A Guerra de Éterion: CAPÍTULO 39 — O Herdeiro Perdido

 Orion permaneceu imóvel no interior do núcleo.

Ao seu redor, milhões de pontos azuis flutuavam como estrelas presas em um oceano invisível. Cada ponto parecia carregar uma memória. Algumas eram breves: uma criança correndo por uma cidade antiga, uma nave atravessando uma nebulosa, uma família observando o nascimento de uma estrela.

Outras eram terríveis.

Guerras.

Planetas destruídos.

Cidades consumidas por explosões azuis.

E, acima de tudo, uma presença.

A mesma presença que havia falado com ele.

— Aquele que dormiu antes do primeiro amanhecer.

Orion tentou responder, mas sua voz não saiu.

A estrutura gigantesca abaixo dele abriu lentamente os olhos.

Não eram olhos como os de uma criatura.

Eram dois continentes inteiros de energia.

O núcleo secundário estava despertando.

Orion sentiu uma força puxá-lo para baixo.

Então viu uma imagem.

Um grupo de seres caminhava por uma planície azul.

Eram diferentes dos humanos.

Altos, extremamente pálidos, com estruturas cristalinas crescendo dos braços e do rosto.

No centro do grupo havia uma criança.

Humanoide.

Mas carregava os mesmos olhos azuis de Orion.

Uma mulher colocou a mão sobre a cabeça da criança.

Uma marca apareceu em seu peito.

A mesma marca que Orion possuía.

Ele arregalou os olhos.

— Não...

A visão continuou.

A criança cresceu.

Tornou-se adulta.

Depois entrou em uma nave.

A nave partiu de Éterion.

A gravação avançou milhares de anos.

A linhagem daquela pessoa continuou.

Mundos diferentes.

Civilizações diferentes.

Até que, finalmente, apareceu um pequeno planeta azul.

A Terra.

Orion ficou sem respirar.

A sequência terminou com uma imagem extremamente simples.

Uma criança humana recém-nascida.

Um bebê.

Ele.


Na superfície, Lyra observava a enorme rachadura diante dela.

A luz que vinha do abismo havia diminuído.

Mas não desaparecera.

Kael estava ao seu lado.

— Ele está lá há muito tempo.

— Quanto?

— Vinte minutos.

Kael olhou para Asterion.

— Ele pode voltar?

O Guardião permaneceu em silêncio.

Lyra percebeu a preocupação.

— Asterion.

Ele finalmente respondeu.

— Não sei.

Kael apertou a mandíbula.

— Então temos um problema.

— Não.

Lyra olhou para ele.

— Temos vários.

Kael apontou para o céu.

A segunda lua que surgira durante o Eclipse Azul estava ficando cada vez maior.

Não era uma lua.

Era uma estrutura.

Uma gigantesca estação alienígena estava saindo da sombra energética do planeta.

Milhares de quilômetros acima deles, antigas torres começaram a despertar.

Sinais azuis percorreram a estrutura.

E então uma transmissão surgiu.

Não era de Vark.

Era muito mais antiga.

— Herdeiro identificado.

Lyra congelou.

Asterion levantou a cabeça.

— Eles sabem que ele está aqui.

Kael perguntou:

— Quem?

O Guardião respondeu:

— Aqueles que sobreviveram.


Orion abriu os olhos.

Estava deitado sobre uma superfície cristalina.

Asterion estava ajoelhado ao lado dele.

Lyra correu até o jovem.

— Orion!

Ele tentou levantar-se.

— Eu estou bem.

Mas não estava.

Seu corpo inteiro brilhava.

As marcas azuis que antes percorriam apenas seus braços agora cobriam o pescoço, o peito e o rosto.

Kael aproximou-se.

Parou.

Orion percebeu.

— O que foi?

O general não respondeu imediatamente.

Havia algo diferente nele.

Uma pressão invisível preenchia o ambiente.

Kael sentia seu corpo reagir instintivamente.

Como se alguma parte de sua mente dissesse para manter distância.

Orion levantou uma mão.

Uma pedra gigantesca surgiu do chão.

Flutuou.

Depois outra.

E outra.

Em poucos segundos, centenas de toneladas de rocha estavam suspensas acima deles.

Orion olhou assustado.

— Eu não estou fazendo isso.

Asterion respondeu:

— Está.

— Mas não estou tentando.

As pedras começaram a girar.

Uma enorme montanha ao longe rachou.

Lyra gritou:

— Orion!

Ele fechou os olhos.

Tudo parou.

As pedras caíram lentamente de volta ao solo.

Orion ficou olhando para as próprias mãos.

— Eu sinto o planeta.

Kael deu um passo para trás.

Orion percebeu.

— Kael?

O general manteve a mão próxima à arma.

— Você mudou.

A frase ficou suspensa.

Lyra interveio imediatamente.

— Ele continua sendo Orion.

Kael respondeu:

— Você não sabe disso.

Orion abaixou os olhos.

Aquelas palavras doeram mais do que esperava.

— Talvez ele tenha razão.

Lyra virou-se para ele.

— Não diga isso.

— Eu vi o que aconteceu com os antigos.

Orion respirou profundamente.

— Eles começaram assim.

Asterion aproximou-se.

— Você não é responsável pelo que seus antepassados fizeram.

Orion levantou a cabeça.

— Antepassados?

O Guardião ficou em silêncio.

Foi o suficiente.

Orion entendeu.

— É verdade.

— Eu sou descendente deles.

Asterion assentiu.

— Sim.

Kael imediatamente perguntou:

— Descendente de quem?

Asterion olhou para o jovem.

