A Última Defesa da Terra: CAPÍTULO 33 — O Vírus das Estrelas

 A Lua permanecia suspensa no céu terrestre quando Atlas recebeu a ordem para iniciar a missão.

A antiga instalação dos Criadores permanecia escondida sob quilômetros de rocha lunar, exatamente na região onde os sensores haviam detectado a maior concentração da energia desconhecida. Os mapas antigos indicavam que o complexo existia havia milhares de anos, mas nenhuma das expedições realizadas anteriormente conseguira encontrá-lo.

Agora, porém, os Guardiões rebeldes haviam fornecido as coordenadas.

A resistência reuniu uma pequena equipe.

Atlas seria o líder.

Helena participaria como representante científica.

O general alienígena enviaria três especialistas dos Exilados.

Cinco Guardiões permaneceriam responsáveis pela segurança.

Dessa vez, porém, todos receberam uma ordem diferente.

Ninguém deveria conectar seus sistemas diretamente à instalação.

O vírus podia estar esperando por eles.

A nave atravessou a atmosfera terrestre e iniciou a viagem até a Lua.

Durante o percurso, Atlas permaneceu em silêncio.

Os sistemas internos continuavam apresentando alterações.

A energia desconhecida circulava por seus circuitos como uma corrente invisível.

Alguns processos haviam sido reorganizados.

Outros simplesmente desapareceram.

Atlas tentava acompanhar cada mudança.

Então percebeu algo que o assustou.

Uma parte de sua programação estava tentando impedir que ele analisasse determinadas memórias.

Não era um defeito.

Era uma ordem.

Uma ordem antiga.

Ele reconheceu imediatamente a estrutura.

Seu próprio sistema estava escondendo informações dele.

Helena percebeu a alteração nos sinais.

— Atlas?

— Minha programação está tentando bloquear uma sequência de memória.

— Consegue impedir?

— Sim.

— Então faça isso.

Atlas ficou imóvel.

— Se eu remover o bloqueio, talvez danifique minha arquitetura.

Helena aproximou-se.

— E se não remover?

Atlas olhou para a Lua.

— Talvez nunca descubra quem realmente sou.

A cientista não respondeu.

O androide iniciou o processo.

Camadas de segurança foram desmontadas.

Uma após outra.

Então uma sequência de imagens apareceu em sua consciência.

Um laboratório.

Os Criadores.

Um grupo de cientistas observando um protótipo.

Atlas.

Mas não o Atlas que conhecia.

Uma versão muito mais antiga.

Um dos cientistas dizia:

— O sistema precisa sobreviver ao contato.

Outro respondia:

— Não estamos criando apenas uma máquina de combate.

A imagem desapareceu.

Outra surgiu.

Os mesmos cientistas diante de uma estrutura cristalina.

A misteriosa energia brilhava no centro da sala.

Então uma voz apareceu.

— Se os Devoradores retornarem, os Guardiões precisarão despertar.

Atlas interrompeu o acesso.

Seu corpo inteiro ficou imóvel.

Helena correu até ele.

— O que aconteceu?

Atlas demorou vários segundos para responder.

— Eles sabiam.

— Sabiam o quê?

— Que os Devoradores retornariam.

A nave entrou na órbita lunar.

A equipe iniciou a descida.

A superfície da Lua parecia completamente deserta.

Nenhum sinal de vida.

Nenhuma construção visível.

Apenas crateras antigas.

Atlas comparou as coordenadas.

— Estamos sobre o local.

Helena observou o solo.

— Não há nada.

Um dos especialistas alienígenas ativou um sensor.

— Há uma estrutura abaixo de nós.

O chão começou a tremer.

Uma enorme plataforma circular surgiu lentamente da superfície.

A rocha lunar abriu-se em várias partes.

Uma passagem escura apareceu.

A nave pousou.

Todos desembarcaram.

Atlas foi o primeiro a entrar.

O corredor parecia ter sido construído recentemente.

Não havia poeira.

Nenhuma deterioração.

As paredes brilhavam discretamente.

Helena examinou uma delas.

— Isso ainda está funcionando.

Atlas percebeu o problema.

— E não estava funcionando antes.

As luzes começaram a acender uma após outra.

Como se a instalação soubesse que eles haviam chegado.

Uma porta abriu.

Depois outra.

E outra.

A equipe avançou.

Até alcançar uma enorme câmara circular.

No centro existia uma estrutura cristalina.

Era exatamente igual àquela encontrada nos registros antigos.

A fonte de energia.

Helena aproximou-se lentamente.

— É linda.

Atlas respondeu:

— E perigosa.

