A Guerra de Éterion: CAPÍTULO 35 — O Tirano de Ferro

 O nome de Vark espalhou-se pela galáxia antes mesmo que sua frota realizasse o primeiro ataque.

Durante décadas, acreditava-se que o antigo general havia morrido nas Guerras de Expansão, quando um sistema inteiro desaparecera em uma explosão de Nóvium. Seu corpo jamais fora encontrado, e o Conselho de Nox encerrara oficialmente sua história.

Agora, porém, bilhões de pessoas assistiam à sua reaparição.

A transmissão iniciada por Voren alcançava praticamente todos os sistemas habitados.

Atrás de Vark, milhares de soldados rebeldes permaneciam imóveis.

Nenhum deles comemorava.

Nenhum gritava.

O silêncio era mais assustador do que qualquer discurso.

O general caminhou lentamente até a frente da plataforma.

Sua armadura negra parecia fundida ao próprio corpo. Pequenos veios metálicos percorriam sua pele, como se antigos implantes militares houvessem crescido durante décadas.

Quando falou, sua voz parecia ecoar através de diversas camadas metálicas.

— O Império de Nox esqueceu sua razão de existir.

Os soldados continuaram em absoluto silêncio.

— Fomos criados para dominar.

Ele olhou diretamente para a câmera.

— Não para negociar.

A transmissão mudou.

Surgiram imagens de Kael lutando ao lado de Lyra.

Depois, Orion utilizando seus poderes para salvar civis.

Por fim, o portal sobre Éterion.

Vark ergueu lentamente a mão.

— Enquanto vocês temem monstros...

Sua voz endureceu.

— Nosso verdadeiro inimigo veste o uniforme de Nox.

Milhares de soldados bateram simultaneamente os punhos sobre o peito.

O som ecoou como um trovão.

— Kael enfraqueceu o império.

— Eu o restaurarei.

A transmissão terminou.


Na capital de Nox, ninguém falou durante vários segundos.

Kael observava a tela apagada.

Draven foi o primeiro a romper o silêncio.

— Ele continua exatamente igual.

Kael balançou lentamente a cabeça.

— Não.

Todos olharam para ele.

— Está pior.

Selene aproximou-se da mesa holográfica.

Diversos arquivos antigos começaram a surgir.

Fotografias.

Relatórios militares.

Ordens de batalha.

Em praticamente todos aparecia o mesmo nome.

General Vark.

Cassian, conectado a partir de Aurea, analisava as informações.

— Nunca ouvi falar dele.

Selene respirou profundamente.

— Porque os registros foram apagados.

Lyra cruzou os braços.

— Por quê?

A cientista abriu um documento classificado.

— Vark comandou o Programa Martelo Negro.

Orion franziu a testa.

— O que era isso?

Ninguém respondeu imediatamente.

Foi Kael quem finalmente falou.

— O pior projeto militar da história de Nox.


Décadas antes.

Muito antes de Kael assumir qualquer posição importante.

Nox enfrentava uma guerra contra dezenas de sistemas independentes.

Os conflitos consumiam recursos demais.

As vitórias demoravam.

Foi então que Vark apresentou uma solução.

Não conquistar planetas.

Eliminar planetas.

As imagens mostravam enormes laboratórios orbitais.

Canhões maiores que cidades.

Reatores alimentados por tecnologias proibidas.

Um cientista apareceu na gravação.

— General...

— Os testes indicam risco de destruição total.

Vark respondeu sem demonstrar qualquer emoção.

— Excelente.

O pesquisador hesitou.

— Existem bilhões de civis.

— Estatística.

A palavra foi dita como se não tivesse qualquer importância.

O cientista permaneceu imóvel.

Vark aproximou-se.

— Quanto tempo até o disparo?

— Três minutos.

— Então preparem outro.


A gravação desapareceu.

Selene fechou lentamente o arquivo.

— Depois daquele ataque...

Ela ampliou um mapa estelar.

Um sistema inteiro havia desaparecido.

No lugar dos planetas existia apenas um campo de destroços.

— O Conselho decidiu prendê-lo.

Cassian olhou novamente para o mapa.

— E conseguiram?

Kael respondeu.

— Não.

— A frota dele desapareceu antes da prisão.

Lyra compreendeu imediatamente.

— Voren o encontrou.

Kael assentiu.

— Ou ele nunca deixou de procurá-lo.


Enquanto isso, em um setor remoto da galáxia, Vark caminhava pelos corredores de sua nave principal.

O encouraçado rebelde era gigantesco.

Muito maior que qualquer cruzador moderno.

As paredes apresentavam marcas de antigos combates.

