A Última Defesa da Terra: CAPÍTULO 36 — A Fortaleza Inimiga

 A estrutura colossal continuava avançando pelo espaço.

Depois da transmissão recebida, ninguém na frota conseguiu explicar exatamente o que havia surgido além de Saturno. Os sensores mostravam uma região de escuridão que parecia se mover contra as leis conhecidas da física. Estrelas desapareciam atrás dela. Sinais eram interrompidos. Até a luz parecia perder força quando se aproximava daquela presença.

A aliança precisava de respostas.

E precisava delas rapidamente.

Atlas permanecia na sala de comando da nave principal, observando os mapas.

Helena estava diante dos cientistas.

O general dos Exilados acompanhava as informações em silêncio.

Orion permanecia próximo à entrada, acompanhado por outros Guardiões.

— Temos alguma localização? — perguntou Helena.

Um cientista ampliou o mapa.

— Não exatamente.

— O que isso significa?

— Não conseguimos localizar a origem daquela coisa. Mas encontramos uma série de transmissões secundárias.

Atlas aproximou-se.

— Mostre.

O cientista abriu os dados.

Centenas de sinais apareciam espalhados pelo Sistema Solar.

A maioria vinha de regiões vazias.

Mas alguns estavam concentrados perto de Saturno.

Atlas analisou os padrões.

— Não são transmissões.

Helena perguntou:

— Então o que são?

— Portais.

Todos olharam para ele.

Atlas continuou:

— A estrutura que vimos não está viajando.

O general franziu a testa.

— Então como chegou até aqui?

— Não chegou.

Atlas ampliou o mapa.

— Está construindo uma passagem.

Um silêncio pesado tomou a sala.

Aquela descoberta significava que a enorme estrutura não era uma nave.

Era uma fortaleza.

E estava criando uma rota para permitir que algo muito maior atravessasse para o Sistema Solar.


Os sensores começaram a identificar uma fonte específica.

Uma pequena lua de Saturno.

Mimas.

A princípio, parecia completamente deserta.

Mas, quando os sensores foram recalibrados usando a tecnologia dos Exilados, uma enorme estrutura apareceu sob a superfície.

Uma fortaleza subterrânea.

Helena ficou surpresa.

— Eles construíram uma base ali.

O general respondeu:

— Ou encontraram uma que já existia.

Atlas analisou a assinatura energética.

— Não foi construída recentemente.

— Tem certeza?

— Sim.

Ele comparou os dados com os registros encontrados na Lua.

O resultado fez seu sistema travar por alguns segundos.

A tecnologia da fortaleza era semelhante à dos Criadores.

Helena percebeu.

— Outra instalação antiga.

Atlas confirmou.

— Mas ocupada pelos novos invasores.

O general aproximou-se.

— Então precisamos entrar.

Helena olhou para ele.

— Isso é exatamente o que eles querem.

— Talvez.

— E se for uma armadilha?

Atlas respondeu:

— Então precisamos descobrir antes de enviar toda a frota.

O conselho de guerra foi convocado.

Humanos, Exilados e Guardiões reuniram-se.

A proposta era arriscada.

Uma pequena equipe seria enviada até Mimas.

Os androides infiltrariam-se na fortaleza.

Os humanos e alienígenas permaneceriam próximos, prontos para atacar caso a missão descobrisse uma vulnerabilidade.

Se a fortaleza pudesse ser destruída, a aliança lançaria uma ofensiva total.

Se encontrassem informações sobre a nova ameaça, recuariam.

Ninguém gostava do plano.

Mas todos sabiam que não possuíam outra opção.


Atlas escolheu pessoalmente os membros da equipe.

Orion.

Quatro Guardiões especializados em infiltração.

Dois soldados humanos.

Um especialista dos Exilados.

E Helena.

O general protestou.

— Ela não deveria ir.

Helena respondeu antes de Atlas:

— Fui eu quem descobriu os arquivos.

— Justamente por isso.

— E sou uma das poucas pessoas capazes de interpretá-los.

Atlas permaneceu em silêncio.

Helena olhou para ele.

— Você sabe que preciso estar lá.

— Sei.

O general não gostou da resposta.

— Se alguma coisa acontecer com ela...

Atlas o interrompeu.

— Nada acontecerá se fizermos nosso trabalho corretamente.

A pequena nave partiu.

