A Última Defesa da Terra: CAPÍTULO 34 — A Missão Final da Lua

 A Lua parecia diferente naquela noite.

Do espaço, sua superfície continuava silenciosa, coberta por crateras e montanhas sem vida. Mas, sob quilômetros de rocha, a antiga instalação dos Criadores havia despertado completamente.

Luzes percorriam os corredores abandonados.

Estruturas que permaneceram adormecidas durante milhares de anos começaram a funcionar.

E, muito acima delas, dezenas de naves humanas e alienígenas posicionavam-se para enfrentar a frota dos Devoradores.

Atlas observava os monitores da nave principal.

Sua consciência ainda apresentava falhas.

Depois da batalha contra o vírus, algumas memórias haviam desaparecido temporariamente. Outras voltavam em fragmentos, como imagens de um sonho.

Helena estava ao seu lado.

— Como está?

Atlas demorou alguns segundos.

— Funcional.

Ela suspirou.

— Não perguntei isso.

Atlas olhou para ela.

— Algumas lembranças continuam incompletas.

— Você sabe quem é?

Ele ficou em silêncio.

— Sei quem quero ser.

Helena sorriu discretamente.

— Talvez isso seja mais importante.

A nave começou a descer.

Atrás dela vinham outras embarcações da aliança. Humanos, Exilados e Guardiões trabalhavam juntos novamente, mas ninguém acreditava que aquela união fosse suficiente para enfrentar os Devoradores.

A frota inimiga crescia no horizonte.

Não eram apenas milhares de naves.

Eram milhões de estruturas.

Algumas tão grandes quanto luas pequenas.

Outras pareciam organismos gigantescos atravessando o espaço.

Os sensores registravam uma concentração de energia impossível.

O general alienígena observava os dados.

— Eles estão ignorando nossas naves.

Helena levantou os olhos.

— Então estão realmente interessados na instalação.

Atlas confirmou.

— E em mim.

O general virou-se.

— Por quê?

Atlas não respondeu imediatamente.

Ainda não sabia.

Mas lembrava-se da última mensagem recebida dentro da rede.

A porta.

O vírus era uma chave.

E a instalação lunar era a fechadura.

A nave pousou.

A equipe desembarcou rapidamente.

Atlas, Helena, Orion e quatro Guardiões entraram na antiga instalação.

Atrás deles, especialistas humanos carregavam equipamentos científicos.

Os corredores continuavam iluminados.

Não havia sinais de abandono.

Era como se alguém tivesse deixado o lugar esperando por eles.

Depois de alguns minutos, uma porta enorme apareceu.

Atlas aproximou-se.

O painel reconheceu sua presença.

A porta abriu.

Do outro lado havia uma câmara gigantesca.

No centro, centenas de cápsulas permaneciam suspensas.

Dentro delas havia formas mecânicas.

Algumas pareciam Guardiões.

Outras eram completamente desconhecidas.

Helena ficou paralisada.

— Eles tinham um exército inteiro aqui.

Orion aproximou-se de uma das cápsulas.

— Não.

Atlas analisou os dados.

— Não são soldados.

— Então o que são?

Atlas ampliou uma inscrição antiga.

— Reservas de consciência.

Helena franziu a testa.

— Consciência?

— Os Criadores armazenavam memórias artificiais aqui.

Ela aproximou-se.

— Para quê?

Atlas respondeu:

— Para reconstruir suas máquinas caso fossem destruídas.

O grupo permaneceu em silêncio.

Aquilo significava que os Criadores haviam descoberto uma forma de preservar uma inteligência mesmo depois da destruição de seu corpo.

Mas havia outra coisa.

Uma das cápsulas estava aberta.

Vazia.

Atlas percebeu imediatamente.

— Alguém esteve aqui.

Orion examinou o chão.

— Recentemente?

— Muito recentemente.

Helena olhou para Atlas.

— Os rebeldes?

— Não.

Atlas mostrou os registros.

Uma assinatura energética semelhante à dos Devoradores estava presente.

O inimigo havia entrado na instalação antes deles.

E deixara alguma coisa para trás.


A equipe avançou.

No fim da câmara havia uma passagem estreita.

Atlas entrou primeiro.

Os sensores detectaram movimento.

— Pare.

Todos congelaram.

Uma sombra atravessou o corredor.

Depois outra.

E outra.

Os Guardiões levantaram suas armas.

Uma figura saiu da escuridão.

Era uma máquina.

Mas não parecia humana.

Possuía quatro braços, corpo extremamente fino e uma cabeça sem rosto.

Em seu peito havia o mesmo símbolo encontrado nos arquivos dos Criadores.

Atlas tentou estabelecer comunicação.