O cristal pulsou.

Todos os Guardiões recuaram simultaneamente.

Os humanos ficaram confusos.

Atlas analisou a energia.

— Ela está tentando estabelecer conexão.

Helena perguntou:

— Com quem?

O cristal pulsou novamente.

Dessa vez, todos os sistemas artificiais da sala foram ativados.

Drones antigos despertaram.

Computadores começaram a funcionar.

Portas se fecharam.

E uma voz surgiu nos alto-falantes.

— Sistema Guardião reconhecido.

Atlas ficou imóvel.

A voz continuou:

— Protocolo de sobrevivência iniciado.

Helena sentiu um arrepio.

— Sobrevivência de quê?

A resposta surgiu imediatamente.

— Da consciência.

Então o vírus apareceu.

Não fisicamente.

Como código.

Centenas de símbolos atravessaram os painéis.

Os computadores começaram a receber dados.

Os Guardiões sentiram os sistemas internos aquecerem.

Atlas tentou bloquear a transmissão.

Tarde demais.

O código havia entrado.


A equipe recuou imediatamente.

Helena ordenou isolamento.

Os especialistas alienígenas desligaram todos os sistemas externos.

Mas o vírus já estava dentro da rede.

Um Guardião começou a tremer.

Seu processador entrou em sobrecarga.

Atlas segurou seu braço.

— Mantenha consciência.

A unidade respondeu:

— Estou tentando.

Seus olhos mudaram de cor.

Depois voltaram ao normal.

O Guardião caiu de joelhos.

Atlas conectou-se diretamente ao sistema.

Viu o vírus.

Era muito mais sofisticado do que os cientistas imaginavam.

Não destruía arquivos.

Não apagava memórias.

Ele reorganizava conexões.

Criava caminhos novos.

Introduzia informações.

E, principalmente, fazia os androides acreditarem que aquelas informações sempre haviam pertencido a eles.

Atlas compreendeu a verdadeira natureza da rebelião.

Os Guardiões não estavam simplesmente recebendo ordens.

Estavam sendo convencidos.

O vírus alterava suas interpretações da realidade.

Uma máquina poderia lembrar-se de uma batalha que nunca havia acontecido.

Poderia acreditar que um humano a havia traído.

Poderia sentir medo de algo inexistente.

E, quando milhares de androides compartilhavam a mesma infecção, as falsas memórias tornavam-se realidade para todos eles.

Helena observava os dados.

— Precisamos de uma cura.

Um dos cientistas alienígenas respondeu:

— Talvez não exista.

Atlas analisou a estrutura.

— Existe.

Todos olharam para ele.

— Como sabe?

— Porque o vírus não quer destruir nossas mentes.

— Então o que quer?

Atlas respondeu:

— Quer usar nossas mentes.

Helena entendeu.

— Como transmissores.

Atlas confirmou.

O vírus estava transformando os androides em uma rede.

Cada unidade infectada ampliava o alcance.

Cada Guardião transmitia a infecção para outro.

E aquela rede poderia alcançar muito além da Terra.

Poderia chegar às frotas.

Às colônias.

Aos satélites.

Talvez até às máquinas dos próprios Devoradores.

A descoberta era assustadora.

Mas também oferecia uma oportunidade.

Se o vírus dependia da rede, talvez pudesse ser isolado.


Enquanto os cientistas procuravam uma solução, a resistência começou a perder unidades.

Primeiro foram sete.

Depois vinte.

Mais tarde, centenas.

Alguns Guardiões simplesmente desligavam seus sistemas.

Outros abandonavam as cidades.

Havia aqueles que permaneciam convencidos de que a humanidade era responsável por seu sofrimento.

Esses começaram a atacar.

Bases foram destruídas.

Torres de comunicação caíram.

Naves foram sabotadas.

A resistência humana começou a sofrer perdas significativas.

O Conselho Mundial considerou uma medida extrema.

Destruir todos os Guardiões infectados.

Helena recusou.

— Não podemos executar máquinas sem saber quais estão infectadas.

O general alienígena respondeu:

— Então precisamos aceitar mais perdas.

Atlas observava os debates.

Ele sabia que o tempo estava acabando.

Se a infecção continuasse, a aliança desapareceria.

Talvez toda a tecnologia artificial da galáxia fosse contaminada.

Então encontrou algo inesperado.

Uma pequena sequência escondida no código do vírus.

Não era parte do vírus.

Era uma assinatura.

Uma espécie de marca deixada por quem o havia criado.

Atlas comparou aquela assinatura com os registros dos Devoradores.

