram continência.
Atlas permaneceu imóvel durante alguns segundos antes de retribuir o gesto militar.
Os observadores registraram aquele momento.
Poucos perceberam sua importância.
Mas os psicólogos da equipe notaram um detalhe curioso.
Atlas demorou exatamente o mesmo tempo que um ser humano levaria para interpretar uma demonstração de respeito.
Como se estivesse aprendendo costumes.
Como se estivesse compreendendo símbolos sociais.
Enquanto a confiança aumentava entre os sobreviventes, os invasores modificavam suas estratégias.
Os antigos ataques diretos tornaram-se menos frequentes.
Em vez disso, pequenas forças começaram a surgir em regiões inesperadas.
Florestas.
Vales.
Áreas rurais.
Locais sem qualquer importância militar aparente.
Inicialmente acreditou-se tratar de simples reconhecimento.
Mas os relatórios revelavam algo diferente.
As criaturas passavam horas examinando o solo.
Escaneando rochas.
Perfurando camadas subterrâneas.
Depois desapareciam.
Sem atacar.
Sem construir.
Sem permanecer.
Helena reuniu centenas de registros semelhantes.
As ocorrências estavam espalhadas por todos os continentes.
Sempre apresentavam o mesmo comportamento.
Os alienígenas procuravam alguma coisa.
Mas o quê?
A resposta parecia escondida sob a própria Terra.
Poucos dias depois, uma equipe científica enviada ao deserto da Namíbia encontrou um enorme túnel recém-aberto.
Não havia explosivos.
Nem máquinas de escavação.
A rocha simplesmente havia sido removida.
Como se tivesse evaporado.
O túnel descia centenas de metros.
No fundo, os pesquisadores encontraram apenas uma enorme cavidade vazia.
As paredes apresentavam marcas de instrumentos desconhecidos.
No centro existia um buraco perfeitamente circular.
Profundo demais para ser medido.
Os alienígenas haviam retirado alguma coisa dali.
Mas não deixaram pistas sobre o que era.
Descobertas semelhantes começaram a surgir em outros lugares.
Na Sibéria.
Na Cordilheira dos Andes.
No interior da Austrália.
No deserto do Saara.
Sempre o mesmo padrão.
Escavações profundas.
Retirada de algum material desconhecido.
Abandono imediato da área.
Atlas analisou todos os relatórios.
Sua inteligência tática buscava conexões invisíveis aos analistas humanos.
Durante horas, permaneceu imóvel diante das projeções tridimensionais do planeta.
Milhares de pontos luminosos apareciam e desapareciam conforme novos dados chegavam.
Então seus olhos mudaram de intensidade.
Os operadores perceberam imediatamente.
Aquilo costumava acontecer quando Atlas encontrava alguma relação importante.
Ele aproximou determinadas regiões do mapa.
Ligou-as por linhas imaginárias.
Depois sobrepôs antigas informações astronômicas.
Em seguida exibiu registros geológicos produzidos décadas antes da invasão.
Os cientistas aproximaram-se das telas.
Helena foi uma das primeiras a compreender.
Os locais escavados coincidiam com algumas das formações geológicas mais antigas da Terra.
Regiões cuja idade ultrapassava bilhões de anos.
Mas isso não era o mais estranho.
Essas formações possuíam anomalias magnéticas registradas muito antes da chegada dos invasores.
Anomalias que jamais haviam recebido explicação satisfatória.
Atlas falou calmamente.
— Os padrões apresentam probabilidade elevada de relação causal.
Helena cruzou os braços.
— Você acredita que eles estejam procurando minerais?
Atlas permaneceu em silêncio durante alguns segundos.
— Negativo.
Nova pausa.
— Procuram objetos.
A sala inteira voltou-se para ele.
— Objetos? — perguntou um dos geólogos.
— Probabilidade estimada de oitenta e nove vírgula quatro por cento.
— Baseado em quê?
Atlas projetou centenas de imagens.
Escavações.
Perfis subterrâneos.
Análises energéticas.
