A Guerra de Éterion: CAPÍTULO 38 — O Exército Fantasma

 A primeira coisa que Kael ouviu foi o som de passos.

Lentos.

Irregulares.

Vindos do outro lado da fumaça.

Ele ergueu a arma imediatamente.

Ao redor, a cidade estava destruída. Torres haviam desabado, veículos militares queimavam nas avenidas e enormes rachaduras azuis atravessavam o chão. O Eclipse Azul ainda cobria o céu, transformando tudo em uma paisagem sem sombras.

Kael olhou para os soldados que o acompanhavam.

— Formação defensiva.

Os sobreviventes levantaram as armas.

Ninguém sabia exatamente contra o que estavam se preparando.

Então uma silhueta apareceu.

Depois outra.

E outra.

Centenas de figuras começaram a sair da fumaça.

Eram soldados.

Ou pelo menos haviam sido.

Usavam uniformes de Nox, Solaris e das antigas forças coloniais. Alguns carregavam armas quebradas. Outros tinham partes do corpo desaparecidas.

Mas nenhum deles estava realmente vivo.

Seus corpos eram formados por energia azul translúcida.

As armaduras flutuavam ao redor de estruturas feitas de pura luz.

Kael permaneceu imóvel.

Um dos soldados deu mais um passo.

O rosto surgiu claramente.

Kael sentiu o coração parar.

— Não...

O homem diante dele havia morrido quinze anos antes.

Era o capitão Rhen.

Seu primeiro comandante.

Seu amigo.

Kael lembrava perfeitamente do dia em que Rhen morreu. Uma explosão destruíra o cruzador onde serviam. Kael havia procurado seu corpo durante três dias.

Nunca o encontrou.

Agora ele estava ali.

Rhen levantou lentamente a cabeça.

Seus olhos eram completamente azuis.

— General...

A voz parecia vir de muito longe.

Kael baixou a arma.

— Rhen?

O soldado deu mais um passo.

Por um instante, parecia reconhecer o antigo companheiro.

Depois seu rosto mudou.

A expressão desapareceu.

A energia ao redor do corpo aumentou violentamente.

Rhen atacou.

Kael conseguiu bloquear o primeiro golpe.

A força lançou-o vários metros para trás.

— Não atirem!

Os soldados hesitaram.

— São nossos companheiros!

Rhen atacou novamente.

Desta vez, outros espectros avançaram.

Centenas.

O exército morto correu pelas avenidas.

E começou a matar.

No centro de comando improvisado, Lyra observava as imagens transmitidas pelos drones.

Não conseguia falar.

A cidade estava sendo invadida por milhares de soldados mortos.

Alguns haviam desaparecido décadas atrás.

Outros pertenciam a guerras ainda recentes.

Todos retornavam como criaturas de energia.

Selene ampliou um dos registros.

— Isso não é ressurreição.

Lyra aproximou-se.

— Então o que é?

— Não sei.

A cientista analisava os dados desesperadamente.

— Os corpos não estão realmente vivos.

— A energia está reconstruindo padrões neurais.

— Memórias.

— Reflexos.

— Personalidade.

Lyra franziu a testa.

— Então eles ainda são quem eram?

Selene hesitou.

— Talvez parcialmente.

Outra transmissão surgiu.

Kael lutava contra Rhen.

Lyra observou o general ser derrubado.

— Precisamos ajudá-lo.

Selene segurou seu braço.

— Espere.

Ela apontou para os sensores.

— Veja isso.

No centro do peito de cada espectro existia um pequeno núcleo azul.

Todos pulsavam exatamente no mesmo ritmo.

Lyra percebeu.

— Eles estão conectados.

— A quê?

Selene ampliou os dados.

As linhas energéticas percorriam o subsolo.

Convergiam para as enormes rachaduras abertas pelo Eclipse Azul.

E todas continuavam em direção ao mesmo ponto.

O núcleo planetário.

Lyra ficou imóvel.

— O coração de Éterion.

Orion estava diante de uma das maiores rachaduras do planeta.

O abismo tinha quilômetros de extensão.

Luz azul subia das profundezas.

Não era fogo.

Não era lava.

Era energia pura.

E quanto mais Orion se aproximava, mais sentia a presença de Éterion.

O planeta estava em sofrimento.

Não era apenas uma sensação.

Era quase uma dor física.

Orion caiu de joelhos.

— Eu não consigo...

Asterion aproximou-se.

— Consegue.

— Está muito forte.

— Você está tentando controlar o planeta.

Orion olhou para ele.

— E o que devo fazer?

Asterion respondeu:

— Nada.

— Escute.

Orion fechou os olhos.

Durante alguns segundos, não fez qualquer movimento.

Então percebeu algo.

As rachaduras não estavam se abrindo ao acaso.

Elas formavam uma espécie de circuito.

Cada uma levava energia para outra.

Todas conectavam diferentes regiões do planeta.

Como vasos sanguíneos.

E no centro...

estava o núcleo.

Orion abriu os olhos.

— As rachaduras não são feridas.

Asterion sorriu discretamente.

— Finalmente percebeu.

— São canais.

— Sim.

— O planeta está distribuindo energia.

— E você precisa ajudá-lo a fechar esses canais antes que a energia escape.

Orion respirou profundamente.

— Como?

Asterion apontou para seu peito.

— Não usando sua força.

— Usando sua ligação.

Na cidade, Kael continuava lutando.

Rhen avançava sem parar.

O general bloqueou outro golpe.

— Rhen!

Nenhuma resposta.

— Você me conhece!

O espectro golpeou novamente.

Kael desviou.