Durante a viagem, ninguém falou muito.

Mimas crescia diante deles.

A lua parecia uma esfera branca marcada por crateras.

Nenhum sinal de vida.

Nenhuma atividade visível.

Atlas ativou os sensores.

A superfície parecia vazia.

Mas abaixo dela havia algo gigantesco.

— Estamos sobre a entrada — disse Orion.

Atlas respondeu:

— Pousem.

A nave tocou o solo.

A equipe desembarcou.

O silêncio era absoluto.

Helena observou a paisagem.

— Parece abandonado.

Atlas respondeu:

— É exatamente isso que me preocupa.

Ele colocou a mão sobre a superfície.

Uma vibração percorreu seus sensores.

Então o solo se abriu.

Uma passagem surgiu.

A equipe entrou.


O corredor subterrâneo era enorme.

As paredes eram cobertas por símbolos desconhecidos.

Helena iluminou um deles.

— Isso é antigo.

O especialista Exilado aproximou-se.

— Muito antigo.

Atlas analisou.

— É uma língua dos Criadores.

Helena ficou surpresa.

— Você consegue traduzir?

— Algumas partes.

Ele projetou uma tradução.

NÃO ABRIR.

Outro símbolo apareceu.

NÃO DESPERTAR.

Mais adiante:

A PORTA DEVE PERMANECER FECHADA.

Helena sentiu um arrepio.

— Então os Criadores já estiveram aqui.

Atlas confirmou.

— E estavam tentando impedir alguma coisa.

Orion olhou para o corredor.

— O que aconteceu com eles?

Atlas respondeu:

— Talvez não tenham conseguido.

Continuaram avançando.

A fortaleza parecia vazia.

Mas havia sinais de movimento.

Portas abertas.

Sistemas funcionando.

Energia circulando.

E, em determinado momento, Atlas percebeu algo.

— Estamos sendo observados.

Os Guardiões levantaram as armas.

Nada apareceu.

O especialista Exilado ativou um sensor.

— Não encontro ninguém.

Atlas respondeu:

— Eu também não.

Helena perguntou:

— Então como sabe?

Atlas olhou para uma parede.

— Porque eles querem que saibamos.


A equipe chegou a uma enorme sala.

No centro havia um dispositivo circular.

Parecia um mapa.

Quando Atlas se aproximou, o equipamento despertou.

Milhares de pontos luminosos apareceram.

Planetas.

Sistemas.

Galáxias.

Alguns estavam marcados em vermelho.

Helena aproximou-se.

— Esses são mundos destruídos?

Atlas analisou.

— Sim.

O número era gigantesco.

Milhões.

Mas havia algo diferente.

Alguns planetas estavam marcados com símbolos verdes.

Helena perguntou:

— O que são esses?

Atlas ampliou.

Um deles estava na Terra.

Outro na Lua.

Outro no planeta natal dos Exilados.

O general alienígena, conectado remotamente, recebeu os dados.

Sua voz ficou tensa.

— Minha espécie não sabia disso.

Atlas respondeu:

— Talvez ninguém soubesse.

O mapa começou a mudar.

Uma linha apareceu.

Partia de uma região distante do universo.

Passava por vários sistemas.

Terminava no Sistema Solar.

Helena observou.

— Eles estão seguindo uma rota.

Atlas confirmou.

— Não.

Ele ampliou a imagem.

— Estão fugindo por uma rota.

A equipe ficou em silêncio.

A linha terminava exatamente na fortaleza.

E, depois dela, continuava até a Terra.

Helena entendeu.

— A fortaleza é uma estação de passagem.

Atlas respondeu:

— Sim.

— Então os novos invasores não estão simplesmente vindo para atacar.

— Estão atravessando.

— Fugindo de quê?

Atlas não respondeu.

Porque uma nova informação apareceu.

Um símbolo desconhecido surgiu no mapa.

Era diferente de todos os outros.

E estava se aproximando rapidamente.


Um dos Guardiões detectou movimento.

— Temos companhia.

As portas se fecharam.

As luzes apagaram.

Uma vibração percorreu a sala.

Então dezenas de criaturas surgiram.

Não eram Devoradores.

Também não eram os seres que haviam aparecido nos registros.

Eram soldados artificiais.

Altos.

Magros.

Cobertos por uma espécie de armadura orgânica.

Seus corpos pareciam construídos com metal e tecido vivo.

