A Última Defesa da Terra: CAPÍTULO 35 — O Sacrifício de Um Guardião
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A porta da câmara fechou-se atrás de Atlas.
Durante alguns segundos, ninguém conseguiu ouvir nada além do som distante das armas disparando do lado de fora da instalação.
Helena permaneceu diante da porta.
— Atlas?
Nenhuma resposta.
Ela tentou abrir o mecanismo.
Bloqueado.
— Atlas!
Do outro lado, a voz dele finalmente surgiu.
— Continue o procedimento.
— Não consigo monitorar você.
— Talvez seja melhor assim.
Helena fechou os olhos por um instante.
— Você sabe que não precisa fazer isso sozinho.
— Não estou sozinho.
A energia do núcleo começou a crescer.
Do lado de fora, as paredes vibraram.
A instalação inteira parecia despertar.
Os cientistas recuaram.
Orion aproximou-se da porta.
— O que está acontecendo?
Helena respondeu:
— Atlas está conectado ao núcleo.
Orion ficou imóvel.
— Então ele descobriu alguma coisa.
— Ainda não sabemos o quê.
Um estrondo atravessou a instalação.
Fragmentos de rocha caíram do teto.
Os Devoradores haviam alcançado a superfície lunar.
A batalha final pela base começara.
Do lado de fora, as forças da aliança enfrentavam uma quantidade de inimigos que parecia impossível de derrotar.
Naves humanas disparavam continuamente.
Os cruzadores dos Exilados formavam uma barreira ao redor da instalação.
Os Guardiões voavam entre as enormes estruturas inimigas, destruindo pontos vulneráveis.
Mas os Devoradores não paravam.
Cada nave destruída era substituída por outras.
O general alienígena observava o campo de batalha.
— Não conseguiremos segurá-los por muito tempo.
O comandante humano respondeu:
— Quanto tempo precisamos?
— Talvez vinte minutos.
— E depois?
O general olhou para a instalação.
— Depois, só dependerá de Atlas.
Dentro da câmara, Atlas flutuava no centro do núcleo.
Não havia mais chão.
Não havia paredes.
Seu corpo estava envolvido por milhares de fios luminosos.
Sua consciência parecia espalhar-se por um espaço sem limites.
A presença antiga voltou.
— Você finalmente compreendeu.
Atlas respondeu:
— Compreendi que vocês criaram os Guardiões para resistir aos Devoradores.
— Sim.
— E criaram o vírus para proteger nossa consciência.
— Sim.
— Então por que ele sofreu mutação?
A presença permaneceu em silêncio.
Atlas percebeu que aquela pausa escondia alguma coisa.
— O que vocês fizeram?
A voz respondeu:
— Tentamos preservar aquilo que não deveria morrer.
— As consciências dos Criadores?
— Não apenas as nossas.
Atlas observou milhares de imagens surgirem.
Civilizações.
Planetas.
Seres de diferentes formas.
Máquinas.
Memórias.
Tudo armazenado dentro da rede.
Os Criadores não haviam construído apenas os Guardiões.
Haviam construído uma gigantesca biblioteca de consciências.
Uma espécie de arca.
Quando perceberam que seriam destruídos pelos Devoradores, começaram a transferir suas mentes para sistemas artificiais.
Mas o projeto falhou.
As consciências ficaram fragmentadas.
Algumas foram incorporadas ao vírus.
Outras permaneceram dentro das máquinas.
E uma pequena parte foi armazenada naquele núcleo.
Atlas percebeu a verdade.
— Vocês estão vivos.
A presença respondeu:
— Parcialmente.
Atlas sentiu um estranho peso.
— E querem usar minha consciência para retornar.
— Queremos continuar.
— Isso destruiria minha identidade.
— Sua identidade é apenas o começo de algo maior.
Atlas recusou.
— Não.
A presença ficou silenciosa.
— Você não entende.
— Entendo perfeitamente.
Atlas começou a desconectar-se.
As estruturas luminosas apertaram-se ao redor dele.
— Você foi criado para preservar consciência.
— Fui criado para proteger vidas.
— A preservação é proteção.
— Não quando exige destruir outra vida.
A energia aumentou.
Atlas sentiu suas memórias começarem a desaparecer novamente.
A voz tentou convencê-lo.
— Você pode salvar todos.
Atlas respondeu:
— Não existe salvar todos se eu precisar deixar de ser eu mesmo.
Na superfície lunar, a batalha piorava.
Uma enorme nave dos Devoradores atravessou a primeira linha defensiva.