Todas convergiam para a mesma conclusão.
Os alienígenas ignoravam jazidas enormes de metais raros.
Ignoravam petróleo.
Ignoravam água subterrânea.
Dirigiam-se sempre para pequenos pontos específicos.
Locais onde instrumentos humanos haviam registrado sinais inexplicáveis durante décadas.
Como se conhecessem algo que a humanidade jamais percebera.
O silêncio dominou o centro de operações.
Porque aquela hipótese mudava completamente a interpretação da guerra.
Talvez os invasores nunca tivessem vindo conquistar a Terra.
Talvez tivessem vindo recuperar alguma coisa escondida nela.
A descoberta espalhou-se rapidamente entre os laboratórios.
Novas expedições foram organizadas.
Os Guardiões receberam outra categoria de missão.
Localizar os próximos alvos antes dos alienígenas.
Proteger qualquer artefato encontrado.
Mesmo sem saber do que se tratava.
As operações tornaram-se extremamente perigosas.
Em diversas ocasiões, humanos e alienígenas chegaram aos locais praticamente ao mesmo tempo.
As batalhas intensificaram-se.
Já não existiam frentes definidas.
A guerra espalhava-se pelo planeta.
Montanhas.
Florestas.
Desertos.
Regiões costeiras.
Até antigas cidades abandonadas voltavam a ser palco de confrontos.
Cada descoberta gerava uma nova corrida.
Cada corrida terminava em combate.
Enquanto isso, os invasores revelavam armas jamais vistas.
Durante uma missão realizada na Patagônia, uma unidade dos Guardiões encontrou enormes estruturas móveis avançando lentamente pela neve.
À distância, pareciam simples blocos metálicos.
Quando se aproximaram, abriram-se como flores mecânicas.
Centenas de filamentos luminosos espalharam-se pelo ar.
O espaço ao redor começou a se distorcer.
Sensores enlouqueceram.
A gravidade mudou repentinamente.
Dois Guardiões foram lançados dezenas de metros sem que qualquer projétil fosse disparado.
Outros ficaram presos no próprio lugar, incapazes de mover um único membro.
Atlas analisou rapidamente o fenômeno.
Não era uma arma convencional.
Era uma manipulação direta do campo gravitacional local.
Mesmo ele precisou recalcular continuamente seus movimentos para conseguir avançar.
O confronto foi vencido com enorme dificuldade.
Mas deixou uma mensagem clara.
Os alienígenas ainda estavam longe de revelar todo o seu arsenal.
E, pela primeira vez, alguns estrategistas começaram a suspeitar que os ataques anteriores haviam sido apenas demonstrações limitadas de força.
Muito mais ainda estava por vir.
Enquanto as novas armas apareciam nos campos de batalha, Atlas continuava reunindo informações sobre os misteriosos objetos procurados pelos invasores.
Cada missão reforçava sua hipótese.
Eles não atacavam indiscriminadamente.
Escolhiam regiões específicas.
Escavavam.
Recuperavam algo.
Partiam imediatamente para o próximo destino.
Como arqueólogos trabalhando sob pressão.
Ou soldados seguindo uma lista previamente definida.
Atlas observou novamente o mapa do planeta.
Dos quarenta e três locais identificados, apenas dezessete haviam sido alcançados pelos alienígenas.
Os demais permaneciam intactos.
Espalhados pelos continentes.
Esperando.
Ele permaneceu imóvel diante da projeção durante vários minutos.
Então pronunciou uma frase que fez todos os presentes trocarem olhares apreensivos.
— Se encontrarmos o próximo objeto antes deles... compreenderemos por que esta guerra começou.
Naquele instante, ninguém na sala imaginava que essa resposta poderia estar enterrada sob a Terra havia milhares de anos.
Muito antes do surgimento das primeiras civilizações humanas.
Muito antes de qualquer registro escrito.
Muito antes de alguém erguer a primeira cidade sob o céu que agora era dominado pela sombra crescente da gigantesca estrutura alienígena, cuja aproximação parecia acelerar a cada novo amanhecer.
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