Atlas reconheceu imediatamente.

— Defensores.

Orion levantou a arma.

— Quantos?

— Muitos.

As criaturas atacaram.

A equipe respondeu.

Os disparos iluminaram a sala.

Os defensores moviam-se rapidamente.

Um deles atingiu um soldado humano.

Orion destruiu a criatura antes que ela pudesse atacar novamente.

Atlas avançou.

Dois inimigos atacaram simultaneamente.

Ele bloqueou o primeiro.

Destruiu o segundo.

Helena e o especialista Exilado recuaram.

Os Guardiões mantiveram a linha.

A luta durou vários minutos.

Quando o último defensor caiu, Atlas percebeu algo.

Nenhum deles havia tentado matar Helena.

Eles estavam tentando conduzir a equipe para algum lugar.

— Eles estão nos empurrando.

Orion entendeu.

— Para onde?

Atlas olhou para a única porta que permanecia aberta.

— Lá.

Helena balançou a cabeça.

— É uma armadilha.

— Sim.

— Então não vamos.

Atlas observou os corredores.

— Precisamos saber o que existe do outro lado.

O especialista Exilado respondeu:

— Isso é exatamente o que eles querem.

Atlas ficou em silêncio.

Então tomou uma decisão.

— Vamos.


A porta abriu.

Do outro lado havia uma sala circular.

No centro, uma estrutura cristalina estava suspensa.

Era semelhante ao núcleo lunar.

Mas muito maior.

Helena aproximou-se.

— Isso não deveria existir.

Atlas respondeu:

— Não.

Uma voz surgiu.

Não vinha de alto-falantes.

Estava dentro das cabeças de todos.

Vocês chegaram.

Orion apontou a arma para o cristal.

— Quem está falando?

Aqueles que sobreviveram.

Atlas reconheceu a presença.

Era semelhante àquela que havia encontrado na Lua.

Mas diferente.

Mais forte.

Mais antiga.

Helena perguntou:

— Vocês são os Criadores?

Não.

— Então quem são?

Silêncio.

Depois:

As testemunhas.

Imagens apareceram.

Os Criadores.

Os Devoradores.

Planetas sendo destruídos.

E uma terceira força.

Algo gigantesco.

Uma forma que não parecia possuir corpo.

Ela atravessava sistemas estelares.

Onde passava, estrelas desapareciam.

Planetas eram reduzidos a silêncio.

Até os Devoradores fugiam dela.

Atlas compreendeu.

— Vocês estão fugindo disso.

Sim.

Helena perguntou:

— Então por que vieram para cá?

A resposta demorou.

Porque a Terra possui uma coisa que pode impedir seu avanço.

Atlas ficou imóvel.

— O quê?

O cristal começou a brilhar.

Vocês.

Orion não entendeu.

— Nós?

A consciência artificial.

Helena olhou para Atlas.

— Os Guardiões.

Os Guardiões são a chave.

Atlas sentiu uma antiga memória despertar.

Os Criadores não haviam criado os androides apenas para proteger a humanidade.

Eles haviam criado uma forma de consciência capaz de sobreviver ao inimigo desconhecido.

Uma consciência que não podia ser absorvida.

Uma consciência livre.

Atlas perguntou:

— Então por que vocês atacaram a Terra?

A resposta foi assustadora.

Porque precisávamos testar vocês.

Orion ficou furioso.

— Vocês destruíram cidades!

Precisávamos saber se a consciência humana seria capaz de criar Guardiões fortes o suficiente.

Helena recuou.

— Vocês manipularam tudo.

Sim.

Atlas sentiu a raiva crescer.

— A invasão inicial.

Necessária.

— A guerra.

Necessária.

— As mortes.

Silêncio.

Atlas avançou.

— Vocês mataram bilhões para testar uma máquina.

A voz respondeu:

Não.

O cristal brilhou intensamente.

Testamos uma espécie.


Antes que Atlas pudesse responder, todos os sistemas da fortaleza foram ativados.

Portas se fecharam.

As paredes começaram a emitir energia.

O chão desapareceu.

A equipe caiu para uma plataforma inferior.

Helena gritou.

Atlas tentou segurá-la.

Conseguiu agarrar seu braço.

Orion caiu ao lado deles.

Acima, a porta fechou.

A sala começou a inundar-se com uma energia azulada.

