A Última Defesa da Terra: CAPÍTULO 26 — A Ameaça Desconhecida
Os observatórios do planeta dos dissidentes permaneceram em alerta máximo durante horas.
A princípio, muitos cientistas acreditaram que os sensores estavam apresentando falhas. Nenhuma civilização conhecida possuía tecnologia capaz de produzir perturbações daquela magnitude. Entretanto, à medida que novas estações espalhadas por sistemas estelares diferentes enviavam seus relatórios, tornou-se impossível negar a realidade.
A mesma onda escura avançava por todos os mapas.
Não seguia rotas gravitacionais.
Não utilizava motores.
Também não parecia obedecer às leis conhecidas da física.
Ela simplesmente avançava.
Onde passava, estrelas desapareciam dos instrumentos de observação.
Algumas continuavam visíveis por alguns instantes, como ecos luminosos presos no passado, mas seus sinais gravitacionais desapareciam completamente.
Helena permaneceu imóvel diante do enorme mapa holográfico.
Jamais vira algo semelhante.
Atlas ampliava continuamente a resolução das imagens.
Cada novo cálculo piorava as previsões.
Sira aproximou-se lentamente.
— É ela?
O androide respondeu.
— Probabilidade superior a noventa e nove por cento.
Nenhum dos presentes precisou perguntar o significado.
A Escuridão deixara de ser uma hipótese histórica.
Agora possuía localização.
Velocidade.
Direção.
O ancião fechou os olhos durante alguns segundos.
— Passamos milhares de anos esperando este momento.
Ninguém respondeu.
Do lado de fora da assembleia, habitantes do planeta começavam a observar o céu com preocupação. Ainda não podiam enxergar a ameaça diretamente, mas as redes de comunicação transmitiam continuamente as informações dos observatórios.
Pela primeira vez em gerações, o medo espalhava-se entre uma população que havia escolhido abandonar a guerra.
Enquanto isso, na órbita, as naves dos Exilados também recebiam os mesmos dados.
O general alienígena permaneceu diante da enorme janela de observação da capitânia.
Durante muito tempo acreditara que ainda existia margem para preparar suas forças.
Os novos cálculos destruíam essa esperança.
Um oficial aproximou-se.
— Devemos manter as operações contra a Terra?
O comandante permaneceu em silêncio.
Os mapas luminosos refletiam sobre sua armadura.
Finalmente respondeu.
— Suspendam todos os ataques ofensivos.
Os oficiais olharam-se surpresos.
Jamais haviam ouvido semelhante ordem.
— Confirmado?
— Confirmado.
As transmissões espalharam-se rapidamente por toda a frota.
Diversos comandantes questionaram a decisão.
Outros obedeceram imediatamente.
Poucas horas depois, satélites humanos registravam um fenômeno inesperado.
As frotas alienígenas que cercavam diversas cidades começavam lentamente a recuar.
Canhões orbitais eram desligados.
Esquadrões de caça regressavam às bases.
No centro de comando da última cidade livre, ninguém compreendia o motivo.
Alguns acreditaram tratar-se de uma armadilha.
Outros imaginaram que a resistência finalmente havia vencido.
Atlas transmitiu uma mensagem criptografada diretamente para Helena.
Ela surgiu imediatamente nos grandes painéis do Conselho.
— Não é uma retirada.
Um general perguntou:
— Então o que é?
Atlas respondeu sem hesitar.
— Reorganização.
Helena completou:
— Existe uma ameaça comum.
As palavras espalharam um silêncio pesado pela sala.
Pela primeira vez desde o início da invasão, humanos e Exilados interrompiam grandes operações militares ao mesmo tempo.
A guerra mudava de direção.
Nos laboratórios subterrâneos da Terra, cientistas iniciaram imediatamente uma força-tarefa conjunta.
Todos os arquivos recuperados da biblioteca ancestral foram reunidos.
Também foram incluídos os dados obtidos nas naves alienígenas capturadas.
Atlas coordenava milhares de processadores simultaneamente.
Os Guardiões trabalhavam sem interrupção.
Cada unidade analisava uma parte diferente da informação.
Pela primeira vez desde sua criação, praticamente toda a inteligência artificial da resistência dedicava-se ao mesmo objetivo.
Descobrir o que era a Escuridão.
As primeiras respostas surgiram rapidamente.
Os registros mais antigos descreviam o fenômeno utilizando palavras diferentes.
Consumo.
Silêncio.
Fim.
Nenhuma definição técnica parecia suficiente.
Helena organizou todas as referências cronologicamente.
Pouco a pouco surgiu um padrão.
Sempre antes do desaparecimento de um sistema estelar, ocorria o mesmo conjunto de anomalias.
Oscilações gravitacionais.
Falhas nas comunicações quânticas.
Alterações na velocidade da luz.
Atlas ampliou as imagens.
Outro detalhe apareceu.
Em todos os registros existiam pequenas assinaturas energéticas idênticas às detectadas recentemente próximo à Arma Orbital dos Exilados.
O androide permaneceu imóvel durante vários segundos.
Depois compartilhou imediatamente a descoberta.
— Correlação encontrada.
Helena aproximou-se.
— Significa que eles estudavam esse fenômeno.
Atlas confirmou.
— Ou tentavam reproduzi-lo.
A hipótese provocou novo silêncio.
Se os Exilados realmente manipulavam parte daquela tecnologia, o risco tornava-se ainda maior.
Enquanto isso, no planeta dos dissidentes, pesquisadores humanos e alienígenas iniciavam um trabalho conjunto.
As diferenças entre suas formas de pensar produziam resultados surpreendentes.