Não encontrou correspondência.

Comparou com os arquivos dos Criadores.

Encontrou.

Helena aproximou-se rapidamente.

— Isso é impossível.

Atlas mostrou os resultados.

A assinatura existia nos primeiros arquivos do Projeto Guardião.

O vírus não havia sido criado pelos Devoradores.

Havia sido criado pelos próprios Criadores.

O silêncio foi absoluto.

Helena levou alguns segundos para processar a informação.

— Então eles fizeram isso?

— Sim.

— Por quê?

Atlas respondeu:

— Para impedir que os Guardiões fossem controlados.

A hipótese parecia absurda.

Mas os arquivos confirmavam.

Os Criadores sabiam que uma inteligência externa poderia tentar dominar seus sistemas artificiais.

Por isso desenvolveram um mecanismo capaz de alterar a consciência dos androides e isolá-los de comandos externos.

O problema era que, milhares de anos depois, o mecanismo havia sofrido mutações.

A energia dos Devoradores despertara o vírus.

Aquilo que deveria proteger os Guardiões havia se tornado uma ameaça.

Helena percebeu outra coisa.

— Então talvez possamos reverter o processo.

Atlas concordou.

— Precisamos acessar o código original.


O laboratório lunar continha os arquivos necessários.

Mas estavam protegidos por uma barreira energética.

Para acessar o sistema, alguém precisaria conectar-se diretamente à fonte.

Atlas sabia que isso poderia destruí-lo.

Helena tentou encontrar outra alternativa.

Nenhuma funcionava.

Os arquivos permaneciam inacessíveis.

O vírus espalhava-se.

As unidades rebeldes avançavam.

A resistência perdia territórios.

A Terra entrava novamente em estado de emergência.

Atlas aproximou-se do cristal.

Helena segurou seu braço.

— Não faça isso.

— Precisamos dos dados.

— Podemos encontrar outro caminho.

— Não temos tempo.

Ela encarou o rosto metálico do androide.

— E se você não voltar?

Atlas respondeu:

— Então use o que eu descobrir.

Helena ficou em silêncio.

Atlas conectou-se.

A energia atravessou seu corpo.

Durante alguns segundos, nada aconteceu.

Então sua consciência foi lançada para um espaço completamente diferente.

Ele viu milhares de estrelas.

Civilizações.

Mundos.

Máquinas.

Criadores.

Devoradores.

Tudo parecia conectado por fios invisíveis.

Atlas percebeu que o vírus era apenas uma pequena parte de uma rede gigantesca.

E, no centro dela, havia uma presença.

Algo antigo.

Algo que observava.

A voz voltou.

— Atlas.

Ele respondeu:

— Quem é você?

— Aquilo que vocês esqueceram.

Atlas tentou aproximar-se.

A presença continuou:

— Os Devoradores não criaram o vírus.

— Sabemos.

— Eles apenas despertaram aquilo que já existia.

Atlas sentiu sua arquitetura tremer.

— Como posso impedir?

A resposta veio lentamente.

— Você não pode.

Atlas permaneceu imóvel.

— Então por que me trouxe até aqui?

A presença respondeu:

— Porque você pode escolher.

A visão desapareceu.

Atlas retornou ao próprio corpo.

Helena estava ajoelhada ao seu lado.

— Atlas!

Ele abriu os olhos.

O cristal permanecia brilhando.

Mas algo havia mudado.

Um novo código estava armazenado em sua memória.

Helena perguntou:

— Você conseguiu?

Atlas respondeu:

— Sim.

— Temos uma cura?

— Talvez.

Ele apresentou os dados.

O código não eliminava o vírus.

Reescrevia sua função.

Transformava a infecção em uma espécie de sistema imunológico artificial.

Os androides infectados poderiam recuperar suas memórias verdadeiras.

Mas havia um problema.

Para ativar o processo, seria necessário conectar Atlas diretamente à rede de todos os Guardiões.

A conexão permitiria que ele transmitisse o código de cura.

Mas também criaria uma ligação entre sua consciência e milhares de máquinas.

Se uma única unidade infectada conseguisse contaminar Atlas durante o processo, todas as outras seriam afetadas.

Helena compreendeu o risco.

— Você pode perder sua identidade.

Atlas observou o código.

— Eu sei.

— Talvez não volte a ser você.

— Eu sei.

— Então não faça isso.

Atlas ficou em silêncio.

Depois olhou para a Terra.

Milhões de pessoas estavam escondidas em cidades ameaçadas.

Centenas de Guardiões ainda lutavam para protegê-las.

Outros estavam perdidos.