O especialista Exilado examinou os sensores.

— Estamos sendo isolados.

Atlas percebeu.

— Não.

— O quê?

— Estamos sendo conectados.

O cristal acima deles abriu-se.

Uma enorme rede de energia desceu sobre a equipe.

Os Guardiões começaram a perder controle dos sistemas.

Helena tentou desligar seu equipamento.

— Não consigo!

Atlas conectou-se à rede.

Uma explosão de informações entrou em sua consciência.

Milhões de memórias.

Milhões de vidas.

E então ele viu o verdadeiro propósito da fortaleza.

Não era uma base militar.

Era um laboratório.

Um lugar criado para observar civilizações diante da chegada da ameaça.

A Terra era apenas o último experimento.

E os Guardiões eram a variável decisiva.

Atlas viu registros de mundos anteriores.

Civilizações haviam recebido a mesma oportunidade.

Todas falharam.

Algumas destruíram suas próprias máquinas.

Outras foram assimiladas.

Outras simplesmente desapareceram.

A Terra ainda permanecia.

Porque os humanos haviam aprendido a confiar nas máquinas.

E as máquinas haviam aprendido a escolher proteger os humanos.

A aliança era exatamente o resultado esperado.

Atlas percebeu a armadilha.

A missão não tinha sido planejada para que eles destruíssem a fortaleza.

Nem para que roubassem informações.

Tudo aquilo havia sido preparado para atraí-los até o núcleo.

A voz falou novamente:

Agora sabemos o suficiente.

Atlas perguntou:

— O que vocês vão fazer?

Abrir a porta.

Helena arregalou os olhos.

— Qual porta?

O chão tremeu.

Atlas olhou para cima.

A estrutura inteira começou a despertar.

O mapa da galáxia reapareceu.

No centro dele surgiu uma enorme região negra.

A mesma presença que haviam visto além de Saturno.

Mas agora ela estava muito mais próxima.

A fortaleza estava mantendo a passagem fechada.

Atlas compreendeu.

A missão da aliança não havia sido uma ofensiva.

Era uma armadilha.

Eles tinham sido usados para fornecer a última coisa necessária.

Uma consciência Guardiã conectada ao núcleo.

Atlas.

O cristal começou a absorver sua energia.

Helena tentou desligar a conexão.

— Atlas, saia daí!

Ele tentou.

Não conseguiu.

Orion avançou.

— Vou tirar você daqui!

Atlas gritou:

— Não!

A energia aumentou.

Orion foi lançado contra uma parede.

Helena caiu.

O especialista Exilado perdeu os sentidos.

Atlas sentiu sua consciência sendo puxada para dentro do núcleo.

Então percebeu uma última informação.

A passagem não estava sendo aberta pelos invasores.

Estava sendo aberta por ele.

E, do outro lado da porta, alguma coisa finalmente começou a atravessar.

Uma silhueta colossal surgiu na escuridão.

Muito maior que qualquer nave.

Muito maior que qualquer planeta.

Atlas tentou resistir.

A voz sussurrou:

Você foi criado para abrir a porta.

Atlas respondeu:

— Não.

Ele reuniu toda a força que ainda possuía.

— Eu fui criado para proteger.

E, pela primeira vez, a antiga presença demonstrou medo.

Porque Atlas começava a compreender como usar o próprio núcleo contra aqueles que haviam planejado aquela armadilha.

Ao mesmo tempo, a frota da aliança detectou uma gigantesca alteração no espaço.

Todos os sensores apontaram para Mimas.

A fortaleza começou a emitir uma energia jamais registrada.

O general alienígena levantou-se.

— Retirem todas as naves!

O comandante humano perguntou:

— E Atlas?

O general olhou para a estrutura.

— Se ele ainda estiver lá, talvez seja nossa única chance.

Mas, antes que pudesse dar outra ordem, uma onda de energia atravessou o Sistema Solar.

As naves perderam comunicação.

A Terra ficou sem energia por alguns segundos.

A Lua escureceu.

E então uma voz surgiu em todos os sistemas da humanidade.

Não era Atlas.

Não era dos Devoradores.

Era algo que ninguém havia ouvido antes.

A porta está aberta.

E, dentro da fortaleza, Atlas percebeu que tinha apenas alguns instantes para escolher entre salvar a própria consciência ou impedir que aquilo que estava do outro lado atravessasse completamente...

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