A Guerra de Éterion: CAPÍTULO 42 — O Último Guardião

 O feixe da superarma atravessava o espaço.

Era tão gigantesco que parecia uma segunda estrela rasgando a escuridão.

Milhares de naves estavam posicionadas diante de Éterion.

Os escudos começaram a receber o impacto.

A primeira linha de defesa desapareceu.

A segunda tentou resistir.

Naves de Solaris explodiram.

Cruzadores de Nox foram empurrados para trás.

Pilotos morreram sem sequer conseguir disparar.

Mas a formação não recuou.

Lyra observava o feixe aproximar-se da atmosfera.

— Quanto tempo?

Selene respondeu pelo comunicador:

— Poucos segundos!

Lyra fechou os olhos.

Então ouviu uma voz.

Não pelo rádio.

Dentro da própria mente.

— Não tenham medo.

Lyra abriu os olhos.

O espaço diante dela começou a brilhar.

Uma figura apareceu no meio do feixe.

Era um guerreiro coberto por uma armadura dourada.

A mesma figura que havia desaparecido durante o primeiro confronto com as forças de Vark.

O Guardião.

Ele flutuava sozinho no espaço.

Não possuía nave.

Não precisava de uma.

A energia da superarma atingiu seu corpo.

O guerreiro ergueu uma mão.

O feixe parou.

Por um instante, ninguém entendeu o que estava acontecendo.

Então o Guardião fechou os dedos.

A energia começou a se dobrar.

O gigantesco disparo desviou lentamente.

Passou ao lado de Éterion.

E atingiu uma região vazia do espaço.

A explosão iluminou dezenas de sistemas estelares.

Lyra ficou sem palavras.

Kael observou pelo visor.

— Ele conseguiu...

Mas o Guardião não parecia triunfante.

Parecia preocupado.

Seu corpo dourado estava rachado.

Pequenas linhas de luz percorriam a armadura.

Ele olhou diretamente para Éterion.

Depois para Orion.

Mesmo separados por milhares de quilômetros, Orion sentiu sua presença.

O Guardião falou.

Sua voz chegou a todos os canais.

— Não haverá outro desvio.


Dentro da superarma, Orion permaneceu diante do homem que tinha seu rosto.

O Caçador Branco havia retirado completamente a máscara.

Agora Orion podia vê-lo.

Era mais velho.

Muito mais velho.

Mas não havia dúvida.

Os mesmos olhos.

A mesma estrutura facial.

A mesma marca azul no peito.

— Quem é você? — perguntou Orion.

O homem respondeu:

— A possibilidade que você poderia se tornar.

— Isso não responde.

— Meu nome era Orion.

O jovem recuou.

— Não.

— Eu também toquei o Nóvium.

— Eu também fui escolhido.

— E também pensei que poderia controlar Éterion.

Orion sentiu o corpo gelar.

— Você é meu descendente?

O homem sorriu.

— Não.

Ele tocou o próprio peito.

— Você é meu passado.

Orion ficou imóvel.

— Isso é impossível.

— Para humanos, talvez.

O homem apontou para o núcleo.

— Para o Nóvium, tempo nunca foi uma linha.

Uma explosão sacudiu a estrutura.

Alarmes começaram a tocar.

O homem continuou:

— Vark acredita que pode usar o núcleo para despertar o Primeiro Portador.

— Ele está errado.

— O Primeiro Portador nunca dormiu.

Orion sentiu uma presença abaixo de seus pés.

Algo enorme.

Algo que parecia estar olhando através das paredes.

— Então onde ele está?

O homem respondeu:

— Dentro do segundo núcleo.


O Guardião dourado desceu sobre Éterion.

Seus pés tocaram o solo próximo à rachadura principal.

Orion surgiu diante dele pouco depois.

A energia azul envolvia o jovem como uma tempestade.

O Guardião observou-o.

— Você despertou completamente.

— Não sei o que isso significa.

— Significa que chegou a hora de escolher.

Orion franziu a testa.

— Escolher o quê?

