A Guerra de Éterion: CAPÍTULO 41 — O Sacrifício da Frota
A frota avançou para o coração da batalha.
O espaço ao redor de Éterion havia deixado de parecer um campo de guerra e se transformara em um inferno de metal, fogo e energia azul. Centenas de naves cruzavam-se em velocidades impossíveis, enquanto os canhões de Solaris e Nox disparavam contra as forças de Vark.
Mas havia algo diferente naquela batalha.
Os soldados sabiam que não estavam lutando por território.
Não estavam lutando por um imperador.
Nem por um império.
Estavam lutando para impedir que um planeta inteiro fosse destruído.
E, pela primeira vez em séculos, Solaris e Nox lutavam lado a lado.
— Esquadrão três, comigo! — ordenou Lyra.
Sua nave mergulhou entre dois cruzadores rebeldes.
Um disparo passou a poucos metros de sua asa.
— Escudos em cinquenta por cento!
— Continue!
Atrás dela, vinte naves seguiram.
Os rebeldes abriram fogo.
Uma.
Duas.
Cinco naves explodiram.
Lyra não desviou.
À frente estava o primeiro conjunto de reatores.
Gigantescos cilindros metálicos cercados por torres defensivas.
— Alvo identificado.
— Preparar torpedos.
O oficial de armas hesitou.
— Capitã, há naves civis atrás da instalação.
Lyra olhou para os sensores.
Milhares de pequenos sinais apareciam na tela.
Refugiados.
Famílias.
Transportes de emergência.
Estavam presos entre as forças rebeldes e a zona de combate.
Se Lyra atacasse os reatores, a explosão provavelmente atingiria os civis.
— Cancelar ataque.
O oficial arregalou os olhos.
— Mas, capitã...
— Eu disse cancelar.
Ela abriu uma frequência geral.
— Todas as naves de Solaris, parem o ataque ao setor quatro.
Uma voz respondeu:
— Se não destruirmos os reatores, a arma continuará carregando!
— Eu sei.
Lyra olhou para a enorme estrutura.
— Primeiro tiramos os civis.
O almirante Cassian recebeu a mensagem.
Seu cruzador estava na linha de frente.
Ao redor dele, dezenas de naves civis tentavam escapar.
Os sensores indicavam centenas de caças rebeldes aproximando-se.
Cassian entendeu imediatamente.
Se aqueles caças atacassem os transportes, milhares morreriam.
Ele abriu a comunicação.
— Frota Solaris, mudar formação.
Seu imediato olhou para ele.
— Senhor?
— Formem um escudo.
— Isso vai nos colocar entre os civis e os rebeldes.
Cassian olhou pela janela.
— Exatamente.
As naves militares aceleraram.
Cruzeiros pesados posicionaram-se diante dos transportes.
Caças formaram uma segunda barreira.
Os rebeldes abriram fogo.
O espaço ficou branco.
Primeiro veio a chuva de mísseis.
Depois os canhões.
Os escudos das naves começaram a falhar.
— Escudo principal em vinte por cento!
— Reforcem a ala esquerda!
— Não temos energia!
Cassian permaneceu sentado.
— Quanto tempo para os transportes saírem?
— Quatro minutos.
O almirante respirou profundamente.
— Então precisamos sobreviver quatro minutos.
Uma explosão sacudiu a ponte.
— Reator auxiliar danificado!
Cassian levantou-se.
— Quanto tempo?
— Talvez dois minutos.
Ele olhou para os transportes.
Milhares de pessoas estavam tentando escapar.
— Então façam valer cada segundo.
Do outro lado da batalha, Kael recebeu a mesma informação.
Sua nave principal, a Nox Imperator, já estava gravemente danificada.
Metade dos escudos havia desaparecido.
Um dos motores não funcionava.
As laterais do cruzador estavam em chamas.
Mas Kael não recuava.
— Quantos transportes ainda estão presos?
— Setecentos e vinte.
— Quantos civis?
— Aproximadamente duzentos mil.
Kael ficou em silêncio.
Então olhou para a enorme frota rebelde.
— Abram um corredor.
Seu comandante hesitou.
— Não podemos.
— Eu não perguntei se podemos.
Kael levantou-se.
— Ataquem a ala esquerda.
— General, essa formação está protegida por quatro cruzadores pesados.
— Então destruam os quatro.
— Nossa nave não aguenta outro impacto.
Kael respondeu:
— Não precisamos que ela aguente.
O comandante compreendeu.
— Senhor...
Kael olhou para ele.
— Faça.
A Nox Imperator acelerou.