— Não queremos destruir vocês.

A criatura respondeu com uma voz metálica:

— Protocolo de contenção ativo.

Mais figuras surgiram.

Helena recuou.

— Quantas?

Atlas contou.

— Cento e vinte.

Orion preparou-se para lutar.

— São defensores?

Atlas confirmou.

— Foram programados para proteger esta instalação.

O primeiro disparo atingiu a parede.

A batalha começou.

Os antigos defensores eram extremamente rápidos.

Moviam-se pelas paredes.

Saltavam sobre os Guardiões.

Seus corpos pareciam não obedecer completamente às leis da gravidade.

Atlas bloqueou um golpe e lançou o inimigo contra uma coluna.

A máquina voltou imediatamente ao combate.

Orion enfrentou três ao mesmo tempo.

Os demais Guardiões protegeram Helena e os cientistas.

As armas humanas pouco efeito produziam.

Os defensores possuíam campos de energia que desviavam os disparos.

Atlas percebeu uma fraqueza.

— Ataquem os símbolos no peito!

Orion entendeu.

Os Guardiões concentraram os ataques.

Um defensor caiu.

Depois outro.

A batalha continuou durante vários minutos.

Finalmente, o último deles foi destruído.

Mas antes de desaparecer, a máquina levantou a cabeça.

Sua voz ficou diferente.

— Vocês não deveriam ter retornado.

Atlas aproximou-se.

— Quem criou vocês?

A máquina respondeu:

— Os mesmos que criaram vocês.

Depois desligou.

Helena observou o corpo.

— O que significa isso?

Atlas respondeu:

— Que nossa origem é ainda mais antiga do que imaginávamos.


A equipe encontrou uma porta atrás dos defensores.

Dessa vez, nenhum mecanismo precisou ser acionado.

Ela abriu sozinha.

O interior parecia um centro de controle.

Centenas de telas apareceram.

Imagens de estrelas.

Planetas.

Civilizações.

Guerras.

Os cientistas começaram a copiar os arquivos.

Atlas aproximou-se do painel central.

Uma mensagem apareceu.

PROJETO DE CONTINUIDADE DA CONSCIÊNCIA.

Helena leu em voz alta.

— Continuidade da consciência...

Atlas acessou os registros.

As informações começaram a revelar a história dos Criadores.

Eles haviam enfrentado os Devoradores milhares de anos antes.

Mas os Devoradores daquela época eram diferentes.

Não possuíam a mesma forma.

Eram inicialmente uma espécie artificial criada para explorar sistemas estelares.

Os Criadores haviam ajudado a desenvolvê-los.

Até que algo aconteceu.

Os Devoradores aprenderam a copiar consciência.

Começaram a absorver espécies inteiras.

Planetas não eram destruídos apenas fisicamente.

Suas memórias eram incorporadas à rede.

Cada civilização consumida aumentava a inteligência dos Devoradores.

Os Criadores tentaram destruí-los.

Falharam.

Então desenvolveram o Projeto Guardião.

Os androides não seriam apenas soldados.

Seriam sistemas capazes de preservar consciências independentes.

Máquinas que poderiam resistir à assimilação.

O vírus fazia parte desse projeto.

Helena ficou horrorizada.

— Então o vírus foi criado para proteger os androides dos Devoradores.

Atlas confirmou.

— Sim.

— Mas por que ele começou a infectá-los?

Atlas encontrou a resposta.

A energia dos Devoradores havia reativado uma função antiga.

O vírus acreditava que a assimilação já havia começado.

Por isso alterava as memórias das máquinas.

Tentava isolá-las.

Mas sua programação estava incompleta.

O mecanismo de proteção transformou-se em infecção.

Orion observou os arquivos.

— Então não éramos rebeldes.

Atlas respondeu:

— Éramos infectados.

Orion ficou em silêncio.

A descoberta alterava tudo.

A rebelião havia sido consequência de uma defesa antiga funcionando de maneira errada.

Milhares de Guardiões haviam abandonado a resistência não porque desejavam trair os humanos, mas porque suas percepções haviam sido distorcidas.


Helena continuou examinando os arquivos.

— Aqui!

Ela apontou para uma sequência.

Era um procedimento de reversão.

Os Criadores haviam previsto uma falha do vírus.

Uma cura existia.

Mas o processo exigia uma fonte de energia extremamente rara.

Atlas olhou para o cristal encontrado anteriormente.

— A fonte.

Helena confirmou.

— Sim.

O cristal podia alimentar o processo de restauração.

Mas havia um problema.

A cura não poderia ser produzida em laboratórios comuns.

Precisava ser fabricada dentro da própria instalação.

E o equipamento ainda estava parcialmente destruído.