O guerreiro dourado colocou uma mão sobre o próprio peito.

— Um sucessor.

— Para quê?

— Para o planeta.

Orion olhou para ele.

— Você é o Guardião.

— Fui.

— E agora?

O guerreiro olhou para suas mãos.

As rachaduras em sua armadura estavam aumentando.

— Estou morrendo.

Orion deu um passo à frente.

— Podemos ajudá-lo.

— Não.

— Por quê?

— Porque meu tempo terminou.

O Guardião olhou para o céu.

O Eclipse Azul ainda cobria Éterion.

— O que você precisa compreender é que Éterion não escolhe guerreiros.

— Escolhe guardiões.

— E um guardião não governa o planeta.

— Serve a ele.

Orion permaneceu em silêncio.

— Por que eu?

O guerreiro respondeu:

— Porque você possui sangue humano.

— E sangue dos antigos.

— Você pertence aos dois mundos.

Orion abaixou os olhos.

— Não quero ser responsável por isso.

O Guardião sorriu.

— Essa é exatamente a razão pela qual pode ser digno.


Enquanto Orion conversava com o Guardião, Lyra descia para o interior de Éterion.

A informação sobre o segundo núcleo havia sido transmitida pelos antigos.

Havia uma passagem escondida em algum lugar abaixo do planeta.

Uma passagem que nem mesmo os mapas de Asterion conseguiam localizar.

Lyra levou Selene, três soldados e uma pequena equipe de pesquisadores.

Kael tentou acompanhá-la.

— Não.

Lyra olhou para ele.

— Não?

— Vark está vivo.

— E você precisa enfrentá-lo.

Kael respondeu:

— Você também está em perigo.

— Todos estamos.

Ela colocou a mão sobre seu ombro.

— Mas se existe outro núcleo, precisamos encontrá-lo antes de Vark.

Kael ficou em silêncio.

Lyra acrescentou:

— Vá atrás dele.

— Eu encontro o núcleo.

Kael sorriu levemente.

— Ainda dando ordens?

— Sempre.


Kael embarcou em uma pequena nave de combate.

Vark estava a bordo da superestrutura principal.

O general rebelde sabia que Kael viria.

Quando a nave de Kael se aproximou, as defesas não dispararam.

As portas simplesmente abriram.

Kael desembarcou sozinho.

Carregava apenas uma espada energética.

Vark o esperava em uma plataforma.

— Você perdeu sua nave.

Kael caminhou lentamente.

— E você perdeu seu exército.

Vark sorriu.

— Exércitos são substituíveis.

— Soldados não.

— Essa é a diferença entre nós.

Kael parou.

— Você não entende nada sobre poder.

Vark retirou o casaco militar.

Por baixo havia uma armadura negra.

Ela se conectava diretamente ao corpo.

— Talvez.

A armadura começou a emitir energia.

Kael ativou a espada.

— Mas ainda posso vencer.

Vark avançou.

O primeiro golpe quase atingiu Kael.

O general desviou.

Atacou.

Vark bloqueou.

A colisão das armas lançou uma onda de energia pela plataforma.

Kael girou.

Acertou o ombro do inimigo.

A armadura de Vark rachou.

Vark respondeu com um golpe no peito.

Kael foi lançado contra uma parede.

— Você está velho.

Kael levantou-se.

— E você fala demais.

Avançou novamente.


A luta continuou enquanto a superestrutura tremia.

Cada golpe abria novas rachaduras na plataforma.

Vark era mais forte.

Kael era mais rápido.

Durante vários minutos, nenhum conseguiu dominar o outro.

Então Vark mudou.

A armadura começou a absorver energia dos sistemas da estação.

Seu corpo aumentou de tamanho.

As placas negras cresceram.

Kael recuou.

— O que você fez?

— Tornei-me aquilo que você sempre temeu.

Vark atacou.

Kael bloqueou.

A espada energética partiu-se.

O golpe seguinte derrubou o general.

Vark ergueu a mão.

Uma lâmina negra apareceu.