— Eu estava com você em Tarsis!

O soldado parou por um instante.

Seus olhos oscilaram.

Uma pequena parte do rosto voltou a assumir aparência humana.

— Tarsis...

Kael congelou.

— Sim.

Rhen levou a mão à cabeça.

— A ponte...

— Exatamente.

— Você...

A voz ficou distorcida.

— Você me deixou.

Kael sentiu o golpe mais forte do que qualquer arma.

— Eu tentei voltar.

Rhen gritou.

Uma explosão azul saiu de seu corpo.

Kael foi arremessado contra um veículo destruído.

O espectro avançou.

Mas dessa vez o general não levantou a arma.

— Desculpe.

Rhen parou.

Kael aproximou-se.

— Eu deveria ter encontrado você.

Por um instante, o antigo capitão pareceu completamente humano.

— Eu sei.

Então seu corpo começou a se desfazer.

Kael tentou segurá-lo.

As mãos atravessaram a energia.

Rhen sorriu.

— Vá.

— Salve os outros.

Seu corpo desapareceu.

A luz azul subiu para o céu.

Kael permaneceu ajoelhado.

Mas os demais espectros continuavam avançando.

Ele levantou-se lentamente.

— Todos os soldados!

Os sobreviventes olharam para ele.

— Não matem os espectros.

— Tentem fazê-los lembrar.

Lyra chegou à conclusão ao mesmo tempo que Orion.

— O núcleo está usando os mortos como memória.

Selene ficou confusa.

— Memória?

— Éterion está tentando reconstruir aquilo que perdeu.

Lyra observou as imagens dos soldados mortos.

— Mas não consegue distinguir vida de morte.

Selene analisou os dados.

— Se interrompermos a conexão com o núcleo...

Lyra completou:

— Destruiremos os espectros.

— E talvez o próprio planeta.

O silêncio foi imediato.

Era impossível escolher sem risco.

No espaço, as frotas dos dois impérios enfrentavam outro fenômeno.

Milhares de corpos começaram a surgir fora das naves.

Soldados mortos apareciam no vazio.

Alguns flutuavam.

Outros caminhavam sobre superfícies impossíveis.

E todos avançavam em direção às embarcações.

Canhões disparavam.

Os projéteis atravessavam os espectros.

Não havia efeito.

As criaturas simplesmente se reconstruíam.

Uma frota inteira entrou em pânico.

Então uma mensagem atravessou todas as frequências.

Era a voz de Lyra.

— Não destruam os mortos.

— Repito.

— Não destruam os mortos.

— Eles estão conectados ao núcleo de Éterion.

A resposta veio imediatamente de dezenas de comandantes.

— Então como lutamos?

Lyra olhou para a projeção do planeta.

— Não lutem contra eles.

— Protejam os vivos.

Orion finalmente entrou na rachadura.

A energia azul envolveu seu corpo.

Durante alguns segundos, ele não sentiu nada.

Depois...

sentiu tudo.

Milhões de consciências.

Memórias.

Medos.

Mortes.

Amores.

Guerras.

Civilizações.

Era como estar dentro da memória de um planeta.

Orion gritou.

Imagens atravessaram sua mente.

Viu a primeira estrela que alimentara o Nóvium.

Viu os antigos chegando a Éterion.

Viu a criação dos primeiros portadores.

Viu a queda da civilização.

Viu os primeiros humanos pousando.

Viu Lyra.

Kael.

As crianças.

Vark.

E então viu algo que nunca havia visto antes.

Muito abaixo do núcleo planetário havia uma estrutura gigantesca.

Um segundo coração.

Muito mais antigo.

Muito mais poderoso.

E alguém estava tentando ativá-lo.

Orion abriu os olhos.

Asterion percebeu imediatamente sua expressão.

— O que você viu?

Orion respondeu com dificuldade.

— Não estamos apenas tentando fechar as rachaduras.

— Então o quê?

— Alguém está abrindo outra coisa.

A milhares de quilômetros dali, a fortaleza de Vark atravessava o espaço profundo.

O Núcleo Absoluto permanecia ativo.

Vark observava os instrumentos.

Uma sequência antiga finalmente completara sua contagem.

O painel exibiu uma única mensagem:

ACESSO AO SEGUNDO NÚCLEO CONFIRMADO.

Voren aproximou-se.

— General...

Vark sorriu.

— Finalmente.

— O que existe lá?

Vark olhou para a projeção de Éterion.

O planeta inteiro brilhava como uma estrela azul.

— A coisa que os antigos tinham mais medo de despertar.

Na superfície, as rachaduras começaram a se fechar.

Uma.

Depois duas.

Orion respirava com dificuldade.

Sua energia diminuía rapidamente.

Mas a terceira rachadura não respondia.

Ele tentou novamente.

Nada.

Então ouviu uma voz.

Não vinha de Éterion.

Não vinha dos mortos.

Era uma voz completamente diferente.

Fria.

Antiga.

E vinha debaixo dele.

— Orion.

Ele congelou.

— Quem é você?

A resposta ecoou dentro do núcleo.

— Aquele que dormiu antes do primeiro amanhecer.

A energia azul ao redor dele desapareceu por um instante.

Então uma enorme estrutura abriu os olhos nas profundezas do planeta.

E, simultaneamente, todos os espectros de Éterion pararam de lutar.

Milhares de soldados mortos olharam para o céu.

Como se tivessem recebido uma ordem.

Depois começaram a marchar na mesma direção.

Para o mesmo lugar.

Para o centro do planeta.

E, muito acima deles, sob o Eclipse Azul, uma segunda lua surgiu lentamente por trás da sombra energética.


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