Todos os seus motores foram levados ao limite.
A nave atravessou o campo de batalha.
Os canhões disparavam continuamente.
Caças rebeldes tentavam interceptá-la.
Kael não desviou.
A nave colidiu contra a primeira plataforma defensiva.
A explosão iluminou o espaço.
Depois veio a segunda.
A terceira.
A quarta.
As plataformas desapareceram em sequência.
Um enorme corredor abriu-se.
Os transportes civis começaram a atravessar.
Kael observou em silêncio.
— Conseguimos.
Seu comandante olhou para os sensores.
— General...
— O quê?
— A nave está perdida.
Kael observou o painel.
Motores destruídos.
Reator principal instável.
Estrutura comprometida.
Não havia como escapar.
Ele permaneceu sentado.
— Quanto tempo?
— Trinta segundos.
Kael olhou uma última vez para Éterion.
O planeta estava coberto pelo brilho azul.
— Então salvem a frota.
— Senhor?
Kael levantou-se.
— Evacuem a nave.
As cápsulas de escape foram lançadas.
Uma após outra.
A Nox Imperator permaneceu sozinha.
Kael foi o último a sair.
Quando sua cápsula se afastou, a nave explodiu.
O gigantesco cruzador desapareceu em uma esfera de fogo.
Kael observou os destroços flutuando.
Sua expressão não mudou.
Mas seus olhos revelavam o peso daquele momento.
Aquela nave fora sua casa durante anos.
Ali estavam memórias de batalhas.
Amigos.
Soldados.
Pessoas que confiavam nele.
Agora tudo havia desaparecido.
Uma voz surgiu no comunicador.
— General Kael...
Ele respondeu:
— Estou vivo.
— Precisamos buscá-lo.
— Não.
Kael observou os transportes civis atravessando o corredor.
— Continuem avançando.
Lyra conseguiu fazer o mesmo.
Sua frota abriu uma passagem entre as forças rebeldes.
Mas os civis ainda estavam presos.
Milhares de pequenos transportes avançavam lentamente.
Alguns não possuíam escudos suficientes.
Outros apresentavam danos.
Lyra assumiu pessoalmente a escolta.
— Todas as naves que puderem formar barreira, comigo.
Dezenas responderam.
As naves de Solaris posicionaram-se ao redor dos civis.
Os rebeldes atacaram.
Uma nave militar explodiu.
Depois outra.
Lyra não recuou.
— Continuem.
— Capitã, estamos perdendo a formação!
— Continuem!
Outro cruzador foi atingido.
— Escudo perdido!
— Continuem!
Uma pequena nave civil atravessou o corredor.
Depois outra.
E outra.
Finalmente, os primeiros transportes chegaram à zona segura.
Lyra respirou aliviada.
Mas então viu algo no radar.
Uma enorme formação rebelde vinha diretamente em sua direção.
Centenas de naves.
— Eles vão atacar os civis.
O oficial de sensores respondeu:
— Sim.
Lyra fechou os olhos.
— Então vamos ficar.
No interior da superarma, Orion avançava pelos corredores.
O Caçador Branco o perseguia.
Seus passos eram silenciosos.
Orion entrou em uma sala circular.
No centro havia uma enorme coluna de energia.
O Núcleo Absoluto.
Ele aproximou-se.
A voz do ancestral surgiu atrás dele.
— Não toque diretamente.
Orion parou.
— Por quê?
— Porque a arma está ligada ao seu sangue.
— E daí?
— Ela pode absorver você.
Orion olhou para o núcleo.
— Então como destruo?
— Não destrua.
— Desconecte.
O jovem aproximou-se lentamente.
Colocou a mão sobre a superfície cristalina.
Imediatamente uma descarga atravessou seu corpo.
Orion gritou.
Imagens surgiram.
Milhões de pessoas.
Milhões de mortes.
Planetas sendo drenados.
Civilizações inteiras desaparecendo.
E, no centro de tudo...
Vark.
O general observava o processo.
Não como um homem.
Mas como alguém que havia planejado aquilo durante toda a vida.
Orion abriu os olhos.
— Ele não quer destruir Éterion.
O ancestral confirmou.
— Não.
— Quer roubar o núcleo.
— Sim.
— E usar a energia para despertar o primeiro portador.
— Sim.
Orion sentiu uma presença crescer dentro da instalação.
Algo estava acordando.
Vark observava os indicadores.
— Setenta por cento.
Um cientista rebelde aproximou-se.
— General, a estrutura não suporta essa quantidade de energia.
Vark respondeu calmamente:
— Então ela cumprirá sua função antes de quebrar.