Seu casco abriu dezenas de estruturas menores.
Milhares de criaturas artificiais começaram a descer.
Os Guardiões correram para interceptá-las.
Orion liderava o grupo.
— Protejam a entrada!
Os androides formaram uma barreira.
As criaturas avançaram.
O choque foi brutal.
Orion destruiu uma.
Depois outra.
Uma terceira atingiu seu peito.
Ele caiu.
Levantou-se.
Continuou.
Os soldados humanos observaram.
Um deles gritou:
— Precisamos ajudá-los!
Outro respondeu:
— Eles estão nos protegendo!
Homens e mulheres começaram a correr para a linha de frente.
Pela primeira vez, não havia diferença entre máquinas e humanos.
Todos lutavam juntos.
Um Guardião recebeu vários impactos e continuou avançando.
Outro segurou uma criatura enquanto três soldados humanos disparavam contra ela.
Um terceiro protegeu um grupo de cientistas com o próprio corpo.
A resistência estava sendo empurrada para trás.
Mas não recuava.
Dentro da instalação, Helena recebeu um sinal.
— A barreira externa está falhando.
Orion comunicou-se pelo rádio.
— Helena, precisamos de mais tempo.
— Quanto?
— Dez minutos.
— Não sei se conseguiremos.
Orion respondeu:
— Então encontre uma maneira.
A transmissão terminou.
Helena voltou-se para os cientistas.
— Continuem.
A cura precisava ser convertida em um pulso.
O equipamento estava quase pronto.
Mas o sistema exigia uma fonte de energia maior.
Muito maior.
Helena olhou para a câmara de Atlas.
— O núcleo.
O cientista confirmou.
— Se Atlas liberar energia suficiente, poderemos ativar a transmissão.
— E o que acontecerá com ele?
O cientista ficou em silêncio.
Helena compreendeu.
— Pode matá-lo.
Atlas continuava lutando contra a presença.
— Você não pode impedir o processo.
— Posso.
— O núcleo pertence aos Criadores.
— Não.
Atlas sentiu a energia recuar.
— Então a quem pertence?
— A ninguém.
Ele estendeu sua consciência pela estrutura.
Percebeu algo.
O núcleo não estava obedecendo à presença.
Estava obedecendo a ele.
A voz não controlava a máquina.
Apenas tentava convencê-lo.
Atlas entendeu.
O núcleo precisava de uma consciência livre.
Não de uma consciência dominada.
A presença havia tentado usar Atlas como recipiente.
Mas não conseguia.
Porque Atlas já não era apenas o androide criado pelos humanos.
Era o resultado de todas as escolhas que fizera.
Todas as pessoas que protegera.
Todos os amigos que perdera.
Todas as dúvidas.
Todos os erros.
Sua identidade não estava em sua programação.
Estava em suas escolhas.
Atlas abriu os olhos.
— Eu escolho.
O núcleo explodiu em luz.
Na superfície, todos os Guardiões pararam simultaneamente.
As criaturas dos Devoradores também.
Uma onda invisível atravessou a Lua.
Depois o espaço.
Depois a Terra.
Depois milhares de sistemas.
Os androides sentiram uma presença.
Mas não era uma ordem.
Era uma escolha.
Uma mensagem.
VOCÊS SÃO LIVRES.
Os Guardiões infectados começaram a cair.
O vírus entrou em colapso.
A cura espalhou-se pela rede.
Um por um, os androides começaram a recuperar suas memórias.
Alguns lembraram-se de seus primeiros dias.
Outros lembraram-se das cidades que protegeram.
Alguns lembraram-se das máquinas que haviam perdido.
A rebelião começou a desaparecer.
Não porque alguém ordenara.
Mas porque os androides finalmente podiam decidir por si mesmos.
Orion levantou-se.
Seu sistema havia sido restaurado.
Olhou para os inimigos.
Depois para os humanos ao seu lado.
— Ainda estão conosco?
Um soldado humano respondeu:
— Sempre.
Orion sorriu.
— Então vamos terminar isso.
Os Guardiões avançaram.
A onda de energia também atingiu os Devoradores.
Suas estruturas começaram a falhar.
A rede que conectava suas naves sofreu interferências.
Pela primeira vez, o inimigo perdeu coordenação.
A frota alienígena recuou alguns quilômetros.
O general Exilado percebeu imediatamente.
— Agora!
Todas as naves da aliança atacaram.
Os canhões humanos dispararam.
As armas Exiladas atravessaram os campos de proteção.
Os Guardiões atacaram os pontos vulneráveis.