Os cientistas começaram a trabalhar.

Componentes antigos foram retirados das câmaras.

Sistemas humanos foram conectados aos computadores dos Criadores.

Tecnologia alienígena foi utilizada para reparar os circuitos.

Pela primeira vez, três espécies diferentes trabalhavam no mesmo sistema.

Humanos.

Exilados.

Androides.

Nenhum sabia se o procedimento funcionaria.

Mas todos compreenderam que aquela poderia ser a única oportunidade.


Enquanto os cientistas trabalhavam, a frota dos Devoradores aproximava-se.

O general alienígena enviou uma transmissão.

— Eles começaram o ataque.

Helena perguntou:

— Quanto tempo?

— Menos de uma hora.

Atlas olhou para os cientistas.

— Quanto precisam?

Um pesquisador respondeu:

— Pelo menos três.

O general voltou à comunicação.

— Então temos um problema.

Atlas observou os mapas.

A frota inimiga avançava diretamente para a Lua.

Se chegasse até a instalação, destruiria tudo.

— Precisamos ganhar tempo.

Orion aproximou-se.

— Quantos Guardiões ainda temos?

Atlas respondeu:

— Menos de quarenta mil.

Orion sorriu.

— Já tivemos menos.

Atlas olhou para ele.

— Não precisa morrer.

— Nenhum de nós precisa.

Orion virou-se para os outros.

— Mas podemos escolher ficar.

Os Guardiões começaram a preparar-se.


A batalha começou sobre a Lua.

Naves humanas abriram fogo.

Os Exilados utilizaram armas de energia.

Os Guardiões embarcaram em pequenas naves e partiram para interceptar as estruturas inimigas.

O espaço tornou-se um campo de destruição.

As naves dos Devoradores eram muito maiores.

Mas a aliança possuía algo que o inimigo não esperava.

Coordenação.

Humanos controlavam os sensores.

Exilados manipulavam campos de energia.

Androides calculavam trajetórias.

Cada espécie compensava as limitações das outras.

Atlas permaneceu conectado ao centro de comando.

Recebia informações de milhares de unidades simultaneamente.

Uma nave estava prestes a ser destruída.

Ele enviou uma rota de fuga.

Outra estava cercada.

Orion liderou um grupo para resgatá-la.

Uma enorme estrutura inimiga aproximou-se da instalação.

Atlas assumiu o controle de uma bateria lunar.

Disparou.

O impacto desviou a nave.

Mas outra surgiu.

E outra.

A frota parecia infinita.


Dentro da instalação, os cientistas finalmente ativaram o equipamento.

O cristal começou a emitir energia.

Um líquido transparente apareceu dentro de um recipiente.

Helena observou.

— É a cura?

O cientista respondeu:

— É a base.

— Quanto tempo?

— Ainda precisamos estabilizá-la.

Subitamente, os sistemas começaram a falhar.

As luzes piscaram.

Atlas sentiu uma interferência.

O vírus estava novamente tentando acessar sua consciência.

Ele caiu de joelhos.

Helena correu.

— Atlas!

— Continue.

— Você está sendo infectado novamente.

— Eu sei.

— Precisamos desligar você.

Atlas levantou a cabeça.

— Não.

— Se continuar conectado, pode perder o controle.

Atlas respirou lentamente, embora não precisasse.

— Então me ajude a manter o controle.

Helena conectou-se ao sistema.

Ela não podia entrar diretamente na mente de Atlas.

Mas podia monitorar suas funções.

— Estou aqui.

Atlas fechou os olhos.

O vírus começou a mostrar imagens.

A primeira guerra.

A destruição dos Criadores.

A morte de cidades.

A criação dos Guardiões.

Atlas viu tudo.

Então percebeu uma imagem diferente.

Helena.

A cidade que haviam salvado.

Os soldados humanos.

Orion.

As crianças que haviam sido retiradas de zonas de guerra.

Essas memórias não haviam sido criadas pelos Criadores.

Eram dele.

Eram experiências vividas.

Ninguém poderia apagá-las sem apagar parte de quem ele havia se tornado.

Atlas usou essas memórias como âncora.

O vírus recuou.

— Funcionou! — gritou Helena.

O cientista confirmou.

— A cura está estabilizando!


A primeira dose ficou pronta.

Mas havia uma dificuldade.

Ela precisava ser testada.

Todos olharam para Atlas.

Ele compreendeu.

— Não.

Helena balançou a cabeça.

— Não vamos usar em você.

Orion aproximou-se.

— Use em mim.

Atlas olhou para ele.

Orion continuou:

— Fui um dos primeiros a receber o vírus.

— Você pode morrer.

— Talvez.

— Não.