— Acabou.

Kael olhou para ele.

— Ainda não.

Atrás de Vark, uma porta se abriu.

Um grupo de soldados Nox entrou.

Eram antigos companheiros de Kael.

Vark virou-se.

Kael aproveitou.

Atacou.

A lâmina atravessou a armadura de Vark.

O general rebelde caiu de joelhos.

Kael segurou sua arma contra o pescoço dele.

— Por tudo que você destruiu.

Vark sorriu.

— Mate-me.

Kael hesitou.

Vark percebeu.

— Você não consegue.

Kael respondeu:

— Não.

— Mas não vou deixar você escapar.


Muito abaixo da superfície, Lyra encontrou uma porta.

Era completamente diferente das estruturas antigas.

Não possuía inscrições.

Não possuía mecanismos visíveis.

Era simplesmente uma parede negra.

Selene aproximou-se.

— Não há entrada.

Lyra colocou a mão sobre a superfície.

Nada aconteceu.

Um dos soldados tentou usar uma ferramenta.

A porta não reagiu.

Lyra olhou para os símbolos que havia aprendido com os antigos.

— Talvez precise de um portador.

Selene olhou para ela.

— Você não possui poderes.

Lyra respondeu:

— Talvez não precise.

Ela retirou do bolso um pequeno fragmento de Nóvium.

O mesmo que carregava desde a primeira expedição.

Encostou-o na porta.

Nada.

Então ouviu uma voz.

— Capitã Lyra.

Ela congelou.

A voz vinha da parede.

— Como você sabe meu nome?

— Porque Orion escolheu você.

Lyra recuou.

— O que existe aí?

— Aquilo que Vark deseja.

A porta começou a abrir.


Orion estava diante do Guardião.

— Você quer que eu escolha alguém para substituí-lo.

— Sim.

— Quem?

O guerreiro dourado apontou para o horizonte.

Lyra apareceu em uma projeção azul.

Kael surgiu em outra.

Selene.

Asterion.

Até mesmo crianças refugiadas.

Todos aqueles que haviam lutado por Éterion.

— Qual deles?

O Guardião respondeu:

— Você deve escolher.

Orion sentiu o peso da decisão.

— E se eu escolher errado?

— Então Éterion escolherá por você.

— E se eu não escolher ninguém?

O Guardião ficou em silêncio.

— Então o planeta ficará sem proteção.

Orion olhou para o céu.

A segunda lua alienígena ainda estava suspensa acima do planeta.

O Núcleo Absoluto continuava funcionando.

Vark ainda estava vivo.

E o segundo núcleo estava despertando.

— Eu não posso fazer isso agora.

O Guardião respondeu:

— Você não precisa decidir hoje.

Orion olhou para ele.

— Então quando?

O guerreiro dourado colocou a mão sobre seu ombro.

— Quando entender por que o primeiro Guardião falhou.

Uma imagem surgiu na mente de Orion.

A civilização antiga.

Os alienígenas.

O Nóvium.

E um guerreiro dourado.

O primeiro Guardião.

Ele estava diante de uma multidão.

Atrás dele, cidades inteiras queimavam.

Então Orion viu o que realmente acontecera.

O Guardião não havia falhado tentando salvar o planeta.

Ele havia falhado porque escolhera salvar apenas uma parte dele.


Lyra entrou no segundo núcleo.

O espaço interior era gigantesco.

Parecia uma catedral construída dentro de um planeta.

Colunas negras se estendiam até desaparecer na escuridão.

No centro havia uma esfera.

Mas não brilhava azul.

Era dourada.

Selene aproximou-se.

— Isso não é Nóvium.

Lyra olhou para a esfera.

— Então o que é?

Selene consultou os sensores.

Seu rosto mudou.

— É o oposto.

— Como assim?

— O Nóvium absorve energia.

— Isso produz.

Lyra aproximou-se lentamente.

A esfera pulsou.

Uma onda passou por seu corpo.

Ela ouviu milhares de vozes.