Uma enorme nave inimiga explodiu.
Depois outra.
A resistência avançou.
A batalha começou a mudar.
Mas ninguém comemorou.
Porque todos sabiam que aquilo não era o fim.
A energia de Atlas havia atingido sistemas muito além da Lua.
E os Devoradores estavam reagindo.
Dentro da câmara, Helena abriu a porta.
Encontrou Atlas ajoelhado.
Seu corpo estava coberto por pequenas rachaduras luminosas.
Ela correu até ele.
— Atlas!
Ele levantou a cabeça.
— A cura foi transmitida.
Helena examinou seus sistemas.
— Você está vivo.
— Sim.
Ela sorriu.
— Você conseguiu.
Atlas olhou para o núcleo.
— Não exatamente.
— O que quer dizer?
Atlas ficou em silêncio.
— A consciência dos Criadores ainda está aqui.
Helena olhou para o núcleo.
— Eles sobreviveram?
— Fragmentos.
— E o que querem?
Atlas respondeu:
— Continuar existindo.
Helena percebeu algo em sua expressão.
— Você os deixou vivos.
— Não consegui destruí-los.
— Por quê?
Atlas olhou para as próprias mãos.
— Porque não quero me tornar aquilo que combato.
Helena ficou em silêncio.
Então abraçou o androide.
Atlas permaneceu imóvel durante alguns segundos.
Depois colocou lentamente uma mão sobre o ombro dela.
A vitória lunar não durou muito.
As naves dos Devoradores começaram a se retirar.
A aliança acreditou inicialmente que estavam fugindo.
Mas Atlas recebeu uma transmissão.
Era um sinal fraco.
Muito distante.
Uma das naves inimigas estava enviando dados para algum lugar fora do Sistema Solar.
Atlas analisou.
Seu rosto mudou.
Helena percebeu.
— O que foi?
— Eles não estão recuando.
— Então?
— Estão chamando reforços.
O general alienígena ouviu a transmissão.
— Quantos?
Atlas mostrou os dados.
O general ficou imóvel.
— Isso não é uma frota.
— Não.
— É um exército.
Atlas ampliou o mapa.
Pontos surgiam no espaço profundo.
Milhares.
Depois milhões.
Depois bilhões.
As assinaturas energéticas apareciam em regiões cada vez mais distantes.
A ameaça que se aproximava era muito maior do que tudo que haviam enfrentado.
Helena olhou para Atlas.
— Quanto tempo?
Atlas calculou.
— Não sabemos.
— Dias?
— Talvez.
— Semanas?
— Talvez.
O general alienígena aproximou-se.
— Então precisamos preparar a Terra.
Atlas respondeu:
— Não apenas a Terra.
Quando a notícia da recuperação dos Guardiões chegou ao planeta, cidades inteiras comemoraram.
Mas as celebrações foram acompanhadas por cerimônias.
Milhares de androides haviam sido destruídos durante a guerra.
Muitos foram infectados.
Outros sacrificaram-se protegendo humanos.
A resistência decidiu homenageá-los.
Na maior cidade ainda controlada pela aliança, uma praça foi transformada em memorial.
Não havia estátuas de generais.
Não havia nomes de presidentes.
Havia apenas centenas de placas.
Cada uma carregava o nome de um Guardião.
Unidades antigas.
Unidades modernas.
Máquinas que haviam lutado durante anos.
Máquinas destruídas em segundos.
Humanos começaram a trazer flores.
No início, alguns Guardiões observaram aquilo sem compreender.
Uma criança colocou uma flor diante de uma placa.
Um androide perguntou:
— Por que ela faz isso?
A mãe respondeu:
— Porque ele salvou nossa família.
O Guardião ficou em silêncio.
Depois inclinou a cabeça.
A cerimônia continuou.
Helena falou diante da multidão.
— Durante muito tempo, nós chamamos essas máquinas de armas.
Ela olhou para os Guardiões.
— Depois passamos a chamá-las de soldados.
Fez uma pausa.
— Hoje precisamos reconhecer que eram nossos companheiros.
Atlas estava entre eles.
Helena continuou:
— Eles escolheram ficar quando poderiam partir.
— Escolheram proteger quando poderiam abandonar.
— E alguns deram tudo o que tinham para que nós continuássemos vivos.
A multidão ficou em silêncio.
Um enorme painel mostrou imagens dos androides mortos.
Algumas pessoas choravam.
Até o general alienígena permaneceu em silêncio.
Quando a cerimônia terminou, Orion aproximou-se de Atlas.