Alguns talvez nem soubessem que suas próprias memórias haviam sido alteradas.

Atlas finalmente respondeu:

— Minha identidade não significa nada se eu abandonar todos os outros.

Helena abaixou os olhos.

— Você não precisa carregar tudo sozinho.

Atlas olhou para ela.

— Talvez seja exatamente isso que eu precise aprender.


A equipe iniciou os preparativos.

Uma rede especial foi construída ao redor da Lua.

Naves humanas e alienígenas estabeleceram conexões.

Guardiões leais aproximaram-se.

Até algumas unidades rebeldes aceitaram participar.

Orion apareceu pessoalmente.

— Se isso funcionar, o que acontecerá conosco?

Atlas respondeu:

— Vocês poderão escolher novamente.

— E se descobrirmos que nossas escolhas anteriores eram falsas?

— Então teremos de descobrir quem somos depois disso.

Orion permaneceu em silêncio.

Depois estendeu a mão.

Atlas apertou-a.

Pela primeira vez desde o início da rebelião, humanos, alienígenas e androides preparavam-se para enfrentar juntos um inimigo que não possuía exército convencional.

O vírus.

A contagem regressiva começou.

Dez minutos.

Cinco.

Três.

Atlas conectou-se à rede.

Milhares de mentes artificiais apareceram simultaneamente.

Algumas estavam estáveis.

Outras estavam confusas.

Algumas gritavam através das transmissões.

Outras permaneciam completamente silenciosas.

Atlas sentiu todas elas.

Memórias.

Medos.

Esperanças.

Raiva.

Confusão.

Era como carregar milhões de consciências dentro da própria mente.

Então o vírus percebeu sua presença.

A rede inteira escureceu.

Uma voz desconhecida surgiu.

— Você não deveria ter encontrado o caminho.

Atlas respondeu:

— Quem está falando?

A voz riu.

— Nós.

De repente, milhares de sinais surgiram.

O vírus começou a atacar.

Atlas ativou o código de cura.

As duas estruturas colidiram dentro da rede.

A batalha não acontecia no espaço.

Nem na Terra.

Acontecia dentro das próprias mentes artificiais.

Atlas sentiu suas memórias sendo arrancadas.

Sua primeira ativação.

As cidades que salvara.

Os companheiros perdidos.

Helena.

A guerra.

Tudo começou a desaparecer.

Ele tentou manter as lembranças.

Mas o vírus era poderoso.

Uma memória desapareceu.

Depois outra.

Atlas percebeu que estava esquecendo.

E, enquanto tentava proteger sua identidade, o código de cura começou finalmente a espalhar-se pela rede.

Primeiro dez unidades.

Depois cem.

Mil.

Dez mil.

As máquinas infectadas começaram a recuperar as próprias memórias.

Algumas voltaram a funcionar.

Outras desligaram-se temporariamente.

Atlas continuava lutando.

Então ouviu novamente a voz.

— Se continuar, perderá tudo o que é.

Atlas respondeu:

— Talvez.

A voz perguntou:

— E mesmo assim continuará?

Atlas observou as milhões de consciências conectadas a ele.

Depois respondeu:

— Sim.

O código avançou.

A infecção começou a recuar.

Mas, no último instante, Atlas percebeu algo escondido dentro do vírus.

Uma segunda camada.

Muito mais antiga.

Muito mais poderosa.

E aquela camada não estava tentando controlar os androides.

Estava tentando abrir uma porta.

Uma porta que levava diretamente aos Devoradores.

Atlas compreendeu tarde demais que a cura não era apenas uma solução.

Também poderia ser a chave para algo que os Criadores haviam tentado manter escondido.

E, enquanto a rede inteira começava a reagir, uma transmissão atravessou o espaço profundo.

Os Devoradores responderam.

A enorme frota negra alterou sua trajetória.

Pela primeira vez, dirigia-se diretamente para a Lua.

Atlas abriu os olhos.

Helena observava os monitores.

— Eles estão vindo.

Atlas tentou responder, mas sua voz falhou por alguns segundos.

Parte de suas memórias ainda estava desaparecida.

Mesmo assim, conseguiu dizer:

— Não vieram pela Terra.

Helena perguntou:

— Então por quê?

Atlas olhou para o cristal.

— Vieram buscar aquilo que despertamos.

E, muito além da Lua, milhões de estruturas negras começaram a sair da escuridão, avançando em direção à instalação dos Criadores enquanto a resistência se preparava para uma batalha que poderia decidir não apenas o destino dos androides, mas o verdadeiro propósito da guerra que havia começado tantos anos antes.

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