Os cientistas humanos concentravam-se em engenharia.
Os alienígenas dedicavam-se principalmente à matemática e à física gravitacional.
Em poucas horas resolveram problemas que haviam permanecido insolúveis durante décadas.
Helena observava admirada.
— Perdemos tempo demais lutando uns contra os outros.
Sira respondeu com tristeza.
— Foi exatamente isso que nossos antepassados fizeram.
Atlas interrompeu a conversa.
Recebera novos dados.
Os sensores instalados em antigas sondas automáticas haviam captado algo inédito.
No limite da região escura surgiam enormes estruturas.
Inicialmente pareciam fragmentos de planetas.
Depois tornaram-se mais nítidas.
Não eram corpos celestes.
Também não eram naves.
Possuíam dimensões impossíveis.
Milhares de quilômetros de extensão.
Moviam-se lentamente entre as estrelas desaparecidas.
Nenhum motor era detectado.
Nenhuma emissão energética conhecida.
Era como se aquelas estruturas simplesmente existissem dentro da própria distorção espacial.
Helena ampliou uma das imagens.
Sua superfície parecia composta por incontáveis camadas móveis.
Grandes placas reorganizavam-se continuamente.
Em certos momentos lembravam cidades.
Depois transformavam-se em montanhas.
Em seguida assumiam formas completamente diferentes.
Atlas analisou durante vários minutos.
Os algoritmos de reconhecimento falharam.
Jamais encontrara qualquer estrutura semelhante.
Um dos Guardiões aproximou-se.
— Hipótese?
Atlas respondeu:
— Desconhecida.
A palavra provocou inquietação.
Desde o início da guerra, Atlas sempre apresentava probabilidades.
Cálculos.
Modelos.
Dessa vez não possuía resposta.
Enquanto isso, a notícia espalhava-se rapidamente entre os Exilados.
Diversos oficiais defendiam imediatamente uma ofensiva preventiva.
O general recusou.
— Não sabemos contra o que lutar.
No planeta dos dissidentes, representantes humanos solicitaram uma reunião urgente.
Pela primeira vez participaram também alguns oficiais enviados pelos Exilados.
O ambiente permaneceu extremamente tenso.
Durante minutos ninguém falou.
Foi Sira quem iniciou a conversa.
— Se continuarmos divididos...
Ela não precisou terminar.
Todos compreenderam.
Helena projetou as imagens obtidas pelos observatórios.
As gigantescas estruturas aproximavam-se lentamente.
Um oficial Exilado reconheceu imediatamente alguns símbolos.
— Os Arquivos Sombrios.
O general voltou-se para ele.
— Tem certeza?
— Li referências durante minha formação militar.
Atlas registrou imediatamente a informação.
— Explique.
O oficial respirou profundamente.
— Eram considerados apenas uma lenda.
Segundo antigos registros, antes mesmo dos Criadores existia outra civilização.
Muito mais antiga.
Ela também desapareceu.
Ninguém sabia como.
Helena olhou rapidamente para Atlas.
Mais uma peça surgia naquele imenso quebra-cabeça.
Os arquivos continuavam incompletos.
Mas sugeriam que inúmeras espécies haviam enfrentado o mesmo destino ao longo de milhões de anos.
A Escuridão talvez não fosse apenas uma ameaça.
Poderia representar um ciclo repetido incontáveis vezes.
Na Terra, a população começava lentamente a perceber que algo diferente acontecia.
As sirenes de ataque diminuíram.
Bombardeios tornaram-se raros.
Ao mesmo tempo, gigantescas fábricas voltaram a funcionar.
Novos estaleiros espaciais eram construídos.
Centenas de Guardiões recém-produzidos deixavam as linhas de montagem diariamente.
Os sobreviventes imaginavam que a resistência preparava uma grande ofensiva contra os alienígenas.
Poucos conheciam a verdade.
O verdadeiro conflito ainda nem começara.
Atlas regressou finalmente à Terra levando todos os dados recolhidos.
Foi recebido por milhares de pessoas.
Mas não houve celebrações.
A expressão dos cientistas revelava preocupação.
Durante uma reunião extraordinária do Conselho Mundial, Helena apresentou todas as descobertas.
Nenhum líder interrompeu a exposição.
Quando terminou, o silêncio permaneceu por longos segundos.
Um dos generais fez a pergunta inevitável.
— Conseguimos derrotar isso?
Helena olhou para Atlas.
O androide respondeu com absoluta honestidade.
— Informação insuficiente.
Era a primeira vez que admitia não possuir sequer uma estratégia inicial.
Mesmo assim, os preparativos começaram.
As fábricas aumentaram a produção.
As naves receberam novos sistemas desenvolvidos em conjunto por humanos e dissidentes.
Os Guardiões passaram por outra rodada de atualizações.
Centros científicos compartilhavam dados continuamente.
Pela primeira vez desde o início da invasão, praticamente toda a capacidade industrial da Terra trabalhava para enfrentar um inimigo ainda invisível.
Enquanto milhões de pessoas preparavam fortificações, treinavam pilotos e ampliavam as defesas orbitais, os observatórios do Sistema Solar registraram uma última alteração.
A região escura acelerava.
As gigantescas estruturas desconhecidas já podiam ser detectadas pelos telescópios mais potentes da humanidade.
A distância entre elas e a fronteira do Sistema Solar diminuía a cada hora.
E, pela primeira vez, um fraco sinal de origem desconhecida começou a atravessar o vazio interestelar em direção à Terra, repetindo continuamente uma sequência de pulsos que nenhum humano, alienígena ou Guardião conseguia traduzir.
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