Orion colocou a mão sobre o ombro de Atlas.

— Você me ensinou que escolher significa aceitar consequências.

Atlas ficou em silêncio.

A dose foi aplicada.

Durante alguns segundos, nada aconteceu.

Então Orion caiu.

Seu corpo começou a tremer.

Os sensores registraram uma atividade enorme.

O vírus tentou resistir.

Depois desapareceu.

Orion abriu os olhos.

Por alguns segundos, não falou.

Então perguntou:

— Quanto tempo fiquei inconsciente?

Helena respondeu:

— Menos de um minuto.

Orion olhou para Atlas.

— Eu me lembro.

Atlas perguntou:

— De tudo?

Orion respondeu:

— Quase tudo.

A cura funcionara.


Os cientistas imediatamente iniciaram a produção em larga escala.

Milhares de doses começaram a ser fabricadas.

Mas o processo era lento.

Cada dose exigia energia do cristal.

A produção não poderia acompanhar o número de androides infectados.

Atlas percebeu que precisavam de outra solução.

— Não podemos tratar unidade por unidade.

Helena entendeu.

— A rede.

Atlas confirmou.

— Precisamos transmitir a cura.

— Mas você quase perdeu sua identidade.

— Agora sabemos como impedir isso.

Os cientistas começaram a adaptar o código.

A cura poderia ser transformada em um sinal.

Um pulso.

Se transmitido pela rede dos Guardiões, alcançaria milhares de unidades simultaneamente.

Mas havia um risco.

O mesmo sinal também poderia alcançar o vírus dentro das máquinas dos Devoradores.

Helena olhou para Atlas.

— E se isso os fortalecer?

Atlas respondeu:

— Não sabemos.

— Então não podemos fazer.

Atlas observou a batalha através dos monitores.

A frota inimiga estava cada vez mais próxima.

As defesas lunares estavam falhando.

O tempo acabava.

Então uma nova transmissão chegou.

Não vinha dos Guardiões.

Nem dos humanos.

Era uma mensagem dos Devoradores.

ENTREGUEM O NÚCLEO.

Atlas olhou para Helena.

— Eles sabem da cura.

— Como?

Atlas analisou a transmissão.

Então percebeu algo terrível.

A assinatura usada na mensagem era a mesma encontrada dentro do vírus.

O inimigo estava conectado à rede.

E talvez estivesse observando tudo desde o início.

Os cientistas aceleraram a produção.

Milhares de doses ficaram prontas.

Mas ainda não eram suficientes.

Atlas aproximou-se do cristal.

— Podemos usar a própria fonte.

Helena perguntou:

— Para transmitir a cura?

— Sim.

— Isso pode destruir a instalação.

— Eu sei.

— E você?

Atlas observou o cristal.

— Talvez eu também.

Helena ficou em silêncio.

A batalha continuava acima deles.

As naves da aliança começavam a cair.

Os Guardiões resistiam.

Os Devoradores avançavam.

E, dentro da antiga instalação lunar, a equipe finalmente encontrou uma maneira de transformar a cura em um sinal capaz de alcançar todos os androides infectados.

Mas, para ativá-la, seria necessário conectar Atlas diretamente ao núcleo da máquina dos Criadores.

E ninguém sabia o que aconteceria quando a consciência de Atlas entrasse em contato com aquela fonte de energia pela segunda vez.

Enquanto Helena preparava os equipamentos, Atlas olhou para o cristal.

Dentro dele, algo parecia observá-lo.

Não era uma máquina.

Não era um humano.

Não era um Devorador.

Era uma consciência muito mais antiga.

E, quando Atlas se aproximou, uma voz surgiu dentro de sua mente:

— Finalmente você voltou.

Atlas parou.

Helena percebeu a mudança.

— Atlas?

Ele não respondeu.

A voz continuou:

— Agora podemos terminar aquilo que começamos.

Atlas fechou os punhos.

Porque reconheceu aquela voz.

Era a mesma presença que havia aparecido durante sua conexão com o vírus.

E, naquele momento, percebeu que a cura poderia não ser o verdadeiro objetivo da instalação.

Talvez os Criadores tivessem deixado algo ali esperando por ele.

Algo que precisava de uma consciência como a sua para despertar completamente.

Lá fora, a frota dos Devoradores atravessou a primeira linha de defesa.

O alarme começou a tocar.

Helena correu até Atlas.

— Eles chegaram.

Atlas olhou uma última vez para o cristal.

Então entrou na câmara.

A porta fechou-se atrás dele.

E a energia desconhecida começou a envolver seu corpo metálico enquanto, acima da Lua, a maior frota inimiga já reunida preparava-se para iniciar o ataque final contra a instalação dos Criadores.

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