Nada parecia ter sido reformado.

Era como uma relíquia de guerra preservada durante décadas.

Voren acompanhava o general.

— As frotas responderam melhor do que imaginávamos.

Vark não demonstrou interesse.

— Quantas?

— Sessenta e três esquadras.

— Pouco.

Voren franziu discretamente a testa.

— Isso representa quase metade do antigo império.

Vark continuou caminhando.

— Ainda é pouco.

Os dois chegaram diante de uma enorme porta blindada.

Quatro códigos diferentes foram necessários para abri-la.

A câmara escondida ocupava praticamente toda a parte central da nave.

Centenas de cilindros metálicos permaneciam alinhados.

Todos cobertos por símbolos antigos.

Voren observou em silêncio.

Mesmo ele nunca tivera autorização para entrar naquele lugar.

Vark aproximou-se de um dos recipientes.

Passou lentamente a mão sobre a superfície.

— Eles continuam funcionando.

Voren perguntou:

— São reais?

O general respondeu sem olhar para trás.

— Todos.

O almirante sentiu um frio percorrer a espinha.

Sabia exatamente do que se tratava.

As armas proibidas.


Em Éterion, a consciência do planeta permanecia agitada.

As florestas moviam-se continuamente.

Os oceanos brilhavam durante toda a noite.

Animais cristalinos percorriam antigos campos de batalha.

Orion caminhava sozinho por uma das enormes planícies azuis.

Desde a revelação sobre a verdadeira origem do Nóvium, sua mente jamais voltara a ficar completamente tranquila.

Sentia o planeta.

Sentia os novos portadores.

Mas também percebia outra coisa.

Uma presença distante.

Fria.

Vazia.

Como a ausência completa de vida.

Ele fechou os olhos.

A energia azul espalhou-se lentamente pelo solo.

As raízes cristalinas responderam imediatamente.

Pequenos pontos luminosos começaram a surgir ao seu redor.

A voz de Éterion não utilizava palavras.

Transmitia imagens.

Sensações.

Memórias.

Naquele dia, porém, tudo era diferente.

Orion viu um enorme vazio atravessando o espaço.

Depois...

planetas queimando.

Naves destruídas.

Milhões de pessoas fugindo.

Por fim surgiu uma fortaleza gigantesca escondida entre destroços de luas antigas.

A visão terminou abruptamente.

Orion caiu de joelhos.

Respirava com dificuldade.

Nunca recebera uma mensagem tão clara.


Asterion apareceu poucos minutos depois.

— O que aconteceu?

Orion ainda tentava recuperar o fôlego.

— O planeta...

Ele levou a mão à cabeça.

— Está tentando mostrar alguma coisa.

O antigo Guardião ajoelhou-se ao seu lado.

— O quê?

Orion descreveu lentamente tudo o que havia visto.

À medida que falava, a expressão de Asterion tornava-se cada vez mais séria.

Quando terminou, o Guardião permaneceu em silêncio durante vários segundos.

— Você reconheceu o lugar?

Orion assentiu.

— Acho que sim.

Com a mão trêmula, desenhou no chão a estrutura vista na visão.

Diversos anéis.

Uma estação colossal.

Campos de destroços ao redor.

Assim que terminou, Asterion levantou-se abruptamente.

— Eu conheço isso.

Orion ergueu a cabeça.

— Onde fica?

Asterion olhou para o céu.

— Não é uma estação.

— É um antigo estaleiro de guerra construído pelos primeiros habitantes de Éterion.

Lyra aproximou-se logo em seguida.

— Pensei que todos tivessem sido destruídos.

— Quase todos.

O Guardião apontou para o desenho.

— Se esta visão estiver correta...

Sua voz tornou-se muito mais grave.

— Vark está escondido exatamente onde nossos ancestrais construíram as armas capazes de exterminar sistemas inteiros.

O silêncio voltou a dominar a planície.

Kael acabara de chegar através do portal cristalino.

Observou o desenho.

Depois fitou Orion.

— Tem certeza?

O jovem fechou lentamente os olhos.

Ainda conseguia sentir aquela estranha ligação.

Como se o próprio planeta insistisse em mostrar o mesmo caminho.

— Tenho.

Lyra olhou para Kael.

Nenhum dos dois precisou dizer qualquer coisa.

Sabiam que aquela informação mudava completamente a guerra.

Pela primeira vez desde o surgimento da rebelião, possuíam uma pista concreta sobre o esconderijo de Vark.

Mas também sabiam que, se o antigo general realmente tivesse recuperado as armas proibidas dos ancestrais, o tempo para detê-lo estava se esgotando.


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