— Da primeira linhagem de Éterion.


A revelação mudou tudo.

Os registros antigos foram reabertos.

A inteligência do Arquivo começou a reconstruir a linhagem genética.

Milhares de imagens surgiram.

Nomes.

Civilizações.

Planetas.

Séculos.

Até chegar à humanidade.

Orion observava em silêncio.

— Então os humanos...

Asterion respondeu:

— Não vieram apenas para explorar Éterion.

— Alguns vieram daqui.

Lyra aproximou-se.

— Seus antepassados deixaram o planeta.

— E se espalharam pela galáxia.

A inteligência confirmou:

— Compatibilidade genética entre o Portador Azul e a primeira linhagem: 99,998%.

Orion fechou os olhos.

Durante toda a vida acreditara ser apenas um minerador.

Um jovem comum que tivera o azar de tocar em um cristal.

Agora descobria que sua existência talvez tivesse sido prevista milhares de anos antes.


Kael permanecia afastado.

Lyra percebeu.

— Você está com medo dele.

O general não negou.

— Estou.

— Pelo menos é honesto.

Kael observou Orion de longe.

— Eu vi homens ganharem poderes antes.

— Vi o que fizeram com eles.

— E agora existe alguém capaz de controlar um planeta inteiro.

Lyra respondeu:

— Alguém que está tentando salvá-lo.

— Hoje.

Ela franziu a testa.

— O quê?

Kael continuou:

— Hoje ele quer salvar o planeta.

— Amanhã?

— E quando perder alguém?

— Quando estiver com raiva?

— Quando descobrir que pode controlar os oceanos?

— Quando perceber que pode destruir uma frota inteira apenas levantando a mão?

Lyra permaneceu em silêncio.

Kael aproximou-se.

— Eu não tenho medo de Orion.

Ele olhou para o jovem.

— Tenho medo do que pode acontecer se ele deixar de ser Orion.


Naquela noite, Orion ficou sozinho.

Sentou-se diante do oceano.

As águas brilhavam intensamente.

Milhões de pequenas criaturas luminosas nadavam abaixo da superfície.

Ele colocou a mão na areia.

O planeta respondeu.

Uma árvore surgiu diante dele.

Depois outra.

Flores cresceram.

Pequenos animais aproximaram-se.

Orion sorriu pela primeira vez desde a descoberta.

— Você confia em mim?

A resposta não veio em palavras.

Veio como uma sensação.

Sim.

Orion fechou os olhos.

— Então eu vou tentar.

Uma lágrima escorreu pelo rosto.

— Mas não sei se consigo.

A terra vibrou suavemente.

Como se Éterion dissesse que ele não estava sozinho.


Muito acima deles, a antiga estação alienígena terminou de despertar.

Centenas de torres abriram-se.

Uma gigantesca estrutura central começou a emitir sinais.

Lyra recebeu a transmissão.

Desta vez, conseguiu traduzi-la.

— O que diz?

Selene leu lentamente.

Seu rosto perdeu a cor.

— Está dizendo que o herdeiro precisa retornar.

Kael aproximou-se.

— Para onde?

Selene ampliou o mapa.

Uma coordenada apareceu.

Não apontava para Éterion.

Nem para qualquer planeta conhecido.

Apontava para além da galáxia.

Lyra olhou para Orion.

— Eles querem você.

Orion levantou-se.

— Quem?

Antes que alguém respondesse, todas as telas da base acenderam simultaneamente.

Uma figura apareceu.

Era semelhante aos seres vistos nos registros antigos.

Mas estava viva.

Ou parecia estar.

Seus olhos eram dourados.

— Herdeiro de Éterion.

A criatura falou diretamente para Orion.

— Você finalmente despertou.

Orion aproximou-se da transmissão.

— Quem é você?

— O último dos que lembram.

— Lembram do quê?

A criatura ficou em silêncio.

Então respondeu:

— Do motivo pelo qual sua família fugiu.

A transmissão foi interrompida.

No mesmo instante, todas as rachaduras do planeta começaram novamente a se abrir.

Orion sentiu a energia aumentar.

Kael sacou a arma.

Lyra segurou seu braço.

— Não.

— O que está acontecendo?

Orion fechou os olhos.

Seu rosto ficou pálido.

— Eles estão chegando.

— Quem?

Orion abriu os olhos.

Ao longe, acima do horizonte, dezenas de pontos luminosos surgiam no céu.

Depois centenas.

Depois milhares.

Naves antigas atravessavam a atmosfera.

Não pertenciam a Solaris.

Não pertenciam a Nox.

Eram os descendentes da civilização que havia criado o Nóvium.

A primeira nave abriu suas portas.

Uma figura desceu lentamente.

Quando seus pés tocaram o solo, o planeta inteiro estremeceu.

Ela olhou diretamente para Orion.

E se ajoelhou.

Atrás dela, milhares fizeram o mesmo.

Kael observou a cena com o rosto endurecido.

Lyra aproximou-se de Orion.

— Acho que eles sabem quem você é.

Orion não respondeu.

Porque naquele instante uma última visão atravessou sua mente.

Vark.

O general estava diante do Núcleo Absoluto.

E atrás dele havia uma porta.

Uma porta que acabara de se abrir.

Do outro lado...

algo estava acordando.

Algo que até mesmo os antigos alienígenas temiam.

E uma voz ecoou na mente de Orion:

— O verdadeiro herdeiro não é você.

Orion arregalou os olhos.

— Então quem é?

A resposta veio acompanhada de uma imagem.

Um rosto.

Um rosto que Orion conhecia.

E que deveria estar morto.


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