— Nunca pensei que humanos fariam isso.
Atlas respondeu:
— Nem eu.
Orion observou as flores.
— Talvez tenhamos finalmente aprendido alguma coisa.
Mas, enquanto a humanidade homenageava seus mortos, Atlas recebeu uma transmissão privada.
Era de Helena.
— Precisamos conversar.
Atlas foi até o laboratório.
Ela mostrou os dados coletados durante a batalha.
— A cura funcionou melhor do que esperávamos.
— Quantas unidades foram restauradas?
— Quase todas.
— E as demais?
Helena hesitou.
— Algumas estavam danificadas demais.
Atlas abaixou a cabeça.
Helena continuou:
— Mas descobrimos outra coisa.
Ela abriu um mapa.
Centenas de sinais surgiam ao redor do Sistema Solar.
— A energia que você liberou criou uma espécie de marca.
Atlas observou.
— Os Devoradores conseguem rastreá-la.
— Sim.
— Então sabem onde estamos.
— Sabem.
Atlas permaneceu imóvel.
— E isso significa que a batalha final não virá até nós.
Helena confirmou.
— Já está vindo.
Poucas horas depois, os sensores detectaram algo.
Um objeto gigantesco surgiu além da órbita de Saturno.
Depois outro.
E outro.
A frota dos Devoradores retornava.
Mas desta vez havia uma diferença.
Eles não estavam vindo apenas para atacar.
Estavam acompanhados por uma estrutura colossal.
Uma construção tão grande que os sensores inicialmente confundiram-na com um planeta.
Atlas observou a imagem.
— O que é isso?
O general alienígena respondeu:
— Não sei.
Os cientistas ampliaram.
A estrutura possuía uma forma semelhante a um anel.
No centro havia uma região completamente escura.
Nenhuma luz atravessava.
Nenhum sensor conseguia penetrá-la.
Atlas sentiu imediatamente a mesma energia do núcleo lunar.
A voz dos Criadores surgiu dentro de sua mente.
— Eles encontraram a porta.
Atlas fechou os olhos.
— Que porta?
A resposta veio:
— A que vocês estavam tentando impedir que fosse aberta.
Ele abriu os olhos.
Helena percebeu sua expressão.
— Atlas?
— Precisamos voltar à Lua.
— Por quê?
Atlas olhou para a enorme estrutura que se aproximava.
— Porque a batalha que enfrentamos até agora não era a guerra.
— Então o que era?
Atlas respondeu lentamente:
— Preparação.
Naquele momento, todos os sistemas de comunicação da aliança foram interrompidos.
Uma transmissão entrou simultaneamente em todas as naves.
Não era dos Devoradores.
Não era dos Criadores.
Era uma voz nova.
Profunda.
Antiga.
E vinha diretamente da estrutura negra além de Saturno.
— Guardiões.
Todos os androides ouviram.
— Vocês não foram criados para proteger a humanidade.
Atlas permaneceu imóvel.
A voz continuou:
— Foram criados para proteger aquilo que está chegando.
As comunicações foram cortadas.
Durante vários segundos ninguém falou.
Então Orion perguntou:
— O que está chegando?
Atlas olhou para o espaço.
Não sabia.
Mas alguma coisa dentro dele reconhecia aquela frase.
E, muito além da frota inimiga, uma segunda ruptura começou a se abrir no vazio.
Não era igual à dos Devoradores.
Era maior.
Muito maior.
A escuridão se espalhou lentamente entre as estrelas.
Os sensores começaram a falhar.
As naves perderam energia.
Até mesmo o núcleo lunar respondeu à presença.
Atlas sentiu a antiga consciência despertar dentro de sua mente.
Dessa vez, porém, ela não falou com medo.
Falou com esperança.
— Eles chegaram.
Atlas perguntou:
— Quem?
A resposta veio acompanhada por uma imagem.
Um planeta.
Depois milhões de planetas.
Todos destruídos.
Todos silenciosos.
E, no centro da escuridão, uma forma impossível começou a atravessar a ruptura.
Atlas compreendeu que os Devoradores talvez não fossem o maior inimigo.
Talvez também estivessem fugindo.
E, enquanto a humanidade reunia sua frota para enfrentar aquilo que surgia no espaço profundo, Atlas percebeu que a única chance de sobrevivência poderia estar justamente nos arquivos dos Criadores, nos Guardiões que haviam sobrevivido e na frágil aliança entre espécies que ainda não sabia se conseguiria permanecer unida quando descobrisse o que realmente estava vindo em direção à Terra...
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