— O canhão pode destruir o próprio sistema.
— Eu sei.
— E a fortaleza?
— Também.
O cientista ficou horrorizado.
— Então todos nós morreremos.
Vark olhou para ele.
— Talvez.
— Mas o que nascerá depois valerá a pena.
No espaço, a frota rebelde avançou contra os transportes.
Lyra percebeu que não haveria tempo.
— Todas as naves, escudos frontais!
Os cruzadores alinharam-se.
O inimigo disparou.
A primeira onda atingiu.
Escudos explodiram.
A segunda onda chegou.
Mais naves desapareceram.
A terceira...
Um gigantesco cruzador de Nox surgiu diante deles.
Kael.
Ele havia assumido o comando de uma nave auxiliar.
— General! — Lyra exclamou.
Kael abriu comunicação.
— Você achou que eu ia deixar você morrer sozinha?
Lyra sorriu.
— Ainda não.
As duas frotas uniram-se novamente.
Solaris e Nox.
Diante dos civis.
Diante da superarma.
Diante de Vark.
Então o canhão começou a carregar.
Todos os sensores detectaram.
A energia acumulava-se no centro da estrutura.
Setenta por cento.
Oitenta.
Noventa.
Selene gritou:
— Está quase pronto!
Kael olhou para Éterion.
— Orion...
Lyra respondeu:
— Ele vai conseguir.
— E se não conseguir?
Ela ficou em silêncio.
— Então nós seguramos o disparo.
Kael olhou para ela.
— Como?
Lyra apontou para os transportes civis.
— Com tudo que temos.
Dentro do Núcleo Absoluto, Orion sentiu seu corpo começar a desaparecer.
A energia atravessava seus braços.
Suas pernas ficaram translúcidas.
— Não consigo!
O ancestral gritou:
— Não tente lutar contra a energia!
— Deixe-a passar!
Orion fechou os olhos.
Em vez de resistir...
aceitou.
A energia entrou.
Atravessou seu corpo.
Depois saiu.
E retornou ao núcleo planetário.
Uma enorme onda azul percorreu Éterion.
As rachaduras começaram a diminuir.
Mas o canhão continuava carregando.
Orion percebeu que havia uma única conexão ainda ativa.
O reator central.
Ele precisava alcançá-lo.
O Caçador Branco apareceu na porta.
Orion virou-se.
O assassino avançou.
Orion levantou a mão.
O Caçador foi lançado contra a parede.
Mas levantou-se imediatamente.
Atacou novamente.
Orion desviou.
Um golpe.
Outro.
O combate atravessou o corredor.
O Caçador Branco era rápido demais.
Orion recebeu um golpe no peito.
Foi lançado contra o chão.
O assassino aproximou-se.
— Você é a chave.
Orion levantou os olhos.
— Para quê?
O Caçador parou.
Sua máscara começou a rachar.
— Para abrir a porta.
Orion sentiu um arrepio.
— Que porta?
O Caçador Branco levou a mão ao próprio rosto.
A máscara caiu.
Orion ficou imóvel.
Era o rosto que vira na visão.
O rosto de alguém que deveria estar morto.
Seu próprio rosto.
Mais velho.
Muito mais velho.
O homem sorriu.
— Finalmente nos encontramos.
No espaço, o canhão atingiu cem por cento.
Todas as armas da frota de Vark apontaram para Éterion.
As estrelas desapareceram atrás da gigantesca estrutura.
Uma energia negra começou a se formar.
Lyra observou.
Kael deu uma última ordem.
— Todas as naves...
Sua voz ficou baixa.
— Protejam os civis.
Os almirantes compreenderam.
Centenas de cruzadores posicionaram-se diante dos transportes.
Alguns sabiam que não sobreviveriam.
Mesmo assim permaneceram.
A primeira linha abriu os escudos.
A segunda preparou os motores.
A terceira desligou as armas.
Não atacariam.
Apenas protegeriam.
Lyra olhou para o horizonte.
— Orion...
O canhão começou a disparar.
Um feixe gigantesco surgiu.
Atravessou o espaço.
E veio diretamente em direção a Éterion.
No mesmo instante, Orion, dentro do núcleo, estendeu as duas mãos.
E o planeta inteiro respondeu.
As montanhas ergueram-se.
Os oceanos explodiram em ondas azuis.
As rachaduras se abriram novamente.
Milhões de vozes ecoaram pelo céu.
E, no centro de Éterion, algo colossal começou a despertar enquanto o feixe da superarma se aproximava cada vez mais do planeta.

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