A Guerra de Éterion: CAPÍTULO 37 — O Eclipse Azul
Os motores da fortaleza rebelde desapareceram entre as estrelas como uma cicatriz luminosa.
A gigantesca estrutura construída pelos antigos acelerava em direção ao espaço profundo, carregando consigo a superarma que Vark chamava de Núcleo Absoluto.
Lyra observava a fuga através da ampla abertura deixada pela explosão dos hangares.
— Não...
Kael cerrava os punhos.
Depois de tudo que encontraram naquela instalação, permitir que Vark escapasse era um golpe devastador.
Mas abandonar centenas de crianças significaria condená-las.
A escolha jamais existira.
Enquanto médicos improvisavam enfermarias nas naves de evacuação, Orion permaneceu imóvel olhando para Éterion.
Algo mudava.
O planeta brilhava mais intensamente do que nunca.
As florestas cristalinas emitiam feixes azulados que atravessavam a atmosfera.
Os oceanos pareciam transformar-se em espelhos de energia.
Até as nuvens assumiam um tom azul profundo.
Asterion levantou lentamente a cabeça.
Seu rosto perdeu toda a serenidade.
— Não...
Lyra voltou-se para ele.
— O que houve?
O velho Guardião respirou profundamente.
— Está começando.
A consciência de Éterion despertava.
Não como acontecera anteriormente.
Desta vez era diferente.
Muito diferente.
Ondas de energia espalhavam-se pelo planeta em intervalos perfeitamente regulares.
Cada pulso fazia o solo vibrar.
Os cristais de Nóvium respondiam imediatamente.
Milhares deles emergiam das montanhas.
Dos desertos.
Do fundo dos oceanos.
Como se todos obedecessem ao mesmo chamado.
Selene analisava desesperadamente os sensores.
Os números aumentavam sem parar.
— A emissão energética triplicou...
Ela interrompeu a própria frase.
Os gráficos ultrapassavam qualquer escala conhecida.
Cassian aproximou-se.
— Isso é possível?
— Não deveria ser.
Alarmes começaram a soar em todas as embarcações.
Reatores desligavam automaticamente.
Escudos energéticos oscilavam.
Motores gravitacionais apresentavam falhas simultâneas.
A frota inteira desacelerou involuntariamente.
Muito acima do planeta...
A estrela local começou lentamente a desaparecer.
Não porque outro astro passasse diante dela.
Mas porque uma imensa esfera azul formava-se ao redor de Éterion.
Era uma camada translúcida de energia.
Ela crescia continuamente.
Até ocultar completamente a luz estelar.
Uma sombra azul espalhou-se pelo sistema.
Planetas distantes mergulharam numa estranha penumbra.
As luas refletiam apenas um brilho frio.
Selene olhava incrédula.
— Isso não é um eclipse...
Asterion completou.
— É um Eclipse Azul.
O silêncio tomou conta da ponte.
Orion nunca ouvira aquele nome.
— O que significa?
O Guardião demorou vários segundos para responder.
Como se lembrasse de acontecimentos que preferia esquecer.
— A última vez que aconteceu...
Ele fechou lentamente os olhos.
— Nossa civilização acabou.
Em diferentes regiões de Éterion, os portadores começaram a sentir os primeiros efeitos.
Uma agricultora levantou involuntariamente enormes blocos de pedra.
Não conseguia pará-los.
Um menino incendiou a própria casa quando tentou acender uma pequena fogueira.
Um soldado atravessou uma parede inteira ao perder o controle da força.
Nas florestas, animais cristalinos fugiam em todas as direções.
As árvores moviam-se violentamente.
As raízes rasgavam o solo.
Até os rios mudavam de curso.
O planeta inteiro parecia sofrer convulsões.
Na enfermaria principal, uma das crianças resgatadas começou a tremer.
Depois outra.
Depois dezenas.
Pequenas marcas azuis espalharam-se por seus corpos.
Os equipamentos enlouqueceram.
Os médicos tentavam estabilizá-las.
Nada funcionava.
Orion entrou imediatamente.
Sentiu a energia delas.
Era caótica.
Como uma tempestade procurando escapar.
A pequena menina que falara com ele na fortaleza abriu lentamente os olhos.
Mas havia algo errado.
Suas pupilas haviam desaparecido.
Restava apenas um intenso brilho azul.
Ela olhou diretamente para Orion.
Quando falou...
não parecia uma criança.
Diversas vozes ecoavam ao mesmo tempo.
— O despertar começou.
Todos congelaram.
