A Última Defesa da Terra: CAPÍTULO 27 — Os Devoradores de Mundos

 O sinal desconhecido atravessou o Sistema Solar durante horas.

Nenhum observatório conseguiu determinar sua origem exata. A sequência de pulsos repetia-se continuamente, sempre com o mesmo intervalo, como se algo muito distante estivesse tentando comunicar-se utilizando uma linguagem completamente diferente de qualquer código conhecido.

Na Terra, laboratórios humanos dedicaram todos os seus recursos à tradução.

No planeta dos dissidentes, físicos alienígenas empregaram algoritmos desenvolvidos ao longo de milhares de anos.

Nem mesmo Atlas encontrou uma resposta imediata.

Os Guardiões distribuíram o trabalho entre milhões de processos simultâneos.

Mesmo assim, nenhuma hipótese apresentava coerência.

Helena permaneceu diante do enorme painel holográfico durante quase dois dias.

As linhas luminosas repetiam-se incessantemente.

Subitamente, um dos pesquisadores humanos levantou-se.

— Não é uma linguagem.

Todos voltaram os olhos para ele.

— É um padrão matemático.

Atlas aproximou imediatamente os cálculos.

Poucos segundos depois confirmou.

Os pulsos não formavam palavras.

Representavam coordenadas.

Mais precisamente, uma sequência contínua indicando diferentes regiões da galáxia.

Helena ampliou o mapa.

Cada coordenada correspondia exatamente a um sistema estelar desaparecido.

Os antigos registros dos Criadores confirmavam a coincidência.

O sinal não transmitia uma mensagem.

Registrava vítimas.

O silêncio tomou conta da sala.

Enquanto isso, a onda escura continuava avançando.

Novas estrelas deixavam de emitir sinais todos os dias.

As enormes estruturas detectadas nas fronteiras da região escura tornavam-se cada vez mais nítidas.

Agora era possível observar detalhes de sua superfície.

Elas não permaneciam estáticas.

Moviam-se lentamente ao redor dos sistemas condenados.

Grandes segmentos abriam-se como pétalas metálicas.

Depois fechavam-se novamente.

Sempre que esse movimento ocorria, mais uma estrela desaparecia dos sensores.

Atlas analisou milhares de horas de gravação.

Finalmente encontrou uma sequência completa.

Uma das gigantescas estruturas aproximou-se lentamente de um planeta habitado.

Não houve explosões.

Nem disparos.

Apenas uma enorme distorção espacial.

Pouco a pouco, o próprio planeta começou a desaparecer.

Primeiro as montanhas.

Depois os oceanos.

Em seguida toda a superfície.

Ao final do processo restava apenas vazio.

Nenhum fragmento.

Nenhum campo de destroços.

Como se o mundo jamais tivesse existido.

Helena respirou profundamente.

— Eles não destroem.

Atlas completou:

— Consomem.

As palavras espalharam um peso ainda maior entre os cientistas.

A confirmação levou imediatamente à convocação de uma conferência extraordinária.

Pela primeira vez representantes humanos, dissidentes e oficiais dos Exilados reuniram-se oficialmente no mesmo centro de comando.

O ambiente permanecia carregado de desconfiança.

Mas ninguém ignorava a realidade.

O general alienígena observava silenciosamente as imagens.

Sua expressão endureceu.

— Eles chegaram antes do previsto.

Helena voltou-se para ele.

— Você sabe quem são?

O comandante permaneceu alguns segundos em silêncio.

Depois respondeu.

— Nós os chamamos de Devoradores.

Atlas registrou imediatamente a informação.

O general continuou.

— Esse nome não descreve sua natureza.

Apenas o que fazem.

Projetou antigos registros militares.

Os arquivos mostravam centenas de civilizações diferentes.

Todas desaparecidas.

Algumas haviam tentado resistir.

Outras fugiram.

Nenhuma sobrevivera.

Um dos oficiais humanos perguntou:

— São seres vivos?

O comandante respondeu:

— Ninguém sabe.

As imagens continuavam surgindo.

Algumas mostravam enormes estruturas semelhantes às detectadas recentemente.

Outras revelavam formas menores.

Escuras.

Quase invisíveis.

Pareciam desprender-se das gigantescas construções.

Depois mergulhavam na superfície dos planetas.

Poucas horas mais tarde, o consumo começava.

Helena permaneceu imóvel.

Jamais imaginara enfrentar um inimigo tão estranho.

Atlas ampliou novamente as imagens.

Dessa vez encontrou um detalhe inesperado.

Próximo a uma das estruturas principais existiam dezenas de objetos menores.

Inicialmente pareciam destroços.

Depois tornaram-se mais nítidos.

Eram naves.

Milhares delas.

Completamente negras.

Nenhum motor visível.

Nenhuma assinatura térmica.

Moviam-se apenas quando surgiam novos planetas diante delas.

Atlas analisou cuidadosamente os padrões.

— Organização encontrada.

Helena aproximou-se.

— Como?

— Formação militar.

O silêncio voltou a dominar a sala.

Os Devoradores não eram apenas um fenómeno natural.

Também possuíam estratégia.

Enquanto isso, observatórios espalhados pelo Sistema Solar detectaram novas alterações.

Uma pequena frota automática enviada décadas antes para estudar os limites da heliosfera interrompeu subitamente todas as comunicações.