Mas apenas uma palavra se destacou.

— Herdeira.

Lyra parou.

— Eu?

A esfera respondeu.

— Não.

Uma imagem surgiu.

Orion.

Depois Kael.

Depois Lyra.

E então outra figura.

Uma criança.

Lyra não reconheceu.

Ainda.


Vark conseguiu escapar do golpe de Kael.

A armadura negra se regenerou.

O general Nox recuou.

— Como?

Vark respondeu:

— O Núcleo Absoluto está conectado a mim.

Kael percebeu.

— Então se eu destruir o núcleo...

— Eu morro.

Vark sorriu.

— Exatamente.

Kael levantou a arma.

— Parece simples.

Vark abriu os braços.

— Mas se você destruir o núcleo...

A estrutura começou a tremer.

— Éterion também morrerá.

Kael congelou.

Vark continuou:

— Agora escolha.

— Mate-me.

— Ou salve o planeta.

Kael olhou para o núcleo.

Depois para Vark.

Pela primeira vez, o tirano não sorria.

Ele sabia que tinha conseguido colocar Kael exatamente onde queria.


Orion sentiu uma mudança no planeta.

Alguma coisa acontecera.

Ele olhou para o horizonte.

— Lyra.

O Guardião assentiu.

— Ela encontrou o segundo núcleo.

Orion fechou os olhos.

Conseguiu sentir a presença dela.

E percebeu algo assustador.

O núcleo secreto não estava apenas escondido.

Estava conectado diretamente a Lyra.

— Ela também foi escolhida.

— Sim.

— Por quê?

O Guardião respondeu:

— Porque Éterion precisa de mais de um herdeiro.

Orion abriu os olhos.

— Então por que me pediu para escolher um sucessor?

O Guardião sorriu.

— Eu nunca disse que seria apenas um.

Uma explosão gigantesca surgiu no horizonte.

A superarma havia iniciado um novo ciclo de carregamento.

O céu ficou negro.

As forças de Vark começaram a avançar novamente.

E, dentro do segundo núcleo, Lyra ouviu uma voz diferente de todas as anteriores.

Uma voz humana.

Jovem.

Assustada.

— Lyra...

Ela virou-se.

No centro da esfera dourada, uma silhueta começou a aparecer.

Era uma criança.

A mesma criança da visão.

Lyra deu um passo para trás.

— Quem é você?

A criança abriu os olhos.

E respondeu:

— Sou a primeira pessoa que Orion precisa salvar.


Do lado de fora, o Guardião dourado começou a desaparecer.

Orion segurou seu braço.

— Espere!

— Meu tempo acabou.

— Você não pode simplesmente ir embora.

— Posso.

— Por quê?

O Guardião olhou para o jovem.

— Porque agora você precisa aprender a proteger aquilo que não pode controlar.

Seu corpo transformou-se em partículas douradas.

Antes de desaparecer completamente, deixou uma última frase:

— E quando o verdadeiro inimigo despertar, não confie naquele que tiver o seu rosto.

Orion ficou imóvel.

Seu rosto.

O Caçador Branco.

O homem que dizia ser seu passado.

Então uma mensagem surgiu nos sistemas de Éterion.

Vark havia iniciado o ataque final.

E, ao mesmo tempo, no interior do segundo núcleo, Lyra percebeu que a criança diante dela não estava sozinha.

Havia milhares de silhuetas atrás dela.

Todas aguardavam.

Todas possuíam olhos azuis.

E uma delas caminhou para frente.

Orion sentiu sua presença imediatamente.

A mesma presença que o chamara desde o primeiro dia.

A mesma que havia permanecido escondida dentro do planeta.

A criança olhou para Lyra.

Depois para a escuridão atrás dela.

E sussurrou:

— Ele acordou.

No mesmo instante, Éterion inteiro tremeu.

As montanhas começaram a se mover.

Os oceanos se elevaram.

As rachaduras se abriram novamente.

E, muito abaixo do planeta, uma gigantesca mão começou a emergir do segundo núcleo.


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