A menina continuou.
— O ciclo retorna.
Sua voz misturava tons masculinos.
Femininos.
Idosos.
Infantis.
Como milhares de pessoas falando através do mesmo corpo.
Lyra aproximou-se cautelosamente.
— Quem está falando?
A criança voltou lentamente a cabeça.
— Nós.
Logo depois perdeu os sentidos.
As marcas luminosas desapareceram.
O silêncio voltou à enfermaria.
Nenhum dos presentes conseguia explicar o que acabara de acontecer.
Muito distante dali...
Na nave principal rebelde...
Vark permanecia diante do gigantesco Núcleo Absoluto.
A esfera azul media quase cinquenta metros de diâmetro.
Correntes de energia giravam continuamente em sua superfície.
Voren aproximou-se.
— Detectamos uma alteração em Éterion.
O general nem sequer desviou o olhar.
— Eu sei.
— O eclipse começou.
Voren demonstrava surpresa.
— O senhor esperava por isso?
— Sim.
— Era necessário.
O almirante hesitou.
— Então o roubo da superarma...
Vark finalmente voltou-se.
— Nunca foi o objetivo.
Silêncio.
— Era a chave.
Em Éterion, a situação piorava a cada minuto.
Portadores perdiam completamente o controle.
Alguns atacavam amigos.
Outros fugiam para regiões desertas tentando evitar ferir inocentes.
As comunicações eram inundadas por pedidos de socorro.
Solaris.
Nox.
Colônias independentes.
Todos enfrentavam o mesmo problema.
Pessoas brilhavam intensamente antes de desmaiar.
Outras simplesmente desapareciam em explosões de energia.
Lyra reunia os comandantes restantes.
— Suspendam qualquer operação ofensiva.
Kael concordou imediatamente.
— Prioridade absoluta aos civis.
Draven recebeu novas informações.
— General...
Kael voltou-se.
— O que foi?
— Rebeldes também estão enlouquecendo.
O general permaneceu alguns segundos em silêncio.
Depois respondeu.
— Salvem-nos também.
Alguns oficiais demonstraram surpresa.
Kael olhou firmemente para todos.
— Hoje não existem lados.
— Apenas sobreviventes.
Subitamente...
O chão começou a tremer.
Não apenas em uma cidade.
Nem em um continente.
No planeta inteiro.
As montanhas cristalinas racharam simultaneamente.
Desertos abriram enormes fendas.
Oceanos recuaram dezenas de quilômetros antes de retornarem em gigantescas muralhas de água azul.
As primeiras imagens orbitais chegaram.
Selene perdeu a fala.
Uma rachadura atravessava praticamente metade de Éterion.
Depois outra.
Depois dezenas.
Cada fissura emitia intensa luz azul.
Como se o interior do planeta fosse feito de pura energia.
Asterion observava em absoluto silêncio.
Lágrimas escorriam lentamente por seu rosto.
Orion nunca o vira chorar.
— O planeta está morrendo?
Perguntou.
O velho Guardião respondeu quase num sussurro.
— Não...
Olhou para as enormes rachaduras.
— Está acordando.
Então aconteceu.
Primeiro veio um único som.
Muito distante.
Grave.
Profundo.
Como o eco de um sino gigantesco.
Depois outro.
Em seguida...
vozes.
Milhares delas.
Milhões.
Elas surgiam do céu.
Das montanhas.
Dos mares.
Das próprias estrelas.
Ninguém conseguia identificar uma direção.
Todos ouviam.
Em todos os idiomas.
Ao mesmo tempo.
Alguns caíam de joelhos.
Outros cobriam os ouvidos.
Era inútil.
As vozes não atravessavam o ar.
Pareciam surgir diretamente na mente.
Orion levou as mãos à cabeça.
As palavras tornavam-se cada vez mais claras.
Não eram gritos.
Nem ameaças.
Era um aviso.
Uma frase repetia-se continuamente.
Cada vez mais forte.
Cada vez mais próxima.
Até que toda a galáxia pareceu ouvi-la em uníssono.
"Os Herdeiros despertaram."
No mesmo instante, muito além das fronteiras conhecidas, em uma região completamente escura do espaço interestelar, milhares de gigantescas estruturas adormecidas acenderam pequenas luzes azuis uma após outra, como se houvessem recebido um antigo sinal que esperavam havia milhões de anos. Nenhuma delas pertencia aos impérios humanos. Nenhuma aparecia em qualquer mapa estelar. E todas começaram, lentamente, a mover-se na direção de Éterion.

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