Poucos minutos depois, apenas um último pacote de dados conseguiu atravessar o espaço.

As imagens chegaram extremamente danificadas.

Mesmo assim eram suficientes.

Mostravam uma gigantesca sombra surgindo lentamente diante das sondas.

Depois o sinal desaparecia.

Atlas analisou rapidamente a distância.

Helena fez os cálculos.

O resultado deixou todos em silêncio.

Mantendo a velocidade atual, o primeiro grupo de Devoradores alcançaria o Sistema Solar muito antes das previsões anteriores.

A Terra tornara-se o próximo alvo.

Nenhum comandante contestou.

Não existia margem para dúvidas.

As fábricas receberam ordem máxima de produção.

Os estaleiros espaciais passaram a trabalhar continuamente.

Guardiões recém-construídos deixavam diariamente as linhas de montagem.

Pilotos treinavam sem descanso.

Entretanto, todos compreendiam que os recursos humanos continuavam insuficientes.

Foi então que o general alienígena tomou uma decisão inesperada.

Levantou-se diante do Conselho.

— Oferecemos ajuda.

O silêncio tornou-se absoluto.

Diversos generais humanos reagiram imediatamente.

— Depois de tudo o que fizeram?

Outro completou:

— Milhões morreram por causa de vocês.

O comandante abaixou lentamente a cabeça.

— Eu sei.

Helena observou cuidadosamente sua expressão.

Não havia arrogância.

Nem desafio.

Apenas cansaço.

O general continuou.

— Mas, se a Terra cair, nenhum de nós sobreviverá.

Atlas permaneceu imóvel durante vários segundos.

Depois dirigiu-se ao Conselho.

— Probabilidade de sobrevivência aumenta significativamente com cooperação.

As discussões prolongaram-se durante horas.

Velhas feridas impediam qualquer decisão rápida.

Soldados que haviam perdido familiares recusavam-se a lutar ao lado dos antigos invasores.

Da mesma forma, muitos oficiais Exilados ainda desconfiavam profundamente dos humanos.

Mesmo assim, a realidade impunha-se.

Ao final da reunião foi aprovada uma medida provisória.

Uma força conjunta seria criada.

Limitada.

Experimental.

Atlas assumiria o comando operacional.

Helena coordenaria as equipes científicas.

O general alienígena controlaria suas próprias unidades.

Nos dias seguintes iniciou-se um processo nunca imaginado por qualquer sobrevivente da guerra.

Engenheiros humanos trabalharam ao lado de técnicos Exilados.

Guardiões passaram a utilizar armamentos desenvolvidos pelas duas civilizações.

Pilotos treinavam formações mistas.

Pesquisadores compartilhavam conhecimentos antes considerados segredos militares.

Nem tudo funcionava.

Havia desconfiança.

Discussões.

Conflitos culturais.

Mas também surgiam resultados extraordinários.

As novas naves híbridas demonstravam desempenho muito superior.

Escudos energéticos tornavam-se mais resistentes.

Motores gravitacionais consumiam menos energia.

Atlas supervisionava pessoalmente todos os testes.

Enquanto isso, Sira organizava outra frente.

As comunidades pacíficas iniciavam gigantescas operações humanitárias.

Hospitais.

Centros de evacuação.

Arcas biológicas.

Se a guerra falhasse, ao menos parte da vida terrestre deveria sobreviver.

Crianças humanas eram vistas brincando com crianças alienígenas pela primeira vez.

A cena provocava estranheza.

Mas também esperança.

Entretanto, os observatórios interromperam momentaneamente esse sentimento.

Uma nova transmissão chegara da fronteira do Sistema Solar.

Não partia das sondas.

Elas já haviam desaparecido.

O sinal vinha diretamente dos telescópios automáticos instalados em Plutão.

As imagens apareceram lentamente.

Todos permaneceram imóveis.

A primeira estrutura dos Devoradores acabava de entrar oficialmente no Sistema Solar.

Seu tamanho ultrapassava qualquer previsão.

Milhares de quilômetros de extensão.

Ao seu redor moviam-se incontáveis embarcações menores.

Muito atrás surgiam outras.

Depois mais outras.

Até que o fundo do espaço parecia completamente ocupado por aquelas formas negras.

Atlas analisou imediatamente os números.

Os processadores demoraram vários segundos para concluir.

Quando finalmente apresentou o resultado, ninguém falou.

A quantidade estimada de estruturas inimigas superava toda a soma das frotas humanas, dissidentes e Exiladas reunidas.

Mesmo unidas, as três civilizações enfrentariam um adversário numericamente muito superior.

O general aproximou-se lentamente da projeção.

Observou as gigantescas formas negras avançando em silêncio.

Depois voltou-se para Atlas.

— Agora começa a verdadeira guerra.

Enquanto milhões de habitantes da Terra observavam, sem compreender completamente o motivo da mobilização global, a primeira frota conjunta formada por humanos, Guardiões, dissidentes e antigos invasores deixava lentamente a órbita terrestre.

Nenhum deles sabia se seria possível deter os Devoradores.

Mas todos compreendiam que, pela primeira vez na história conhecida da galáxia, espécies que haviam passado milênios em guerra escolheram lutar lado a lado contra um inimigo comum que ameaçava consumir não apenas um planeta, mas toda a vida existente entre as estrelas.

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